Vais encontrar o teu destino. Não precisas de pressa. Tudo acontece no seu tempo.
Na vida de Margarida existia um costume antigo e meio estranho. Todos os anos, mesmo antes do Réveillon, a jovem ia a uma consulta com uma taróloga. Como vivia em Lisboa, encontrar uma nova era tarefa fácil.
A verdade é que Margarida sentia-se sozinha. Por mais que procurasse conhecer algum rapaz gentil e honrado, fracassava. Todos esses rapazes, pelos vistos, já não estavam disponíveis há muito…
Este ano vais encontrar o teu destino! anunciou solenemente a taróloga de olhos escuros, fitando uma pedra brilhante.
Mas onde? Onde o vou encontrar? Margarida perguntou, impaciente. Dizem-me isto todos os anos. Os anos passam e eu continuo sem encontrar o tal.
Recomendaram-me a si como a melhor taróloga do bairro. Exijo que me diga o lugar preciso! Ou vou espalhar por todo o lado que é uma fraude… ameaçou a rapariga.
A taróloga revirou os olhos, já habituada a lidar com pessoas agitadas, e sabia que não seria fácil livrar-se de Margarida. Caso não inventasse algo naquele momento, a jovem ficaria ali até ao fechar da loja, atrasando os outros clientes à espera da sorte.
Vais encontrá-lo no comboio! declarou com os olhos semicerrados. Vejo-o claramente… alto, loiro, muito bonito. Um verdadeiro príncipe de conto de fadas…
Ena! exclamou Margarida, animada. Mas em que comboio? E quando?
Na véspera do Réveillon! continuou a taróloga, quase divertida. Vai à estação. O teu coração vai indicar o destino certo para o bilhete…
Obrigada! sorriu Margarida, radiante.
Margarida saiu do prédio, apanhou um táxi e seguiu apressada para a Gare do Oriente. No guiché da CP, a energia dela foi perdendo força à medida que olhava, perdida, para os horários dos comboios, sem fazer ideia de qual escolher…
Vá lá! apressou a funcionária da bilheteira, arrancando Margarida dos seus devaneios.
Porto… Para trinta e um de dezembro. Vagão cama, sff, balbuciou Margarida.
Já se imaginava num compartimento aconchegante, a beber chá, quando, de repente, a porta se abre e entra ele, o futuro noivo…
Em casa, Margarida apressou-se a preparar os essenciais para a viagem, pois o comboio partia tarde naquela noite.
Nem pensou nas consequências. Sobre o que faria na passagem do ano numa cidade desconhecida. Sonhava com apenas uma coisa: que a previsão da taróloga se realizasse o mais breve possível.
Sentir-se inútil era doloroso, especialmente nas épocas festivas. Toda a gente corria às compras, em família, escolhendo presentes uns para os outros. Todos, menos ela…
Poucas horas depois, Margarida sentava-se no vagão, com um copo de chá, tudo exatamente como imaginara. Só faltava o príncipe aparecer na porta entreaberta.
Boa noite, minha linda! saudou uma senhora idosa, atirando uma mala gigante para dentro do compartimento. Qual é o outro lugar?
É ali… respondeu Margarida, apontando a prateleira oposta. Mas tem a certeza que não se enganou no comboio?
Não, querida, estou certíssima, sorriu a velha e sentou-se no lugar livre.
Com licença, posso passar? balbuciou Margarida. Só então percebeu o disparate que estava a fazer. Deixe-me sair! Mudei de ideias, não quero viajar!
Espera, deixa só guardar a mala, disse a senhora, sem perceber o que se passava.
E agora… o comboio já arrancou, suspirou Margarida. O que faço agora?
O que te deu para querer sair de repente? Esqueceste-te de alguma coisa? perguntou a mulher.
Margarida ignorou a pergunta e virou-se para a janela. Sabia que a senhora não tinha culpa, que ela própria aceitara o destino insólito daquela noite.
Entretanto, Dona Hermínia tirou da mala uns pastéis caseiros ainda mornos e começou a oferecer à viagem a sua companhia.
Fui visitar a minha filha, explicou a Margarida. Mas agora o que quero é voltar a casa rápido, porque o meu filho e a noiva vêm receber o novo ano comigo.
Que sorte… Eu devo receber o ano novo sentada na estação, murmurou Margarida, triste.
Conversando, Margarida acabou por contar à idosa toda a verdade sobre aquela aventura.
Menina ingénua! Para que corres atrás desses embusteiros? repreendeu a velha. Vais encontrar o teu destino. Não precisas de pressa. Tudo acontece no seu tempo…
No dia seguinte, Margarida desceu na plataforma de uma cidade que via pela primeira vez. Ajudou Dona Hermínia a sair do vagão e depois ficou parada, sem saber o que fazer.
Obrigada, Margarida! Um feliz ano novo! agradeceu Dona Hermínia.
Para si também! respondeu Margarida, num sorriso melancólico.
Dona Hermínia olhou-a, sentindo pena por não saber como animá-la. Percebia que passar a noite na estação seria um início demasiado triste para o ano.
Margarida, vem comigo para casa! sugeriu, de repente, a senhora. Vamos enfeitar a árvore, pôr a mesa para a festa…
Oh, não… Não quero incomodar, hesitou Margarida.
E estar sentada na estação é agradável? sorriu a idosa. Vem lá, nem se discute!
Margarida acabou por aceitar o convite. Hermínia tinha razão. Com o temporal lá fora, não fazia sentido ficar a vagar na estação.
O Joaquim e a Filomena já estão em casa, avisou Hermínia, sorrindo.
Joaquim, vendo a mãe do lado da janela, correu para a ajudar com as malas. No elevador, Hermínia apresentou Margarida.
Joaquim, querido, olá. Chego acompanhada, com uma convidada especial. É filha de uma grande amiga minha, a Margarida, disse Hermínia, piscando o olho a Margarida.
Óptimo! respondeu o rapaz. Venha connosco, Margarida.
Margarida olhou para o rapaz alto, de cabelos dourados, e corou. Era exatamente como ela imaginara no sonho do comboio. Eis que o destino, surreal, lhe pregava mais uma partida…
E a Filomena? perguntou Hermínia.
Mãe, a Filomena foi-se embora, não voltará nunca. Não quero falar disso, está bem? Joaquim ficou sério.
Está bem…, resignou-se a mãe.
À noite, todos se sentaram juntos, despedindo-se do ano velho.
Margarida, pretende ficar muito tempo connosco? sorriu Joaquim, colocando salada no prato dela.
Não. Amanhã de manhã regresso, respondeu Margarida, sem saber bem porquê, mas com tristeza.
Na verdade, não queria ir embora daquele lar acolhedor. Sentia que sempre conhecera Hermínia e Joaquim, como se fossem família.
Não entendo a pressa toda… resmungou Hermínia. Margarida, fica mais um tempo.
Sim, Margarida, fica connosco. Há um ringue de patinagem fantástico, amanhã ao fim do dia podemos ir. Não vás já, pediu-lhe Joaquim.
Convenceram-me, sorriu Margarida. Fico com muito gosto.
No Réveillon seguinte, já eram quatro à mesa: Hermínia, Joaquim, Margarida e o pequeno Gabriel…
E tu, acreditas em milagres de ano novo?






