Ora bem, assim até já se pode respirar melhor, parecia um mausoléu isto antes, juro! ouvi distintamente da cozinha a voz estridente e cheia de satisfação, que reconheci de imediato. Era a Sara, minha nora.
Fiquei parado ali no hall, ainda com os sacos pesados do campo nas mãos. O cheiro das maçãs bravo de Esmolfe misturava-se agora com um aroma agressivo de cera líquida e das tais colónias caras, tão fora do comum aqui em casa. Baixei os olhos, respirei fundo e, como se andasse a passo lento num sonho, pouso as sacas no chão, sentindo um frio estranho subir-me pela espinha. A chave rodara demasiado facilmente, as dobradiças do costume não estalaram.
Olhei em volta. O hall era outro; tinha desaparecido o velho bengaleiro em madeira de castanho maciço, obra do meu falecido pai, Artur. No lugar, uns cabides metálicos banais, dignos de consultório do centro de saúde. E o espelho, o da moldura trabalhada, que sempre me mereceu um último olhar antes de sair, substituído por um vidro sem graça, cortado a régua.
O coração bateu contra o peito, mudo de susto. Entrei na sala e quase que me faltou o ar. Levei a mão à boca por puro reflexo.
A sala estava despida. Quer dizer, não estava vazia, mas tudo o que fazia dela meu abrigo, meu recanto, tinha sumido. Já não via o pesado louceiro de carvalho onde guardava o cristal da Marinha Grande e o serviço Vista Alegre. Também não estavam as estantes cheias de livros, colecionados com carinho ao longo de mais de meio século, nem a minha poltrona junto à janela. Em vez disso, um sofá baixo cinzento, a parecer um tijolo gigante. Um televisão negra ocupava metade da parede. No chão, um tapete branco e peludo, deslocado, como uma nuvem perdida no meio do nada. Paredes, todas pintadas num cinzento hospital.
Ui, D. Amália! surgiu a Sara, de robe curto e chávena na mão. Já chegou? Esperávamos só ao fim do dia Apanhou um comboio daqueles mais rápidos?
A seguir apareceu o Miguel, o meu filho, olhos no chão, roupa desalinhada, silencioso como sempre.
Onde? foi só o que consegui balbuciar, gesticulando pela sala. Onde está tudo?
Ah, a senhora diz do traste velho, não é? Fizemos-lhe uma surpresa! Remodelação! Enquanto aí andava a semear batatas, pusemos isto com outro ar. Veja como ficou iluminado, parece até maior! Minimalismo, agora é tudo assim. Espaço e luz! explicou a nora, pestanejando com as pestanas artificiais.
Os meus pertences senti as pernas enfraquecer Miguel, onde está o louceiro do avô? E os livros? E a máquina de costura?
O Miguel tossiu, mão à boca, a tentar soar firme.
Ó mãe Pronto, o que sobrou, tirou-se dali.
Tirou para onde? Para a adega? Para o sótão?
Para o lixo, D. Amália respondeu a Sara, bebendo do seu sumo esverdeado. Sinceramente, isso era só porcaria. O armário já nem abria, fartava-se de ganhar pó! Livros? Hoje já ninguém lê papel, está tudo na internet Só criam alergias. E a máquina, para quê? Aquilo era ferro velho!
Senti um nevoeiro nos olhos, agarrei-me ao batente da porta para não cair.
Para o lixo? murmurei. A biblioteca que o vosso avô juntou desde estudante? O Mundial, onde costurei as vossas calças e cortinas? E o cristal Dois dias de viagem trouxemos, embrulhado em jornais, para não se partir
Ó dona, isso já não interessa a ninguém! Coisas do antigamente. Agora é tudo IKEA e escandinavo respondeu a Sara, revirando os olhos. E a máquina, meu Deus, parecia um tractor Andavam sempre a queixar-se que a casa era pequena. Olhe, desimpedimos, ficou tudo clean!
Ruído visual, pois repeti, com as palavras a doer tempo no peito. Perguntaram-me se podia deitar fora? Esta casa é minha, Sara. São os meus objetos.
