O reencontro surpreendente de Oksana no Ano Novo: depois de dias exaustivos com relatórios, ela viaja escondida até à casa da mãe em Lisboa; um sonho misterioso, um estranho simpático no comboio e uma celebração cheia de emoções, saladas, carne à francesa e uma chamada inesperada mudam o rumo da sua vida para sempre

Recordo-me de como, há já muitos anos, Sofia viajou até Lisboa para passar o Ano Novo com a mãe. Queria surpreendê-la, por isso não avisou ninguém da sua chegada. Aproximou-se da velha casa coberta de azulejos, batendo suavemente à porta. Passado um instante, correu ao seu encontro a sua querida irmã mais nova, Beatriz! O dia passou num ápice, entre risos e preparativos. Enquanto Sofia e Beatriz faziam saladas à portuguesa, a mãe preparava a sua iguaria favorita bacalhau com natas.

Já suspeitava que vinhas, confidenciou a mãe. Ontem, quando fui à mercearia, comprei mais ovos do que o habitual. Mas pensei que talvez viesses acompanhada Ainda nada desde o Afonso?

Não, mãe, suspirou Sofia, desviando o olhar.

De repente, o telemóvel tocou. Sofia olhou para o ecrã e sentiu o coração apertar de surpresa.

Valha-me Deus, não sei se amo ou detesto a passagem de ano. Entre relatórios, contas e auditorias Amanhã é finalmente o último dia e poderei descansar duas semanas. Estou tão cansada deste dezembro, pensava Sofia.

Nessa noite, sentada à secretária do seu pequeno apartamento lisboeta, Sofia dava os retoques finais ao relatório anual. O chefe dissera-lhe que, se a inspeção do dia seguinte não encontrasse falhas, estaria de férias até doze de janeiro. Esforçava-se ao máximo sonhava rever a mãe e a Beatriz e desligar-se de tudo.

Amanhã ainda teria de ir ao supermercado. Não tinha comprado presente para a mãe; o telemóvel novo para Beatriz já estava guardado há tempos.

Os bilhetes de comboio foram reservados logo a 1 de dezembro, num banco do Intercidades, para garantir. “Se não me deixarem ir, vendo-os depois”, decidira. Escolhera o lugar de baixo, mais cómodo.

Nessa noite, Sofia sonhou um sonho estranho: caminhava por um bosque sombrio e esbarrava numa menina de cinco ou seis anos sentada num tronco, folheando um conto ilustrado.

Perdeste-te? Onde estão os teus pais?

Não ainda não me encontrei respondeu a pequena, sorrindo. Mas tu, acorda depressa, não adormeças a tua sorte! Hoje de noite vais encontrá-la. Levanta-te rápido, tens um relatório para entregar!

Sofia acordou num sobressalto e olhou para o relógio.

Nossa Senhora quase que adormecia! Logo hoje que não posso, a auditoria é às nove e o relatório já está pronto.

Saltou da cama, o sonho esvanecido. Em quinze minutos preparou-se com uma leve maquilhagem, o cabelo preso, e decidiu tomar o café já no escritório.

Já na rua, dobrou o casaco pelas costas, correu até à paragem. Que sorte, o autocarro parou e havia ainda um lugar vago.

Sofia sentou-se, observando os passageiros. De repente, mais à frente, viu a menina do sonho! Esta olhou-lhe nos olhos e piscou-lhe um olho justo quando alguém a empurrou um rapaz que, apressado, arrastava a mochila de forma desajeitada.

Sofia lançou-lhe um olhar reprovador. Quando voltou a procurá-la à frente, já não havia sinal da menina.

Santo Deus, só faltava, sonhos patetas agora claro que isto é do cansaço, pensou.

No escritório, já todos lá estavam. Sofia mergulhou na azáfama coletiva até ao almoço. Graças a Deus, o relatório foi aprovado sem uma falha. O chefe, o Sr. António Carvalho, fez-lhe sinal com o polegar e, ao fim de dez minutos, chamou-a ao gabinete.

Se prometi, cumpro: estás de férias, Sofia! E aqui tens, pelo teu mérito, entregou-lhe um envelope. Boas festas!

Muito obrigada, Sr. António. E um excelente ano para si!

Do prémio, Sofia comprou à mãe um xale de lã bonito, para Beatriz uma blusa de renda. Ainda encheu o saco com os doces tradicionais, uma garrafa de espumante.

Às sete e meia da noite entrou, ofegante, no comboio. Ao passar apressada pelo corredor, tropeçou numa mochila esquecida e caiu quase de bruços.

Por pouco não chorou. Logo sentiu mãos firmes a ajudá-la a levantar-se.

