O Meu Filho Não Quer Mais Falar Comigo: Como O Meu Desejo de Cuidar Dele e Minha Interferência no Seu Casamento Acabaram Distanciando-nos

Mãe, o que disseste à minha mulher? Ela já estava preparada para fazer as malas.
Apenas lhe disse a verdade, filho. Compreende, ela não é para ti. A Lurdes seria muito melhor.
Quem é a Lurdes?! O que andas tu a inventar?

Sempre soube que o meu filho era especial. Era o meu primogénito, o sol da minha vida. Quando cresceu e decidiu casar-se, não consegui aceitar. Custou-me a acreditar que encontrara alguém capaz de ocupar o meu lugar. Despedir-me daquele filho tão amado, entregá-lo a outra mulher, foi das coisas mais difíceis que vivi.

O meu filho era o meu mundo. Sempre jurei fazer de tudo por ele. Cresceu apenas comigo, pois o pai andava nas obras em França, só vindo raramente. Tive de aprender a jogar à bola, a trocar pneus na bicicleta para partilhar dos seus gostos. Era mãe e pai, tudo em um. Sei que ele sempre valorizou isso. O bem-estar dele era a minha prioridade, e nunca deixaria de cuidar dele.

No entanto, sentia que a sua mulher não o amava como eu. Não o tratava bem, não cozinhava, deixava a loiça por lavar, roupas espalhadas pelo chão uma perfeita desarrumação. Não sabia manter uma casa.

Insistia em estar presente, a cuidar dele como sempre fiz. Ia todas as semanas ao seu apartamento buscar roupa suja para lavar e passar em casa. Tinha uma chave e entrava quando eles estavam a trabalhar. Saía sem ser notada, sem querer criar confusão.

Sabia que o meu filho era cheio de trabalho e estudos, sem tempo para tarefas domésticas, então fazia-o por ele, pois a mulher dele, ao fim de três anos de casamento, não sabia sequer lavar as meias nem passar as calças dele.

Enchia o cesto, levava roupa e lavava tudo com detergente próprio, porque ele sempre teve alergia às químicas comuns. Gastava horas do meu tempo, mas o fazia por amor. Deixava tudo direitinho no roupeiro dele, sem que ela desse por nada. Nem imaginava que a alergia do meu menino foi sempre motivo de preocupação para mim, enquanto ela misturava tudo sem cuidado e tratava a roupa sem esmero.

O casaco de lã que lhe fiz no aniversário estragou-se, porque ela não sabia que não se pode lavar lã em água quente e pô-la a corar ao sol. Nem pensar! Tive de desmanchar o casaco e refazê-lo. Era-me muito menos penoso fazer tudo eu mesma do que ver o que aquela desastrada lhe fazia.

Mas a minha nora não entendia porquê. Dizia-me para o ensinar a ser autónomo. Mas como podia eu deixar o meu filho entregue àquela desarrumação? Eu só queria ver o meu filho feliz e saudável. Se estava nas minhas mãos ajudar, porque não fazê-lo?

O meu marido ralhava comigo, dizendo que já bastava de mimo, que ele escolheu aquela mulher e agora que vivesse como quisesse. Mas eu não conseguia dormir tranquila a saber que o meu filho cozinhava, lavava e passava enquanto ela se deitava no sofá sem fazer nada.

Decidi então, numa manhã, que seria a última vez que lavaria a roupa dele. Levantei-me cedo e, depois de os ver sair para o trabalho, entrei no apartamento e apanhei toda a roupa até deitei mão a algumas peças da minha nora, que já cheiravam tão mal que ela seria capaz de as misturar depois com a roupa lavada do meu filho. Preparei-me para uma manhã de lavoura. Despachei o meu marido para ir jogar à sueca com os amigos, pois já estava a ficar farto de me ver tão empenhada nesta causa.

Lavei tudo, até os cobertores. Quando acabei, tinha uma trouxa enorme. Felizmente, morava no mesmo bairro. Se bem que, o prédio dele era no quarto andar, e as minhas pernas já não aguentavam tanto. O elevador estava avariado por causa das obras naquele dia, por isso lá fui eu, devagarinho, degrau por degrau, com a trouxa ao ombro.

Estava a arfar e a chorar baixinho, com pena do meu filho, que teria de viver naquela porcaria. Mas não conseguia deixar de interceder na vida dele. Pensava: talvez ainda encontre uma mulher melhor, cuidadosa, que olhe verdadeiramente por ele.

Finalmente, cheguei à porta. Entrei sem bater, como sempre fazia. Larguei a trouxa e fechei a porta devagar para não provocar o cão do vizinho, o Faísca, que começava sempre a ladrar que nem perdido ao menor som.

