Noite adentro: parente incómodo e o valor do sossego
Só espero que não seja outra vez, murmurei, esfregando a espuma na loiça, sentindo a água já tépida na pia.
As horas do relógio de parede marcavam, impiedosamente, “1:15”. A casa tinha-se calado por completo. No quarto ao lado, a pequena Matilde ressonava, perdida nos sonhos. Na nossa cama, a Inês já devia dormir profundamente. Uma luz amarela, quente, derramava-se sobre a mesa, iluminando solitariamente uma chávena com o resto de chá de tília já frio.
O toque insistente à porta rasgou o silêncio como uma navalha mal amolada. Longo, determinado, em pausas curtas de quem espera ser atendido. Lá dentro, quase desejei: “Por favor, que hoje não seja…”
Da porta do quarto ouvi a voz sonolenta mas reconhecedora da Inês:
É ele outra vez?
Sequei as mãos ao roupão, suprimindo o bocejo que, mais do que cansaço, era já desejo de sinalizar ao mundo que ali ninguém estava para conversas. Caminhei até à porta, acomodando a irritação, a vergonha por sentir essa mágoa e um cansaço tão pesado quanto um cobertor húmido.
No óculo reconheci-lhe logo a figura: largo de ombros, cabelo grisalho saindo da boina, o casaco de pele já gasto, inclinado contra a ombreira. Era o meu sogro, Manuel Fernandes. Nas mãos, presa junto ao corpo, uma caixa de cartão desbotada. Ao lado, no chão, o habitual saco do Pingo Doce com bolachas Maria as mesmas de sempre.
Oh, Tomás! exclamou logo que abri, com aquele sorriso largo, indiferente à hora. Ainda estás acordado? Óptimo, era só um minutinho.
Boa noite, senhor Manuel, respondi esforçando-me por sorrir. Sabia que já é quase madrugada?
Ora essa! A noite ainda é uma criança, tal como eu, enquanto o corpinho aguenta respondeu, piscando o olho. Não me deixas entrar? Trago um tesouro.
Elevou a caixa. No tampo, uma etiqueta gasta: “Filme 8mm”. No canto, escrito a caneta: “1978. Ano Novo. Casa.” Cheirava a pó, a gavetas antigas, a uma vida só conhecida de álbum em mãos de alguém.
Imagina que encontrei isto! já se enfiava no vestíbulo sem esperar convite. Estava na arrecadação do vizinho. Disse-lhe logo: “Isto é meu”. Ele não acreditou, só reconheceu pelo handwriting… “É da Fernanda!”, disse ele.
O nome da Dona Fernanda, falecida há dez anos, ecoou naquele corredor como uma sombra.
A Inês apareceu à porta do quarto, olhos semicerrados, t-shirt e calças de fato de treino:
Pai… tossiu ela. É uma da manhã.
Ora, homem, é a melhor altura para recordar o que vale a pena! Está-se mesmo bem nesta idade, não te queixes, Tomás. Eu, nesse tempo, só começava a noite…
Cada frase, dita com tanta energia, era uma martelada no meu crânio. Mas logo pensava: “Coitado, ficou sozinho. Aquela casa às escuras, meterá medo a qualquer um…”
Venha então até à cozinha, sugeri, engolindo um suspiro. Mas devagarinho, a Matilde está a dormir.
Não faças barulho, má sorte? Ora, eu sou leve como um rato! ria ele, já a despir o casaco.
Leve como um rato com apito, pensei, mas não disse nada.
***
Na cozinha, sentava-se sempre no banco junto ao radiador “As costas não gostam de correntes de ar”, explicava. Pus-lhe o chá, por reflexo, quase em modo automático, serviço de madrugadores.
A Inês sentou-se à frente do pai e espreitou a caixa:
O que é isso, pai?
O nosso cinema! declarou ele, com solenidade. Isto são fitas antigas. Aqui aparece a tua mãe, tu, ainda miúdo. E há a árvore de Natal, as saladas e aquela tia Maria, com aquele nariz…
Sentei-me ao lado, mão a segurar a cabeça. O relógio marcou “1:27”, depois “1:28″… Manuel, pelo contrário, parecia apenas aquecer os motores.
Lembras-te de como abrimos a porta naquela noite? já contava, cativante. Passava da meia-noite, o António apareceu com a mulher. Frio, a nevar lá fora, mas as portas da casa sempre abertas! A Fernanda sempre dizia: hesitou, com o olhar perdido. “À noite as portas abrem-se a quem mais precisa.”