Valha-me Deus, desculpe, a culpa foi minha. Ainda não tinha posto a mochila no sítio, desculpou-se um jovem com um sorriso afável e voz calorosa.

Não tem importância, foi distração minha, Sofia corou.

Por acaso, seguiam ambos no mesmo compartimento. Sofia olhou melhor para o rapaz: alto, moreno, simpático. Lembrou-se das palavras da menina do sonho: “Encontras hoje a tua sorte”.

Será ele a minha sorte? Não me importava nada pensou.

O jovem ofereceu-se para arrumar-lhe a mala. Sentaram-se frente a frente. Ele apresentou-sechamava-se Tomás, vinha a negócios a Setúbal, mas regressaria logo no dia seguinte, a tempo de passar a passagem de ano em casa.

E tu, vens a passeio? perguntou.

Vou ver a minha mãe e a minha irmã. Ganhei uns dias de férias e não as vejo há meses.

E o namorado, não fica com ciúmes?

Não tenho, nem marido nem namorado, riu-se Sofia. Ainda não encontrei ninguém com quem quisesse passar o resto da vida. E tu?

Também vou sozinho. Procuro alguém com quem possa partilhar não só o Ano Novo, mas a vida toda.

Sofia quase lhe disse em voz alta, “Tu és a minha sorte a menina avisou-me!”, mas limitou-se a corar fortemente.

Ficas com um ar ainda mais bonito quando ficas vermelha, sorriu Tomás. Pareces uma maçã da aldeia prensada a madurar ao sol.

Não consigo evitar admitiu Sofia, envergonhada. Fico assim sempre que me sinto desconfortável.

Pronto, deixo-te em paz. Aceitas um chá? A minha mãe fez-me bolo de maçã para partilhar com os companheiros de viagem.

Nesse momento, entrou uma senhora de cabelo grisalho acompanhada de um neto de seis anos era a D. Matilde, que levava o menino visitar a mãe em Évora. Já que a filha não tinha férias, a avó resolvera fazer-lhe esta surpresa.

Todos juntos partilharam fatias de bolo e bolachas, com chá quente e risos. Mais tarde, Sofia e Tomás saíram para o corredor, olharam pela janela a estação de Coimbra iluminada de luzes coloridas e enfeites.

Serei indiscreto se pedir o teu número? perguntou Tomás. Sinto que já te conheço há anos.

Não vejo inconveniente respondeu Sofia, sorrindo.

Quando regressas a Lisboa?

Só dia dez fico uns dias a matar saudades.

Que pena Mas olha, é curioso sinto o mesmo que tu: como se já nos conhecêssemos há muito. Não é só conversa de comboio.

Talvez, disse Sofia. Creio que são aqueles encontros raros que deixam saudades Vamos dormir?

Sorriram um ao outro antes de se recolherem.

O comboio chegou a Setúbal às dez da manhã. Sofia tinha escondido a viagem, queria fazer surpresa à família. Sabia onde estava a chave extra.

Despediu-se de Tomás ao pé do táxi; desejaram mutuamente que naquele Ano Novo encontrassem alguém para partilhar a vida.

Ao vê-lo afastar-se, Sofia teve vontade de o chamar de volta, de lhe propor que ficassem juntos. Mas a timidez venceu, e entregou-se à alegria da chegada a casa.

Ao chegar, tocou à campainha, e Beatriz veio a correr abraçá-la, radiante de alegria. Em pouco tempo, a casa encheu-se de cheiro a bacalhau, gargalhadas e histórias antigas.

Já desconfiava da surpresa riu-se a mãe, e olha que preparei comida para mais um. Não te apetece convidar alguém?

Sofia, de repente, sentiu o telefone vibrar. O coração bateu forte: Tomás.

Chegaste bem a casa? perguntou ela.

Sabes, não consegui ir. Não conheço mais ninguém aqui não me abres a porta para um viajante solitário nesta noite especial?

Sofia, sorrindo de felicidade, olhou para a mãe.

Posso convidar um amigo para o jantar de hoje, mãe?

Claro! Assim animam a sala já está a faltar um homem nesta casa de mulheres!

Sofia riu, piscou o olho à irmã e foi abrir a porta ao destino.

Nesse ano, a menina do bosque tinha mesmo razão: Sofia não perdeu a sorte, nem o abraço, nem o amor que a esperava ao virar da esquina. E o Ano Novo trouxe mais calor à sua casa do que algum dezembro recordado em Portugal.

