NUNCA CONSEGUI AMAR — Meninas, confessem, qual de vocês é a Lídia? — a jovem olhou para mim e minha amiga com um sorriso matreiro e um olhar curioso. — Eu sou a Lídia. Porquê? — respondi, surpreendida. — Aqui está uma carta para ti, Lídia. É do Vítor. — A desconhecida tirou um envelope amarrotado do bolso do avental e entregou-mo. — Do Vítor? E onde está ele? — perguntei, intrigada. — Foi transferido para o lar de adultos. Esperou por ti como por um milagre. Ficava sempre colado à janela. Esta carta pediu-me para rever os erros, queria mostrar-se impecável para ti. Bem, está na hora do almoço. Sou educadora cá, — disse com um suspiro, olhando para mim com reprovação, e apressou-se a sair. …Num dia de verão, eu e a minha amiga Sofia, passeando, demos por acaso com o recinto de um lar desconhecido. Tínhamos dezasseis anos, e as férias de verão pediam aventura. Sentámo-nos num banco confortável, conversando e rindo, até que dois rapazes se aproximaram sem darmos conta. — Olá, meninas! Estão aborrecidas? Podemos conhecer-nos? — disse o rapaz estendendo-me a mão. — Vítor. Respondi: — Lídia. E esta é a minha amiga Sofia. E o teu amigo, como se chama? — Leonel, — murmurou o segundo rapaz. Achámo-los fora de moda, demasiado certinhos. Vítor, sério e direto, disse: — Meninas, porquê essas saias tão curtas? E o decote da Sofia é mesmo ousado. — Rapazes, não façam perguntas perigosas, senão arriscam-se a ficarem com os olhares “desorientados” — rimos eu e Sofia. — Difícil não olhar. Somos homens, não é? Vocês também fumam? — continuou Vítor, inquisitivo. — Claro, mas só para brincar, — gracejámos, divertidas. Só então reparei nas dificuldades que os rapazes tinham ao andar — Vítor mal conseguia mover-se, Leonel coxeava nitidamente. — Estão cá a receber tratamento? — arrisquei. — Sim. Sofri um acidente de mota. O Leonel teve azar ao saltar para a água. — Vítor recitou como quem já tinha dito aquilo mil vezes. — Brevemente temos alta. Eu e Sofia acreditámos na história de “azar”. Não sabíamos que eram portadores de deficiência desde a infância, e que viviam há muito num internato. Para eles, éramos o sopro de liberdade que faltava. Viviam e estudavam num lar afastado dos olhos alheios. Cada qual tinha uma versão inventada: acidente, queda, briga… histórias para esconder a verdade. Vítor e Leonel eram, afinal, rapazes inteligentes e maduros. Eu e Sofia começámos a visitá-los semanalmente, por pena, mas também por interesse: havia muito a aprender com eles. As visitas tornaram-se rotina — Vítor oferecia-me flores apanhadas do jardim; Leonel trazia origamis feitos por ele, entregues timidamente à Sofia. Sentávamo-nos todos no mesmo banco: Vítor ao meu lado, Leonel virado para Sofia, atento só a ela. Ela corava, algo embaraçada, mas era notório que se sentia bem com a companhia de Leonel. Conversávamos sobre tudo e nada. O verão passou num ápice, quente e doce. E chegou o outono chuvoso. As aulas recomeçaram; era o nosso último ano. Rapidamente esquecemos os nossos amigos Vítor e Leonel. …Vieram os exames, o último toque da campainha, o baile de finalistas. E, finalmente, as férias de verão aguardadas. Eu e Sofia decidimos visitar o internato de novo. Sentámo-nos no mesmo banco, à espera dos rapazes. Vítor com flores, Leonel com origami… Em vão, esperámos duas horas. De repente, uma jovem surgiu à porta do lar e veio direta a nós. Entregou-me a carta do Vítor, que abri de imediato: “Minha querida Lídia! És a minha flor perfumada, minha estrela inalcançável! Talvez não tenhas notado — apaixonei-me por ti desde o primeiro olhar. Os nossos encontros eram o meu sopro de vida. Há meio ano que te espero inutilmente à janela. Esqueceste-me. Que pena! O nosso caminho separa-se, mas agradeço-te por me mostrares o que é amar de verdade. Guardo na memória a tua voz suave, o sorriso encantador, as mãos ternas… Sinto-me perdido sem ti, Lídia! Só queria ver-te mais uma vez, respirar — mas já não consigo… Fiz os dezoito anos, tal como o Leonel, e vamos ser transferidos para outro internato na primavera. Duvido que nos voltemos a encontrar. O meu coração está despedaçado! Espero recuperar e curar esta dor… Adeus, minha querida!” Assinado: “para sempre teu, Vítor.” Dentro do envelope, um ramo seco. Senti uma vergonha imensa, e o coração apertou-se com a impossibilidade de alterar o passado. Recordei a frase — “somos responsáveis por aqueles que cativamos.” Nunca suspeitei das emoções intensas do Vítor, mas de mim ele nunca teria a mesma resposta. O que sentia por ele era amizade, curiosidade pela sua sabedoria — nada de paixão. Talvez até tivesse brincado com ele, alimentando o fogo da sua admiração, mas jamais imaginei que o meu flirt fosse provocar um incêndio no coração do Vítor. …Desde então, muitos anos passaram. A carta de Vítor amareleceu, a flor virou pó. Mas nunca esqueci os encontros inocentes, as conversas despreocupadas, as gargalhadas com as piadas dele. …A história teve continuação. A Sofia emocionou-se com o destino de Leonel, rejeitado pelos pais por ser “diferente”. Licenciou-se em educação especial e trabalha num lar de infância. Leonel tornou-se seu marido, têm dois filhos adultos. Quanto ao Vítor, segundo Leonel, viveu sozinho. Aos quarenta anos, a mãe veio buscá-lo ao internato, chorou pela ausência, devolveu-lhe o amor esquecido e levou-o para a aldeia. Depois, perdeu-se o rasto…

