Ontem eu pedi demissão. Sem aviso prévio. Sem carta formal. Simplesmente deixei o bolo em cima da mesa, peguei a mala e saí da casa da minha filha. A minha “empregadora” era a minha própria filha — Cátia. E o salário, durante todos esses anos, achei que era amor. Mas ontem percebi: na economia da nossa família, o meu amor vale menos do que um tablet novinho. Chamo-me Ana. Tenho 64 anos. Sou oficialmente reformada, ex-enfermeira, vivo com uma pensão pequena nos arredores de Lisboa. Na prática — sou motorista, cozinheira, empregada de limpeza, professora particular, psicóloga e “SOS” para os meus dois netos: Miguel (9 anos) e Duarte (7 anos). Sou aquilo a que chamam de “aldeia”. Lembram-se? “É preciso uma aldeia para educar uma criança”? Hoje em dia, essa “aldeia” costuma ser uma avó exausta, que vive a café, valeriana e analgésicos. Cátia trabalha em marketing. O marido dela, Rui, na área de finanças. São boas pessoas. Pelo menos, é nisso que sempre quis acreditar. Estão sempre cansados. Sempre a correr contra o tempo. Creche — caro. Escola — complicado. Atividades extracurriculares — pior ainda. Quando o Miguel nasceu, olharam para mim como náufragos a pedir salvação. — Mãe, não conseguimos pagar uma ama, — disse Cátia a chorar. — E não confiamos em estranhos. Só em ti. E eu aceitei. Porque não queria ser um peso. Queria ser um apoio. Começo o dia às 5h45. Vou até à casa deles. Faço papas — não de pacote, mas “normais”, porque o Duarte nem cheira as instantâneas. Arranjo os miúdos. Levo-os à escola. Volto e limpo chão que não sujei, casa-de-banho que não utilizei. Depois é escola outra vez, atividades, inglês, futebol, trabalhos de casa. Sou a avó das regras. A avó do “não”. A avó do horário. E do outro lado há a Helena. Helena é mãe do Rui. Vive num condomínio moderno, junto ao mar. Lifting, carro novo, viagens. Vê os netos duas vezes por ano. Helena não sabe que o Miguel tem alergias. Nem faz ideia de como acalmar o Duarte numa crise de matemática. Nunca limpou vómito do banco de trás. Helena é a avó “sim”. Ontem o Miguel fez nove anos. Preparei-me durante semanas. Dinheiro tinha pouco, mas queria dar um presente verdadeiro. Durante três meses tricotei um cobertor pesado — porque ele dorme mal. Escolhi as cores que ele mais gosta. E fiz um bolo de verdade — nada de misturas prontas. Às 16h15 tocaram à porta. Helena entrou como um furacão — perfume, cabelo impecável, sacos. — Onde estão os meus meninos?! Os netos quase me empurraram para chegar até ela. — Avó! Ela sentou-se no sofá e tirou um saco com logotipo de tecnologia. — Não sabia o que vocês gostavam, então trouxe o mais moderno, — afirmou ela. Dois tablets topo de gama. — Sem restrições, — piscou-lhe o olho. — Hoje mando eu! Os miúdos ficaram em êxtase. Esqueceram o bolo. Esqueceram os convidados. Cátia e Rui radiantes. — Ó mãe, não precisavas assim… — disse Rui ao servir-lhe vinho. — Eles ficam mal habituados. Eu fiquei ali, com o cobertor na mão. — Miguel… também te fiz um presente… e o bolo já está pronto… Nem olhou para mim. — Agora não, avó. Estou numa fase difícil do jogo. — Passei o inverno a fazer isto… Suspiro: — Tais presentes ninguém quer, avó. A Helena deu-nos tablets. Porque é que és sempre tão aborrecida? Só trazes comida e roupa. Olhei para a Cátia, à espera que ela dissesse algo. Cátia riu sem jeito: — Ó mãe, não te zangues. Ele é criança. O tablet é mais apelativo. A Helena é “avó divertida”. Tu és… bem… és a do dia-a-dia. Avó do dia-a-dia. Como o prato de cada refeição. O trânsito de todos os dias. Precisa-se — mas não se nota. — Queria que a Helena vivesse aqui, — disse o Duarte. — Ela nunca obriga a fazer trabalhos de casa. E senti que algo dentro de mim partiu. Dobrei o cobertor. Pousei-o na mesa. Tirei o avental. — Cátia. Chegou. — O quê? Vais cortar o bolo? — Não. Chegou o fim. Peguei na mala. — Não sou um eletrodoméstico que se pode desligar. Sou tua mãe. — Mãe, para onde vais?! — gritou ela. — Amanhã tenho reunião! Quem vai buscar os miúdos? — Não sei — disse eu. — Talvez vendam um tablet. Ou deixem a “avó divertida” ficar. — Mãe, precisamos de ti! Parei. — Esse é o problema. Precisam. Mas não veem. Saí. Hoje acordei às nove. Fiz café. Fiquei na varanda. E pela primeira vez há anos não senti dores nas costas. Adoro os meus netos. Mas não vou viver mais como empregada gratuita, debaixo do rótulo “família”. Amor não é autodestruição. E avó não é recurso. Quem quer avó das regras, que respeite as regras. Por enquanto… Talvez me inscreva em danças de salão. Dizem que aí vão as “avós divertidas”.

