Ontem despedi-me.
Sem carta. Sem aviso prévio de duas semanas.
Simplesmente deixei um prato de bolo em cima da mesa, peguei na minha mala e saí da casa da minha filha.
A minha patroa era a minha própria filha Filipa.
E o salário, ou o que eu pensei durante todos estes anos, era amor.
Mas ontem percebi: na economia da nossa família, o meu amor não vale nada ao lado de um tablet novo.
Chamo-me Maria. Tenho 64 anos.
Legalmente sou reformada, antiga enfermeira, vivo com uma pensão modesta numa vila perto de Lisboa.
Só que na prática sou motorista, cozinheira, empregada doméstica, professora particular, psicóloga e primeiros socorros de dois netos: Vasco (9 anos) e Rafael (7 anos).
Sou aquilo a que se chama mãe de aldeia.
Sabes aquela expressão antiga: É preciso uma aldeia para criar uma criança?
Hoje em dia, essa aldeia normalmente é só uma avó exausta, carburada a bicas, chá de cidreira e comprimidos para as dores.
A Filipa trabalha com publicidade.
O marido dela, Rui, é gestor bancário.
São boas pessoas, ou pelo menos eu repetia isso a mim própria.
Andam sempre a correr, sempre apressados. O ATL é caro, a escola é um stress, as atividades são ainda mais complicadas. Quando o Vasco nasceu, olharam para mim como náufragos agarrados a uma bóia.
Mãe, não conseguimos pagar uma ama disse a Filipa, com os olhos cheios de lágrimas e não confiamos em estranhos. Só em ti.
E eu aceitei.
Porque não queria ser um peso.
Por isso virei suporte.
O meu dia começa às 5h45.
Vou para casa deles. Faço papa não qualquer uma, mas a certa, porque o Rafael não gosta de instantâneas. Arranjo os miúdos, levo-os à escola. Volto e limpo o chão, que nem sujei, e o WC, que nem usei. Depois é escola outra vez, atividades, inglês, futebol, trabalhos de casa.
Sou avó de horários.
Avó do não.
Avó das regras.
Depois existe a Augusta.
A Augusta é mãe do Rui.
Vive num apartamento novo junto à praia na Ericeira. Tem lifting, carro novo, está sempre em viagens.
Vê os netos duas vezes por ano.
Não faz ideia de que Vasco tem alergias.
Não sabe acalmar o Rafael durante um ataque por causa da matemática.
Nunca lavou vómito do banco do carro.
A Augusta é avó do sim.
Ontem o Vasco fez nove anos.
Preparei-me durante semanas. O dinheiro é pouco, mas queria dar-lhe algo verdadeiro.
Durante três meses tricotei-lhe um cobertor pesado, porque ele dorme mal. Escolhi as cores favoritas dele. Pedi-lhe tudo o que tinha.
E fiz um bolo de verdade não desses de mistura instantânea.
Às 16h15 tocaram à campainha.
A Augusta entrou como uma ventania perfume, cabelo impecável, sacos nas mãos.
Onde estão os meus príncipes?!
Os miúdos quase me atropelaram para correr para ela.
Avó!
A Augusta sentou-se no sofá e tirou um pacote com logotipo.
Não sabia o que vocês gostavam, então trouxe o mais recente e sacou dois tablets de última geração.
Sem restrições piscou o olho Hoje mando eu!
Os rapazes ficaram em êxtase. Esqueceram o bolo. Esqueceram os convidados.
A Filipa e o Rui brilhavam de felicidade.
Ó mãe, para quê tudo isso disse o Rui, enquanto lhe servia vinho. Estragas-lhes com tantos mimos.
Fiquei de pé, com o cobertor nas mãos.
Vasquinho eu também tenho uma prenda e o bolo está pronto
Ele nem levantou a cabeça.
Agora não, avó. Estou a passar um nível.
Passei o inverno todo a tricotar isto
Ele suspirou:
Avó, ninguém quer cobertores. A Augusta deu-nos tablets. Porque é que és sempre aborrecida? Só trazes comida e roupa.
Olhei para a minha filha.
Esperei que ela dissesse qualquer coisa.
A Filipa riu-se, meio envergonhada:
Oh mãe, não leves a mal. Ele é só uma criança. Claro que o tablet é mais giro. A Augusta é a avó divertida. Tu bem tu és a do dia a dia.
Avó do quotidiano.
Como a loiça do quotidiano. O trânsito do quotidiano. Essencial, mas que ninguém repara.
Eu queria que a Augusta morasse aqui disse o Rafael. Ela nunca manda fazer os trabalhos de casa.
Naquele momento, qualquer coisa partiu-se cá dentro.
Dobrei o cobertor.
Deixei-o na mesa. Tirei o avental.
Filipa, terminei.
Terminas quê? Vais cortar o bolo?
Não. Terminei mesmo.
Peguei na mala.
Eu não sou uma máquina que se pode desligar. Sou tua mãe.
Mãe, onde é que vais?! gritou ela Amanhã tenho apresentação! Quem vai buscar os miúdos?
Não sei respondi. Se calhar vendem um dos tablets. Ou ficam com a avó divertida.
Mãe, precisamos de ti!
Parei.
Esse é o problema. Precisam, mas não veem.
Saí.
Hoje acordei às nove,
Fiz café. Fiquei na varanda a apanhar ar.
E pela primeira vez em muitos anos não me doíam as costas.
Adoro os meus netos,
Mas nunca mais vou ser criada gratuita disfarçada de família.
O amor não é anulação.
E ser avó, não é ser recurso.
Se querem avó do regime respeitem o regime.
Por agora…
Acho que me vou inscrever nas aulas de dança.
Dizem que as avós divertidas fazem isso.