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O reencontro surpreendente de Oksana no Ano Novo: depois de dias exaustivos com relatórios, ela viaja escondida até à casa da mãe em Lisboa; um sonho misterioso, um estranho simpático no comboio e uma celebração cheia de emoções, saladas, carne à francesa e uma chamada inesperada mudam o rumo da sua vida para sempre
A Escolha «E afinal, o Fábio é mais casado do que eu pensava…» — suspirava a Sílvia, sentada num banco do jardim e apertando no bolso o encaminhamento para a cirurgia. As colegas de quarto no lar universitário invejavam-na quando a viam na companhia daquele moreno elegante, de olhos azuis e barba feita, achando que tinha sorte com tão cavalheiro pretendente. Mas, no fim de contas, não havia nada para invejar. Sílvia estremeceu ao recordar o primeiro e último encontro com a esposa do Fábio, que a esperava à porta da fábrica para lhe explicar como as coisas realmente eram. — Olá! És a Sílvia, certo? — começou ela. — Quem é a senhora? — assustou-se Sílvia, sentindo o olhar perfurante da mulher alta e elegante, de cabelos louros platinados. — Sou a Olívia, esposa do Fábio Menezes. — O quê? — Ouviste bem. — Mais uma ingénua — comentou a mulher com calma — e quantas como tu há por aí? Nunca acabam as caçadoras da felicidade alheia. — Olhe que se está a exceder! — Vá com calma — a loira segurou com firmeza o braço de Sílvia —, quem se excede és tu. Eu sou a legítima esposa. Vi-te com o meu marido, e ainda vens armar atrevida em vez de te ires embora cabisbaixa. Isso é para quem tem princípios, o que não parece ser o caso. Mulheres como tu — e lançou um olhar avaliador — já foram tantas que faltam dedos das mãos e dos pés para contar. Ficar com um homem casado… Que falta de vergonha! Ele é homem, é caçador. Percebeste? Para ele és só mais um capricho. Vai-se divertir e depois nem quererá lembrar o teu nome. Mantém distância. Aliás, temos duas filhas, posso mostrar-te a foto da família. — Olívia tirou uma fotografia e entregou à atónita Sílvia. — Aqui está! Prova do grande e puro amor. Foi tirada em Albufeira, há dois meses… Então, calaste-te porquê? — O que quer de mim? Resolva os seus problemas com o seu marido. — E vou resolver, não te preocupes! Ele entrou nesta fábrica há pouco tempo. O salário é bom e, de repente, apareces tu para estragar tudo. Sai por bem. Não ligues a promessas, o Fábio não pensa separar-se. Não percas tempo. Quantos anos tens? Já trinta? — Vinte e cinco! — respondeu Sílvia, sentida. — Mais razão ainda. Ainda vais a tempo de casar e ter filhos. Deixa lá o Fábio em paz. Sílvia já não quis ouvir mais nada. Saiu dali de pernas bambas, do mundo feliz que de repente aquela mulher destruíra, riscando todos os seus sonhos cor-de-rosa. — Traidor… — murmurou Sílvia, sentindo um nó na garganta, mas não podia mostrar emoções na rua. Não queria dar azo a mexericos no emprego. À noite, como se nada tivesse acontecido, o Fábio apareceu com flores. Sílvia, com os olhos inchados, expulsou-o de casa apesar das promessas de amor eterno e da suposta separação que nunca chegaria, alegando que ele e a esposa já eram completos estranhos. Duas semanas depois, Sílvia ainda tentava recuperar-se. O Fábio não voltou a procurá-la. Fazia de conta que não a conhecia, desviando o olhar no corredor da fábrica. Mas desgraça pouca é bobagem… As náuseas matinais e tonturas Sílvia pensava serem do desgosto, até que percebeu: o romance ingénuo e apaixonado com o Fábio dera fruto. «Seis semanas», soava quase como sentença. Sílvia não queria ser mãe solteira. Tinha medo. Achava que todos viam e a julgavam, por ter confiado num homem que não conhecia de verdade. O Fábio escondeu-lhe o casamento. Que podia fazer ela? Pedir o cartão de cidadão ao conhecer alguém? Ele não usava aliança… Nem todos os casados usam. E por que não desconfiou quando ele pediu para manterem a relação em segredo no trabalho? Ele enganou-a, mas saber isso não a consolava. E todos já cochichavam sobre a visita da esposa à porta da fábrica. — Estou grávida. — Sílvia, sem saber a quem recorrer, contou ao ex-amante no intervalo do almoço. — Dou-te dinheiro, mas resolve isso — murmurou ele em tom frio. No dia seguinte, o Fábio demitiu-se. Desapareceu da vida dela para sempre. Sílvia percebeu que não podia adiar mais a decisão. Apesar dos conselhos do médico, pegou