A misteriosa mensagem do marido
Foi numa manhã apressada, há muitos anos, que tudo começou. Lembro-me como Ana e Ricardo, meus pais, acordaram já com o tempo perdido. O despertador não se fez ouvir, e ambos corriam pelo apartamento em Lisboa, tentando vestir-se e preparar às pressas o meu irmão Zé, para o infantário.
Ricardo, vais buscar o Zé mais logo, pode ser? gritou a minha mãe do quarto, a puxar as calças e a enfiar brinquedos e uma muda de roupa na mochila do miúdo.
Sim! Onde estão as chaves? respondeu o meu pai, nervoso.
Não sei! disparou ela, a remexer nas gavetas da entrada à procura do telemóvel. Quando finalmente o encontrou, calçou o casaco no Zé, que continuava a brincar com os carrinhos, alheio ao caos à sua volta.
Chegámos ao colégio em menos de cinco minutos. Levava eu Zé pela mão e tentava ajudá-lo a despir-se, mas o fecho do casaco ficou preso claro, tinha de ser ali. Reparei que Zé começava a choramingar.
Mamã, não quero ir para o colégio começou ele a torcer as mãos e enrugar a testa, já com as bochechas vermelhas.
Oh Zé, não faças isso agora Estamos atrasados! a minha mãe revirava os olhos, mas tentava falar baixo, a acalmar o meu irmão. Agachou-se à frente dele, fazendo-lhe festas nos caracóis. Vai ser divertido, vais brincar com os amigos
Nada o fazia mudar de ideias. Ele ficou parado, cada vez mais teimoso. Foi a educadora, Dona Teresa, quem veio à porta já com aquele sorriso de quem sabe muito bem o que se passa e pegou-lhe suavemente na mão.
Vá, não se preocupe, Ana. Deixe-o comigo, daqui a pouco já está contente.
No momento em que a minha mãe se despedia, o alívio durou pouco. O stress da correria voltou a apertar. Olhou para o relógio.
Santo Deus, estou mesmo muito atrasada murmurou já a sair. Decidiu telefonar à cliente para avisar do atraso, enfiou a mão na carteira, agarrou o telemóvel, mas não reconheceu a capa. E, de repente, percebeu: Tinham trocado os telemóveis, ela e o Ricardo, naquela azáfama! Malditas capas iguais, malditos códigos iguais.
Que maravilha resmungou ela, bufando, sem saber como contactar a cliente. Resolveu ligar ao Ricardo do próprio telefone e pedir que lhe enviasse o número.
Enquanto pensava no que fazer, o telemóvel vibrou, e surgiu uma mensagem no ecrã. Ana espreitou:
Tiago: «Então, como foi com aquela miúda do ginásio? Ela deu-te o número?»
A minha mãe ficou parada. Leu e releu a mensagem. Depois, como num nevoeiro, abriu a conversa e continuou a ler.
Tiago: «Então, já ganhaste a confiança dela?»
Ricardo: «Sim, já deu. Combinámos para este fim-de-semana. Vai ser em minha casa.»
O peito de Ana apertou-se, quase a sufocá-la. Este fim-de-semana? Ela já tinha dito que ia levar o Zé para dormir em casa da avó
Meu Deus sussurrou, perdida no próprio desgosto. Maldita mania das capas iguais
Foi-lhe custoso manter a atitude de sempre, como se nada soubesse. Cada dia, cada olhar para o Ricardo era uma tortura. Faltavam ainda três dias para sábado, mas Ana já se debatia com dúvidas insondáveis. Quis convencer-se de que era tudo um erro, talvez mal interpretado. Mas, a cada vez que o encarava, ecoava-lhe na cabeça: «Este fim-de-semana. Em minha casa».
Ele, ao que parecia, nem desconfiava. O mesmo homem atencioso, carinhoso, sempre disposto a ajudar. Perguntava-lhe sobre o trabalho, ajudava a arrumar a casa, punha o Zé a dormir. Ela examinava-lhe os olhos, em busca de uma pista, de uma sombra de culpa. Nada. E isso assustava-a ainda mais.
Na quarta-feira à noite, estavam a ver um filme juntos. Ricardo passou-lhe o braço pelos ombros, como sempre fazia. Ana teve de morder os lábios para não chorar. Sentir-se-ia segura naquele abraço? Agora, tudo lhe parecia falso, como se ele escondesse um segredo.
Sexta-feira, depois de deitarem o Zé, Ana ficou junto ao lava-loiça, a brincar com a água, absorta. Ricardo veio por trás, abraçou-a e sussurrou:
Estás triste. Se passa alguma coisa?
Ela enregelou.
Não, estou só cansada, tentou sorrir.
Compreendo, disse ele, beijando-a com ternura na cabeça.
Nessa noite, quando todos dormiam, Ana levantou-se em silêncio, recolheu-se na casa de banho e fechou a porta à chave. Ligou a água, sentou-se na beira da banheira e, ali, todos os sentimentos vieram ao de cima.
Porquê? chorava baixinho. Porquê isto?
Repetiu a pergunta, sem resposta. O pensamento andava perdido.
Que deveria fazer? Confrontá-lo? Sair de casa? Como lhe contar aquilo? O coração palpitava de dor, a cabeça era só confusão de medo, mágoa e um laivo de esperança de que tudo acabasse por não passar de um engano.
Mas havia algo que ela sabia com clareza: amanhã teria de manter as aparências. O sábado seria o dia em que, talvez, a verdade viesse ao de cima.
No sábado, deixou o Zé na casa da mãe, em Almada. O caminho ficou-lhe preso nos ossos. Bastou à avó olhar-lhe nos olhos para perceber.