Acenei com a cabeça. Essas palavras colaram-se-me à pele.
Mas, pai, alguma vez se vê essa fita ou é só para contar histórias? Torresmiu Inês.
O projetor já não existe, claro. Mas talvez vocês tenham para cá perdido um na arrecadação? perguntou, na sua boa disposição.
Na nossa arrecadação só cabe o aspirador e pouco mais, pai, brinquei, mas ele, como sempre, não apanhou a ironia.
Sempre se arranja! Ou então passo por uma loja que digitalize isto. Tu, Tomás, percebes disso. Entretanto, conto já aqui.
E lá começou: falou do primeiro aparelho fotográfico, das fotografias tiradas na quinta, do riso da Fernanda quando a neve lhe caía no pescoço. As palavras fluíam como chá tirado da chaleira sem fim. Na voz dele não morava a noite. Vivia do outro lado, num fuso horário só de memórias.
Eu tentava ouvir, mas o corpo já só pedia dormir, o cérebro a descansar, o relógio a acusar: “às 7 deixo a Matilde no colégio, relatórios para entregar…”
***
Um esfregar discreto ecoou na cozinha.
À porta, a silhueta pequenina da Matilde, de pijama rosa de estrelinhas e cabelos em desalinho.
Pai… murmurou ela, tropeçando.
Matilde, que fazes aqui? Levantei-me, pegando a menina ao colo.
Tenho sede… repetiu, sonolenta. E sonhei… outra vez com o avô.
O Manuel abriu um largo sorriso ao ouvir “avô”:
Vês! As crianças sentem logo a ligação.
Matilde fitou-o, ainda meio ensonada:
Sonho contigo todas as noites. Estás sempre aí a bater, bater. E eu quero fechar a porta, mas a maçaneta está quente…
Um arrepio percorreu-me. A Inês franziu o sobrolho.
Que sonhos são esses? quis saber ela.
Não são pesadelos, retorquiu o Manuel com convicção. São laços do coração.
“Ou saudades do silêncio”, pensei, mas apenas disse:
Matilde, volta à cama, o avô depois volta para… te contar histórias.
À noite? quis saber ela.
Encarei o Manuel, o olhar dele verdadeiramente perdido.
De dia também, Matilde, é até melhor, disse.
Ela suspirou e aninhou-se ao meu ombro.
Levei-a ao quarto, embalei-a, mas ouvia ainda Manuel, já em sussurro, animado demais para aquela hora.
Deitei a menina, beijei-lhe a testa e pensei: “Isto repete-se sempre igual: os ‘dez minutos’ transformam-se numa hora… entre bolachas, chá e os meus olhos a ceder.”
O relógio do corredor avançava para as duas. Senti a paciência a esgotar-se como um despertador que vai baseando a contagem.
***
Sempre às tantas da manhã, queixei-me à Vera, no telemóvel, dias antes. Parece um café aberto 24h chamado ‘Ao Filho’.
A Vera, amiga dos tempos da faculdade, riu-se do outro lado.
Tome lá condolências. O teu lar foi capturado pelo espírito nocturno dos mais velhos.
Suspirei.
Não é brincadeira. Nem dormir consigo: fico alerta o tempo todo “será que toca hoje?” E nunca falha. Sempre ‘só dez minutos’.
Vê pelo lado positivo: tens modo hardcore. Se sobreviveres, ganhas… bolachas!
Ri-me.
São sempre as mesmas, de aveia, do Pingo Doce. Só de olhar já enjoa.
Um símbolo! Devias arranjar um despertador só para ele, ligar-lhe à mesma hora!
Isso era maldade…
Estou a brincar, claro. Mas a sério: precisas pôr limites. Quem não sabe, pensa que não faz mal. Vocês é que deixam.
É complicado, Vera, é o meu sogro, está sozinho depois da Fernanda… E o Tomás é filho único. Como dizer-lhe “não venha de madrugada”? Com toda aquela pressão da saúde, das memórias…
E tu, tens corpo e trabalho, e filha. Os limites não são pecado. Às vezes são a maior prova de carinho e respeito, respondeu ela.
Fiquei a matutar. Fui educado a tolerar achava que ser bom genro era engolir tudo.
***
A primeira visita do Manuel à noite foi meio ano depois do funeral da esposa.
Nessa altura pensei que ia ser caso pontual, só mais uma noite das duras para partilhar a dor.
Já estávamos deitados, na penumbra, quase a dormir, quando alguém bateu à porta.
A estas horas? assustou-se a Inês.
O toque foi insistente. Fui abrir, ainda a pensar que era uma emergência.
