Vou casar-me, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em todos os sentidos. Mas não é para mim «Minha mãe apareceu de novo com o companheiro e ainda trouxe um outro homem. Já estavam meio bêbados — sentei-me no canto atrás da mesinha. E não tem para onde fugir, lá fora já caiu neve. Estou tão cansada de tudo isso. No verão termino o nono ano e vou para a cidade. Vou entrar no Instituto Politécnico e virar professora. A cidade nem fica tão longe, só dez quilômetros, mas vou morar no lar de estudantes.» A mãe e os convidados sentaram-se na cozinha. Ouvi o som das bebidas nos copos, o cheiro de chouriço invadiu o ar. Me absorvi pensando no aperto: — Espera aí, menina! — gritou minha mãe. — O que é que você está se fazendo de difícil? — Vocês são dois… — balbuciei. — Como se fosse a primeira vez com dois caras assim — ironizou Micael, o companheiro da minha mãe. Ouvi barulho de louça caindo, cochichos e respiração pesada. Eu me agarrei ao canto, tentando me esconder. O barulho parou de repente. — Olha, Nuno, ela está dormindo… — disse o companheiro. — Você mesmo disse que é uma boa menina. E sei lá, ela me irrita, tenho algo contra ela… — Ouve, mas ela tem filha… — Que filha? — A Irina, já crescida. Aposto que se escondeu no quarto. — Chama ela aqui! — respondeu Nuno, animado. — Irina, onde você está? — Micael entrou no quarto, viu-me e sorriu de um jeito nojento. — Venha sentar com a gente! — Estou bem aqui mesmo. — Para de vergonha! — Micael tentou me agarrar. Peguei de repente o vaso da mesinha e bati na cabeça do companheiro da minha mãe. Vidro quebrando. Escapuli e corri para fora. — Segura ela! — ouvi. Mas já estava na porta. Sem tempo para calçar botas, saí correndo de meias, camiseta velha e calção. Eles correram atrás de mim. A rua do bairro estava deserta. Fugir pela neve, à noite? Gritos atrás de mim. Passei por uma casa grande, ouvi latidos e uma voz mandando o cão calar. Corri para o portão e bati. Um homem quarentão abriu. — Ajude-me, por favor! — pedi olhando suplicante. — Entra logo! — ele me puxou e fechou a porta. — O que foi, Oleg? — a esposa apareceu no corredor. — É essa menina, — respondeu o dono. — Uns homens estavam perseguindo ela. — Rápido para dentro! — a mulher me puxou pela mão. — Lá dentro você explica tudo. — Irina, saia daí! — ouvi a voz de Micael lá fora. — Oleg, não se mete! — gritou a esposa. — Entra logo! Do lado de fora, mais gritos. No quintal, o cão latindo. — Vou ligar para a Polícia! — a mulher pegou o telefone. — Polina, não precisa. Resolvo isso sozinho, parecem ser daqui. — E vai resolver como isso? — Pelo diálogo. Você acalma a menina! O anfitrião pegou uma sacola, foi à geladeira. Colocou uma garrafa e um pedaço de chouriço dentro. Acariciou o cão no quintal e foi para a rua. Micael, o companheiro da minha mãe, veio até ele: — Devolve a Irina! — Tome aqui e sumam! — Que é isso? — abriu a sacola, sorriu, fez sinal pro amigo. — Vamos, Nuno! *** — Então! Eu sou Polina. — a senhora botou a chaleira no fogo. — Senta, conta tua história. — Sou Irina, — gaguejei tremendo. — Moro lá no final da rua… — Filha da Kira? — Sim. — Moramos aqui há pouco, mas de tua mãe já ouvi falar… A cabeça baixo, chorei. — Pronto, não chora! — Polina me abraçou de leve. O gesto foi tão estranho para mim que chorei ainda mais, agora aliviada. — Calma, calma! Vamos tomar um chá. Oleg entrou: — Resolvido. — E o que fazemos com essa linda menina agora? — sorriu Polina. — Amanhã decidimos! Agora vamos ao chá e depois banho nela. — Quer comer? — Polina me ofereceu chá, comida, bolo. — Come, come! — Oleg sorriu, vendo como eu olhava para os alimentos. Pararam de me bombardear com perguntas e deixaram que eu respirasse. Depois do jantar, Polina me levou ao banheiro: — Lava-te, veste esse robe! *** Tudo que eu queria era não ser expulsa para a rua de novo. Como é bom a água quente — frio insuportável lá fora. Mas logo acabei o banho, os anfitriões esperavam. Saí. Polina e Oleg sentados no sofá, agradeci embaraçada: — Muito obrigada! — Veja bem, Irina, — começou Polina. — Ninguém vai te procurar mesmo. E não quer voltar para casa. Olhei para baixo, sem coragem. — Amanhã cedinho viajaremos… Você fica sozinha. Nem abra porta. O cão Jack não deixa ninguém passar. Entendeu? — Sim! — gritei animada. — Se quiser, faz uma sopa de beterraba para nós amanhã, — sugeriu Oleg sorrindo. — Sabe fazer? — Sei! — falei rápido, temendo