Está tudo bem, filha? perguntou, com preocupação.
Ana esboçou um sorriso que não lhe era próprio, distraído:
Sim, mãe, está tudo bem. Só estou com pressa Quero surpreender o Ricardo. Despachou-se a dar um beijo ao Zé e saiu, sem sequer olhar para trás.
No carro, tremia quase incontrolavelmente. As perguntas voavam-lhe pela cabeça: e se ele só ia mesmo ter com um amigo? E se afinal estivera a imaginar tudo? Ou será que?
Sentia-se dividida queria apanhá-lo em flagrante e, ao mesmo tempo, que tudo não passasse de um erro absurdo. Ansiava fechar os olhos, esquecer tudo e voltar a acreditar na família de sempre.
Chegou ao prédio e ficou sentada no carro. Lembrou-se das noites em casa, dos sorrisos à mesa, do Zé a correr pelo jardim do Príncipe Real. Tantos momentos felizes Agora, sentia que prolongar mais um segundo ali estacionada era adiar o fim da felicidade.
Juntou coragem, subiu, parou à porta com a chave a tremer na mão. Lenta, abriu, como se não quisesse entrar na realidade que a aguardava. Notou a casa às escuras, apenas a luz amarela da cozinha acesa. Ouviu murmúrios, risos abafados.
«É ele», pensou. «Já aconteceu.»
A cabeça rodava, o peito batia descompassado. Caminhou pelo corredor quase sem sentir o chão. Cada passo custava-lhe a vida. Chegou perto da cozinha.
Ricardo? sussurrou, mas a própria voz soou-lhe estranha.
Mais alto:
Ricardo?!
Sem resposta, avançou. Viu dois: um homem e uma rapariga. O homem não era o marido. Era Tiago, o melhor amigo de Ricardo. Ana ficou imóvel. Tiago virou-se, assustado ao vê-la.
Ana! Não é nada disso, calma Eu Ana! Sabes bem como é lá em casa! Não ia levar ninguém para a casa da minha mãe desdobrava-se em desculpas.
Ela já não o ouvia, só olhava, sem conseguir perceber o tom de voz. Sentia as lágrimas a escorrer, mas ao mesmo tempo, surpreendeu-se com um sorriso.
Já entendi, Tiago disse num tom abafado, incapaz de controlar o que sentia. Eu vou-me embora.
Saiu, fechando a porta atrás de si. O ar fresco cortou-lhe a face. Pegou no telemóvel com as mãos a tremer e ligou ao marido.
Olá a voz a sair trémula, sem saber como começar. No fim, só lhe saiu um desabafo tolo:
Amo-te tanto, Ricardo Amo-te mesmo
Entre soluços e um riso nervoso e parvo, Ana tentava explicar-se, mas mal conseguia articular. As dúvidas e o medo caíram-lhe do peito.
Estive agora em casa Estava o Tiago
Já percebi Desculpa, não fiques chateada. Estou no escritório, vem ter comigo, pode ser? Não te zangues comigo, Ana Conheces o Tiago. Vens?
Já vou
Correu para o carro, desejosa de se aninhar nos braços dele.
Estavam os dois sentados no chão da sala de reuniões do escritório, entre caixotes e dossiers, com uma garrafa de vinho do Dão à frente. Ana encostou-se ao ombro do Ricardo, a rodar com lentidão o copo nas mãos.
Desculpa, não foi minha intenção espreitar as tuas mensagens. Nunca pensei fazê-lo confessou.
Quem tem de pedir desculpa sou eu, deixei-me apanhar nesta trapalhada. Devia-te ter contado logo tudo.
Porquê aquele pedido dele? perguntou baixinho.
Porque é meu amigo. Porque um dia antes dele conhecer a tal rapariga, fez figura de urso.
O quê?
Esbarrou nela no ginásio e atirou-lhe uma lata de refrigerante em cima Manchou-lhe o fato branco Ficou todo embaraçado, e depois voltou a ser aquele puto de catorze anos. Não consigo! Tenho vergonha! Ricardo, ajuda-me, por favor!
Ricardo imitou o amigo, e Ana soltou uma risada.
É o meu grande amigo, tenho pena dele. No fim, arranjei o número dela, fiz-lhe boa figura, ajudei-o
Mas porquê trazer a rapariga para nossa casa? Podiam ir para um hotel
E não te lembras porque ele ainda vive com a mãe?
Para não pagar renda e a mãe faz-lhe os croquetes, passa, lava e dobra-lhe as meias
Exacto Ricardo lançou-lhe um olhar especial.
Ele é um mãos-de-vaca! Ana riu-se.
Somos amigos há vinte anos, desde a primária. Julgo que sou dos poucos a quem ele mostra essa faceta.
Pois És mesmo amigo, Ricardo! Dou-te os parabéns!
Passou-lhe a mão pelos cabelos e ficou a abanar a cabeça.
Mas olha, se eles ainda lá estiverem em casa? Não vamos dormir aqui no escritório Eu não quero voltar já para lá. Deixa-os limpar tudo.
Ricardo beijou-a.
Não sou mãos-de-vaca como ele. E esta noite merecemos um pouco de romance.
Mesmo?! Vamos para um hotel?
Ele assentiu, depois levantou-se de rompante e pegou nela ao colo. Ana soltou uma gargalhada, fingiu espernear, mas o marido segurava-a firme.
Levo-te sã e salva!
Ana ria-se, sem acreditar que há poucas horas sentira que a vida desabava E afinal, tudo era apenas uma estrela cadente numa longa noite portuguesa.