Ontem despedi-me.
Sem carta. Sem aviso prévio de duas semanas.
Simplesmente deixei um prato de bolo em cima da mesa, peguei na minha mala e saí da casa da minha filha.

A minha patroa era a minha própria filha Filipa.
E o salário, ou o que eu pensei durante todos estes anos, era amor.
Mas ontem percebi: na economia da nossa família, o meu amor não vale nada ao lado de um tablet novo.

Chamo-me Maria. Tenho 64 anos.
Legalmente sou reformada, antiga enfermeira, vivo com uma pensão modesta numa vila perto de Lisboa.
Só que na prática sou motorista, cozinheira, empregada doméstica, professora particular, psicóloga e primeiros socorros de dois netos: Vasco (9 anos) e Rafael (7 anos).
Sou aquilo a que se chama mãe de aldeia.
Sabes aquela expressão antiga: É preciso uma aldeia para criar uma criança?
Hoje em dia, essa aldeia normalmente é só uma avó exausta, carburada a bicas, chá de cidreira e comprimidos para as dores.

A Filipa trabalha com publicidade.
O marido dela, Rui, é gestor bancário.
São boas pessoas, ou pelo menos eu repetia isso a mim própria.
Andam sempre a correr, sempre apressados. O ATL é caro, a escola é um stress, as atividades são ainda mais complicadas. Quando o Vasco nasceu, olharam para mim como náufragos agarrados a uma bóia.
Mãe, não conseguimos pagar uma ama disse a Filipa, com os olhos cheios de lágrimas e não confiamos em estranhos. Só em ti.
E eu aceitei.
Porque não queria ser um peso.
Por isso virei suporte.

O meu dia começa às 5h45.
Vou para casa deles. Faço papa não qualquer uma, mas a certa, porque o Rafael não gosta de instantâneas. Arranjo os miúdos, levo-os à escola. Volto e limpo o chão, que nem sujei, e o WC, que nem usei. Depois é escola outra vez, atividades, inglês, futebol, trabalhos de casa.
Sou avó de horários.
Avó do não.
Avó das regras.

Depois existe a Augusta.
A Augusta é mãe do Rui.
Vive num apartamento novo junto à praia na Ericeira. Tem lifting, carro novo, está sempre em viagens.
Vê os netos duas vezes por ano.
Não faz ideia de que Vasco tem alergias.
Não sabe acalmar o Rafael durante um ataque por causa da matemática.
Nunca lavou vómito do banco do carro.
A Augusta é avó do sim.

Ontem o Vasco fez nove anos.
Preparei-me durante semanas. O dinheiro é pouco, mas queria dar-lhe algo verdadeiro.
Durante três meses tricotei-lhe um cobertor pesado, porque ele dorme mal. Escolhi as cores favoritas dele. Pedi-lhe tudo o que tinha.
E fiz um bolo de verdade não desses de mistura instantânea.