NÃO CONSEGUI AMAR

Meninas, confessem, qual de vocês é Mafalda? disse a jovem, olhando para mim e para a minha amiga com um sorriso malicioso.
Eu sou Mafalda. Porquê? perguntei, sem entender.
Toma esta carta, Mafalda. É do António respondeu, puxando do bolso do avental um envelope amarrotado e entregando-me.
Do António? Mas onde está ele? estranhei.
Foi transferido para um lar de adultos. Esperou por ti, Mafalda, como quem espera milagres. Ficou com os olhos consumidos de tanto esperar. E esta carta, pediu-me para ler antes e corrigir os erros; não queria passar vergonha contigo. Bem, tenho que ir, está quase na hora do almoço. Trabalho aqui como educadora. Olhou para mim com uma expressão solidária, suspirou e apressou-se.

… Num dos dias das férias de verão, eu e minha amiga, Matilde, de dezasseis anos, explorando o bairro e querendo aventuras, acabámos por entrar, sem querer, no recinto de uma instituição desconhecida.

Sentámo-nos numa bancada confortável, rindo e conversando. Nem reparámos que dois rapazes se aproximavam.

Olá meninas! Estão aborrecidas? Querem conversar? disse um deles, estendendo-me a mão. António.
Respondi:
Mafalda. E esta é a minha amiga Matilde. E o teu amigo mais calado, como se chama?
Leonel disse o segundo, num fio de voz.

Pareceram-nos rapazes discretos e fora do comum. António, muito sério e direto, comentou:
Meninas, porquê essas saias tão curtas? E Matilde, esse decote é tão ousado
Hmm Rapazes, olhem para o sítio certo, senão os olhos fogem para todo o lado gozámos, entre risos.
É difícil não olhar. Somos homens. Aposto que também fumam insistiu António, sempre moralista.
Claro que fumamos, mas só em festas brincámos.

Só então percebi, junto com Matilde, que havia algo estranho nas pernas deles. António mal conseguia andar, Leonel mancando bastante.

Estão a ser tratados aqui? perguntei.
Sim. Sofri um acidente de mota, Leonel magoou-se a saltar de uma rocha para a água respondeu António, quase automaticamente. Estamos quase de alta.

Acreditámos imediatamente na “história” deles; não sabíamos que António e Leonel eram deficientes desde a infância e viviam naquele lar. Nós éramos, para eles, um sopro de liberdade.

Viviam e estudavam num sítio afastado e protegido do mundo exterior. Cada um ali tinha a sua versão de uma queda, de um acidente misterioso nunca revelavam a verdadeira razão aos estranhos.

António e Leonel eram diferentes, inteligentes, cultos, com uma sabedoria para além da idade.

Eu e Matilde começámos a visitá-los todas as semanas.

Primeiro, a pena e a vontade de animá-los; depois, o simples gosto da conversa. Passaram a fazer parte da nossa rotina.

