“Não, agora não venhas cá, mãe. A viagem é longa, passas a noite toda no comboio, e já não és nova. Para quê esse incómodo? E com a primavera, deves ter imenso que fazer na horta,” diz-me o meu filho. “Filho, como para quê? Já não nos vemos há tanto tempo. E quero tanto conhecer a tua mulher, como se costuma dizer, é hora de eu me aproximar da nora,” respondi-lhe com sinceridade. “Então fazemos assim: espera até ao fim do mês, nós vamos aí os dois ter contigo, no fim de semana da Páscoa que há muitos feriados,” acalmou-me o meu filho. Sinceramente, já estava pronta para ir, mas acreditei e fiquei em casa à espera dele. Só que afinal, nunca vieram. Liguei algumas vezes ao meu filho, mas ele rejeitava as chamadas. Depois ligou-me de volta, disse que estava muito ocupado, que não valia a pena eu esperar. Fiquei mesmo em baixo. Estava a preparar-me para receber o filho com a nora. Ele casou-se já há meio ano, e eu ainda não conhecia a nora. O meu filho, o Alexandre, tive-o só para mim. Já tinha 30 anos, nunca me casei. Decidi ao menos ter um filho. Talvez seja pecado, mas nunca me arrependi desse passo, mesmo com todas as dificuldades, com pouco dinheiro, vivíamos, não sobrevivíamos. Trabalhava em vários sítios só para garantir ao meu filho tudo o que precisava. O filho cresceu e foi estudar para Lisboa. Para o ajudar, fui trabalhar para o estrangeiro, a enviar-lhe dinheiro para estudar e viver na capital. O meu coração de mãe alegrava-se por poder ajudar. No terceiro ano da faculdade, o Alexandre já se sustentava sozinho. Quando acabou os estudos e arranjou trabalho, deixou de precisar da minha ajuda. Ele vinha a casa, mas pouco, uma vez por ano, se tanto. E eu a Lisboa nunca pus os pés, tenho vergonha de dizer. Prometi a mim própria que quando o filho casasse, eu ia. E por isso fui poupando. Juntei sessenta mil euros. Há meio ano, o filho liga-me e conta a esperada novidade: “Mãe, vou casar.” “Mas não venhas agora, que só vamos ao registo, a festa fica para depois,” avisou. Fiquei triste, mas fazer o quê? O Alexandre apresentou-me à nora por videochamada. Boa rapariga, bonita, de família rica, o sogro é empresário abastado. Só me restou ficar feliz por ele. Passou o tempo e nem vão cá nem nos convidam lá. Ansiosa por os ver, comprei bilhete de comboio, preparei comida da terra, levei até pão caseiro e compotas e fui. Avisei o filho ao entrar para o comboio. “Mãe, o que foste fazer? Não te vou poder buscar, estou no trabalho. Deixo a morada, chama um táxi,” disse o Alexandre. Cheguei de manhã a Lisboa, chamei táxi e fiquei chocada com o preço, mas pelo menos a cidade pela manhã era linda, vi tudo da janela do carro. Foi a nora que abriu a porta. Nem um sorriso, nem um abraço. Apenas disse, seca, para ir para a cozinha. O filho já tinha saído para o trabalho cedo. Comecei a arrumar os meus sacos: batatas, beterrabas, ovos, maçã seca, cogumelos em conserva, pepinos e tomates pickles, vários frascos de doce. A nora olhava e disse que não valia a pena, que não comem dessas coisas, e nem cozinha em casa. “Então, o que comem?” perguntei. “Comida entregue todos os dias. Não cozinho por causa do cheiro.” Não tinha acabado de digerir essa quando entrou uma criança, um rapazito de uns quatro anos. “Apresento-lhe o meu filho, Daniel,” disse a nora. “Daniel?” perguntei. “Não, é Danyil, não gosto que troquem o nome.” Tudo bem, disse eu. “Também não sou Iloninha, é Ilona. Aqui na cidade ninguém troca nomes…” Apeteceu-me chorar, não tanto pelo filho casar com uma mulher já com filho, mas porque não me contou nada. Mas ainda não foi tudo: reparei numa grande fotografia de casamento na parede. “Ah, afinal houve festa, pelo menos têm belas fotos.” “Como assim não houve casamento? Houve para 200 pessoas. Tu é que não vieste. O Alexandre disse que estavas doente. Talvez tenha sido melhor assim,” olhou-me de alto a baixo. “Vai querer pequeno-almoço?” “Quero…” Ilona pôs-me uma chávena de chá e uns pedaços de queijo caro — para ela era isso pequeno-almoço. Eu não sou dessas, preciso de comida pela manhã, ainda por cima depois da viagem. Tentei fazê-los ovos mexidos e usar o pão que levei, mas ela proibiu-me, por causa do cheiro. Recusou-se a comer o pão, disse que só comem saudável. Deixei de ter vontade de comer. Custava-me principalmente o filho ter vergonha de me convidar para o casamento, eu que tanto esperei por isto e poupei. Bebi o chá. Silêncio estranho. O menino veio encostar-se a mim. Tentei abraçá-lo, mas Ilona gesticulou que não devia, não se sabia de onde eu vinha, podia pegar-lhe algo. Não tinha presentes para o menino, dei-lhe um frasco de doce de framboesa, para comer com panquecas. A nora arrancou-me o frasco das mãos: “Quantas vezes tenho de dizer que não comemos açúcar?” Senti as lágrimas a rebentar. Nem acabei o chá. Fui calçar-me, a nora nada me perguntou. Saí, sentei-me num banco à porta, a chorar. Nunca me senti tão triste. Depois venho ver a nora a sair com o menino, leva todas as minhas conservas para o lixo. Sem palavras. Quando elas saíram, fui buscar as coisas e encaminhei-me para a estação. Por sorte havia um bilhete devolvido, comprei para a noite. Ao lado da estação havia uma tasca. Comprei um prato de sopa, carne grelhada, batatas com salada. Estava cheia de fome. Paguei bastante, mas também mereço. Guardei as malas no cacifo e ainda tive tempo de passear em Lisboa. A cidade agradou-me, até me esqueci da tristeza. No comboio não dormi, chorei. O filho nem ligou a perguntar por mim. Nunca pensei que o meu único filho me recebesse assim. Agora penso o que fazer com o dinheiro que juntei para o casamento: dar-lho, para saber que a mãe sempre pensou nele? Ou não dar nada, porque não o merece?