Às 16h15 tocaram à campainha.
A Augusta entrou como uma ventania perfume, cabelo impecável, sacos nas mãos.
Onde estão os meus príncipes?!
Os miúdos quase me atropelaram para correr para ela.
Avó!
A Augusta sentou-se no sofá e tirou um pacote com logotipo.
Não sabia o que vocês gostavam, então trouxe o mais recente e sacou dois tablets de última geração.
Sem restrições piscou o olho Hoje mando eu!
Os rapazes ficaram em êxtase. Esqueceram o bolo. Esqueceram os convidados.

A Filipa e o Rui brilhavam de felicidade.
Ó mãe, para quê tudo isso disse o Rui, enquanto lhe servia vinho. Estragas-lhes com tantos mimos.
Fiquei de pé, com o cobertor nas mãos.
Vasquinho eu também tenho uma prenda e o bolo está pronto
Ele nem levantou a cabeça.
Agora não, avó. Estou a passar um nível.
Passei o inverno todo a tricotar isto
Ele suspirou:
Avó, ninguém quer cobertores. A Augusta deu-nos tablets. Porque é que és sempre aborrecida? Só trazes comida e roupa.

Olhei para a minha filha.
Esperei que ela dissesse qualquer coisa.
A Filipa riu-se, meio envergonhada:
Oh mãe, não leves a mal. Ele é só uma criança. Claro que o tablet é mais giro. A Augusta é a avó divertida. Tu bem tu és a do dia a dia.

Avó do quotidiano.
Como a loiça do quotidiano. O trânsito do quotidiano. Essencial, mas que ninguém repara.
Eu queria que a Augusta morasse aqui disse o Rafael. Ela nunca manda fazer os trabalhos de casa.

Naquele momento, qualquer coisa partiu-se cá dentro.
Dobrei o cobertor.
Deixei-o na mesa. Tirei o avental.

Filipa, terminei.
Terminas quê? Vais cortar o bolo?
Não. Terminei mesmo.
Peguei na mala.
Eu não sou uma máquina que se pode desligar. Sou tua mãe.
Mãe, onde é que vais?! gritou ela Amanhã tenho apresentação! Quem vai buscar os miúdos?
Não sei respondi. Se calhar vendem um dos tablets. Ou ficam com a avó divertida.
Mãe, precisamos de ti!
Parei.
Esse é o problema. Precisam, mas não veem.

Saí.
Hoje acordei às nove,
Fiz café. Fiquei na varanda a apanhar ar.
E pela primeira vez em muitos anos não me doíam as costas.
Adoro os meus netos,
Mas nunca mais vou ser criada gratuita disfarçada de família.
O amor não é anulação.
E ser avó, não é ser recurso.
Se querem avó do regime respeitem o regime.
Por agora…
Acho que me vou inscrever nas aulas de dança.
Dizem que as avós divertidas fazem isso.