ainda que me expulsassem. — Sou boa de cozinha e posso limpar também. — Limpa se quiser, — autorizou Polina. *** Acordei com os donos da casa, fiquei quietinha na cama, sempre achando que iam me tirar dali. Depois tudo parou, saíram. Fui para a cozinha: pão, queijo, chouriço. Costelinhas de porco na mesa. Comi, limpei tudo, lavei o chão. Vi o aspirador no corredor e aspirei a casa. Quando desliguei o aspirador… — O que significa isso tudo? — uma voz atrás de mim. Virei. Um rapaz alto, bonito, devia ter uns dezoito anos, os olhos castanhos curiosos. — Estou limpando, — murmurei. — Quem é você? — Pois bem… — balançou a cabeça e pegou o telefone. — Mãe, estou em casa. Quem é essa aí? — Filho, deixa ela morar uns dias conosco. — Por mim tudo bem. Guardou o telefone, olhou-me de cima abaixo, foi pra cozinha. — Quer que eu prepare chá? — perguntei. — Eu mesmo faço. *** Guardei o aspirador, fui tirar pó, ouvindo cada som vindo da cozinha. Ele comeu, foi ao banheiro. Saiu perfumado, barba feita. — Ei, me passa mais uma garrafa! — ouvi um grito do lado de fora. — Que será isso? — o rapaz olhou pela janela. — Não abra! — gritei assustada. Ele olhou para mim com curiosidade e foi até a porta. Corri para a janela. No portão, Micael e seu comparsa gritavam. Fiquei apavorada. O rapaz saiu. Eles correram pra cima dele e… caíram na neve, parecia que juntos. O rapaz falou algo, eles se levantaram cabisbaixos e partiram para a casa da minha mãe. *** O rapaz voltou. Olhou para mim por um instante, aproximou-se: — Tá com medo? Sem controlar, encostei no peito dele e chorei. — Como se chama? — perguntou. — Irina. — Eu sou o Ruslan. Não chore, eles não voltam. *** Ruslan subiu, ficou no quarto até o fim do dia. Preparei sopa de beterraba, sentei-me pensativa na cozinha. Queria ficar ali, com aquelas pessoas boas, mas sabia que havia invadido todos os limites. Os donos voltaram. Polina ficou surpresa com a limpeza. Oleg elogiou a sopa. — Acho bom eu voltar para casa — disse. — Obrigada por tudo! — Fique mais alguns dias! — Obrigada, Polina! Mas já vou, — repeti. Caminhei até a porta e parei. Andava desde ontem pelo lar na roupa deles. — Venha! — Polina pôs a mão no meu ombro e foi comigo ao armário. Pegou umas calças jeans, um suéter, uma jaqueta esportiva bem quente. — Vista! Temos quase o mesmo tamanho. — Não… precisa. — Não vai sair sem roupa! Vista e pronto! Não vou ficar pobre por isso! Vesti. Nunca tive roupas tão boas. No corredor, me obrigou a pegar gorro e botas de inverno. — Use com saúde, Irina! — Obrigada, Polina! *** A vida voltou ao que era. Não exatamente igual. A mãe foi trabalhar na quinta. O companheiro dela e o amigo sumiram. Chegou a primavera. Um dia, estudando, alguém bateu no portão. Olhei: era Ruslan. Ele acenou: “Venha!” Saí correndo. — Oi! — sorriu. — Olá! — Minha mãe pediu você. *** Entrei naquela casa onde passei um dos dias mais felizes. — Oi, Irina! — Polina me abraçou. — Olá, Polina! — Senta, vamos tomar chá! Preparou chá, sentou-se comigo. — Quero falar sério contigo. Eu e Oleg vamos viajar para a Turquia por um mês — falou animada. — Meu filho mal vem em casa. Pode cuidar da casa? Alimentar o Jack e o gato, regar as flores? Tenho muitas plantas… — Claro, Polina! — Ótimo, — ela tirou dinheiro. — Aqui, vinte mil. — Não precisa! — Aceite! Não vai nos faltar nada. Venha, mostro tudo! Fui aprendendo onde ficavam os vasos de flores, a comida do gato e do Jack. Polina chamou: — Ruslan! — Ele saiu do quarto. — Apresente a Irina ao Jack! — Vem! — Ruslan pôs a mão no meu ombro. Saímos juntos, soltamos Jack, fomos caminhar. Ruslan falou da faculdade, do karaté, do negócio com o pai. Mas eu pensava diferente. Entendi que havia um abismo entre mim e ele, como entre minha mãe e os pais do Ruslan. Eles são ótimas pessoas, mas não é conto de fadas de Cinderela, é vida real. «Daqui dois meses faço vestibular para o colégio, vou passar. Estudar, trabalhar, batalhar, mas vou ser alguém. Vou casar, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em tudo. Mas não é meu! Sou grata à Polina pelas roupas e pelos vinte mil. Vai ajudar quando eu for para a cidade.» Intuitivamente, entendi que, naquele instante, terminava minha infância difícil. E começava a vida adulta — tão dura quanto, mas agora só depende de mim. Chegamos ao chalé. Acariciei o Jack, sorri para Ruslan e fui para casa. Amanhã começa o meu novo trabalho. Só trabalho — mais nada!

