Sai daqui! Eu nunca te prometi casamento! E mais, nem sei se a criança é minha!
Ou talvez nem seja mesmo
Por isso, segue a tua vida que eu vou seguir a minha foi assim que António, que estava em missão de serviço na nossa aldeia, falou para a atónita Benedita.
Ela ficou parada, sem acreditar no que ouvia e via. Seria aquele o mesmo António, que lhe declarava amor e a tratava como uma princesa?
O mesmo António que a chamava de Benedita querida e prometia mundos e fundos? Ali estava, diante dela, um homem ligeiramente atrapalhado e, por isso mesmo, zangado, um estranho
Benedita chorou durante uma semana, despedindo-se de António para sempre. Mas por causa da idade já tinha trinta e cinco anos e por nunca ter sido bonita, sabendo bem que teria pouquíssima sorte no amor, decidiu que ia ser mãe, mesmo assim.
Benedita teve uma menina barulhenta, no tempo certo. Chamou-a de Mafalda. A menina cresceu calma, sem problemas, nunca deu chatices à mãe.
Parecia que, mesmo querendo, percebia que nada adiantaria Benedita até tratava bem da filha, alimentava, vestia e comprava-lhe brinquedos.
Mas abraçá-la ou fazer-lhe festas? Isso não. Pequena Mafalda muitas vezes estendia os braços à mãe, mas esta afastava-a. Ou estava ocupada, ou tinha muita coisa para fazer, ou estava cansada, ou tinha dores de cabeça. O seu instinto nunca despertou de verdade.
Quando Mafalda fez sete anos deu-se algo inesperado: Benedita conheceu um homem. Pior ainda, levou-o para casa! Toda a aldeia falou do assunto. A Benedita tinha pouca vergonha.
O homem nem era de lá, nem trabalho fixo tinha, ninguém sabia de onde vinha! Talvez fosse até um burlão
Vejam só! Benedita trabalhava no minimercado da aldeia, ele foi contratado para descarregar mercadorias. Foi assim que o romance começou.
Logo, Benedita convidou o novo namorado para viver com ela. Os vizinhos criticavam:
Trouxe para casa um desconhecido! Devia pensar era na filha! comentavam. E, além disso, ele era caladão, mal se lhe puxava palavra. Alguma coisa escondia, de certeza!
Benedita não queria saber. Sabia que talvez fosse a última hipótese de felicidade
Mas a opinião dos vizinhos mudou, quando perceberam como aquele homem calado, chamado Miguel, pôs mãos à obra.
A casa de Benedita estava a precisar de tudo. Miguel começou por endireitar a varanda, depois consertou o telhado e pôs o portão de pé.
Todos os dias, havia algo a arranjar, e a casa melhorava aos olhos de todos. Quando viram que ele era mesmo habilidoso, começaram a pedir-lhe ajuda. E ele dizia:
Se fores idoso ou passares mal, ajudo sem problema. Se não, então pagas, seja em euros ou em produtos.
Uns pagavam-lhe em dinheiro, outros davam-lhe compotas, carne, ovos, leite. Benedita tinha horta, mas não tinha animais até parecia impossível não ter homem em casa.
Antes, Mafalda quase nunca tinha leite fresco ou natas. Agora, o frigorífico tinha de tudo: até os iogurtes eram feitos em casa.
Miguel tinha mesmo mãos de ouro. E Benedita, nunca bonita, mudou com ele parecia irradiar, ficou mais calma e até afetuosa com Mafalda. Sorria, e Benedita até mostrou covinhas nas bochechas. Quem diria
Mafalda crescia, já andava na escola. Um dia, estava ela sentada na varanda, vendo Miguel trabalhar com destreza. Depois, foi brincar com a amiga ao lado.
Só voltou ao fim da tarde, tinha-se esquecido das horas. Abriu o portão e ficou de boca aberta Bem no meio do quintal estavam baloiços! Balançavam ao vento, convidando-a para brincar.
