Cão vadio uivava na cerca todas as noites – Mariana ficou boquiaberta ao saber o motivoAo abrir o portão, encontrou o velho António, que todos julgavam desaparecido, acenando-lhe da escuridão.

Lembro-me como se fosse ontem. Inês ouviu o uivo pela primeira vez num sábado, quando voltava do turno da noite. Um som longo, triste – arrepiou-lhe a espinha. Parou o carro junto de casa, escutou. O uivo vinha de algum lado do terreno.

Saiu do carro – e viu-o. Junto à vedação, onde crescia o velho limoeiro, estava um cão. Pequeno, acobreado, tão magro que as costelas se marcavam. Focinho virado ao céu, e uivava, uivava.

– Eh, tu! – gritou Inês. – Vai-te embora! Acordas a vizinhança toda!

O cão calou-se, baixou a cabeça. Olhou para ela – e naquele olhar havia qualquer coisa que fez Inês recuar sem querer.

– Anda, vai-te – disse Inês, cansada, com um gesto de mão. – Não tenho tempo para isto.

Deitou-se de madrugada, mas o uivo ainda lhe ecoava na cabeça.

– Ouviste o cão esta noite? – perguntou a sogra, Dona Maria, quando Inês entrou na cozinha. – Uivou a noite inteira, maldito! Até pensei que fosse o Tobias do vizinho, mas aqueles uivos anunciam desgraça.

– Não era o Tobias – respondeu Inês. – Era um cão vadio. Estava sentado junto à nossa vedação.

– Ora essa! – alarmou-se a sogra. – Temos de o pôr fora! É má sorte quando um cão estranho uiva à porta. Vou deitar sal no quintal, que o afaste.

Inês calou-se. Não acreditava nessas superstições. No entanto, a sua mãe, que Deus a tenha, dizia sempre: um cão não uiva à toa. Ou sente a morte, ou pressente a desgraça.

Ao anoitecer, o marido, João, chegou do trabalho furioso.

– Mais despedimentos – atirou a pasta para um canto. – Já é a terceira vez este ano! Daqui a pouco metade da fábrica vai para a rua.

– Talvez te safes – tentou acalmá-lo Inês. – És o melhor técnico que eles têm.

– Pois, o melhor – ironizou João. – Todos são os melhores. E os chefes que se lixam. Só querem papéis bonitos para encher o bolso deles.

Sentaram-se a jantar em silêncio, cada um perdido nos seus pensamentos. O pequeno Tiago, de seis anos, cabeceava sobre o prato – tinha corrido todo o dia no infantário. Dona Maria tricotava, de lábios apertados – sinal para não se falar.

De noite, o uivo voltou. Longo, lúgubre. Inês saltou da cama, foi à janela. O cão estava no mesmo sítio, junto ao limoeiro. João acordou, resmungou meio a dormir:

– Que raio de bicho! Tenho de o pôr na rua!

Saiu para o quintal em tronco nu e chinelos, aos berros, a agitar os braços. O cão afastou-se uns metros, sentou-se. João atirou-lhe uma pedra – falhou. Voltou para dentro, batendo com a porta que fez tinir os vidros.

– Amanhã ponho veneno – prometeu. – Já chega!

– João, não podes fazer isso – começou Inês.

– Posso, sim! – gritou ele. – Ainda hei-de aturar um cão a acordar a família toda?

Inês deitou-se, mas não conseguiu dormir. Ficou a olhar para o tecto. E uma ideia não a largava: e se a mãe tinha razão? E se aquele uivo era mesmo sinal de desgraça?

Pela manhã, foi até à vedação. O cão estava deitado debaixo do limoeiro, encolhido. Levantou a cabeça, olhou. Não fugia, não rosnava – apenas olhava.

– Que é que tu queres aqui? – perguntou Inês em voz baixa. – Tens dono? Casa?

O cão gemeu baixinho. Levantou-se, chegou-se à vedação. Começou a cavar com as patas. Inês inclinou-se para ver. Havia um buraco no chão – o cão tentava fazer uma passagem.

– Porque é que queres entrar? – murmurou Inês, confusa. – Que é que queres?

O cão parou de cavar, fitou-a.

– Pronto – suspirou Inês. – Espera aí.

Voltou com uma tigela de água e restos da sopa de ontem. Passou por baixo da vedação.

– Toma, come. Mas deixa de uivar, senão o João pega-te mesmo.

Passou-se uma semana. Todas as noites – uivo. João cada vez mais irritado, a sogra a carpir-se de maus agoiros. E Inês continuava a levar comida ao cão. Mas ele emagrecia a olhos vistos.

– Olha, Inês – disse a vizinha Rita, por cima do muro –, sabes de quem é aquele cão?

– Deve ser vadio.

– Vadio, qual vadio – riu-se Rita. – Ontem falei com a Dona Alice, a que mora duas casas abaixo. Ela diz que este cão era dos Pereiras. Lembras-te dos Pereiras?

Inês lembrou-se. Um casal idoso, sossegado, culto. Tinham-se mudado há muito. Venderam a casa a uma jovem família.

– E então?