Não, não deves vir agora, mãe. Pensa bem. É uma viagem longa, passas a noite inteira no comboio, e tu já não és nova. Para quê esse incómodo? E estamos na primavera, deves ter muita coisa para tratar na tua horta disse-me o meu filho.

Ó filho, mas como assim? Já não te vejo há tanto tempo… E quero muito conhecer melhor a tua mulher. Sabes, é importante para mim conhecer bem a nora disse-lhe sinceramente.

Olha, faz assim: espera só até ao fim do mês, que nesta altura da Páscoa temos muitos feriados e assim vamos todos aí a tua casa tentou acalmar-me o meu filho.

Na verdade, já estava preparando tudo para ir vê-los, mas confiei nele e acabei por aceitar ficar quieta e esperar em casa.

No fim, ninguém veio visitar-me. Telefonei várias vezes ao meu filho, mas ele não atendia. Depois ligou de volta e disse que andava muito ocupado e que não valia a pena eu esperar por eles.

Fiquei mesmo triste. Estive a preparar tudo para receber o meu filho e a nora que ainda nem conhecia, apesar de já estarem casados há meio ano.

O meu filho, Tomás, foi um desejo do meu coração. Tinha já trinta anos quando decidi tê-lo, e acabei por nunca casar. Queria pelo menos ter um filho para mim.

Talvez tenha sido um erro aos olhos de alguns, mas nunca me arrependi. Muitas vezes foi difícil não havia dinheiro e a vida era uma luta diária. Trabalhei sempre em vários lados para nunca faltasse nada ao meu filho.

Ele cresceu e foi estudar para Lisboa. Para ajudá-lo nos primeiros tempos, fui trabalhar para o estrangeiro andei pela França a fazer limpezas e cuidar de idosos. O meu coração de mãe enchia-se de alegria ao poder ajudá-lo.