Era ele: o Manuel, descabelado, sem casaco, a suéter velha e sem boina. Os olhos brilhavam.
Desculpa… balbuciou ele, entrando. Eu… não consigo estar em casa. Está vazia.
Cheirava a tabaco e frio. Trazia o pacote das mesmas bolachas.
O que se passou, pai? Está mal disposto?
Não, nada disso. Só queria ver-vos.
Senti um nó na garganta. Lembrei-me do enterro, do olhar perdido de alguém a quem roubaram (ou perderam) a bússola.
Sentou-se, calado. Às vezes dizia:
Ela gostava de beber chá à noite…
As mãos tremiam ao partir a bolacha.
Vi-as hoje na loja. Foi onde a conheci… A Fernanda agarrou a mesma caixa. Disse: “Leve o senhor, eu estou de dieta”. Nesse instante decidi que ia casar com ela.
Ouvi-o, e não me irritou só tive pena.
Venha quando precisar, senhor Manuel, disse-lhe, à saída, ao nascer do dia. Estamos aqui.
E foi literal: passou a vir sempre que precisava. Quase sempre, depois da meia-noite.
Daí ao hábito, foi um passo rápido. Já não sabia dizer quando é que os intervalos foram maiores que uma semana.
***
Quando tentei discutir o assunto com a Inês, ela encolheu os ombros.
Sempre foi noctívago, o pai. Passava noites a ler, a trabalhar. Desde miúdo era assim. Só que, dantes, estava na casa dele.
Agora está na nossa, notei, suave.
O nosso lar é um prolongamento, para ele, imagino. Sozinho mete-lhe medo lá. À noite ainda pior.
Eu também tenho medo, confessei. Por não dormir, porque a Matilde acorda, porque cada vez que tocam à porta pareço que recebo um alarme.
A Inês ficou em silêncio. Houve ali um peso, uma culpa como se tentasse ser filho, mas já não coubesse no papel.
Numa noite, não aguentei mais. Fingi dormir. Era ela a ir à porta, eu preso à cama. Ouvi os passos, o ranger da porta e depois vozes baixas. Meia-hora depois, só se ouvia um murmúrio. A curiosidade venceu o cansaço: fui espreitar.
Manuel estava sozinho à mesa. A Inês já tinha voltado ao quarto. Ele arrumava fotografias antigas, sob a luz do candeeiro, a transformar a cozinha num palco pequeno.
Fernanda, olha para ti… cochichava. Nesse vestido tu dizias que eu te deixava se engordasses. E eu, tolo, calava. Devia ter dito: “És tudo para mim…”
Virou as fotos.
Aqui está o Tomás, ranhoso ainda. Vês o sofá antigo? Víamos filmes juntos. E lembras-te do António, quando entrou à uma da manhã, e ficámos a conversar até de madrugada? Disseste: “Enquanto pudermos, as portas estão abertas. Só as fechamos quando já cá não estivermos.”
Era um diálogo sem resposta, quase um apelo: “Por favor, que nunca me fechem nenhuma porta quando mais preciso…”
Fiquei parado, esmagado. Não era um monstro; era apenas um homem perdido numa noite sem gente.
Não desapareceu o incómodo. Mas a compaixão foi crescendo.
***
Um dia, resolvi brincar.
Foi no início do verão, noite morna, janela entreaberta. Quando tocou à porta à hora habitual, desta vez vesti propositadamente um roupão colorido por cima do pijama, pus a máscara de dormir na cabeça (prenda da Vera), e escancarei a porta teatralmente.
Bem-vindo ao nosso festival noturno, senhor Manuel. Em exclusivo para si: chá, bolachas e privação do sono!
Ele desatou a rir.
Estas gerações modernas! Pensava que eram todos reformados a deitar cedo e cedo erguer, e afinal têm piada para dar e vender.
Na cozinha, a fingir ser maitre, mostrei-lhe a nova embalagem de café, estalei o dedo no mini-despertador para o forno.
Podíamos instituir: “Meia-noite à portuguesa” só falta guitarra e casa cheia. Pena que o despertador seja às seis, infelizmente…
Ora, valem as memórias! Quando andava de comboio à noite, lembra-se, Inês? Os compartimentos pareciam famílias e à noite faziam-se as melhores conversas…
Depois disse:
Na vida, há portas que devemos deixar abertas para quem precise.
A frase ficou-me cravada. Era tocante e perigosa ao mesmo tempo.
“Esses ‘quem precise’ às vezes esquecem que há gente cá dentro”, pensei, mas só disse:
Também há janelas para fechar, senão apanha-se uma gripe.