– Então que eles tinham um filho. Chamava-se Rui, salvo erro. Morreu há um ano. Atropelado por um bêbado.

Inês sentiu um arrepio.

– E?

– Dizem que este cão era do filho. Depois do funeral, fugiu de casa. Andaram à procura dele um mês, nunca o encontraram. Agora, vê-lo, voltou. Mas a casa já não é deles. Estão outros lá. E ele uiva. Tem saudades do dono.

– Histórias da avó – desdenhou Inês, mas o coração apertou-se.

Ao jantar, contou a história. João bufou:

– Tretas. Os cães não se lembram de nada durante tanto tempo.

– Lembram-se – interveio de repente Dona Maria. – Lembram-se, sim. Na minha aldeia, uma vizinha tinha um cão que esperou o filho da guerra quatro anos. Todos os dias ia para a estrada. Quando ele morreu, uivou uma semana e depois morreu à porta de casa.

Fez-se silêncio. Tiago olhou assustado para a avó.

– Mãe, o nosso cão também vai morrer? – perguntou o menino.

– Não é nosso – resmungou João. – E chega de falar nisso!

De noite, Inês não aguentou. Quando o uivo recomeçou, vestiu o roupão e saiu. Chegou à vedação. O cão estava sentado, focinho ao alto. Uivava como se lhe arrancassem a alma.

– Que é que queres? – sussurrou Inês. – Que queres de nós?!

O cão calou-se. Virou a cabeça para a casa dos Pereiras. Ou melhor, para a casa que outrora fora deles. Gemeu, como se chamasse alguém.

– O teu dono já não está – disse Inês. – Percebes? Já não está. Há muito tempo.

Estendeu a mão, acariciou a cabeça do cão. Ele não se afastou. Fechou os olhos.

Ficaram assim. Uma mulher e um cão. Debaixo do céu estrelado, no silêncio da noite.

– Vem – disse Inês. – Vem para casa. Ele não volta. Mas podes ficar connosco. Queres?

O cão abriu os olhos. Olhou-a longamente, a estudá-la. Como se decidisse se podia confiar.

– Vem – repetiu Inês. – Prometo que não te faremos mal.

Levantou-se, voltou para dentro. O cão levantou-se atrás dela. Andava devagar, cansado. Inês olhou para trás – ele vinha.

Inês abriu o portão.

– Entra.

O cão parou à entrada. Depois deu um passo. Outro. Atravessou a soleira.

Naquela noite, não se ouviu uivo nenhum.

De manhã, João desceu à cozinha e ficou paralisado. No velho tapete junto ao fogão, dormia o cão acobreado. Inês cozia as papas.

– Trouxeste essa vira-lata para dentro de casa?! – explodiu o marido.

– Cala-te! – sib lou Inês. – Vais acordar o Tiago.

– Eu disse – nada de cães em casa!

– E eu digo – fica – respondeu Inês, calma. – Ponto final.

João olhou para a mulher de olhos arregalados. Ela nunca lhe tinha respondido assim. Nunca.

– Inês, tu…

– Já decidi, João. O cão fica. Se não gostas, a porta é ali.

Silêncio. O cão ergueu a cabeça, olhou para eles. Tranquilo, sem medo.

– Raios te partam – João fez um gesto de desistência. – Faz o que quiseres!

Bateu a porta e saiu para o trabalho. Dona Maria, que assistira a tudo do corredor, abanou a cabeça:

– Ai, Inês, quebraste o homem por causa de um cão.

– Não é um cão, mãe – respondeu Inês baixinho. – Não é um cão.

Chamaram-lhe Ruivo, pela cor do pelo. O Tiago foi o primeiro a fazer amizade. Descobriram que o cão sabia comandos, apanhava a bola, não ladrava à toa. Educado.

O Ruivo adaptou-se rapidamente. Dormia na entrada, comia pouco, pedia para sair. Um cão perfeito. Mas havia qualquer coisa nele. Como se esperasse por algo. Muitas vezes, à noite, levantava-se, ia à porta, farejava.

Duas semanas depois, aconteceu.

João chegou do trabalho mais negro que uma trovoada.

– Pronto – disse, sentando-se à mesa. – Despediram-me. A partir de amanhã, estou livre.

Inês gelou.

– Como assim?

– Assim mesmo! Redução de pessoal. Metade dos técnicos foi para a rua. Eu estou no lote.

– Mas tu és…

– O quê?! – explodiu João. – O melhor técnico? O especialista experiente? Eles que se lixam! Querem é putos a quem pagam migalhas!

Bateu com o punho na mesa. O Tiago encolheu-se, agarrou-se a Inês. O Ruivo, que dormia num canto, levantou a cabeça.

– O que vamos fazer? – sussurrou Inês. – Com o meu ordenado não chegamos.

– Exactamente! – João levantou-se, começou a andar de um lado para o outro. – Temos o crédito da casa, o carro a cair de podre, o miúdo para sustentar. E eu sem trabalho, sem futuro!

– Hás-de encontrar alguma coisa – tentou consolá-lo Inês, embora soubesse que na vila era difícil.

– Encontrar! Tenho quarenta e cinco anos, quem me quer?