Vou casar-me, mas nunca com este rapaz bonito. Sim, ele é um excelente rapaz, em todos os sentidos. Mas não é para mim.

Outra vez a minha mãe aparece com o companheiro e ainda traz outro homem. Já meio bêbedos, pensou Margarida, encolhida num canto atrás da cómoda.

E não há sítio onde me esconder, está um frio de rachar lá fora. Já estou farta de tudo isto. No verão acabo o nono ano e vou para o Porto. Inscrevo-me no curso de formação de professores e faço-me professora. O Porto fica apenas a dez quilómetros, mas vou morar na residência.

A mãe e os seus convidados acomodaram-se na cozinha. Ouviu-se o líquido derramar-se nos copos, e o cheiro a chouriço encheu a casa. Margarida engoliu em seco.

Espera aí! disse a mãe.

Porque é que te fazes difícil?

Vocês são dois…

Como se não fosse a primeira vez com dois disse o companheiro, Joaquim.

O vidro bateu forte no chão. Barulho, respiração pesada. Margarida encolheu-se ainda mais. De repente, o silêncio.

Olha, Artur, ela está a dormir disse Joaquim.

Disseste que ela era boa rapariga, mas eu não tenho vontade…

Lembra-te de que ela tem filha…

Filha?

A Margarida, já está crescida. (De certeza, trancada no quarto.)

Traga-a aqui! gritou Artur, animado.

Margarida! Onde estás? Joaquim entrou no quarto, viu-a e sorriu de forma desagradável. Vem cá, faz-nos companhia!

Aqui estou bem.

Não sejas tímida tentou abraçá-la.

Num impulso, Margarida pegou no vaso da cómoda e bateu-lhe na cabeça.