No terceiro ano da universidade já começou a ganhar algum dinheiro e, quando acabou o curso, passou a sustentar-se sozinho.

O Tomás vinha a casa, mas pouco, talvez uma vez por ano. E eu, em Lisboa confesso que nunca lá pus os pés.

Pensei que, quando ele casasse, era altura de ir finalmente. Até para isso guardei dinheiro, consegui juntar 7500 euros.

Há meio ano, o Tomás ligou e deu-me a notícia tão esperada ia casar.

Mas, mãe, não venhas agora. Vamos só ao registo civil, depois mais tarde fazemos festa, avisou-me.

Fiquei magoada, mas o que podia fazer? Conheci a nora por videochamada. A rapariga parecia simpática, bonita, e tinha dinheiro o pai é empresário, daqueles mesmo ricos. Senti-me feliz por ver o Tomás encaminhado.

Mas os meses passaram, e o meu filho nem vinha nem me convidava. Já não aguentava a vontade de os ver, então tomei uma decisão: comprei bilhete para o comboio, preparei umas comidas de casa até pão fiz e levei umas conservas. Liguei-lhe mesmo antes de entrar no comboio.

Ó mãe, porque vieste? Estou a trabalhar, não consigo ir buscar-te. Olha, deixo-te a morada, apanha um táxi, respondeu ele.

Cheguei a Lisboa de manhã e tive logo um choque com o preço do táxi. Mas Lisboa pelas janelas do carro parecia-me tão bela que quase esquecia isso.

Abriu-me a porta a nora. Nem sorriso, nem abraço só um pode entrar para a cozinha. O Tomás já tinha ido trabalhar cedo.

Comecei a desfazer os sacos: batatas, beterrabas, ovos, maçã seca, cogumelos em conserva, pepinos, tomates, uns frascos de doce. A nora olhava tudo em silêncio e depois disse, secamente, que só levei aquilo para nada, porque eles não comiam dessas coisas, e que ela nem sequer cozinhava.

Então, o que é que comem? perguntei, espantada.

Pedimos sempre comida de fora. Não gosto de cozinhar. Fica logo um cheiro horrível na cozinha e depois custa a sair, respondeu ela, a Marta.

Ainda estava a tentar processar o que ouvira, quando entrou na cozinha um menino, com uns 3 aninhos.

Este é o meu filho. Dinis, disse a Marta.

Dinis? perguntei, a pensar se teria ouvido bem.

Sim, Dinis, não é Daniel. Não gosto que troquem os nomes.

Como quiseres, Martinha.

Eu sou Marta, não Martinha. Aqui ninguém troca os nomes, mas compreendo que não saibas…

Vontade de chorar era o que sentia. E nem era por o filho casar com mulher de outro homem, era mesmo pela mentira nunca mo disse.

E não ficaram por aí as surpresas. Olhei para a parede e vi uma fotografia grande do casamento.

Olha, ao menos têm uma foto bonita, já que não houve festa, tentei ser positiva.

Como não houve? Houve, para duzentas pessoas. Só faltaste tu. O Tomás disse que estavas doente, disse-me a nora, olhando-me de cima a baixo.

Vai tomar o pequeno-almoço?

Vou.

Marta pôs-me na mesa uma chávena de chá e uns pedaços de queijo caro. Para ela, aquilo era pequeno-almoço.

Não estou habituada, gosto de comer bem de manhã, ainda por cima depois da viagem. Decidi fritar uns ovos levei o meu pão. Mas Marta proibiu, por causa do cheiro.

O pão nem o provou estão os dois em alimentação saudável.

Apetite tirei logo, fiquei sem vontade de comer; magoou-me que o meu filho tivesse vergonha de mim, de me levar à festa. Anos à espera disto, a juntar dinheiro, e afinal, foi tudo em vão.

Fui bebendo o chá. Silêncio pesado na cozinha. O pequeno Dinis correu para mim, colou-se às minhas pernas. Fui abraçá-lo, a Marta impediu logo: não sabia com que vinha eu, e era uma criança.

