Olha, deixa-me contar-te como as coisas correram comigo e com o João, o meu marido. Quando nós os dois mal tínhamos dinheiro para chegar ao fim do mês, a minha sogra andava feita rainha, comprava casacos de pele, trocou a televisão por uma daquelas topo de gama e vivia sempre rodeada de luxo.
Depois, os anos passaram e a vida, como quem não quer a coisa, fez uma reviravolta!
Quando fiz dezoito anos, engravidei. Os meus pais ficaram em choque, acharam que era um disparate ser mãe tão nova. O João, na altura, foi chamado para a tropa. E olha que as avós de um lado e do outro só diziam:
O bebé é da tua conta.
Não me venhas cá pedir para tratar do teu filho, agora não quero saber disso disse logo a minha mãe.
A sogra então, evitou-me completamente. Nem um telefonema.
Acabei por ir viver para casa da minha tia Mariana, irmã do meu pai.
A mulher tinha trinta e oito anos e nunca tinha tido filhos, dedicou a vida toda ao trabalho. Nunca julgou os meus pais:
Eu entendo-os, rapariga. Na altura em que nasceste, foram tempos difíceis. Houve alturas em que mal havia pão na mesa. O teu pai descarregava contentores à noite para ganhar uns trocos extra.
Mas agora andam bem. O teu pai ganha bem, têm um T2 só deles. A tua mãe também trabalha. E tu estás prestes a ser mãe.
Achas mesmo que não se vão importar? perguntei-lhe eu.
Eles agora querem é viver um bocadinho também para eles. Não os julgues demasiado. Mais cedo ou mais tarde, acabam por perceber as coisas.
Mas apoio dali, nem vê-lo. Peguei nas minhas coisas e mudei-me de armas e bagagens para casa da tia Mariana.
Quando o João saiu da tropa, o nosso filho já tinha um ano e meio. Durante esse tempo nunca tivemos uma visita da sogra, e os meus pais vieram ver-nos duas vezes, se tanto.
O João arranjou trabalho numa oficina mecânica, tentou ainda acabar o curso mas foi impossível. Ficámos a viver com a tia Mariana. Quando o miúdo começou a ir ao jardim-de-infância, e eu arranjei emprego, a minha tia teve de se mudar para outra zona. Lá tivemos de alugar um apartamento.
Passado um tempo, faleceu a avó do João.
A sogra vendeu logo o apartamento da mãe, fez uma remodelação à grande e encheu-se de tudo o que queria. O João ainda lhe pediu para não vender, até lhe propôs ir pagando uma renda mensal até poderem comprar a casa, mas ela não quis ouvir:
Porque é que havia eu de abdicar da minha vida e dos meus planos? Sempre quis fazer obras à minha maneira. Se querem faze-las por mim, ótimo atirou logo ela.
Cinco anos mais tarde nasceu a nossa filha, Inês. Sabíamos que precisávamos de uma casa nossa. O João começou a trabalhar fora do país. Só que juntar dinheiro para comprar casa custou muito mais do que pensávamos. Lá fomos continuando a viver num T1 alugado.
Entretanto, a minha mãe ficou sozinha num T3. O meu pai tinha-se divorciado dela dois anos antes. Mas lugar para mim e para os meus filhos? Nada disso. Também não fui para casa da sogra, que andava sempre a inventar obras e não se apressava nada a ajudar.
O João ralava-se no estrangeiro. Só depois de muitos anos de sacrifício conseguimos finalmente comprar um apartamento nosso. Só nós, ninguém ajudou.
Agora, o nosso filho mais velho já está no 9º ano, e a Inês na primária. Se há coisa que eles sabem é o peso de cada cêntimo. Nós poupámos tudo e hoje, felizmente, não faltam estas pequenas conquistas: cada um tem o seu carro, todos os anos vamos à costa passar férias.
De quem nunca me vou esquecer, é da minha tia Mariana. Pode ligar-me a qualquer hora, que sabe que estamos cá.
Já os nossos pais, passaram por amargos de boca na vida. A minha mãe foi despedida, ligou-me há tempos a pedir ajuda desta vez, fui eu a recusar.
A sogra está na mesma, reformada mas sem querer mudar de vida. Gastou tudo o que ganhou ao vender o apartamento antigo. O João também não quis saber, sugeriu-lhe vender o apartamento grande, todo remodelado, e comprar um pequeno.
Eu e o João sentimos que não devemos nada a ninguém. E com os nossos filhos, é tudo diferente. Nunca lhes falharemos, podem sempre contar connosco, seja no que for. E acredito mesmo que, quando chegarmos aos nossos anos dourados, também poderemos contar com o ombro deles.