É para mim?! Miguel! Foste tu que os fizeste? Baloiços verdadeiros?! Mafalda quase não acreditava.
Claro que é para ti, Mafalda! Aceita lá o meu trabalho! Miguel, que era normalmente calado, ria a bandeiras despregadas.
Mafalda sentou-se e logo se lançou para a frente e para trás, o vento a zunir nos ouvidos não havia menina mais feliz no mundo
Benedita saía cedo para o trabalho, por isso quem ficou a cozinhar foi Miguel. Preparava o pequeno-almoço, almoço. E os bolos e empadões que ele fazia!
Foi ele quem lhe ensinou a cozinhar e a pôr a mesa. Aquela pessoa calada tinha talentos escondidos
Quando chegou o inverno e os dias ficaram curtos, Miguel acompanhava Mafalda à escola e ia buscá-la. Levava-lhe a mochila e contava-lhe histórias da sua vida.
Contou como cuidou da mãe doente e vendeu a sua casa para ajudá-la. E de como o irmão o enganou e o deixou sem teto.
Ensinou-a a pescar. No verão, os dois iam ao rio de madrugada, ficavam horas em silêncio, à espera. Foi assim que lhe ensinou paciência.
No meio do verão, Miguel comprou-lhe a primeira bicicleta e ensinou-a a andar. Limpava-lhe os joelhos com mercúrio, sempre que ela caía e se magoava.
Miguel, a miúda ainda se mata! resmungava a mãe.
Não se mata nada. Tem de aprender a cair e a levantar-se respondia ele.
Um dia, no Ano Novo, ofereceu-lhe uns patins novinhos em folha. À noite, puseram a mesa juntos, Miguel e Mafalda.
Esperaram pela meia-noite, brindaram, comeram, riram. Tudo era saboroso e divertido. De manhã, Benedita e Miguel acordaram com Mafalda aos gritos de alegria.
Patins! Finalmente, uns patins verdadeiros! Brancos e novos! Obrigada, obrigada!! gritava, abraçando-os ao peito, já com lágrimas de felicidade.
Depois, ela e Miguel foram ao rio congelado. Ele limpou o gelo durante muito tempo enquanto ela o ajudava. Depois, ensinou-a a patinar.
Ela caía, mas Miguel, paciente, dava-lhe a mão, até ela saber manter-se de pé. Foi então que conseguiu patinar de verdade, sem cair nenhuma vez. Mafalda gritava de felicidade.
No regresso, atirou-se ao pescoço dele:
Obrigada por tudo! Obrigada, pai
Desta vez, foi Miguel a chorar. De alegria. Escondeu as lágrimas, mas elas desciam-lhe pelo rosto sem pedir licença
Mafalda cresceu e foi estudar para Lisboa. Teve muita dificuldade, como toda a gente. Mas Miguel esteve sempre perto.
Foi ao baile de finalistas, levava-lhe sacos de comida para não lhe faltar nada.
Levou-a ao altar quando se casou. Ficaram os dois à porta da maternidade à espera de novidades. Cuidou dos netos e amou-os como a poucos se vê amar.
Depois, Miguel partiu deste mundo, como todos partiremos um dia. No funeral, Maria e a mãe estavam consternadas. Atirando uma mão cheia de terra, com um pesado suspiro, ela disse:
Adeus, pai Foste o melhor pai do mundo. Vou lembrar-me de ti para sempre
E ficou no seu coração para sempre. Não como Miguel, não como padrasto, mas como PAI Porque pai, às vezes, não é quem dá a vida, mas quem a acompanha, quem partilha alegria e tristeza. Quem está ao lado
Assim termina esta história que tanto me marcou. Aprendi que a família se constrói, dia a dia, com gestos simples e amor verdadeiro e que ser pai é ser presente, não apenas no sangue, mas, acima de tudo, no coração.