O som do vidro a partir-se. Margarida soltou-se e fugiu do quarto.

Apanhem-na! Joaquim gritou.

Mas, rápida, já estava na porta da rua. Não houve tempo para calçar, saiu em meias, calções e t-shirt para a rua gelada.

Os homens seguiram-na. A rua do bairro estava deserta. Para onde correr, com neve a cair? Ouvia-se os gritos atrás. Passou por uma casa grande e os cães começaram a ladrar. Alguém gritou para acalmar o animal.

Margarida correu para o portão e bateu. Um homem de cerca de quarenta anos abriu a porta.

Ajude-me! pediu ela, tentando não chorar.

Entra! disse ele, puxando-a para dentro e fechando a porta.

Francisco, quem é? veio uma mulher à porta.

Aqui está ele indicou Margarida. Uns tipos estão atrás dela.

Rápido, para dentro! agarrou-a pela mão. Depois explicas tudo.

Margarida, sai daí! gritou Joaquim da rua.

Francisco, deixa-os avisou a mulher. Vem cá para dentro!

Lá fora continuavam os gritos e o cão a ladrar.

É melhor chamar a GNR a mulher tirou o telemóvel do bolso.

Leonor, calma. Eu trato disso. Parece que são daqui do bairro.

E como pensas resolver isso?

Pelas boas. Vai acalmar a menina!

Francisco pegou num saco, foi ao frigorífico, colocou lá uma garrafa de vinho e um pedaço de chouriço.

No quintal fez festinhas ao cão e saiu para a rua. Joaquim aproximou-se:

Dá-nos a Margarida!

Olha, toma e vão-se embora!

O que é? abria o saco, sorriu e acenou para o amigo. Bora lá, Artur.

***

Leonor, a mulher, pôs a chaleira ao lume. Senta-te, Margarida, e conta-nos quem és e o que aconteceu.

Eu sou Margarida disse, a tremer. Vivo na rua ao fundo, quase fora do bairro.

És filha da Clara?

Sou.

Ainda cá moramos há pouco, mas já ouvimos falar da tua mãe.

Margarida baixou a cabeça e chorou.

Pronto, não chores!

Leonor abraçou-a levemente. Margarida surpreendeu-se com o gesto. Abraçou-a com força e continuou a chorar.

Pronto. Agora vais beber um chá.

Francisco entrou:

Pronto, já os mandei embora.

E com esta princesinha, o que fazemos? Leonor sorriu.

Amanhã decidimos. Agora, chá e banho quente!

Queres comer? Leonor pôs-lhe a caneca de chá à frente. Sorriu. Vejo que queres.

Trouxe sandes. Restos de bolo.

Come! disse Francisco, vendo o olhar dela para a comida.

Ninguém fez perguntas. Respeitaram o silêncio e a vergonha de Margarida.

Depois do jantar, Leonor levou-a à casa-de-banho. Lava-te, e veste este robe!

***

Margarida só queria que não a mandassem hoje para a rua. Sentia o calor do banho e pensava no frio lá fora. Mas chegou a hora de sair, os donos esperavam.

Saiu. Francisco e Leonor estavam sentados no sofá.

Obrigada.

Margarida, pelo que entendo, ninguém te vai procurar e tu não queres voltar para casa.

A rapariga baixou a cabeça.

Amanhã temos de sair cedo…

Eu percebo.

Vais ficar sozinha. Não abras a porta a ninguém! O nosso cão, Max, não deixa ninguém entrar. Entendeste?

Sim! explodiu ela, emocionada.

Se quiseres, prepara um caldo-verde para o nosso regresso brincou Francisco. Sabes cozinhar?

Sei! respondeu apressada. Cozinho bem, sei limpar.

Então limpa um bocadinho cá em baixo, se não for muito esforço concordou Leonor.

***

Acordou com eles. Ficou quieta na cama, desconfiada. Ouviu o carro sair do quintal. Depois, silêncio.

Levantou-se, lavou-se. Na cozinha, havia chá, pão, queijo, presunto e entremeada.

