— Eu não podia abandoná-lo, mãe — sussurrou Miguel. — Compreende? Não podia. Miguel tinha catorze anos e sentia que o mundo inteiro estava contra ele. Ou melhor, ninguém o queria compreender. — Lá vem o traquina outra vez! — murmurava Dona Clara do terceiro andar, atravessando apressada para o outro lado do pátio. — Cresceu só com a mãe. Eis o resultado! Miguel passava, mãos nos bolsos das calças de ganga rasgadas, fingindo não ouvir. Mas ouvia. A mãe trabalhava até tarde. Na mesa da cozinha, um bilhete: «Os panados estão no frigorífico, aquece.» E silêncio. Sempre silêncio. Naquele dia voltava da escola, onde os professores tinham voltado a “ter uma conversa” sobre o seu comportamento. Como se ele não percebesse que era visto como um problema para todos. Percebia. Mas o que mudava? — Ó rapaz! — chamou o senhor Vítor, o vizinho do rés-do-chão. — Viste aí um cão manco? Alguém tem de o enxotar. Miguel parou e olhou. Junto aos caixotes do lixo estava mesmo um cão. Adulto, pelagem ruiva com manchas brancas. Estava deitado e só os olhos seguiam as pessoas. Olhos inteligentes e tristes. — Já alguém que o ponha na rua! — concordou Dona Clara. — Isso está doente! Miguel aproximou-se. O cão não se mexeu, abanou apenas a cauda com fraqueza. Tinha uma ferida feia na pata de trás, sangue seco. — Então, ficas aí parado? — atirou o senhor Vítor. — Pega num pau e afasta-o! Foi então que algo dentro de Miguel se revoltou. — Ninguém toca nele! — disse de repente, protegendo o cão. — Ele não faz mal a ninguém! — Olha, olha! — admirou-se o senhor Vítor. — O defensor apareceu. — E vou continuar a defender! — Miguel agachou-se ao lado do cão, estendeu a mão com cuidado. O animal cheirou os dedos e lambeu-lhe a palma. Miguel sentiu calor no peito. Pela primeira vez em muito tempo, alguém lhe mostrava carinho. — Vamos embora — sussurrou para o cão. — Vem comigo. Em casa, Miguel improvisou uma cama para o cão com casacos velhos num canto do quarto. A mãe trabalhava até ao final do dia — ninguém ia ralhar ou enxotar “a peste”. A ferida parecia grave. Miguel recorreu à internet, pesquisando primeiros socorros para animais, enfrentando os termos médicos com esforço mas decorando tudo com determinação. — Tenho de limpar com água oxigenada — murmurava, vasculhando na farmácia de casa. — E passar iodo à volta. Com cuidado, para não doer. O cão estava calmo, confiava. Olhava para Miguel com gratidão — de uma forma que ninguém olhava há muito tempo. — Como te chamas? — Miguel enrolava a ligadura. — És ruivo… Chamo-te Ruivo, está decidido. O cão latiu baixo — parecia concordar. À noite, a mãe chegou. Miguel preparou-se para discutir, mas ela inspeccionou o curativo no Ruivo sem dizer nada. — Foste tu? — perguntou baixinho. — Fui. Vi na internet como fazer. — E vai comer o quê? — Arranjo qualquer coisa. A mãe demorou-se a olhar para o filho. Depois, para o cão, que lambia-lhe a mão com confiança. — Amanhã levamos ao veterinário — decidiu ela. — A ver como está a pata. Já tem nome? — Ruivo — respondeu Miguel, radiante. Pela primeira vez em muitos meses não havia uma parede entre eles. Na manhã seguinte, Miguel acordou mais cedo. Ruivo tentou pôr-se de pé, choramingando. — Calma, fica quieto — tranquilizou-o Miguel. — Já trago água, e comida. Em casa não havia ração. Deu-lhe a última panado, desfez pão no leite. Ruivo comeu com vontade, mas delicadamente. Na escola, Miguel não se irritou com os professores pela primeira vez em muito tempo. Pensava só no Ruivo — será que estava bem? Sofria? Sentia-se