António oferecia-me flores que colhia dos canteiros por perto. Leonel dedicava tempo ao origami, que entregava com timidez à Matilde. Depois sentávamo-nos os quatro na mesma bancada: António sempre junto a mim e Leonel de costas para nós, concentrando-se em Matilde. Ela ficava corada, embaraçada mas, bem se notava, gostava do jeito discreto de Leonel. Falávamos sobre tudo e sobre nada.

O verão passou, quente e breve. Chegou o outono chuvoso. Acabaram as férias, eu e a Matilde entrámos no último ano do secundário e, com a escola a ocupar-nos, afastámo-nos dos nossos amigos António e Leonel.

Exames feitos, última campainha, baile de finalistas. O verão de esperança começava.

Eu e Matilde voltámos a visitar o lar, queríamos rever os rapazes. Sentámo-nos na bancada onde esperávamos que António e Leonel aparecessem, como antes com flores frescas e bonitos origamis. Esperámos em vão por duas horas.

De repente, uma funcionária correu até nós e entregou-me uma carta de António. Abri o envelope de imediato:

Mafalda querida! És a minha flor perfumada! Minha estrela inalcançável! Talvez não percebas, mas apaixonei-me por ti à primeira vista. As nossas conversas eram a minha respiração. Passei meio ano a olhar da janela, à tua espera. Esqueceste-me. Que pena! Seguimos caminhos diferentes. Mas sou-te grato por ter conhecido o verdadeiro amor. Guardo na memória a tua voz suave, o sorriso cativante, as mãos delicadas. Sinto-me vazio sem ti, Mafaldinha! Queria ver-te mais uma vez! Queria respirar, mas não consigo
Eu e Leonel já fizemos dezoito anos, e esta primavera vamos para outro lar. Não creio que nos voltemos a ver. A minha alma está feita em pedaços! Espero curar-me desta paixão.
Adeus, minha querida!

Assinado: eternamente teu, António.

Dentro do envelope, encontrei uma flor seca.

Fiquei envergonhada, com o peito apertado pelo remorso de nada poder mudar. Lembrei-me do ditado: Somos responsáveis por quem cativamos.

Nunca imaginei a força do sentimento de António. Eu nunca conseguiria corresponder. Não sentia nada tão profundo por ele só amizade e admiração. Admito que brinquei um pouco, o provoquei, sem imaginar que a minha leveza alimentava um fogo tão intenso nele.

… Muitos anos se passaram. A carta de António amareleceu, a flor virou pó. Mas lembro os encontros inocentes, as conversas despreocupadas, e as gargalhadas sem fim que ele causava com as suas piadas.

… Há um final para esta história. Matilde, tocada pela história de Leonel, dedicou-se a ajudar crianças com necessidades especiais, terminando o curso de pedagogia. Hoje trabalha num lar para jovens com deficiência. Leonel tornou-se seu marido. Têm dois filhos já adultos.

Segundo Leonel, António viveu quase sempre sozinho. Quando António fez quarenta anos, a mãe, que o tinha entregue ao lar, apareceu no lar, viu-o, emocionada, chorou muito, recuperou o amor antigo e levou-o para a aldeia dela. Desde então, perdeu-se o rasto…