Comeu. Lavou tudo. Limpou o chão.

No corredor encontrou um aspirador. Ligou-o e começou a passar.

Ao desligar… O que significa isto? ouviu atrás de si.

Virou-se. Um rapaz alto e bonito, de dezoito anos, com olhos castanhos curiosos.

Estou a limpar murmurou. E você, quem é?

Pois… abanou a cabeça e tirou o telemóvel do bolso:

Mãe, estou em casa. Quem é a rapariga?

Filho, deixa-a ficar uns dias connosco.

Por mim, tudo bem.

Guardou o telemóvel. Olhou Margarida de alto a baixo e foi para a cozinha.

Quer chá? perguntou ela, tímida.

Não é preciso.

***

Margarida guardou o aspirador, começou a tirar o pó, atenta a cada ruído da cozinha.

O rapaz tomou o pequeno-almoço e foi à casa-de-banho. Saiu cheirando bem a creme.

Eh lá, Francisco, dá cá mais uma garrafa! gritou alguém na rua.

Mas o que é isto? o rapaz foi à janela.

Não lhes abra! pediu Margarida, assustada.

Olhou-a com curiosidade, sorriu e foi à porta.

Margarida correu à janela. No portão, Joaquim e Artur gritavam. Sentiu medo.

O filho dos donos saiu. Eles correram para ele e caíram na neve, quase ao mesmo tempo. Margarida achou cómico.

O rapaz inclinou-se sobre eles, disse qualquer coisa. Levantaram-se e saíram de cabeça baixa, rumo à casa da mãe de Margarida.

***

Ele voltou. Fixou o olhar nela, que estava parada, nervosa. Aproximou-se:

Ficaste com medo?

Sem pensar, Margarida encostou-se ao peito dele e chorou.

Como te chamas? pediu ele.

Margarida.

Eu sou o Ricardo. Pronto, não chores. Eles não voltam cá.

***

Ricardo subiu ao quarto e não desceu até ao fim do dia. Margarida preparou caldo-verde, sentou-se à mesa, pensativa.

Claro que queria continuar ali, com aquelas pessoas boas, mas sabia que estava a incomodar.

Quando os donos voltaram, Leonor ficou surpreendida com a limpeza. Francisco apreciou o caldo-verde.

Acho que vou para casa disse Margarida. Muito obrigada por tudo!

Margarida, fica uns dias connosco!

Obrigada, Leonor! Vou para casa.

Foi até à porta e parou. Andava, desde o dia anterior, com o robe e chinelos emprestados.

Anda cá! Leonor levou-a à sala, abriu o armário, procurou, tirou umas calças de ganga, camisola de lã e casaco quente de desporto.

Veste! Somos mais ou menos do mesmo tamanho.

Não é preciso…

Não vais nua para casa. Veste. Não me faz falta, minha querida.

Vestiu. Espiou-se ao espelho. Nunca tinha tido roupa tão bonita.

No corredor, Leonor obrigou-a a pôr gorro e botas de neve.

Margarida, usa à vontade!

Obrigada, Leonor!

***

A vida voltou ao normal. Na verdade, mudou um pouco. A mãe arranjou emprego numa quinta. O companheiro desapareceu com o amigo.

A primavera chegou. Um dia Margarida estudava em casa e alguém bateu ao portão. Espiou pela janela e não acreditou era Ricardo. Ele acenou. Sai!

Ela saiu a correr.

Olá! sorriu Ricardo.

Olá!

A mãe quer falar contigo.

***

Entrou na casa onde tinha passado o melhor dia da sua vida.

Margarida! Leonor recebeu-a à porta e abraçou-a.

Olá, Leonor!

Anda cá! Vamos tomar um chá.

Leonor sentou-se à mesa com ela.

Tenho um favor a pedir-te. Vamos viajar um mês para a Turquia o sorriso sonhador estampado no rosto. O Ricardo quase não está em casa. Precisas cuidar do apartamento, dar comida ao Max e ao gato, e não esqueças de regar as flores. São muitas!

Com todo o gosto, Leonor!