Os dias seguintes foram um pesadelo. João bebia. Não muito, mas muitas vezes. Irritava-se por tudo. Brigava com a mãe, gritava com o Tiago. Inês ia para o trabalho como quem vai para a forca – voltava a casa e encontrara novo escândalo.

O Ruivo, entretanto, começou a ter comportamentos estranhos. Seguia João por toda a parte. Olhava-o sem parar. Quando o homem bebia, deitava-se a seus pés, gania baixinho.

– Tira-me esse bicho da frente! – rosnava João. – Não posso vê-lo!

Mas o Ruivo não desistia.

Numa quinta-feira, Inês atrasou-se no trabalho. Inventário, o patrão obrigou-a a ficar. Chegou a casa perto das onze. A casa escura, o quintal silencioso. Estranho – o João via sempre televisão até tarde.

Abriu a porta – e viu.

João estava estendido no chão da entrada, inconsciente. Ao lado, uma garrafa vazia. E sobre ele, o Ruivo – ladrava, arranhava com a pata, puxava-lhe a manga.

– João! – Inês atirou-se para junto do marido.

Apalpou-lhe o pulso – fraco, mas existia. Respiração superficial. Cheirava a álcool de tal modo que custava a respirar.

– Mãe! – gritou Inês. – Mãe, chama o 112!

Dona Maria apareceu, deu um grito.

– Meu Deus, o que lhe aconteceu?!

– Não sei! Chama a ambulância, depressa!

O Ruivo não se afastava de João. Gania, lambia-lhe o rosto. Inês percebeu de repente – se não fosse o cão, ela podia ter encontrado o marido demasiado tarde. Intoxicação alcoólica, disseram depois os médicos. Mais um pouco e não o salvavam.

João passou três dias no hospital. Voltou a casa mais magro, mais velho.

– Desculpa – disse a Inês, quando ficaram a sós. – Não sei o que me deu.

– Cala-te – pôs-lhe ela a mão no ombro. – O importante é que está tudo bem.

– Foi o cão que me salvou, não foi? – João olhou para o Ruivo, deitado junto à porta. – Lembro-me vagamente – ele ladrava, não me deixava adormecer. Tentei afastá-lo, mas ele arranhava, uivava.

Inês assentiu, sem conseguir falar.

– É estranho – continuou João. – Como se ele soubesse. Como se não me deixasse apagar.

– Talvez soubesse mesmo.

João ficou em silêncio, depois chamou:

– Ruivo, anda cá.

O cão aproximou-se devagar. João estendeu a mão, acariciou-lhe a cabeça.

O Ruivo lambeu-lhe a mão. E nos olhos do cão, alguma coisa mudou.

Passaram-se seis meses.

João arranjou trabalho – não tão bom como antes, mas estável. Deixou de beber. Tornou-se mais calmo com a família. O Ruivo passou a ser membro de pleno direito – a Dona Maria dava-lhe petiscos, e até o João o levava a passear à noite.

Inês estava à janela, a ver o marido e o cão regressarem do passeio. João contava qualquer coisa ao Ruivo, que o escutava atento.

– Mãe, de onde é que o Ruivo veio? – perguntou o Tiago um dia.

– Não sei, filho – respondeu Inês, sincera. – Apareceu. Quando estávamos mal, apareceu.

– E ajudou-nos?

– Ajudou.

– Deve ser um feiticeiro bom – decidiu o menino. – Disfarçado de cão.

Inês sorriu. Talvez o Tiago tivesse razão. Quem sabe.

Naquela noite, sonhou. Um rapaz novo estava à beira de uma estrada, a acariciar um cão acobreado.

O cão gania, esfregava-se nas pernas do dono.

– Vai – disse o rapaz. – Não te preocupes comigo.

E dissipou-se no nevoeiro da manhã.

Inês acordou em lágrimas. Levantou-se, foi até à entrada. O Ruivo dormia no seu tapete. Respirando calmo, tranquilo.

O cão abriu um olho, olhou para ela. E tornou a adormecer.

De manhã, enquanto todos tomavam o pequeno-almoço, o Tiago exclamou:

– Mãe, o Ruivo está a sorrir! Olha!

E era verdade. O focinho do cão parecia satisfeito. Como se tivesse cumprido o seu destino.

Inês aproximou-se, ajoelhou-se, abraçou-o. O cão pôs-lhe a cabeça no colo.

– Nós amamos-te – segredou Inês.

O Ruivo suspirou baixinho. E fechou os olhos, confiante, aconchegado.

Algures muito longe, para além deste mundo, um rapaz novo estava à beira de um rio de luz e sorria. O seu amigo encontrara um novo lar. E um novo amor. E, por isso, tudo estava certo. Tudo como devia ser.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

twelve + 19 =

Cão vadio uivava na cerca todas as noites – Mariana ficou boquiaberta ao saber o motivoAo abrir o portão, encontrou o velho António, que todos julgavam desaparecido, acenando-lhe da escuridão.
V autobuse žena s dvoma deťmi vyvolala hádku a žiadala, aby jej mladý chlapec uvoľnil svoje miesto, no zrazu urobil niečo, z čoho všetci cestujúci onemeli