Vou casar-me, mas nunca com este rapaz bonito. Sim, ele é um excelente rapaz, em todos os sentidos. Mas não é para mim.
Outra vez a minha mãe aparece com o companheiro e ainda traz outro homem. Já meio bêbedos, pensou Margarida, encolhida num canto atrás da cómoda.
E não há sítio onde me esconder, está um frio de rachar lá fora. Já estou farta de tudo isto. No verão acabo o nono ano e vou para o Porto. Inscrevo-me no curso de formação de professores e faço-me professora. O Porto fica apenas a dez quilómetros, mas vou morar na residência.
A mãe e os seus convidados acomodaram-se na cozinha. Ouviu-se o líquido derramar-se nos copos, e o cheiro a chouriço encheu a casa. Margarida engoliu em seco.
Espera aí! disse a mãe.
Porque é que te fazes difícil?
Vocês são dois…
Como se não fosse a primeira vez com dois disse o companheiro, Joaquim.
O vidro bateu forte no chão. Barulho, respiração pesada. Margarida encolheu-se ainda mais. De repente, o silêncio.
Olha, Artur, ela está a dormir disse Joaquim.
Disseste que ela era boa rapariga, mas eu não tenho vontade…
Lembra-te de que ela tem filha…
Filha?
A Margarida, já está crescida. (De certeza, trancada no quarto.)
Traga-a aqui! gritou Artur, animado.
Margarida! Onde estás? Joaquim entrou no quarto, viu-a e sorriu de forma desagradável. Vem cá, faz-nos companhia!
Aqui estou bem.
Não sejas tímida tentou abraçá-la.
Num impulso, Margarida pegou no vaso da cómoda e bateu-lhe na cabeça.
O som do vidro a partir-se. Margarida soltou-se e fugiu do quarto.
Apanhem-na! Joaquim gritou.
Mas, rápida, já estava na porta da rua. Não houve tempo para calçar, saiu em meias, calções e t-shirt para a rua gelada.
Os homens seguiram-na. A rua do bairro estava deserta. Para onde correr, com neve a cair? Ouvia-se os gritos atrás. Passou por uma casa grande e os cães começaram a ladrar. Alguém gritou para acalmar o animal.
Margarida correu para o portão e bateu. Um homem de cerca de quarenta anos abriu a porta.
Ajude-me! pediu ela, tentando não chorar.
Entra! disse ele, puxando-a para dentro e fechando a porta.
Francisco, quem é? veio uma mulher à porta.
Aqui está ele indicou Margarida. Uns tipos estão atrás dela.
Rápido, para dentro! agarrou-a pela mão. Depois explicas tudo.
Margarida, sai daí! gritou Joaquim da rua.
Francisco, deixa-os avisou a mulher. Vem cá para dentro!
Lá fora continuavam os gritos e o cão a ladrar.
É melhor chamar a GNR a mulher tirou o telemóvel do bolso.
Leonor, calma. Eu trato disso. Parece que são daqui do bairro.
E como pensas resolver isso?
Pelas boas. Vai acalmar a menina!
Francisco pegou num saco, foi ao frigorífico, colocou lá uma garrafa de vinho e um pedaço de chouriço.
No quintal fez festinhas ao cão e saiu para a rua. Joaquim aproximou-se:
Dá-nos a Margarida!
Olha, toma e vão-se embora!
O que é? abria o saco, sorriu e acenou para o amigo. Bora lá, Artur.
***
Leonor, a mulher, pôs a chaleira ao lume. Senta-te, Margarida, e conta-nos quem és e o que aconteceu.
Eu sou Margarida disse, a tremer. Vivo na rua ao fundo, quase fora do bairro.
És filha da Clara?
Sou.
Ainda cá moramos há pouco, mas já ouvimos falar da tua mãe.
Margarida baixou a cabeça e chorou.
Pronto, não chores!
Leonor abraçou-a levemente. Margarida surpreendeu-se com o gesto. Abraçou-a com força e continuou a chorar.
Pronto. Agora vais beber um chá.
Francisco entrou:
Pronto, já os mandei embora.
E com esta princesinha, o que fazemos? Leonor sorriu.
Amanhã decidimos. Agora, chá e banho quente!
Queres comer? Leonor pôs-lhe a caneca de chá à frente. Sorriu. Vejo que queres.
Trouxe sandes. Restos de bolo.
Come! disse Francisco, vendo o olhar dela para a comida.
Ninguém fez perguntas. Respeitaram o silêncio e a vergonha de Margarida.
Depois do jantar, Leonor levou-a à casa-de-banho. Lava-te, e veste este robe!
***
Margarida só queria que não a mandassem hoje para a rua. Sentia o calor do banho e pensava no frio lá fora. Mas chegou a hora de sair, os donos esperavam.
Saiu. Francisco e Leonor estavam sentados no sofá.
Obrigada.
Margarida, pelo que entendo, ninguém te vai procurar e tu não queres voltar para casa.
A rapariga baixou a cabeça.
Amanhã temos de sair cedo…
Eu percebo.
Vais ficar sozinha. Não abras a porta a ninguém! O nosso cão, Max, não deixa ninguém entrar. Entendeste?
Sim! explodiu ela, emocionada.
Se quiseres, prepara um caldo-verde para o nosso regresso brincou Francisco. Sabes cozinhar?
Sei! respondeu apressada. Cozinho bem, sei limpar.
Então limpa um bocadinho cá em baixo, se não for muito esforço concordou Leonor.
***
Acordou com eles. Ficou quieta na cama, desconfiada. Ouviu o carro sair do quintal. Depois, silêncio.
Levantou-se, lavou-se. Na cozinha, havia chá, pão, queijo, presunto e entremeada.