Ótimo e estendeu-lhe notas. Aqui tens mil euros.

Não é preciso, Leonor!

Aceita. Não nos faz falta. Vem, mostra-te tudo!

Margarida foi memorizando onde ficavam todos os vasos e plantas, onde estavam os alimentos dos animais. Depois Leonor chamou:

Ricardo! ele veio. Mostra a casa à Margarida, apresenta-a ao Max!

Vamos! Ricardo pôs-lhe a mão no ombro.

Foram passear com Max pelo jardim. Ricardo falou dos estudos, do karaté, do negócio familiar.

Margarida pensava noutras coisas. Percebia que havia uma distância enorme entre ela e Ricardo, como entre a sua mãe e os pais dele. Eram bons, generosos mas isso não era um conto de fadas, era vida real.

Daqui a dois meses faço os exames para entrar na escola de professores, e vou passar. Vou estudar, trabalhar e crescer, vou tornar-me alguém. Vou casar, mas nunca com um rapaz bonito como o Ricardo. Sim, é maravilhoso, mas não é para mim.

Sou grata à Leonor, pelo vestuário e pelos mil euros. Vou conseguir começar a vida na cidade.

Num profundo instinto, Margarida sentiu que naquele momento terminava a sua infância difícil. Estava a começar a vida adulta também árdua, mas agora tudo dependia de si.

Chegaram ao apartamento. Margarida acariciou Max, sorriu a Ricardo e seguiu para casa. Amanhã começaria o trabalho. Só trabalho nada mais.

A vida ensina que não existem contos de fadas, mas podemos construir o nosso caminho com dignidade, gratidão e coragem.