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NUNCA CONSEGUI AMAR — Meninas, confessem, qual de vocês é a Lídia? — a jovem olhou para mim e minha amiga com um sorriso matreiro e um olhar curioso. — Eu sou a Lídia. Porquê? — respondi, surpreendida. — Aqui está uma carta para ti, Lídia. É do Vítor. — A desconhecida tirou um envelope amarrotado do bolso do avental e entregou-mo. — Do Vítor? E onde está ele? — perguntei, intrigada. — Foi transferido para o lar de adultos. Esperou por ti como por um milagre. Ficava sempre colado à janela. Esta carta pediu-me para rever os erros, queria mostrar-se impecável para ti. Bem, está na hora do almoço. Sou educadora cá, — disse com um suspiro, olhando para mim com reprovação, e apressou-se a sair. …Num dia de verão, eu e a minha amiga Sofia, passeando, demos por acaso com o recinto de um lar desconhecido. Tínhamos dezasseis anos, e as férias de verão pediam aventura. Sentámo-nos num banco confortável, conversando e rindo, até que dois rapazes se aproximaram sem darmos conta. — Olá, meninas! Estão aborrecidas? Podemos conhecer-nos? — disse o rapaz estendendo-me a mão. — Vítor. Respondi: — Lídia. E esta é a minha amiga Sofia. E o teu amigo, como se chama? — Leonel, — murmurou o segundo rapaz. Achámo-los fora de moda, demasiado certinhos. Vítor, sério e direto, disse: — Meninas, porquê essas saias tão curtas? E o decote da Sofia é mesmo ousado. — Rapazes, não façam perguntas perigosas, senão arriscam-se a ficarem com os olhares “desorientados” — rimos eu e Sofia. — Difícil não olhar. Somos homens, não é? Vocês também fumam? — continuou Vítor, inquisitivo. — Claro, mas só para brincar, — gracejámos, divertidas. Só então reparei nas dificuldades que os rapazes tinham ao andar — Vítor mal conseguia mover-se, Leonel coxeava nitidamente. — Estão cá a receber tratamento? — arrisquei. — Sim. Sofri um acidente de mota. O Leonel teve azar ao saltar para a água. — Vítor recitou como quem já tinha dito aquilo mil vezes. — Brevemente temos alta. Eu e Sofia acreditámos na história de “azar”. Não sabíamos que eram portadores de deficiência desde a infância, e que viviam há muito num internato. Para eles, éramos o sopro de liberdade que faltava. Viviam e estudavam num lar afastado dos olhos alheios. Cada qual tinha uma versão inventada: acidente, queda, briga… histórias para esconder a verdade. Vítor e Leonel eram, afinal, rapazes inteligentes e maduros. Eu e Sofia começámos a visitá-los semanalmente, por pena, mas também por interesse: havia muito a aprender com eles. As visitas tornaram-se rotina — Vítor oferecia-me flores apanhadas do jardim; Leonel trazia origamis feitos por ele, entregues timidamente à Sofia. Sentávamo-nos todos no mesmo banco: Vítor ao meu lado, Leonel virado para Sofia, atento só a ela. Ela corava, algo embaraçada, mas era notório que se sentia bem com a companhia de Leonel. Conversávamos sobre tudo e nada. O verão passou num ápice, quente e doce. E chegou o outono chuvoso. As aulas recomeçaram; era o nosso último ano. Rapidamente esquecemos os nossos amigos Vítor e Leonel. …Vieram os exames, o último toque da campainha, o baile de finalistas. E, finalmente, as férias de verão aguardadas. Eu e Sofia decidimos visitar o internato de novo. Sentámo-nos no mesmo banco, à espera dos rapazes. Vítor com flores, Leonel com origami… Em vão, esperámos duas horas. De repente, uma jovem surgiu à porta do lar e veio direta a nós. Entregou-me a carta do Vítor, que abri de imediato: “Minha querida Lídia! És a minha flor perfumada, minha estrela inalcançável! Talvez não tenhas notado — apaixonei-me por ti desde o primeiro olhar. Os nossos encontros eram o meu sopro de vida. Há meio ano que te espero inutilmente à janela. Esqueceste-me. Que pena! O nosso caminho separa-se, mas agradeço-te por me mostrares o que é amar de verdade. Guardo na memória a tua voz suave, o sorriso encantador, as mãos ternas… Sinto-me perdido sem ti, Lídia! Só queria ver-te mais uma vez, respirar — mas já não consigo… Fiz os dezoito anos, tal como o Leonel, e vamos ser transferidos para outro internato na primavera. Duvido que nos voltemos a encontrar. O meu coração está despedaçado! Espero recuperar e curar esta dor… Adeus, minha querida!” Assinado: “para sempre teu, Vítor.” Dentro do envelope, um ramo seco. Senti uma vergonha imensa, e o coração apertou-se com a impossibilidade de alterar o passado. Recordei a frase — “somos responsáveis por aqueles que cativamos.” Nunca suspeitei das emoções intensas do Vítor, mas de mim ele nunca teria a mesma resposta. O que sentia por ele era amizade, curiosidade pela sua sabedoria — nada de paixão. Talvez até tivesse brincado com ele, alimentando o fogo da sua admiração, mas jamais imaginei que o meu flirt fosse provocar um incêndio no coração do Vítor. …Desde então, muitos anos passaram. A carta de Vítor amareleceu, a flor virou pó. Mas nunca esqueci os encontros inocentes, as conversas despreocupadas, as gargalhadas com as piadas dele. …A história teve continuação. A Sofia emocionou-se com o destino de Leonel, rejeitado pelos pais por ser “diferente”. Licenciou-se em educação especial e trabalha num lar de infância. Leonel tornou-se seu marido, têm dois filhos adultos. Quanto ao Vítor, segundo Leonel, viveu sozinho. Aos quarenta anos, a mãe veio buscá-lo ao internato, chorou pela ausência, devolveu-lhe o amor esquecido e levou-o para a aldeia. Depois, perdeu-se o rasto…
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