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Ontem eu pedi demissão. Sem aviso prévio. Sem carta formal. Simplesmente deixei o bolo em cima da mesa, peguei a mala e saí da casa da minha filha. A minha “empregadora” era a minha própria filha — Cátia. E o salário, durante todos esses anos, achei que era amor. Mas ontem percebi: na economia da nossa família, o meu amor vale menos do que um tablet novinho. Chamo-me Ana. Tenho 64 anos. Sou oficialmente reformada, ex-enfermeira, vivo com uma pensão pequena nos arredores de Lisboa. Na prática — sou motorista, cozinheira, empregada de limpeza, professora particular, psicóloga e “SOS” para os meus dois netos: Miguel (9 anos) e Duarte (7 anos). Sou aquilo a que chamam de “aldeia”. Lembram-se? “É preciso uma aldeia para educar uma criança”? Hoje em dia, essa “aldeia” costuma ser uma avó exausta, que vive a café, valeriana e analgésicos. Cátia trabalha em marketing. O marido dela, Rui, na área de finanças. São boas pessoas. Pelo menos, é nisso que sempre quis acreditar. Estão sempre cansados. Sempre a correr contra o tempo. Creche — caro. Escola — complicado. Atividades extracurriculares — pior ainda. Quando o Miguel nasceu, olharam para mim como náufragos a pedir salvação. — Mãe, não conseguimos pagar uma ama, — disse Cátia a chorar. — E não confiamos em estranhos. Só em ti. E eu aceitei. Porque não queria ser um peso. Queria ser um apoio. Começo o dia às 5h45. Vou até à casa deles. Faço papas — não de pacote, mas “normais”, porque o Duarte nem cheira as instantâneas. Arranjo os miúdos. Levo-os à escola. Volto e limpo chão que não sujei, casa-de-banho que não utilizei. Depois é escola outra vez, atividades, inglês, futebol, trabalhos de casa. Sou a avó das regras. A avó do “não”. A avó do horário. E do outro lado há a Helena. Helena é mãe do Rui. Vive num condomínio moderno, junto ao mar. Lifting, carro novo, viagens. Vê os netos duas vezes por ano. Helena não sabe que o Miguel tem alergias. Nem faz ideia de como acalmar o Duarte numa crise de matemática. Nunca limpou vómito do banco de trás. Helena é a avó “sim”. Ontem o Miguel fez nove anos. Preparei-me durante semanas. Dinheiro tinha pouco, mas queria dar um presente verdadeiro. Durante três meses tricotei um cobertor pesado — porque ele dorme mal. Escolhi as cores que ele mais gosta. E fiz um bolo de verdade — nada de misturas prontas. Às 16h15 tocaram à porta. Helena entrou como um furacão — perfume, cabelo impecável, sacos. — Onde estão os meus meninos?! Os netos quase me empurraram para chegar até ela. — Avó! Ela sentou-se no sofá e tirou um saco com logotipo de tecnologia. — Não sabia o que vocês gostavam, então trouxe o mais moderno, — afirmou ela. Dois tablets topo de gama. — Sem restrições, — piscou-lhe o olho. — Hoje mando eu! Os miúdos ficaram em êxtase. Esqueceram o bolo. Esqueceram os convidados. Cátia e Rui radiantes. — Ó mãe, não precisavas assim… — disse Rui ao servir-lhe vinho. — Eles ficam mal habituados. Eu fiquei ali, com o cobertor na mão. — Miguel… também te fiz um presente… e o bolo já está pronto… Nem olhou para mim. — Agora não, avó. Estou numa fase difícil do jogo. — Passei o inverno a fazer isto… Suspiro: — Tais presentes ninguém quer, avó. A Helena deu-nos tablets. Porque é que és sempre tão aborrecida? Só trazes comida e roupa. Olhei para a Cátia, à espera que ela dissesse algo. Cátia riu sem jeito: — Ó mãe, não te zangues. Ele é criança. O tablet é mais apelativo. A Helena é “avó divertida”. Tu és… bem… és a do dia-a-dia. Avó do dia-a-dia. Como o prato de cada refeição. O trânsito de todos os dias. Precisa-se — mas não se nota. — Queria que a Helena vivesse aqui, — disse o Duarte. — Ela nunca obriga a fazer trabalhos de casa. E senti que algo dentro de mim partiu. Dobrei o cobertor. Pousei-o na mesa. Tirei o avental. — Cátia. Chegou. — O quê? Vais cortar o bolo? — Não. Chegou o fim. Peguei na mala. — Não sou um eletrodoméstico que se pode desligar. Sou tua mãe. — Mãe, para onde vais?! — gritou ela. — Amanhã tenho reunião! Quem vai buscar os miúdos? — Não sei — disse eu. — Talvez vendam um tablet. Ou deixem a “avó divertida” ficar. — Mãe, precisamos de ti! Parei. — Esse é o problema. Precisam. Mas não veem. Saí. Hoje acordei às nove. Fiz café. Fiquei na varanda. E pela primeira vez há anos não senti dores nas costas. Adoro os meus netos. Mas não vou viver mais como empregada gratuita, debaixo do rótulo “família”. Amor não é autodestruição. E avó não é recurso. Quem quer avó das regras, que respeite as regras. Por enquanto… Talvez me inscreva em danças de salão. Dizem que aí vão as “avós divertidas”.
Os pais do meu marido são pessoas ricas, com dois apartamentos desocupados. Sugeri delicadamente que precisaríamos de ajuda financeira para comprar um apartamento, e a reação deles deixou-me surpreendida.