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Vou casar-me, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em todos os sentidos. Mas não é para mim «Minha mãe apareceu de novo com o companheiro e ainda trouxe um outro homem. Já estavam meio bêbados — sentei-me no canto atrás da mesinha. E não tem para onde fugir, lá fora já caiu neve. Estou tão cansada de tudo isso. No verão termino o nono ano e vou para a cidade. Vou entrar no Instituto Politécnico e virar professora. A cidade nem fica tão longe, só dez quilômetros, mas vou morar no lar de estudantes.» A mãe e os convidados sentaram-se na cozinha. Ouvi o som das bebidas nos copos, o cheiro de chouriço invadiu o ar. Me absorvi pensando no aperto: — Espera aí, menina! — gritou minha mãe. — O que é que você está se fazendo de difícil? — Vocês são dois… — balbuciei. — Como se fosse a primeira vez com dois caras assim — ironizou Micael, o companheiro da minha mãe. Ouvi barulho de louça caindo, cochichos e respiração pesada. Eu me agarrei ao canto, tentando me esconder. O barulho parou de repente. — Olha, Nuno, ela está dormindo… — disse o companheiro. — Você mesmo disse que é uma boa menina. E sei lá, ela me irrita, tenho algo contra ela… — Ouve, mas ela tem filha… — Que filha? — A Irina, já crescida. Aposto que se escondeu no quarto. — Chama ela aqui! — respondeu Nuno, animado. — Irina, onde você está? — Micael entrou no quarto, viu-me e sorriu de um jeito nojento. — Venha sentar com a gente! — Estou bem aqui mesmo. — Para de vergonha! — Micael tentou me agarrar. Peguei de repente o vaso da mesinha e bati na cabeça do companheiro da minha mãe. Vidro quebrando. Escapuli e corri para fora. — Segura ela! — ouvi. Mas já estava na porta. Sem tempo para calçar botas, saí correndo de meias, camiseta velha e calção. Eles correram atrás de mim. A rua do bairro estava deserta. Fugir pela neve, à noite? Gritos atrás de mim. Passei por uma casa grande, ouvi latidos e uma voz mandando o cão calar. Corri para o portão e bati. Um homem quarentão abriu. — Ajude-me, por favor! — pedi olhando suplicante. — Entra logo! — ele me puxou e fechou a porta. — O que foi, Oleg? — a esposa apareceu no corredor. — É essa menina, — respondeu o dono. — Uns homens estavam perseguindo ela. — Rápido para dentro! — a mulher me puxou pela mão. — Lá dentro você explica tudo. — Irina, saia daí! — ouvi a voz de Micael lá fora. — Oleg, não se mete! — gritou a esposa. — Entra logo! Do lado de fora, mais gritos. No quintal, o cão latindo. — Vou ligar para a Polícia! — a mulher pegou o telefone. — Polina, não precisa. Resolvo isso sozinho, parecem ser daqui. — E vai resolver como isso? — Pelo diálogo. Você acalma a menina! O anfitrião pegou uma sacola, foi à geladeira. Colocou uma garrafa e um pedaço de chouriço dentro. Acariciou o cão no quintal e foi para a rua. Micael, o companheiro da minha mãe, veio até ele: — Devolve a Irina! — Tome aqui e sumam! — Que é isso? — abriu a sacola, sorriu, fez sinal pro amigo. — Vamos, Nuno! *** — Então! Eu sou Polina. — a senhora botou a chaleira no fogo. — Senta, conta tua história. — Sou Irina, — gaguejei tremendo. — Moro lá no final da rua… — Filha da Kira? — Sim. — Moramos aqui há pouco, mas de tua mãe já ouvi falar… A cabeça baixo, chorei. — Pronto, não chora! — Polina me abraçou de leve. O gesto foi tão estranho para mim que chorei ainda mais, agora aliviada. — Calma, calma! Vamos tomar um chá. Oleg entrou: — Resolvido. — E o que fazemos com essa linda menina agora? — sorriu Polina. — Amanhã decidimos! Agora vamos ao chá e depois banho nela. — Quer comer? — Polina me ofereceu chá, comida, bolo. — Come, come! — Oleg sorriu, vendo como eu olhava para os alimentos. Pararam de me bombardear com perguntas e deixaram que eu respirasse. Depois do jantar, Polina me levou ao banheiro: — Lava-te, veste esse robe! *** Tudo que eu queria era não ser expulsa para a rua de novo. Como é bom a água quente — frio insuportável lá fora. Mas logo acabei o banho, os anfitriões esperavam. Saí. Polina e Oleg sentados no sofá, agradeci embaraçada: — Muito obrigada! — Veja bem, Irina, — começou Polina. — Ninguém vai te procurar mesmo. E não quer voltar para casa. Olhei para baixo, sem coragem. — Amanhã cedinho viajaremos… Você fica sozinha. Nem abra porta. O cão Jack não deixa ninguém passar. Entendeu? — Sim! — gritei animada. — Se quiser, faz uma sopa de beterraba para nós amanhã, — sugeriu Oleg sorrindo. — Sabe fazer? — Sei! — falei rápido, temendo ainda que me