Manuel, claro, não percebeu as nuances embutidas. E falou, falou, sem notar a minha exaustão.
***
Um dia não abri a porta.
Matilde estava doente, febril. Eu, sozinho com ela. Mal a pusera na cama, toca o maldito campainha.
Agora, não, por favor… murmurei.
Dois, três toques, depois silêncio.
Fiquei quieto, até o coração acalmar. “Olha, não abri. E o mundo não acabou.”
De manhã, ao sair com o lixo, estava lá o saco das bolachas Maria, húmido de orvalho. Um papelinho ao lado, numa caligrafia incerta: “Adormeceram. Não quis incomodar. M.”
Só isso. Sem queixas, só aquele gesto.
Deu-me uma pontada de culpa… e raiva. “Porque é que sou eu a sentir-me o vilão, só por querer dormir?”
***
Na noite seguinte, a casa parecia húmida e estranha.
Matilde apanhou uma constipação foi espreitar a cozinha descalça, a correr atrás das conversas do Manuel. Passou a noite a tossir, febril. Na manhã seguinte, olheiras de panda. Fui arrastar-me para o emprego, só viva com cafés.
Ao jantar, a mexer uma sopa, olhei para Inês e senti tudo a rebentar-me dentro.
Não posso continuar, desabafei, de cabeça baixa.
A quê? ela punha o fervedor no fogão.
A viver à conta do relógio do teu pai. Não somos casa de chá de emergência!
Inês ia dizer o habitual mas levantei a mão:
Basta, Inês. Já ouvi vezes demais que “ele está só, é pai”, etc. E eu? Também sou homem, pai, tenho limites. Alguém se preocupa como ando?
Ela calou-se.
Combinamos? Se ele vier hoje, falamos. A sério. Vou dizer-lhe que quero a noite para mim. Não para o mandar embora, mas para respeitar o nosso ritmo.
E se ele se magoar?
E eu, não me magoei já por fingir que não faz mal, todos os dias?
Disse com decisão e um alívio por, finalmente, pôr em palavras o que sentia.
Vamos experimentar juntos, prometeu Inês.
***
Nessa noite, quando vi a caixa das fitas, fez-se luz na minha cabeça.
“Festas em família 1979”, lia-se na etiqueta. Orgulhoso, Manuel colocou-a na mesa.
Vês isto? História viva!
Podemos falar um pouco antes? arrisquei, enquanto a Inês servia o chá.
O quê, preciso de conversa para animar a noite? riu-se, forçando a galhofa.
Sobre noites, sim, fui direto.
Parou de sorrir.
Diga, pediu, cauteloso.
Costuma cá vir tarde, quase sempre depois da uma. Para si a noite é memória, para nós é descanso. Amanhã trabalhamos cedo, a Matilde também. Ficamos exaustos.
Manuel franziu o rosto.
Estou a incomodar?
Interveio a Inês:
Pai, não incomoda. Mas à noite ficamos mesmo cansados. A Matilde acorda, custa-nos.
Acenei e acrescentei:
Começo a temer cada chamada depois das dez. O coração salta-me ao peito. Não relaxo nunca. E a Matilde…
Expliquei os sonhos dela, as portas, a maçaneta.
Manuel desviou o olhar para as mãos.
Pensei… era como dantes, com a Fernanda. Portas sempre abertas. Dizia: “Se alguém precisa, à noite, que entre”.
E nós, precisamos dormir de noite, disse baixo, mas firme. Porque gostamos de si e da Matilde. Portas abertas de dia, não de madrugada.
Silêncio pesado.
Então… não me querem cá? murmurou.
Queremos. Só não à uma da manhã. Venha de tarde, fim do dia, ou ao jantar. Diga antes que vem, pomos chá, bolacha Maria, conversamos tudo.
Inês apoiou.
Manuel ficou calado. Depois, inesperadamente sincero:
Não pensei que fosse tão pesado para vocês. O tempo parou para mim naquela noite sem a Fernanda…
Senti o peito aliviar.
Vamos ver juntos a fita? Mas sábado à tarde, com todos juntos, propus. Como em 1979.
Olhou a caixa, depois para mim.
E se eu não aguentar de noite?
Na urgência, ligue. Nunca o deixamos sem resposta. Mas o chá, deixamos para o sol.
Inês assentiu.
Quero conversar consigo sóbrio, pai. Não caído de sono.
Manuel sorriu, triste.
Fui burro. Achei que ‘dez minutos’ não pesavam.
