Sempre soube que o meu marido tinha uma amante. Decidi contratá-la para trabalhar comigo – chamaram-me louca.

Já sabia que o meu marido tinha uma amante. Decidi contratá-la chamaram-me doida.

Quando tropecei nas mensagens entre o meu marido e a outra não chorei. Nem barafustei. Fiz algo mais sofisticado: sorri. Afinal, sou diretora-geral de uma consultora internacional e tive uma ideia bem melhor que qualquer escândalo dramático.

Duas semanas depois, publiquei um anúncio à procura de uma assistente de direção. Ela candidatou-se. Não que o currículo fosse brilhante longe disso! mas a foto era um copy-paste dos selfies perdidos no telemóvel do meu marido.

No dia da entrevista, apareci na sala de reuniões vestida a rigor, com o fato adequado à ocasião.

É a candidata, não é? Entre, por favor, sente-se.

Ela não deu sinal de reconhecimento. Natural. Ele nunca lhe terá mostrado uma fotografia minha. Mais depressa terá dito que era casado com uma bruxa desleixada.

Então, diga-me: porque quer trabalhar connosco? perguntei com cara de quem janta sardinhas à vontade.

A vossa empresa tem uma excelente reputação e

Ah, trate-me só por chefe interrompi, sorridente. Aqui somos quase de família!

Contratei-a logo ali.

Os primeiros meses foram teatro puro. Admito: trabalhadora ela era. Mas nada batia o prazer de beber o café da manhã com a amante, duas horinhas depois do meu marido sair porta fora sem fazer ideia da novela.

É casada? perguntou-me ela, um dia, enquanto discutíamos contratos.

Sou. Muito feliz, olha que sorte respondi, sereníssima. E tu? Tens namorado?

Ela corou até às orelhas.

É complicado Ele está, digamos, numa situação difícil.

Casado disse eu, tudo muito casual. Clássico.

Não é nada disso! Ele ama-me, só que

Olha, não julgo. O coração quer o que o coração quer, não é verdade?

Ao jantar, o meu marido perguntava como correra o dia. Eu contava-lhe histórias do escritório, lá pelo meio falava da minha nova assistente muito dedicada, coitada. Ele nunca suspeitou. Homens infiéis têm uma fé cega na própria esperteza. Ingénuos.

Ao sexto mês, promovi-a.

Trabalhaste lindamente. Quero que te mudes e assumes o novo escritório em Macau. Uma oportunidade única. Oitenta por cento de aumento, casa paga, contrato de três anos.

Os olhos dela brilharam como montras na baixa do Porto.

No estrangeiro? Mas tenho alguém cá.

Amor à distância só dura se for verdadeiro disse eu, dando-lhe uma palmadinha. Se não der, é porque não valia a pena. Confia em mim, sei do que falo.

O meu marido tornou-se insuportável nessas semanas. Discutiam ao telefone enquanto eu fingia dormir. No fim, lá foi ela, chorosa no aeroporto, segundo o relato do meu motorista, que por acaso estava por lá.

Meses depois, a operação internacional era um sucesso de novela. Os relatórios dela eram irrepreensíveis. O meu marido, romântico como nunca: jantares, flores, promessas de renovar votos matrimoniais. O remorso é ótimo para o amor.

Que ternura.

Um ano depois de a ter contratado, liguei-lhe por videoconferência.

Temos de conversar.

A cara dela ficou tensa.

Lamentavelmente, vamos rescindir o teu contrato. Reestruturações. Sabes como é.

O quê? Mas eu larguei tudo! A minha vida!

Pois, que pena teres deixado aquele alguém complicado por esta oportunidade. Ah, já agora fiz pausa dramática manda cumprimentos quando voltares. Duvido é que ele esteja à espera. Ultimamente anda muito ocupado a tratar dos preparativos para os nossos votos de casamento.

Fez-se um silêncio sagrado. A cara dela foi de pânico a puro terror enquanto caía a ficha de quem eu era.

Tu tu sabias

Desde o primeiro dia. A tua indemnização já está prevista. Recomendo que invistas em terapia. E, na próxima vez que um homem casado te disser que a mulher dele não o compreende, pergunta-lhe primeiro se a senhora gere orçamentos de dezenas de milhões de euros. Porque há mulheres que percebem mais do que eles julgam.

Desliguei.

Nessa noite, o meu marido chegou a casa com uma garrafa de espumante.

Vamos festejar! Faz agora um ano que tudo melhorou entre nós.

Brindei com ele, saboreando cada gole.

Nunca lhe contei. Para quê estragar-lhe o bom humor? Eu já tinha tido a minha vingança. E ele nem sonha que o alvo era ele próprio desde o princípio.

E tu, achas preferível um frio e bem calculado ajuste de contas ou uma chapada de verdade logo à primeira?

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Sempre soube que o meu marido tinha uma amante. Decidi contratá-la para trabalhar comigo – chamaram-me louca.
“Анна Леонидовна решава: Нов живот след 60! Развод след 40 години брак и срещу всички очаквания.”