Sem lembranças para o menino, dei-lhe um frasco de doce de framboesa disse que era para comer com panquecas.

A Marta arrancou-o-me das mãos: Quantas vezes tenho de dizer? Não comemos açúcar!

Corei. Nem acabei o chá. Fui ao corredor buscar os sapatos. A Marta nem perguntou aonde ia.

Lá fora, sentei-me num banco e desatei a chorar. Nunca me senti tão triste.

Depois vi a Marta sair com o Dinis levou tudo o que eu trouxera para o lixo.

Quando ela se afastou, voltei atrás e recuperei as minhas coisas. Fui para a estação, arranjei bilhete porque alguém desistiu.

Perto da estação comi bem um prato de sopa de feijão, um bife, batatas e salada. Já morria de fome. Paguei bem, mas, por uma vez na vida, merecia.

Deixei as malas na consigna e, com as horas livres, fui passear nas ruas de Lisboa. Gostei da cidade. Fiz tempo até ao comboio.

No comboio, nem preguei olho. Chorei. Dói. O Tomás nem me telefonou, nem quis saber de mim.

Nunca achei que isto me pudesse acontecer. Sempre depositei toda a esperança no meu único filho, mas percebi afinal que para ele eu não sou ninguém.

Agora penso: o que faço com os 7500 euros que guardei para o casamento? Dou-lhos, para saber que a mãe sempre pensou nele? Ou fico com o dinheiro, porque simplesmente não merece?

Hoje percebi que, por mais amor de mãe que se dê, não há garantias do regresso. Amar é isso. Mas não se pode esperar nada em troca.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