Esses ‘dez minutos’ já são um ano inteiro, observei, calmo.
Ele aceitou. Levantou-se.
Pronto, sábado. O projector espera. Vou andando.
Fui acompanhá-lo. Demorou-se a vestir o casaco.
Tomás, se um dia eu tocar já tarde…?
Vou pensar que precisa. Mas nem sempre abro. Preciso de ser pessoa também.
Ele assentiu. O olhar mudado.
***
No sábado, como prometido, preparámos tudo.
O projector antigo foi emprestado por um colega da Inês. A sala virou cinema: cortinas, lençol na parede, luz apagada.
O Manuel, brilhando como criança, segurava a caixa das fitas. A Matilde ao meu colo, de peluche agarrado. Inês ligava cabos, tentava pôr tudo a funcionar.
Por fim, a luz do projector cortou o escuro. Na parede, figuras baças: uma mulher jovem de vestido colorido, a sorrir. Ao lado, Manuel, sem brancas, tanto cabelo, a abraçá-la. No centro, um pequeno Tomás, redondinho, de olhos entregues.
Cenas de mesa de Natal, tangerinas, sardinhas, luzes. Em dado momento, um cartaz na porta: “Casa aberta, sempre. Até de noite. Só para os nossos”.
Senti as palavras entrarem-me peito a dentro.
Manuel limpou os olhos.
Escreveu ela… sussurrou. Queria que todos soubessem.
No filme, Fernanda ria, abria a porta para alguém invisível: “Entrem!” Só luz, alegria, ânimo. No fundo da imagem, o relógio marca “1:05”. A legenda, escrita à mão: “A casa está sempre de braços abertos”.
Manuel quebrou. Chorava de mansinho. A Matilde adormeceu durante o filme ao meu colo, tranquila.
Vi tudo aquilo e percebi: para ele, as visitas não eram só um hábito, mas tentativa desesperada de reviver um tempo com portas abertas para quem tivesse saudade.
***
Quando acabou, tudo voltou ao escuro suave.
Manuel limpou as lágrimas.
Desculpem… Achei mesmo que vinha fazer bem. Que, vindo à noite, não ficava tão só.
Mas nunca está sozinho garanti, de voz baixa. Só mudámos o horário.
Dias depois, fui ao supermercado. Além das bolachas Maria aquelas de sempre comprei um termo bonito, prateado, com montanhas, “mantém quente 8 horas”. Em casa, preparei um embrulho, pus as bolachas e um chaveiro com uma chave extra.
Num cartão pequeno escrevi: “Senhor Manuel, tem sempre lugar aqui em casa. Sobretudo de manhã. O termo é para ter sempre chá quente nos passeios. A chave, entre quando anunciarmos a visita. Com carinho, Tomás, Inês e Matilde.”
Telefonei-lhe, pela primeira vez ao meio do dia, sem motivo especial.
Amanhã vem o chá, senhor Manuel. Da manhã. Passe cá antes das doze.
Sorriu, ouvi-se alívio.
É convite oficial?
Tentativa de nova tradição sem turnos da noite.
No dia seguinte chegou às dez em ponto. Avisou antes: “Já venho a caminho”. À porta, camisa engomada, ramo de margaridas.
Para ti, Inês. Pela paciência.
Debaixo do braço, um ursinho de peluche com barrete.
Para a Matilde. Um guarda-noites, para o avô lhe fazer companhia nos sonhos mas só para contar histórias.
Abri um sorriso genuíno.
Entre, o chá está ao lume.
Na cozinha, o sol desenhava quadrados brilhantes na mesa. O chá estava quente, as bolachas estaladiças, uma Matilde bem disposta, aninhada no ursinho, a ouvir a avó falar com o avô. Eu e a Inês ouvimos o Manuel contar, a rir, peripécias dos comboios, só que, desta vez, era de manhã, não roubando o sono.
À noite, ao deitar a Matilde, ela disse:
Pai, hoje o avô não veio ao meu sonho.
Então, gostaste?
Foi bom. Dormi. De manhã ele era real.
Sorri na escuridão.
Que assim seja, filha.
Essa noite, às “1:15”, só havia silêncio. Ninguém tocou à porta. Acordei, finalmente, não com a ansiedade do costume, mas porque dormira o suficiente.
Aprendi que, às vezes, dizer os nossos limites não afasta ninguém. Só mostra que somos gente. O sogro não desapareceu da nossa vida; só deixou de invadir o nosso sono. Para mim, foi uma vitória pequena, mas nossa.






