Encontram o Afonso morto de manhã; o cão uiva desde a noite anterior. Noémia ouve o uivo através de duas cercas, mas não sai, porque o Trovão uiva muitas vezes e ela deixou de se incomodar. O uivo é grave, arrastado, sem paragens, e pela meia-noite já faz parte da noite, como o vento ou a água a correr nos canos.
Um guarda da GNR chega perto da hora do almoço, sela a casa e vai-se embora. Levanta os papéis em cima do capô, fuma e olha para o cão, mas não se aproxima. Diz à Noémia, por cima da cerca, que o corpo foi para a sede do concelho e que é preciso encontrar familiares. Depois bate com a porta, enfia pelo caminho de terra e deixa dois sulcos fundos na lama. O cão fica onde está, preso pela corrente, com o focinho virado ao céu, e o som sai-lhe firme e grave, como de um cano que deixaram aberto. Não é um ladrar, não é um ganir. É um uivo, daqueles que pesam nas costelas se se ouvir durante muito tempo.
Noémia está à sua cancela e olha para o quintal do Afonso do outro lado da estrada. A lama da chuva da noite brilha nos trilhos, e a terra cheira a húmus, pesada e húmida como canteiro fresco.
A cerca está torta, três tábuas caídas nas urtigas; a cancela fecha-se com arame, e o arame está enrolado com cuidado, a quatro voltas. O velho não arranjava a cerca, mas apertava a cancela todas as noites. Noémia sabe, porque vê da janela da cozinha quando ele sai no lusco-fusco e enrola o arame com os dedos secos. Atravessa a estrada, desenrola o arame e entra no quintal. Cheira a terra molhada, a cão e a qualquer coisa ácida, a água parada do tonel junto ao alpendre.
Trovão para de uivar e volta a cabeça. Ruivo, com uma sela preta ao longo do lombo, grande, parece um pastor alemão que se cruzou com um rafeiro. O focinho já tem cabelos brancos, e os olhos são amarelos, acinzentados, como os dos cães velhos que viram mais do que deviam.
A corrente vai do poste à coleira. Grossa, com elos grandes, cinco metros. Noémia conhece a corrente há sete anos. Todos os verões vê da janela o Trovão andar num arco, a rasgar uma regueira na terra.
Com o passar dos anos, a regueira ficou funda até aos tornozelos e a água da chuva junta-se ali. No inverno, a corrente cobre-se de geada e os elos batem uns nos outros com o vento. Mas agora Noémia repara numa coisa que nunca tinha visto: do lado onde a corrente esticava mais, os elos estão gastos até ficarem brilhantes. O metal está polido como uma maçaneta que se pega todos os dias. O cão puxava sempre para o mesmo lado. Não corria à volta, não dava voltas; puxava para um lado.
Junto ao poste está uma tigela. De alumínio, batida, com restos de papas. As papas secaram: os grãos de arroz colaram-se às paredes e formou-se uma película de gordura. Ao lado, outra tigela com água e uma folha a boiar.
Afonso deu de comer ao cão na manhã do dia em que morreu. Ou na noite anterior. Noémia olha para a tigela e ajusta o lenço, porque as mãos procuraram um gesto que conhecem. Durante sete anos disse aos vizinhos que o velho maltratava o cão. Disse à Zélia, da mercearia, disse à Graça, a carteira, disse à filha ao telefone. Corrente, casota, papas, e nenhum passeio.
Uma criatura viva presa a um poste. Cada vez que dizia isto, Noémia sentia uma certeza que a aquecia mais do que a lareira e não precisava de provas. A verdade é óbvia: o cão está preso, o dono não responde, logo a culpa é do dono.
A Graça, a carteira, chega uma hora depois, traz pão e leite, porque estava habituada a levar aquilo ao Afonso e agora não sabe a quem dar. Diz que o viu no sábado, que ele tinha levantado a reforma e comprado dois quilos de arroz. Para ele e para o cão. Noémia pergunta se o Afonso tem família.
Graça pensa, com o saco apertado contra o corpo, e lembra-se da filha. Inês. Mora no Lameiro, para lá da estrada nacional, a doze quilómetros. Não vinha há muito tempo. Graça acrescenta baixinho:
– A filha quis ficar com o cão. Mas ele não deixou. Tenho o número dela nos correios.
Noémia não responde. Pensa: avarento, não podia dar um cão a ninguém, se nem dele tratava. Depois vai até ao poste.
O mosquetão da coleira enferrujou e os dedos escorregam no metal molhado. Noémia esfrega, torce, faz pressão no fecho com o polegar. A ferrugem entra-lhe para debaixo das unhas e as palmas cheiram a ferro, frio e áspero. Trovão permanece imóvel. Não ganiza, não se mexe. Espera apenas, como se soubesse que aquilo vai acontecer agora, e tivesse aguentado sete anos por um estalido.