Dei logo com uns sapatos espalhados que nunca tinha visto. Estranhei. Talvez tivessem saído mais cedo do trabalho a nora dele sempre tão desleixada! Caminhei até ao quarto e, mesmo à porta, estavam as calças dele no chão. Achei que me teriam escapado da lavagem. Peguei para lhe passar a ferro. Quando me baixei, ouvi gemidos vindos do quarto. Levantei a cabeça e o que vi deixou-me petrificada: o meu filho na cama com outra mulher, que não era a mulher dele, pois a outra era loura e esta tinha cabelo preto.

Travei ali mesmo. O meu filho olhou-me e gritou:
Mãe, sai daqui! Não me dás um minuto de paz!
Fechei a porta envergonhada.
Sai, por favor, precisamos conversar, pedi-lhe.
Ele saiu passado uns minutos para a cozinha, de roupão, o mesmo que eu lhe tinha dado.

Mãe, que raio fazes tu aqui? Ainda tens chave?
Claro, filho, foste tu que mas deste o ano passado, para eu poder vir de vez em quando, lembra-te.
Mas de vez em quando, avisa-se, mãe!
Só vim lavar-te a roupa, eu até te tinha dito.
Pensei que vinhas amanhã, disse ele, virando-me costas.

Depois de um silêncio desconfortável, perguntei-lhe:
Aquela rapariga ali… a tua mulher pintou o cabelo?
Não mãe, não é ela. É outra.
Estás a trair a tua mulher?
Achas que vais julgar-me?
Não, filho. O que tu fizeres, cá estarei sempre do teu lado.
Olha, gosto mais desta Lurdes, para ser sincero. A Sílvia anda sempre a pensar na carreira, não liga à casa, mas a Lurdes é diferente: chega, arruma a cozinha, faz o almoço, é meiga, tem jeito para cuidar, mas é só uma aventura. Vou continuar com a Sílvia.
Faz como achares melhor, meu filho. Seja com quem for, quero é ver-te feliz e bem tratado. Deixo-te aqui a tua roupa, como de costume, mas se ficares com a Lurdes, já nem é preciso continuar estas voltas. E saí.

Naquele momento, fiquei esperançosa. Encontrei a cozinha asseada, tudo limpo, sopa feita no fogão. A Lurdes até era bonita, com ar simpático. Vi logo que o meu filho, afinal, sabia distinguir uma boa mulher de uma trapalhona.

Já tinha passado quase uma semana e estava mais tranquila, certa que o menino estava em boas mãos. Fui ao mercado e cruzei-me com a Sílvia, de cesta cheia de coisas caras e esquisitas. Fui espreitar: abacate, quiwi, bolachas integrais, trigo sarraceno, kefir… Perguntei:
Então, Sílvia, andas a dieta?
Olá, Dona Antónia. Eu e o seu filho decidimos começar uma dieta, queremos ir juntos ao Brasil no verão e ficar bem nas fotos.
Como assim, com o meu filho? Então não acabaram?
Disse-lhe ele tal coisa?
Ele agora está com outra, a Lurdes.
Que outra? Não pode ser! Nunca discutimos nem nada!
Mas a Lurdes até já cá esteve, arrumou tudo, fizeram a vida deles.
Que vida, que Lurdes? Está a inventar! Até parece que quer pôr o seu filho contra mim, ou foi ali arranjar uma qualquer e pôs-lhe na cama do seu próprio filho? Tenham paciência, deixem-nos viver, já chega! E largou a cesta e saiu do mercado furiosa. Fiquei espantada afinal, a Sílvia também sabia ser brava, e nunca imaginei que o meu filho trocasse a Lurdes por alguém assim.

Pouco depois, recebi uma chamada do meu filho.
Mãe, o que é que disseste à minha mulher? Ficou pronta a sair de casa!
Só lhe disse a verdade, filho. Compreende, ela não é para ti, a Lurdes seria muito melhor.
Mas que Lurdes?! O que andas tu a imaginar?
Mas eu vi, pensei que estavas com ela e tinhas acabado tudo.
Não acabei nada. Nem sequer existe nenhuma Lurdes! Por favor, não me ligues mais, vamos mudar as fechaduras. Esquece que existo.

E assim, ficou-se a história de uma mãe que pensava saber o que era melhor para o filho, mas acabou sozinha, perdida nas suas próprias intenções. Até hoje me recordo daqueles dias, com saudade do que foi, e com mágoa do que podia ter sido.

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Кости седеше в инвалидна количка и гледаше през запрашените стъкла към улицата. Нямаше късмет.