expulsassem. — Sou boa de cozinha e posso limpar também. — Limpa se quiser, — autorizou Polina. *** Acordei com os donos da casa, fiquei quietinha na cama, sempre achando que iam me tirar dali. Depois tudo parou, saíram. Fui para a cozinha: pão, queijo, chouriço. Costelinhas de porco na mesa. Comi, limpei tudo, lavei o chão. Vi o aspirador no corredor e aspirei a casa. Quando desliguei o aspirador… — O que significa isso tudo? — uma voz atrás de mim. Virei. Um rapaz alto, bonito, devia ter uns dezoito anos, os olhos castanhos curiosos. — Estou limpando, — murmurei. — Quem é você? — Pois bem… — balançou a cabeça e pegou o telefone. — Mãe, estou em casa. Quem é essa aí? — Filho, deixa ela morar uns dias conosco. — Por mim tudo bem. Guardou o telefone, olhou-me de cima abaixo, foi pra cozinha. — Quer que eu prepare chá? — perguntei. — Eu mesmo faço. *** Guardei o aspirador, fui tirar pó, ouvindo cada som vindo da cozinha. Ele comeu, foi ao banheiro. Saiu perfumado, barba feita. — Ei, me passa mais uma garrafa! — ouvi um grito do lado de fora. — Que será isso? — o rapaz olhou pela janela. — Não abra! — gritei assustada. Ele olhou para mim com curiosidade e foi até a porta. Corri para a janela. No portão, Micael e seu comparsa gritavam. Fiquei apavorada. O rapaz saiu. Eles correram pra cima dele e… caíram na neve, parecia que juntos. O rapaz falou algo, eles se levantaram cabisbaixos e partiram para a casa da minha mãe. *** O rapaz voltou. Olhou para mim por um instante, aproximou-se: — Tá com medo? Sem controlar, encostei no peito dele e chorei. — Como se chama? — perguntou. — Irina. — Eu sou o Ruslan. Não chore, eles não voltam. *** Ruslan subiu, ficou no quarto até o fim do dia. Preparei sopa de beterraba, sentei-me pensativa na cozinha. Queria ficar ali, com aquelas pessoas boas, mas sabia que havia invadido todos os limites. Os donos voltaram. Polina ficou surpresa com a limpeza. Oleg elogiou a sopa. — Acho bom eu voltar para casa — disse. — Obrigada por tudo! — Fique mais alguns dias! — Obrigada, Polina! Mas já vou, — repeti. Caminhei até a porta e parei. Andava desde ontem pelo lar na roupa deles. — Venha! — Polina pôs a mão no meu ombro e foi comigo ao armário. Pegou umas calças jeans, um suéter, uma jaqueta esportiva bem quente. — Vista! Temos quase o mesmo tamanho. — Não… precisa. — Não vai sair sem roupa! Vista e pronto! Não vou ficar pobre por isso! Vesti. Nunca tive roupas tão boas. No corredor, me obrigou a pegar gorro e botas de inverno. — Use com saúde, Irina! — Obrigada, Polina! *** A vida voltou ao que era. Não exatamente igual. A mãe foi trabalhar na quinta. O companheiro dela e o amigo sumiram. Chegou a primavera. Um dia, estudando, alguém bateu no portão. Olhei: era Ruslan. Ele acenou: “Venha!” Saí correndo. — Oi! — sorriu. — Olá! — Minha mãe pediu você. *** Entrei naquela casa onde passei um dos dias mais felizes. — Oi, Irina! — Polina me abraçou. — Olá, Polina! — Senta, vamos tomar chá! Preparou chá, sentou-se comigo. — Quero falar sério contigo. Eu e Oleg vamos viajar para a Turquia por um mês — falou animada. — Meu filho mal vem em casa. Pode cuidar da casa? Alimentar o Jack e o gato, regar as flores? Tenho muitas plantas… — Claro, Polina! — Ótimo, — ela tirou dinheiro. — Aqui, vinte mil. — Não precisa! — Aceite! Não vai nos faltar nada. Venha, mostro tudo! Fui aprendendo onde ficavam os vasos de flores, a comida do gato e do Jack. Polina chamou: — Ruslan! — Ele saiu do quarto. — Apresente a Irina ao Jack! — Vem! — Ruslan pôs a mão no meu ombro. Saímos juntos, soltamos Jack, fomos caminhar. Ruslan falou da faculdade, do karaté, do negócio com o pai. Mas eu pensava diferente. Entendi que havia um abismo entre mim e ele, como entre minha mãe e os pais do Ruslan. Eles são ótimas pessoas, mas não é conto de fadas de Cinderela, é vida real. «Daqui dois meses faço vestibular para o colégio, vou passar. Estudar, trabalhar, batalhar, mas vou ser alguém. Vou casar, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em tudo. Mas não é meu! Sou grata à Polina pelas roupas e pelos vinte mil. Vai ajudar quando eu for para a cidade.» Intuitivamente, entendi que, naquele instante, terminava minha infância difícil. E começava a vida adulta — tão dura quanto, mas agora só depende de mim. Chegamos ao chalé. Acariciei o Jack, sorri para Ruslan e fui para casa. Amanhã começa o meu novo trabalho. Só trabalho — mais nada!
Извини, но съм бременна. От твоя съпруг, – призна се най-добрата ти приятелка.