Lá está, parece impossível Gastámos dinheiro, fomos ao cartão de crédito, tudo para tapetes e tintas E que ouvimos? Reclamações! O Miguel bem dizia que você nunca ía valorizar Agarramento a coisas, quase doença. Complexo do Tio Patinhas!
O meu filho ergueu finalmente a cara.
Mãe, vá lá, aquilo já não prestava. Olhe o sofá novo, é bom para dormir!
Olhei-o nos olhos. Nada de remorsos, nada de compreensão. Só aquela vontade de contornar a conversa e voltar ao seu mundinho arrumadinho sempre assim, o Miguel: fácil de levar, agora pelas ideias da mulher.
Quando é que deitaram fora tudo? perguntei, secando a emoção.
Há uns três dias, assim que começámos a pintar disse ela, com desdém. Veio um contentor grande, levámos tudo ao monte do lixo. Nem tente procurar, já não encontra nada.
Fui ao meu antigo quarto melhor dizendo, ao que restava dele. Agora, só um cubículo impessoal. Tinham levado a caixa de botões da adolescência, os álbuns de fotografias.
Até as fotografias do meu marido? gritei da porta.
Ui, papel velho? respondeu Sara ao longe. Digitalizamos se realmente fizer falta. O resto já foi para reciclagem junto com as Selecções do Readers Digest. É para o ambiente!
Sentei no sofá estranho. Dentro de mim, tudo era vácuo. Não tinham levado tralha: tinham deitado fora minha vida. Trinta anos de memórias, alegrias minúsculas, tudo despejado como ruído visual.
As lágrimas não me vieram, secaram dentro e ficaram um nó quente e áspero. Ouvia Sara gritar com Miguel por causa do leite errado e explicar que agora já se sentia outra energia na casa, o Feng Shui estava perfeito.
Não fui ao jantar. Fiquei sozinho, deitado, a pensar. O apartamento era legalmente meu. O Miguel estava inscrito, mas dona era eu. Vieram morar porque precisavam juntar para a entrada de um T2. Três anos nisto. Não guardaram nada só férias, sapatos novos, agora este upgrade. Viviam à custa da minha reforma e a conta da luz pagava-a eu, a ajudar os meninos.
Na manhã seguinte, virei para a cozinha, rosto sereno. Sara fazia panquecas fit, a cantarolar.
Bom dia, D. Amália! Quer? Não levo açúcar nem farinha de trigo, só aveia e sementes
Agradeço, só quero um chá. O Miguel saiu?
Já foi, teve de entregar um relatório. Eu fico, hoje é dia de formação online arrumação de ambientes!
Faz bem acenei. Organização é tudo nesta vida. Sara, vou passar uns dias com a minha irmã, em Santarém. Ando nervosa, preciso apanhar ar.
Ótimo! sorriu, quase a bater palmas. Faça isso, muda-lhe a disposição.
Pus poucas coisas na mala. Parada à porta, olhei o hall despido.
Tens cópia das chaves?
Tenho, eu e o Miguel. Só lubrificámos, não mexemos mais nada.
Pronto. Fica bem.
Saí mesmo para Santarém. Todavia, regressei ao fim da tarde. Era esperar que a Sara se fosse enfiar no ginásio, nos seus workshops ou manicure de quinta-feira.
Entrei em casa às quatro da tarde. Tudo vazio. A Sara saíra.
Vesti um bata velha de casa, pus um lenço na cabeça e peguei nos sacos de lixo grandes do tal restauro estavam na arrecadação, por sorte esquecida. Fui direita ao quarto deles. Sempre respeitei espaço alheio até hoje. As fronteiras, agora, estavam desfeitas se levaram a minha vida, também lhes posso mexer.
O quarto era um santuário do consumo. Cremes de 100 euros, frascos coreanos, produtos a perder de vista. Uma anel de luz para selfies a ocupar metade da assoalhada.
Peguei no saco. Ruído visual deixei sair, saboreando.
