Ao aproximarem-se os cavaleiros, a cadela ergueu a cabeça, olhando para eles com uns olhos tão cheios de dor que o coração da Inês deu um salto e os olhos dela encheram-se de lágrimas…
Inês colocou o cabresto na cabeça da égua e guiou-a para fora da boxe. Depois de apertar o nó da guia no passadiço da cavalariça, a rapariga admirou a égua.
De pelagem preta como carvão, com meias brancas perfeitas nas quatro patas elegantes, a Sombra era o sonho de qualquer ginete.
Pegando na escova, começou a limpar o animal, sem se esquecer de a elogiar. A Sombra mudava o peso de uma pata para a outra, inquieta, erguia a cabeça, a escutar.
Inês acariciou-lhe o pescoço com carinho, sem perceber o que se passava:
— O que foi, Sombra? O que te preocupa?
— Estás a falar com a égua? — perguntou o tratador que se aproximou.
— Tio António, ela hoje está mesmo estranha — Inês continuava a acariciar o pescoço lustroso da égua. — Chegou há um mês e nunca se portou assim…
— Deve estar inquieta por algum motivo — observou o homem mais velho, lançando um olhar experiente à égua. — É linda de se ver!
— E tem um feitio excelente — confirmou Inês. — E é muito bem domada. Ainda não sei como a antiga dona se desfez de um animal assim.
— Então há algum defeito escondido — disse António, pensativo.
— Ela não tem defeito nenhum! — defendeu Inês, imediatamente.
A Sombra abanou a cabeça, como a concordar com a dona.
— Olha, ofendeu-se — sorriu António, afastando-se para as suas tarefas.
Depois de arrear a Sombra, Inês levou-a para fora da cavalariça. A égua escutava com atenção os sons à volta, olhando desconfiada para a estrada que ladeava o bosque.
— É para lá que vamos hoje — disse Inês, reparando no olhar do animal. — No picadeiro portas-te bem, está na hora de conheceres a nossa natureza.
Inês montou com agilidade e, ajustando as rédeas, dirigiu a égua para o bosque…
Naquela manhã de junho ainda não fazia o calor abafado do verão, e era agradável passear a cavalo no fresquinho. A Sombra seguia obedientemente para onde a gineta a guiava. De vez em quando, parava e escutava com atenção os sons da mata.
Pondo a égua a trote, Inês guiou-a pelo trilho onde costumava andar com o Gradomiro.
A rapariga lembrou-se de como, dois meses antes, o seu cavalo tinha recebido um diagnóstico desanimador, e ela tivera de se separar do amigo fiel. Mandaram-no para uma quinta no campo, onde o ar era mais puro e os ataques de tosse eram menos frequentes.
Para as competições, precisava de um cavalo, e ela e a treinadora começaram a procurar uma opção adequada. A busca terminou no dia em que Inês viu a Sombra num dos clubes da capital do Algarve e, depois de a montar, percebeu que era a tal.
A égua era muito bem domada e tinha um temperamento dócil. O clube hípico disponibilizou fundos, e a Sombra mudou de casa.
Agora, ao recordar o momento da compra, Inês lembrou-se de como a antiga dona se comportara de forma estranha. Estava com pressa para fechar o negócio, como se quisesse desfazer-se da Sombra o mais depressa possível.
O que teria acontecido? Porque é que a dona decidira vender um cavalo tão fantástico?
A Sombra parou de repente. Inês mal se segurou na sela, tão distraída estava com os seus pensamentos. A égua imobilizou-se, e por mais que a gineta a esporasse, ela não se mexia.
— Porque é que não queres ir em frente?
A Sombra bufou baixinho, continuando parada. Virou ligeiramente a cabeça e olhou para a direita.
Inês também olhou para lá, mas só viu erva e árvores. O que poderia chamar a atenção do animal?
— Queres ir para esse lado? — Inês afrouxou as rédeas, dando à Sombra liberdade para escolher o caminho. — Faz como quiseres…
A Sombra saiu do trilho e seguiu a passo para a direção de onde vinha um guincho quase impercetível, que Inês acabou por ouvir também.
A égua parou junto a uma oliveira. No chão estava uma caixa, segura por cima com ramos grossos. Da caixa ouvia-se um guincho.
Inês saltou apressadamente do cavalo. Tirou os ramos, abriu a caixa. Lá dentro estavam três gatinhos, mal com os olhos abertos. Choravam de maneira lastimosa, chamando pela mãe, de quem tinham sido separados daquela forma cruel.
Inês sentiu uma onda de indignação:
— Como é que se pode ser tão cruel?! — ergueu a caixa e aproximou-se da égua. — Sombra, vamos para casa depressa!
*****
— Incrível! — exclamou a Dona Leonor, treinadora da Inês.
— A Sombra levou-me mesmo até à caixa — concluiu Inês o seu relato.
Levara os gatinhos a correr para o clube hípico, ao veterinário local. Os pequenos estavam saudáveis e dois já tinham donos à vista. O terceiro, Inês decidiu ficar com ele.
Um gatinho preto com patas brancas encantou-a pela semelhança com a Sombra. Assim que crescessem, cada um iria para sua casa.
— A Sombra é um cavalo nobre! — disse a Dona Leonor, cheia de admiração. — As pessoas passam ao lado, mas o cavalo não.
Entretanto, Inês e a Sombra dedicaram-se de cabeça aos treinos para a próxima competição. O clube esperava grandes resultados da dupla.
A preparação para as provas ocupava muito tempo, e treinavam sempre no picadeiro. Em julho, participaram com sucesso numa competição local, ficando em segundo lugar no prémio médio.
Em agosto, foram às provas regionais no Algarve vizinho, e voltaram com a vitória. À frente esperava-os uma estreia na capital da região, para a qual começaram uma preparação minuciosa.
