Achei que o meu marido pagava pensão para as três filhas do primeiro casamento. Mas não era verdade. Decidi ir conhecê-las pessoalmente.

Em tempos já distantes, recordo como sempre acreditei que o meu marido cumpria com o seu dever de prover para as suas três filhas do primeiro casamento. Sempre que eu perguntava pelas meninas, ele assegurava-me, com toda a serenidade, que tudo corria bem e que enviava a pensão alimentícia todos os meses. Contudo, algo no fundo do meu coração não me deixava em paz um pressentimento incômodo, persistente.

Numa terça-feira, aproveitando que ele tinha saído cedo para trabalhar, procurei aquele endereço que descobrira num velho papel do processo de divórcio. Atravessei o Porto de ponta a ponta, chegando a um bairro que contrastava profundamente com o nosso ruas de casas humildes, onde a vida não oferecia facilidades.

Mal saí do carro, senti uma inquietação. Bati à porta. Abriu-me uma mulher cansada era Matilde, a ex-mulher do meu marido e mãe das três raparigas.

Sim? respondeu ela de sobrancelhas franzidas.

Bom dia. Chamo-me Dulcineia, sou a atual mulher do teu ex-marido. Preciso de falar contigo.

O rosto dela endureceu, mas depois suspirou profundamente e fez-me sinal para entrar. O pequeno apartamento estava limpo, mas despido de conforto; havia pouco mobiliário, nada era supérfluo. Percebia-se que ali cada centavo fazia falta e tudo era fruto de esforço.

Ao que vens? perguntou, de braços cruzados diante de mim.

Quero saber a verdade. Diz-me ele que vos envia dinheiro todos os meses mas preciso de ouvir isso da tua boca.

Ela riu-se, mas era um riso triste, quase desesperado.

Dinheiro? Não recebemos um cêntimo há mais de um ano. Vivo do que ganho a limpar casas e da ajuda da minha mãe. O pai das minhas filhas desapareceu das nossas vidas.

Senti um baque, como se o chão me fugisse. Nessa altura, entrou na sala uma menina teria uns sete anos , de olhos apagados e cabelo desgrenhado. As suas roupas já bem gastas, com pequenas rasgadelas nos punhos.

Mamã, estou com fome murmurou a pequenita.

As lágrimas subiram-me aos olhos. Lá em casa, não nos faltava nada vivíamos entre abundância e conforto , mas aquelas crianças debatiam-se por cada pedaço de pão.

E as outras duas? perguntei, baixinho.

Estão na escola. Daqui a pouco chegam.

Então faz favor: vai buscá-las. Hoje vão todas sair comigo.

Desculpa Eu não posso aceitar isso

Não estou a pedir-te licença interrompi, tranquila mas firme. Isto não é caridade. É o que sempre lhes foi devido.

Fomos ao centro comercial ali perto. Comprei às três raparigas roupas, sapatos, casacos e material escolar. Vi como os seus rostos se iluminaram ao experimentarem as roupas, sorrisos que me interrompiam a alma e, ao mesmo tempo, a curavam. Comprei ainda o necessário para Matilde roupas, artigos de higiene, pequenas coisas que devolvem dignidade e alento.

Não sei o que dizer murmurou ela, lágrimas a brilhar nos olhos. Obrigada.

Não me agradeças. Isto é só o princípio.

Nessa noite, ao regressar a casa, o meu marido estava no sofá, absorto na televisão tranquilo, como se não tivesse três filhas a viver em privação.

Onde estiveste? perguntou, sem desviar o olhar do ecrã.

Fui conhecer as tuas filhas. As tais a quem dizes enviar pensão.

Empalideceu. Levantou-se de um salto.

Eu posso explicar

Não me interessa explicação cortei-lhe, sentindo uma fúria fria a tomar conta de mim. Queres fazer as malas. Agora.

O quê? Esta casa é minha!

Não. Esta casa é MINHA. Está em meu nome, paga com o meu dinheiro, do meu legado de família. Quero que saias. Já.

Por favor, Dulcineia, deixa-me

Disse para fazeres as malas. Se não, faço eu.

Subi, abri o armário e comecei a preencher as malas dele com as suas roupas. Ele seguiu-me de perto, suplicando, mas eu estava decidida. Quando terminei, deixei tudo à porta da rua, no jardim da frente.

Amanhã contacto um advogado anunciei, ainda de pé à ombreira. Vou garantir que cumpres com as tuas filhas, nem que tenha de sair do meu próprio bolso cada euro que lhes deves.

Ficou ali, parado entre as suas coisas, pequeno e desamparado.

Fechei a porta e apoiei-me nela, toda a tremer. Tinha sido, ao mesmo tempo, a decisão mais dura e mais certa da minha vida.

Teria eu feito bem em deitá-lo fora logo ali, sem lhe dar chance de se explicar? Ainda hoje me pergunto.

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Achei que o meu marido pagava pensão para as três filhas do primeiro casamento. Mas não era verdade. Decidi ir conhecê-las pessoalmente.
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