eleven + 13 =

“Não, agora não venhas cá, mãe. A viagem é longa, passas a noite toda no comboio, e já não és nova. Para quê esse incómodo? E com a primavera, deves ter imenso que fazer na horta,” diz-me o meu filho. “Filho, como para quê? Já não nos vemos há tanto tempo. E quero tanto conhecer a tua mulher, como se costuma dizer, é hora de eu me aproximar da nora,” respondi-lhe com sinceridade. “Então fazemos assim: espera até ao fim do mês, nós vamos aí os dois ter contigo, no fim de semana da Páscoa que há muitos feriados,” acalmou-me o meu filho. Sinceramente, já estava pronta para ir, mas acreditei e fiquei em casa à espera dele. Só que afinal, nunca vieram. Liguei algumas vezes ao meu filho, mas ele rejeitava as chamadas. Depois ligou-me de volta, disse que estava muito ocupado, que não valia a pena eu esperar. Fiquei mesmo em baixo. Estava a preparar-me para receber o filho com a nora. Ele casou-se já há meio ano, e eu ainda não conhecia a nora. O meu filho, o Alexandre, tive-o só para mim. Já tinha 30 anos, nunca me casei. Decidi ao menos ter um filho. Talvez seja pecado, mas nunca me arrependi desse passo, mesmo com todas as dificuldades, com pouco dinheiro, vivíamos, não sobrevivíamos. Trabalhava em vários sítios só para garantir ao meu filho tudo o que precisava. O filho cresceu e foi estudar para Lisboa. Para o ajudar, fui trabalhar para o estrangeiro, a enviar-lhe dinheiro para estudar e viver na capital. O meu coração de mãe alegrava-se por poder ajudar. No terceiro ano da faculdade, o Alexandre já se sustentava sozinho. Quando acabou os estudos e arranjou trabalho, deixou de precisar da minha ajuda. Ele vinha a casa, mas pouco, uma vez por ano, se tanto. E eu a Lisboa nunca pus os pés, tenho vergonha de dizer. Prometi a mim própria que quando o filho casasse, eu ia. E por isso fui poupando. Juntei sessenta mil euros. Há meio ano, o filho liga-me e conta a esperada novidade: “Mãe, vou casar.” “Mas não venhas agora, que só vamos ao registo, a festa fica para depois,” avisou. Fiquei triste, mas fazer o quê? O Alexandre apresentou-me à nora por videochamada. Boa rapariga, bonita, de família rica, o sogro é empresário abastado. Só me restou ficar feliz por ele. Passou o tempo e nem vão cá nem nos convidam lá. Ansiosa por os ver, comprei bilhete de comboio, preparei comida da terra, levei até pão caseiro e compotas e fui. Avisei o filho ao entrar para o comboio. “Mãe, o que foste fazer? Não te vou poder buscar, estou no trabalho. Deixo a morada, chama um táxi,” disse o Alexandre. Cheguei de manhã a Lisboa, chamei táxi e fiquei chocada com o preço, mas pelo menos a cidade pela manhã era linda, vi tudo da janela do carro. Foi a nora que abriu a porta. Nem um sorriso, nem um abraço. Apenas disse, seca, para ir para a cozinha. O filho já tinha saído para o trabalho cedo. Comecei a arrumar os meus sacos: batatas, beterrabas, ovos, maçã seca, cogumelos em conserva, pepinos e tomates pickles, vários frascos de doce. A nora olhava e disse que não valia a pena, que não comem dessas coisas, e nem cozinha em casa. “Então, o que comem?” perguntei. “Comida entregue todos os dias. Não cozinho por causa do cheiro.” Não tinha acabado de digerir essa quando entrou uma criança, um rapazito de uns quatro anos. “Apresento-lhe o meu filho, Daniel,” disse a nora. “Daniel?” perguntei. “Não, é Danyil, não gosto que troquem o nome.” Tudo bem, disse eu. “Também não sou Iloninha, é Ilona. Aqui na cidade ninguém troca nomes…” Apeteceu-me chorar, não tanto pelo filho casar com uma mulher já com filho, mas porque não me contou nada. Mas ainda não foi tudo: reparei numa grande fotografia de casamento na parede. “Ah, afinal houve festa, pelo menos têm belas fotos.” “Como assim não houve casamento? Houve para 200 pessoas. Tu é que não vieste. O Alexandre disse que estavas doente. Talvez tenha sido melhor assim,” olhou-me de alto a baixo. “Vai querer pequeno-almoço?” “Quero…” Ilona pôs-me uma chávena de chá e uns pedaços de queijo caro — para ela era isso pequeno-almoço. Eu não sou dessas, preciso de comida pela manhã, ainda por cima depois da viagem. Tentei fazê-los ovos mexidos e usar o pão que levei, mas ela proibiu-me, por causa do cheiro. Recusou-se a comer o pão, disse que só comem saudável. Deixei de ter vontade de comer. Custava-me principalmente o filho ter vergonha de me convidar para o casamento, eu que tanto esperei por isto e poupei. Bebi o chá. Silêncio estranho. O menino veio encostar-se a mim. Tentei abraçá-lo, mas Ilona gesticulou que não devia, não se sabia de onde eu vinha, podia pegar-lhe algo. Não tinha presentes para o menino, dei-lhe um frasco de doce de framboesa, para comer com panquecas. A nora arrancou-me o frasco das mãos: “Quantas vezes tenho de dizer que não comemos açúcar?” Senti as lágrimas a rebentar. Nem acabei o chá. Fui calçar-me, a nora nada me perguntou. Saí, sentei-me num banco à porta, a chorar. Nunca me senti tão triste. Depois venho ver a nora a sair com o menino, leva todas as minhas conservas para o lixo. Sem palavras. Quando elas saíram, fui buscar as coisas e encaminhei-me para a estação. Por sorte havia um bilhete devolvido, comprei para a noite. Ao lado da estação havia uma tasca. Comprei um prato de sopa, carne grelhada, batatas com salada. Estava cheia de fome. Paguei bastante, mas também mereço. Guardei as malas no cacifo e ainda tive tempo de passear em Lisboa. A cidade agradou-me, até me esqueci da tristeza. No comboio não dormi, chorei. O filho nem ligou a perguntar por mim. Nunca pensei que o meu único filho me recebesse assim. Agora penso o que fazer com o dinheiro que juntei para o casamento: dar-lho, para saber que a mãe sempre pensou nele? Ou não dar nada, porque não o merece?
A Avó Que Só Tinha Olhos para Um Neto: A História de Katya, Dima e o Amor Partilhado Numa Família Portuguesa