O mosquetão cede. A coleira desliza do pescoço e Noémia vê debaixo dela uma nesga de pelo amassado, clara, quase branca, como uma marca de aliança. O cão sacode o corpo todo, do focinho à cauda. Depois olha para Noémia. Fica um segundo. E arranca.
Não vai para ela, nem para as tigelas, nem para a casa. Vai para a cerca. Passa entre as tábuas, atira-se para a estrada e corre. Noémia vê o dorso ruivo por entre os sabugueiros e depois desaparece.
Vai aos correios falar com a Graça, que deve ter o contacto da filha do Afonso.
Entretanto, o cão atravessa a estrada nacional. No sítio onde a estrada faz uma curva e os carros abrandam antes da ponte sobre a vala, espera uma folga e passa. Segue pelo caminho de terra em direção ao Lameiro.
O Lameiro começa com três choupos e uma paragem de autocarro sem abrigo. Trovão vira na segunda rua, passa por um fontanário, por um quintal com dálias, e para diante de uma casa com telhado verde.
O alpendre é baixo, com dois degraus; as tábuas escureceram com a humidade. A porta é forrada a oleado e, num canto, o oleado descolou-se e fica pendurado em triângulo. Trovão senta-se junto à porta e ganiza.
A cauda bate contra o degrau, e aquele som é a única coisa alegre do dia.
A porta abre-se. Uma mulher magra, de carrapito escuro e farinha nas mãos. Da casa sai um cheiro a pão doce e baunilha, um calor que vem até ao alpendre e se mistura com a terra molhada.
A mulher olha para o cão. Depois agacha-se, segura-lhe o focinho com as duas mãos, e a farinha dos dedos fica-lhe na pelagem ruiva em manchas brancas. Trovão encosta o nariz ao pulso dela e fecha os olhos.
Noémia telefona nesse mesmo momento. Diz que o Afonso morreu. Que o cão se soltou e fugiu.
– Está aqui comigo. Chamo-me Inês.
Noémia deixa escapar um suspiro: doze quilómetros por estrada nacional!
E Inês conta a história.
Trovão era cachorro quando Inês ainda vivia com o pai. Trouxe-o da vila com um mês, ruivo, com uma orelha em pé. Criou-o, deu-lhe de comer com um conta-gotas, dormiu com ele no chão durante a primeira semana, porque ele ganizava e não conseguia dormir sozinho. Depois Inês casou-se e foi viver para o Lameiro. Trovão ficou com o pai.
O cão fugia para ir ter com ela. Atravessava o campo, atravessava a estrada nacional, doze quilómetros para cada lado. Chegava ao fim da tarde, deitava-se no alpendre e esperava. Inês dava-lhe de comer, fazia-lhe festas, deixava-o ficar a noite. De manhã, Trovão regressava. Mais doze quilómetros. Ao fim de seis meses, um carro bateu-lhe de raspão e arrastou-o pelo gravilha. Afonso encontrou-o na berma e levou-o até casa ao colo, quatro quilómetros. Inês veio de boleia, e os dois levaram o cão ao veterinário na sede do concelho. A cicatriz ficou no lado esquerdo, comprida, das costelas até à pata.
Trovão sarou e, passado um mês, voltou a fugir. Bateram-lhe uma segunda vez. No mesmo sítio, na mesma curva. Fractura do osso da bacia, três meses sem se mexer. Afonso mudava o lençol duas vezes por dia e levava o cão para o quintal ao colo, para ele poder ver o céu.
Depois dessa vez, Afonso comprou a corrente. Inês pediu-lhe que lhe desse o cão. Afonso recusou. Disse apenas:
– Ele volta. Volta sempre. E a estrada nacional, à terceira vez, não a atura.
Inês discutiu, esteve seis meses sem vir. Depois começou a vir, mas cada vez menos. Depois deixou de vir.
Durante sete anos, Trovão esteve preso.
Afonso fazia-lhe papas de manhã e à noite. Arroz, às vezes farinha de milho, com restos de carne que a Zélia da mercearia lhe dava por metade do preço. Apertava a coleira, untava o mosquetão para não enferrujar. Sentava-se no cepo ao lado e ficava calado. Trovão pousava a cabeça no joelho dele, e os dois ficavam ali até escurecer: dois velhos, um no cepo, outro na corrente. Noémia via isto da janela da cozinha, todas as noites.
Trovão ficou com Inês. Estava ali, o sítio para onde tinha andado a querer chegar durante sete anos.
Noémia olha de novo para a cancela do Afonso e para o poste. A corrente está na lama, enrolada em círculo. Noémia apanha-a. Os elos são pesados, frios, e um lado brilha, polido até ficar liso.
Pendura a corrente no prego que está no poste. Enrola o arame na cancela, a quatro voltas, como o Afonso fazia. Fica um segundo a olhar para o quintal vazio, para a regueira aberta na terra, para o cepo junto ao poste. Depois atravessa a estrada, entra no seu quintal e fecha a porta.
Lava a tigela e põe-na no seu alpendre. Por via das dúvidas. Se o Trovão voltar.







