A ex-nora aparece no jantar de Natal e todos ficámos de boca aberta.
Quando a campainha tocou às 20h47 do dia 24 de dezembro, olhámos uns para os outros como se tivesse rebentado um cano de gás. A minha mãe deixou cair a concha dentro do tacho do caldo verde, o meu pai parou o Jingle Bells a meio do refrão, e eu, confesso com vergonha, quase me engasguei com uma broa de milho.
Falta chegar alguém? perguntou a minha mãe, a tentar fazer uma revisão mental dos convivas.
O meu irmão Tiago levantou a cabeça do sofá, onde estava a construir uma torre de legos com a sua filha de quatro anos, Leonor. Ficou branco como farinha.
Não pode ser murmurou, já a temer o pior.
Pois, mas podia ser. Porque quando abrimos a porta, quem estava lá era a Rita ex-nora cá de casa há seis meses com uma travessa de salada russa numa mão e uma garrafa de verde tinto na outra.
Família! exclamou ela, com um sorriso daqueles de anúncio de detergente. Feliz Natal!
Instalou-se um silêncio denso, dava para cortar com a faca do presunto.
Rita tentei eu, a escolher as palavras com cuidado. Tu agora não
Não estou com o Tiago, sim. atalhou ela e entrou como se nada fosse. Mas terminei com ELE, não com VOCÊS. Isto não é jantar a dois, pois não? É o Natal em família.
A minha mãe santa mulher diplomática foi a primeira a reagir.
Pois, olhando bem, há lógica nisso
Ó mãe! bufou logo o Tiago.
Tia Rita! gritou a Leonor, correndo a abraçar-lhe as pernas.
Naquele instante, percebemos todos que estávamos tramados.
Seguiu-se o jantar mais estranho, e ao mesmo tempo harmonioso e surreal de sempre. A Rita sentou-se no sítio do costume, ajudou a servir o peru e ainda passou o sal ao Tiago, com uma naturalidade que nos deixou de olhos esbugalhados.
Mais batatinhas? perguntou-lhe ela.
Sim, obrigado respondeu ele, perdido no meio do caos.
Ainda ressonas como uma motosserra?
Ó Rita, por favor
A tua próxima namorada tem de saber. Preciso de lhe passar essas dicas.
NÃO tenho próxima namorada!
Ah, então não há pressa.
O meu pai dava-me pontapés por baixo da mesa, a tentar não se rir. A minha mãe fingia uma atenção desmedida ao copo de vinho.
O mais surreal foi quando chegou a vez das prendas. A Rita trouxe para TODOS. Até para o Tiago um livro sobre meditação e autocontrolo de raiva.
Há dias em que ficas muito nervoso com a separação do lixo explicou ela, meiguinha, enquanto ele abria o presente de queixo tenso.
Mas o que acabou com qualquer resistência foi quando a Leonor adormeceu no sofá a cabeça no colo da mãe e os pés nas pernas do pai. A Rita e o Tiago trocaram aquele olhar só possível entre quem já partilhou meia vida e sabe os segredos um do outro.
Continuas a ser da família murmurou a minha mãe, pousando uma mão em cima da da Rita. Separação não quer dizer expulsão.
E enquanto lavávamos a louça depois da ceia, não consegui evitar pensar que a minha família é um caos pegado mas é o nosso caos.
O Tiago passou na cozinha, a Leozinha já a dormir, encaminhando-se para o carro.
Eu levo-te a casa disse ele à Rita, com aquele ar de quem já desistiu de lutar contra o destino.
Tão cavalheiro, está a ver mãe? Foi por isto que me casei com ele!
Pois, e é por isto que nos divorciámos!
Mas estavam os dois a sorrir. Quem sabe como continua esta novela no próximo ano.