sozinho? — Hoje estás diferente — estranhou a directora de turma. Miguel encolheu os ombros. Não tinha vontade de contar — iam gozar. Saiu disparado para casa, ignorando os olhares dos vizinhos. Ruivo saltou de alegria ao vê-lo — já conseguia apoiar-se em três patas. — Pronto, parceiro, queres ir lá fora? — improvisou uma trela com corda. — Mas devagar, protege a pata. No pátio, algo mudou. Dona Clara quase se engasgava ao vê-los juntos: — Levou-o para casa! Miguel, estás maluco?! — Porquê? — respondeu calmo. — Estou a tratar dele. Vai recuperar. — Tratas? — aproximou-se a vizinha. — E dinheiro para os remédios, onde vais buscar? Roubar à tua mãe? Miguel apertou os punhos, mas conteve-se. Ruivo encostou-se à perna dele — parecia sentir o ambiente. — Não roubo. Uso o que tenho guardado dos lanches — respondeu baixo. O senhor Vítor abanou a cabeça: — Filho, sabes que isso é uma vida? Não é brinquedo. Precisa comer, tratar, passear. Agora cada dia começava com uma volta no pátio. Ruivo recuperava rápido, quase corria — mesmo coxeando. Miguel ensinava-lhe comandos, com paciência. — Senta! Boa! Dá a pata! Assim! Os vizinhos viam de longe. Uns desaprovavam, outros sorriam. Miguel só via os olhos fiéis do Ruivo. Ele mudou. Aos poucos. Deixou de ser brusco, ajudava em casa, até melhorou nas notas. Ganhou uma razão de viver. E isso era só o começo. Três semanas depois, aconteceu o que Miguel mais temia. Voltava da última volta com Ruivo quando de trás das garagens surgiu uma matilha. Cinco ou seis cães — magros, ferozes, olhos a brilhar. O líder, um cão preto, rosnava, avançando. Ruivo recuou atrás de Miguel. Caminhar ainda lhe doía, não corria bem. Os outros perceberam a fraqueza. — Para trás! — gritou Miguel, agitando a trela. — Saiam! Mas a matilha não fugiu. Cercou-os. O cão preto rosnava mais fundo, pronto para atacar. — Miguel! — vêm de cima um grito de mulher. — Corre! Larga o cão e foge! Era Dona Clara, à janela, com outros rostos atrás. — Rapaz, não sejas tolo! — gritava o senhor Vítor. — Ele é coxo, nunca vai escapar! Miguel olhou para Ruivo. Tremia, mas não fugia. Colava-se à perna do dono, disposto a tudo. O cão preto saltou primeiro. Miguel protegeu-se, mas o impacto acertou-no ombro. Dentes afiados rasgaram a manga, chegaram à pele. Ruivo, apesar da pata ferida, do medo, atacou para salvar Miguel. Cravou os dentes na perna do líder, aguentou firme. Começou a briga. Miguel defendia-se a pontapés, empurrava Ruivo longe dos dentes alheios. Levava mordidas, arranhões, mas não desistia. — Meu Deus, que é isto! — chorava Dona Clara lá em cima. — Vítor, faz qualquer coisa! O senhor Vítor descia as escadas, agarrava o que podia — pau, ferro. — Aguenta, rapaz! — gritava. — Já vou ajudar! Miguel caía no chão sob a matilha, quando ouviu a voz familiar: — Saiam daqui! Era a mãe. Saíra do prédio com um balde de água e atirou-lhes em cima. Os cães fugiram, furiosos. — Vítor, ajuda! — gritou ela. O senhor Vítor correu com o pau, outros vizinhos também desceram. Ao perceberem a força da resistência, os cães fugiram. Miguel jazia no alcatrão, abraçando Ruivo. Ambos ensanguentados, ambos a tremer. Mas vivos. Inteiros. — Filho — a mãe ajoelhou-se, conferindo-lhe os ferimentos. — Quase me mataste de susto. — Eu não podia abandoná-lo, mãe — sussurrou Miguel. — Compreende? Não podia. — Compreendo — respondeu baixo. Dona Clara desceu ao pátio, aproximou-se, olhou para Miguel como se fosse desconhecido. — Rapaz — murmurou, confusa. — Podias ter morrido… Por causa de um cão. — Não por causa de um cão — intrometeu-se o senhor Vítor. — Por um amigo. Percebe a diferença, Clara? A vizinha acenou em silêncio. