O marido fez de conta que nada se passava. Eu fiz de conta que ele não era meu marido.

— Amanhã os meus pedreiros começam a mudar os canos, vão deixar tudo em cacos até ao betão. Por isso vou ficar aqui convosco. Uns dez dias, no máximo um mês — declarou Inês, a entrar na minha entrada a rolar uma mala do tamanho de uma pequena betoneira. — O quarto de hóspedes está livre, não está?

O meu marido, Sérgio, estava um pouco atrás da irmã, a estudar com afinco o padrão do papel de parede. Tinha um ar de quem é uma traça muito espiritual que, por acaso, entrou num armário e agora se faz de cabide com toda a força. Já me tinham posto perante o facto consumado, a minha rotina foi varrida por uma escavadora, e o meu marido nem sequer fingiu que tínhamos conversado sobre o assunto.

— Sérgio? — levantei uma sobrancelha a olhar para ele.

— Natália, isto é um caso de força maior — murmurou ele, a desviar o olhar. — É família, afinal. Não a vou pôr na rua.

Inês já estava a tirar as botas, a atirar com confiança os meus sapatos para um canto.

Dizem que a minha casa é o meu castelo. Só que, no casamento, descobre-se muitas vezes um paradoxo espantoso: enquanto estás nas muralhas com azeite a ferver a defender a família, o teu marido, lá em baixo, abre o portão às escondidas e vende bilhetes aos parentes para uma excursão pelo teu território.

Não fiz cena na entrada. Afinal, canos rebentados são mesmo uma chatice. Mas logo ao segundo dia, a chatice começou a tomar a forma de uma ocupação doméstica descarada.

Inês ocupou a casa de banho como se se preparasse para um cerco: os bordos do lavatório ficaram cobertos por uma bateria de frascos que mais pareciam barricadas da Revolução Francesa. O meu querido soro facial começou a desaparecer a uma velocidade assustadora.

Ao terceiro dia, cheguei do trabalho e encontrei na cozinha uma sucursal de uma república de estudantes. Inês estava sentada à mesa com duas amigas. A mesa parecia Pompeia depois da erupção: migalhas por todo o lado, pratos sujos, manchas de molho. O meu queijo curado, comprado para uma ocasião especial, estava impiedosamente fatiado em pedaços tortos.

— Olá, Natália! — despachou a minha cunhada. — Olha, deixámos a loiça no lava-loiça, podes pôr na máquina, que estamos com pressa.

Ela saiu a voar. Olhei para a montanha de plástico e cerâmica gordurosa. Não me zanguei. Apenas juntei toda a loiça suja numa bacia de plástico e coloquei-a com cuidado mesmo ao centro da cama arrumada no quarto de hóspedes.

À noite, quando ouvi o grito indignado da Inês que tinha voltado, o Sérgio veio ter comigo de olhos arregalados:

— Natália, para que é essa brusquidão? Ela é convidada! Tem paciência, os canos vão ficar prontos depressa.

Calei-me. Não estava nos meus planos justificar-me por não querer ser empregada de graça.

Ao quinto dia, a minha sogra ligou. Dona Teresa é uma mulher direita como um carril, e com um feitio igualmente pesado. Mas tem uma grande vantagem: não suporta mentiras nem aproveitadores.

— Natália, olá. A minha inquilina já se instalou aí em cima da tua cabeça? — começou a sogra, sem preâmbulos.

— Estamos a aguentar a barricada, Dona Teresa. São os canos, estas coisas.

Do outro lado fez-se um silêncio pesado e sombrio.

— Que canos, Natália? Ontem a Inês deixou escapar quando se estava a gabar da renda. Alugou o apartamento dela por um mês a uns trabalhadores da construção. Decidiu ganhar um dinheirito extra e veio viver à pala para vossa casa.

Sentei-me devagar.

— E o Sérgio? — perguntei apenas.

— O Sérgio sabia — cortou Dona Teresa, e a voz dela endureceu. — E depois o Sérgio ligou-me a pedir para não me meter. Disse mesmo: «A Natália resmunga e habitua-se, ela cozinha o jantar para toda a gente todos os dias, é mais um prato de sopa ou menos um». Pediu-me para me calar para não levantares um sarilho. Não os sirvas, Natália. Foi ele que te fez sentir uma estranha na tua própria casa. Que percebam que uma mulher não é um apêndice doméstico do fogão.

Quando a chamada terminou, não tinha lágrimas nem vontade de partir pratos. Dentro de mim formou-se um vazio cristalino, frio. O meu marido fingiu que não via como me estavam a usar. Pois bem. Vou fingir que não tenho marido.

Depois do trabalho, passei no supermercado. Comprei exatamente um bife de salmão. Um abacate. Uma porção de salada.

Em casa, preparei o jantar calmamente, lavei uma frigideira, um garfo, e sentei-me à mesa. Pouco depois, a porta da entrada bateu. O Sérgio entrou na cozinha, seguido pela Inês.

— Hum, que cheiro! — disse o meu marido, a esfregar as mãos. — E o que é que há para nós jantar?

Limpei os lábios com um guardanapo devagar.

— Nem ideia, Sérgio. O que tu compraste e cozinhaste para a tua irmã, isso é o que vocês vão comer.