— Inês, espero-te no picadeiro daqui a quarenta minutos — disse a Dona Leonor, espreitando a cavalariça.
A Sombra estava no passadiço, a mudar o peso de uma pata para a outra, nervosa. Tremia toda, e os seus relinchos altos ecoavam por todo o lado.
— Calma! Calma! — Inês tentava acalmar a égua.
— O que se passa com ela? — perguntou a treinadora, preocupada, nunca tendo visto a Sombra naquele estado.
— Exatamente assim se comportou no dia em que encontrámos os gatinhos no bosque — respondeu a rapariga.
— Vai montá-la para fora do clube, pode ser que tenha acontecido alguma coisa — disse a Dona Leonor, olhando em volta. — Leva o António contigo.
Vinte minutos depois, dois cavaleiros saíram do recinto do clube hípico. Inês deixou que a Sombra fosse o navegador daquela viagem.
Passaram por uma fila de casas no subúrbio da cidade e, saindo para a estrada, dirigiram-se ao bosque.
De repente, a Sombra virou-se bruscamente e disparou ao longo da estrada. Carros passavam na autoestrada, alguns buzinavam, com medo que os cavaleiros saíssem para a via.
— Que mania, seguir o capricho da égua! — resmungou o António, sem perceber o que ou quem procuravam.
— Mais vale ver o que tanto incomoda a Sombra do que ficar a arrepender-nos depois… — Inês não acabou a frase.
No acostamento da estrada estava uma pastor-alemão atropelada. Ao aproximarem-se os cavaleiros, a cadela ergueu a cabeça, olhando para eles com uns olhos tão cheios de dor que o coração da Inês deu um salto e os olhos dela encheram-se de lágrimas.
Encontraram a razão da inquietação da Sombra…
Inês saltou da Sombra, ainda a elogiá-la. Acabavam de participar nas provas regionais de dressage, no prémio médio, e a rapariga estava satisfeita com o resultado.
— Excelente atuação! — a Dona Leonor correu até elas.
— A Sombra sente a música de forma maravilhosa! — disse Inês, entusiasmada, enquanto arrumava os estribos. — É o melhor cavalo do universo!
— É um cavalo com um grande defeito! — ouviu-se uma voz feminina aguda atrás da rapariga.
Inês virou-se. Numa égua baia estava uma mulher de casaca, pronta para a sua prova. O rosto pareceu-lhe vagamente familiar…
— Porque é que diz isso? — respondeu Inês, num tom nada amigável. — Não conhece a Sombra de todo! É um cavalo nobre…
— Com defeito! — interrompeu a mulher. — Conheço muito bem esta égua!
— A antiga dona… — murmurou a Dona Leonor, reconhecendo a antiga proprietária da Sombra.
— Como é que pode falar assim dela?! — Inês não concordava de todo.
— Durante o ano em que tive este cavalo, ela trouxe-me vários cães e gatos vadios — disse a mulher, quase a cuspir as palavras. — Os dois donos anteriores desfizeram-se dela exatamente por isso, como se veio a saber…
— Vocês todos não conseguiram perceber o quão nobre este cavalo é! — retorquiu a Dona Leonor. — Isso não é um defeito, é nobreza!
Uma pastor-alemão aproximou-se de Inês, a abanar a cauda de forma amigável, e olhou para a dona com olhos leais.
O Tareco era aquele cão a quem a Sombra levara ajuda no ano anterior. As buscas pelo dono da cadela não deram resultado, e Inês decidiu ficar com ela.
Em casa, esperava-os o gatinho preto de patas brancas, já crescido, a quem Inês chamara Cosmos.
O António tornara-se o orgulhoso dono de um cachorro que Inês e a Sombra tinham encontrado no outono passado.
A Dona Leonor tinha uma gata tricolor, trazida das últimas competições.
E mais três cães e quatro gatos, salvos pela Sombra, para quem tinham encontrado donos. E a tudo isto chamam «defeito»?
— Talvez o defeito seja seu… — disse Inês, lançando um olhar frio à mulher, e levou a Sombra para longe da antiga dona.
Naquele dia, Inês e a Sombra ganharam o primeiro lugar. Ao voltar para casa, depois da competição, a Dona Leonor e Inês ouviram a égua a bater o casco no chão do atrelado, claramente a querer chamar a atenção.
Pararam o carro, abriram a porta do atrelado apressadamente. A Sombra respondeu com um relincho alto. Alguém precisava de ajuda urgente…—O que foi, Sombra? — perguntou Inês, saltando para o chão.
A égua apontava o focinho para um descampado coberto de silvas, do outro lado da estrada. Orelhas em riste, bufava impaciente, cavando o solo com o casco dianteiro.
Inês e a Dona Leonor trocaram um olhar carregado de significado. Já sabiam o que vinha a seguir. Atravessaram a berma, afastaram os ramos espinhosos com cuidado — e lá estava: uma ninhada de cachorros, encolhidos dentro de um saco rasgado, a tremer, ainda cegos.
— A tua Sombra… — a treinadora engoliu em seco, a voz embargada.
Inês ajoelhou-se, pegou nos pequenos seres um a um, envolvendo-os no seu casaco. A cadela Tareco, que os seguira, lambia-lhes as patas, como se quisesse dizer que estava tudo bem.
— Chama a isto defeito — murmurou Inês, erguendo os olhos para a égua que, do outro lado da grade, os observava com um relincho suave. — Nós chamamos-lhe… um coração que não se cala.
A luz doirada do entardecer banhou o trio improvável: a rapariga, a cadela e a égua. E, naquele momento, Inês soube que nenhum troféu valeria tanto como cada vida que a Sombra os levava a salvar.