no encaminhamento para a «intervenção». E agora estava ali sentada, apertando o papel, como se tivesse medo de o perder. — Tem pressa? — perguntou um rapaz de fato e gravata cor de vinho, sentando-se ao lado de Sílvia com um enorme ramo de crisântemos. — Perdão? — olhou ela, com os olhos vazios, para o desconhecido. — O relógio está adiantado — disse ele, apontando para o relógio dourado no pulso dela. — Está sempre dez minutos à frente… Já tentei acertar, mas não consigo, nunca bate certo — respondeu Sílvia, com indiferença, virando-se. — O tempo está espetacular hoje, não acha? Um verdadeiro verão de São Martinho! A minha mãe adora esta época. Diz que num dia de outono assim tomou a melhor decisão da vida dela, e nunca se arrependeu… Sabe, a minha mãe é fantástica! — e mostrou-lhe um polegar em riste. — Sou muito grato a ela. — E o seu pai? — escapou-se-lhe a pergunta a Sílvia. — Daí nunca fala, eu também não insisto… Vejo que não gosta de lembrar. Acabei agora uma entrevista de trabalho. Imagine, escolheram-me entre dez candidatos para uma vaga numa empresa prestigiada! Fui o único escolhido, mesmo sem experiência. Custa a acreditar… Foi a minha mãe que me deu confiança. Já sei o que vou fazer com o primeiro ordenado: levo a minha mãe à praia. Nunca viu o mar! E a Sílvia, já foi? — Não, nunca. — respondeu, fitando-o; os olhos prenderam-se na gravata cor de vinho. O rapaz irradiava felicidade. — Presente da mamã — disse orgulhoso, ao perceber o olhar da Sílvia. — Se calhar já a estou a maçar com tanta conversa, mas quis partilhar a alegria. Está tão abatida… Achei que precisava de conversar. Fui chato com a tagarelice? Sílvia abanou a cabeça. O jovem não a incomodava. Conseguira travar o turbilhão de pensamentos sombrios. E admirava-lhe a devoção à mãe. «Que amor tão leal! Que sorte dela… Quem me dera ter um filho assim…» — Mas pronto, vou-me embora. A minha mãe deve estar à minha espera… E olhe, não se apresse! — O quê? — Digo isso ao seu relógio — sorriu ele. — Ah — sorriu Sílvia. Pouco depois, ele foi-se embora. Sílvia tirou o papel do bolso — aquele que, minutos antes, tinha tanto medo de largar — e rasgou-o em pedacinhos. Depois ficou ali sentada, a respirar o ar de um dia de outono dourado, como enfeitiçada. Sentia agora no peito uma leveza nova, um calor bom, deixado pelo estranho que lhe falara como se a conhecesse de sempre. Ela não estava sozinha. Aquela mãe criou o filho sozinha, um filho tão especial. Pena só não lhe ter perguntado o nome… mas agora isso já não importava. A escolha estava feita. *** Vinte e três anos depois… — Mãe, estou atrasado — estava o Tiago de pé em frente ao espelho, enquanto a mãe lhe apertava cuidadosamente a gravata cor de vinho, comprada de propósito para a entrevista importante. — Queres saber? Se calhar é melhor desistires. — Não, mãe. Dá confiança. Vai correr bem, vais ver! Eles vão aceitar-me — disse ela, terminando de ajeitar a gravata e afastando-se, para admirar o filho. — Que nervos, e se não corre bem… — Esse lugar é teu. Só tens que responder com firmeza e sorrir. És irresistível. — Está bem, mãe — o Tiago deu-lhe um beijo na bochecha e saiu, apressado, para a entrevista. Sílvia ficou à janela, a ver o filho, a pessoa mais querida, caminhar decidido até à paragem. De repente, estremeceu — como um choque elétrico… Já tinha visto aquilo em algum lado… Aquele rapaz no jardim, mais de vinte anos atrás… Agora, ver o Tiago, de fato e gravata, era como reviver aquele momento. Tantos anos depois, recordava o episódio esquecido. Como era possível? Teria sido o destino a dar-lhe a oportunidade de ver com os próprios olhos de quem queria abdicar (palavra dura), e a guiara para o caminho certo? E porque não falou mais com ele aquele dia, se até tinham quase a mesma idade? Agora, já não importava… Tudo correu bem no fim. Mais tarde, ao almoço, Tiago chegou a casa com um grande ramo de crisântemos cor de vinho, a condizer com a gravata, e contou à mãe que conseguiu o emprego. E ainda prometeu que, finalmente, irão juntos ao mar — que a Sílvia nunca conheceu. Agora era a vez dele cuidar da mãe querida. Por ela, movia montanhas, desviava rios. Esse era o filho da Sílvia. Passaram juntos por todas as dificuldades e não se deixaram abater. Sílvia nunca se arrependeu de ter tido o filho. Fez a escolha certa para si. Assim tinha de ser!