Os frascos, potes e batons lá para dentro. Chanel, Dior, marcas estrangeiras tudo ao molho. Não via rótulo nem validade. Só limpava espaço.
Abri o roupeiro. Roupa como para uma loja inteira: vestidos únicos, casacos nunca usados, meia dúzia de jeans tanto iguais
Pó, mofos, só prendas para alergias. A Sara tanto defende a saúde falei para mim.
Tudo para os sacos malas caras, sapatos extravagantes, botas de cano alto. Só deixei as camisas do Miguel, discretas.
Depois veio a decoração: budas, velas aromáticas, quadros motivacionais em inglês, filtros de sonhos tudo tratado como baboseira.
Ao fim de duas horas, o ar estava leve. Só a cama e o vácuo.
Acolhi quinze sacos no corredor. Não os deitei fora; telefonei ao meu irmão em Setúbal, pediu um carrinho e levou tudo para o seu quintal coberto. Lá esperariam.
Lavei o chão, abri a janela. Fiquei a beber chá, com um livro comprado na papelaria do bairro.
A Sara foi a primeira a chegar, cheia de sacos de supermercado.
D. Amália? Afinal não ficou em Santarém?
Não era preciso tanto tempo. Senti-me inspirado a arrumar o espaço, lá como a menina gosta.
Fingia normalidade, foi ao seu quarto, mas logo se ouviu um grito agudo digno de novela.
Onde está tudo?! Os meus cremes, a minha roupa?
Tranquilo, bebi chá.
Sara, não se exalte. Tirei o ruído visual. Tinhas razão, estava cheia de lixo. Para que vinte malas? Isso não é síndrome de acumulação?
Mandou fora?! Sabe quanto isso vale?! Você perdeu o juízo! Vou chamar a polícia!
Faz favor respondi. Eles também lhe podem explicar o que se faz a quem deita fora livros preciosos, recordações de família, coisas com valor sentimental.
Nessa altura chegou o Miguel. Sara, aos gritos, saltava-lhe para o pescoço.
Ela deitou tudo fora! Tudo! Chame a sua mãe à razão!
Ele olhou-me com mágoa.
Mãe, era preciso isto?
Era. É minimalismo. Modernidade.
Não tinha direito! berrava Sara. São meus objectos pessoais!
E a biblioteca era minha. O serviço, a costureira, tudo meu. Perguntaram-me? Tomaram conta da minha casa como se fosse armazém do IKEA. Agora está pago.
Mas onde estão as minhas coisas? Se foram para o lixo, vou já processar!
Não foi para o lixo, estão em lugar seguro. Mas só lhe dou endereço no tempo certo.
Como assim? perguntou o Miguel.
Assim mesmo. Pegam nas escovas de dentes e vão para outra casa: hotel, suegra, não me interessa. Isto é meu. Sobremeça-vos dou uma hora. Daqui a pouco troco as fechaduras. Já está cá o senhor António, o serralheiro.
Mãe, não faça isso, não estamos preparados
Agora vão aprender a viver. A vida real custa caro.
Se levaram os sacos, só depois de quinze dias. Liguei ao Miguel disse onde estavam. Sara não voltou, só ele apareceu: magro, triste.
Mãe desculpe. Estamos aflitos. A Sara diz que tem saudades disto mas não sabe voltar.
Não, filho disse, ficando séria. Amo-te, mas quero a minha casa para mim. Vão construir a vossa.
Quando saiu, voltei à minha sala. Agora, pouco a pouco, enchida de novo: outro louceiro, outros livros, nova máquina de costura, e tapetes verdadeiramente nacionais. Colei papel de parede de flores, cravei quadros de família.
A máquina de costura, velha mas resistente, soou como música ao trabalhar nas cortinas. Desta vez, com riscas amarelas porque alegria nunca é demais.
Por vezes, para dar valor ao que temos, só precisamos de perder ou, simplesmente, de colocar na rua quem não nos respeita. E pode acreditar: só assim volta a reinar harmonia e calor de lar na casa de um português.