Comeu. Lavou tudo. Limpou o chão.
No corredor encontrou um aspirador. Ligou-o e começou a passar.
Ao desligar… O que significa isto? ouviu atrás de si.
Virou-se. Um rapaz alto e bonito, de dezoito anos, com olhos castanhos curiosos.
Estou a limpar murmurou. E você, quem é?
Pois… abanou a cabeça e tirou o telemóvel do bolso:
Mãe, estou em casa. Quem é a rapariga?
Filho, deixa-a ficar uns dias connosco.
Por mim, tudo bem.
Guardou o telemóvel. Olhou Margarida de alto a baixo e foi para a cozinha.
Quer chá? perguntou ela, tímida.
Não é preciso.
***
Margarida guardou o aspirador, começou a tirar o pó, atenta a cada ruído da cozinha.
O rapaz tomou o pequeno-almoço e foi à casa-de-banho. Saiu cheirando bem a creme.
Eh lá, Francisco, dá cá mais uma garrafa! gritou alguém na rua.
Mas o que é isto? o rapaz foi à janela.
Não lhes abra! pediu Margarida, assustada.
Olhou-a com curiosidade, sorriu e foi à porta.
Margarida correu à janela. No portão, Joaquim e Artur gritavam. Sentiu medo.
O filho dos donos saiu. Eles correram para ele e caíram na neve, quase ao mesmo tempo. Margarida achou cómico.
O rapaz inclinou-se sobre eles, disse qualquer coisa. Levantaram-se e saíram de cabeça baixa, rumo à casa da mãe de Margarida.
***
Ele voltou. Fixou o olhar nela, que estava parada, nervosa. Aproximou-se:
Ficaste com medo?
Sem pensar, Margarida encostou-se ao peito dele e chorou.
Como te chamas? pediu ele.
Margarida.
Eu sou o Ricardo. Pronto, não chores. Eles não voltam cá.
***
Ricardo subiu ao quarto e não desceu até ao fim do dia. Margarida preparou caldo-verde, sentou-se à mesa, pensativa.
Claro que queria continuar ali, com aquelas pessoas boas, mas sabia que estava a incomodar.
Quando os donos voltaram, Leonor ficou surpreendida com a limpeza. Francisco apreciou o caldo-verde.
Acho que vou para casa disse Margarida. Muito obrigada por tudo!
Margarida, fica uns dias connosco!
Obrigada, Leonor! Vou para casa.
Foi até à porta e parou. Andava, desde o dia anterior, com o robe e chinelos emprestados.
Anda cá! Leonor levou-a à sala, abriu o armário, procurou, tirou umas calças de ganga, camisola de lã e casaco quente de desporto.
Veste! Somos mais ou menos do mesmo tamanho.
Não é preciso…
Não vais nua para casa. Veste. Não me faz falta, minha querida.
Vestiu. Espiou-se ao espelho. Nunca tinha tido roupa tão bonita.
No corredor, Leonor obrigou-a a pôr gorro e botas de neve.
Margarida, usa à vontade!
Obrigada, Leonor!
***
A vida voltou ao normal. Na verdade, mudou um pouco. A mãe arranjou emprego numa quinta. O companheiro desapareceu com o amigo.
A primavera chegou. Um dia Margarida estudava em casa e alguém bateu ao portão. Espiou pela janela e não acreditou era Ricardo. Ele acenou. Sai!
Ela saiu a correr.
Olá! sorriu Ricardo.
Olá!
A mãe quer falar contigo.
***
Entrou na casa onde tinha passado o melhor dia da sua vida.
Margarida! Leonor recebeu-a à porta e abraçou-a.
Olá, Leonor!
Anda cá! Vamos tomar um chá.
Leonor sentou-se à mesa com ela.
Tenho um favor a pedir-te. Vamos viajar um mês para a Turquia o sorriso sonhador estampado no rosto. O Ricardo quase não está em casa. Precisas cuidar do apartamento, dar comida ao Max e ao gato, e não esqueças de regar as flores. São muitas!
Com todo o gosto, Leonor!
Ótimo e estendeu-lhe notas. Aqui tens mil euros.
Não é preciso, Leonor!
Aceita. Não nos faz falta. Vem, mostra-te tudo!
Margarida foi memorizando onde ficavam todos os vasos e plantas, onde estavam os alimentos dos animais. Depois Leonor chamou:
Ricardo! ele veio. Mostra a casa à Margarida, apresenta-a ao Max!
Vamos! Ricardo pôs-lhe a mão no ombro.
Foram passear com Max pelo jardim. Ricardo falou dos estudos, do karaté, do negócio familiar.
Margarida pensava noutras coisas. Percebia que havia uma distância enorme entre ela e Ricardo, como entre a sua mãe e os pais dele. Eram bons, generosos mas isso não era um conto de fadas, era vida real.
Daqui a dois meses faço os exames para entrar na escola de professores, e vou passar. Vou estudar, trabalhar e crescer, vou tornar-me alguém. Vou casar, mas nunca com um rapaz bonito como o Ricardo. Sim, é maravilhoso, mas não é para mim.
Sou grata à Leonor, pelo vestuário e pelos mil euros. Vou conseguir começar a vida na cidade.
Num profundo instinto, Margarida sentiu que naquele momento terminava a sua infância difícil. Estava a começar a vida adulta também árdua, mas agora tudo dependia de si.
Chegaram ao apartamento. Margarida acariciou Max, sorriu a Ricardo e seguiu para casa. Amanhã começaria o trabalho. Só trabalho nada mais.
A vida ensina que não existem contos de fadas, mas podemos construir o nosso caminho com dignidade, gratidão e coragem.