O Sérgio parou. A Inês bufou indignada:

— Como assim? Não cozinhaste para nós? Isto é muito pouco hospitaleiro!

Virei-me para a minha cunhada.

— Convidados, Inês, são os anfitriões que convidam. Pessoas que se instalam à mentira na casa dos outros para alugar o próprio apartamento e comer de borla à conta alheia têm outro nome.

Inês empalideceu e começou a resfolgar ruidosamente; o Sérgio ficou vermelho até às orelhas.

— Natália… o que é que estás a começar? — tentou ele entrar no modo avestruz habitual.

— Estou a acabar — respondi com calma. — Decidiste que não tens mulher com quem consultar antes de transformares a casa num albergue de caridade. Muito bem. Respeito a tua escolha. Portanto, agora tens uma irmã que tu próprio alimentas, a quem tu próprio lavas a roupa e a quem tu próprio compras papel higiénico. O meu dinheiro deixa de ser gasto convosco.

A generosidade à custa dos outros é sempre bonita até a conta chegar às tuas mãos. Durante toda a noite, observei com um sorriso leve o meu marido, a resmungar, a lutar no fogão com um frango congelado. Parecia a batalha de São Jorge com um dragão escorregadio de gelo, e o dragão estava claramente a ganhar.

No dia seguinte, Inês queixou-se à mãe. O Sérgio, sem aguentar a vida doméstica sozinho, também tentou chamar Dona Teresa como árbitro. Ligou-lhe em alta voz à minha frente, à espera de apoio.

— Mãe, diz-lhe alguma coisa! Isto não é normal, vivemos na mesma casa e ela esconde-nos a comida! — lamentava-se o menino de quarenta e sete anos.

A voz da sogra ribombou do altifalante, fazendo tremer os copos no aparador:

— Filho! Prometeste conforto à tua irmã com as mãos dos outros. Aqui estão as tuas mãos. Anda e cria. A Natália não é tua cozinheira nem tua criada. E tu, Inês, ou pagas ao teu irmão à tarifa de um hotel, ou sais.

O esquema lucrativo da Inês desmoronou-se com um estrépito ensurdecedor. Comprar comida própria e tratar de si mesma era demasiado caro e trabalhoso. Não podia expulsar os seus inquilinos por contrato, por isso teve de alugar um estúdio por diárias. No fim, quase todo o lucro da renda do seu próprio apartamento ia para a habitação e comida alheias. O esquema não só se fechou: devorou-se a si mesmo.

Na manhã seguinte, a chiar as rodinhas da mala-betoneira, a minha cunhada saiu do nosso apartamento.

Quando a porta se fechou atrás dela, o Sérgio suspirou de alívio. Veio ter comigo, pôs a mão no meu ombro com descontração e sorriu:

— Pronto, graças a Deus, foi-se embora. Paz? O que é que temos para jantar hoje?

Com dois dedos, tirei a mão dele do meu ombro.

— Para jantar tens o que tu próprio cozinhares — disse num tom plano, enquanto tirava do saco uma folha que já tinha preparado e a colocava à sua frente. — Aqui estão os produtos que vocês usaram, o custo do soro estragado e a tua parte das despesas domésticas extra. Não vou calcular cada litro de água. Não me interessa o cêntimo. Interessa-me que prometeste o meu trabalho e o meu dinheiro sem o meu consentimento.

O Sérgio recuou, a cara a esticar-se.

— Natália… estás a falar a sério? Ela foi-se embora! Somos família!

— Família, Sérgio, é quando se protegem um ao outro, não quando se vende o conforto da mulher para parecer um bom irmão — martelei cada palavra. — Até que me transfiras este valor do teu cartão, e até que proves com atos que sabes ser um parceiro, vivemos como vizinhos. Orçamento separado. Prateleiras no frigorífico também.

— Estás a gozar! — explodiu ele, a perceber que não havia volta ao comodismo irresponsável. — Isto é um absurdo! Por uma ninharia qualquer!

Olhei-o nos olhos. Calma, sem raiva, sem mágoa. Apenas com a fria perceção das novas regras.

— Fingiste que não se passava nada quando me tentaram usar. Eu simplesmente deixei de ver em ti um marido. Habitua-te. Vizinhos não fazem cenas, Sérgio. Vizinhos passam apenas a conta.

Virei-me e fui para o meu quarto, deixando-o no meio da cozinha. Ele olhava para a folha com os números, e pelos ombros caídos via-se que, finalmente, tinha percebido.

A transferência chegou nessa mesma noite. Mas o Sérgio não se tornou automaticamente meu marido por causa disso. Nas semanas seguintes, dormiu no quarto de hóspedes, comprou comida, cozinhou e limpou o que sujava. E antes de convidar alguém, mesmo que para cinco minutos, pedia-me autorização. Pela primeira vez, não por formalidade, mas porque finalmente percebeu: o consentimento da mulher não é uma assinatura decorativa por baixo de uma decisão já tomada.

O papel de marido pode perder-se não só por causa de uma traição. Às vezes, basta simplesmente calar-se.

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O marido fez de conta que nada se passava. Eu fiz de conta que ele não era meu marido.
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