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. — Vamos para dentro — disse a mãe. — Temos de tratar as feridas. Do Ruivo também. Miguel levantou-se com esforço, pegou no cão ao colo. Ruivo chorava baixinho, mas abanava vagamente a cauda — feliz por estar com o dono. — Esperem — deteve-os o senhor Vítor. — Amanhã vão ao veterinário? — Vamos. — Eu levo-vos, de carro. E pago o tratamento — o cão mostrou-se heróico, merece. Miguel olhou, admirado. — Obrigado, senhor Vítor. Mas eu faço questão. — Nem discutas. Pagas-me depois, quando puderes. Agora… — bateu-lhe no ombro. — Agora orgulhamo-nos de ti. Certo? Os vizinhos acenaram todos. Passou um mês. Era uma noite comum de outubro, e Miguel regressava da clínica veterinária, onde agora ajudava aos fins de semana como voluntário. Ruivo corria ao lado — a pata sarou, e quase não coxeava. — Miguel! — chamou Dona Clara. — Espera aí! O rapaz preparou-se para outra crítica, mas a vizinha estendeu-lhe uma bolsa de ração. — É para o Ruivo — disse, envergonhada. — É boa, cara. Cuida tão bem dele. — Obrigado, tia Clara — respondeu Miguel, sinceramente. — Mas cá por casa não falta. Agora trabalho na clínica, a doutora Ana paga-me. — Na mesma, aceita. Há-de ser útil. Em casa, a mãe preparava o jantar. Ao vê-lo, sorriu: — Como corre na clínica? A doutora Ana está satisfeita contigo? — Diz que tenho jeito para isto, e paciência. — Miguel acariciou o Ruivo. — Talvez seja veterinário. Estou a pensar a sério nisso. — E a escola? — Está tudo bem. Até o professor Pedro elogiou em Física. Diz que fiquei mais atento. A mãe acenou. No último mês, Miguel mudara como nunca. Era educado, ajudava em casa, cumprimentava os vizinhos. E mais importante — tinha um objetivo. Um sonho. — Amanhã o senhor Vítor vem aí. Quer propor-te trabalho extra. O amigo dele tem um canil, precisa de ajuda. Miguel iluminou-se: — A sério? E posso levar o Ruivo? — Penso que sim. Agora já é quase um cão de serviço. À noite, Miguel sentou-se no pátio com Ruivo. Ensaiavam novo comando — “vigia”. O cão obedecia, sempre atento ao dono. O senhor Vítor aproximou-se, sentou-se no banco ao lado. — Amanhã vais mesmo ao canil? — Vou. Com o Ruivo. — Então deita-te cedo. Vai ser puxado. Depois de ele sair, Miguel ficou mais um pouco. Ruivo deitou o focinho nas pernas dele, suspirou contente. Tinham-se encontrado. E nunca mais estariam sozinhos.

Não consegui deixá-lo, mãe murmurou o Miguel. Percebes, não consegui.

Miguel tinha catorze anos e parecia que o mundo inteiro resolveu fazer birra com ele. Melhor dizendo, ninguém se dava ao trabalho de o compreender.

Olhem mais uma vez o rebelde! resmungou a Dona Cláudia do terceiro andar, atravessando o pátio para o lado oposto. Criança criada só por uma mãe, dá nisto!

Miguel passava, mãos enterradas nos bolsos das calças de ganga já com mais buracos do que tecido, fingindo não escutar. Escutava sim.

A mãe trabalhava até tarde outra vez. Na mesa da cozinha, um papel: «Há bifes no frigorífico. É só aquecer». E silêncio. Sempre aquele silêncio.

Miguel ia para casa, acabando de sair da escola onde os professores tinham realizado mais uma reunião sobre a sua «conduta». Como se ele já não soubesse que era o problema de todos. Sabia. E adiantava de quê?

Eh rapaz! chamou o senhor Vítor, vizinho do rés-do-chão. Viste aquele cão coxo por aqui? Era bom enxotá-lo.

Miguel parou. Olhou bem.

Ao pé dos caixotes do lixo repousava mesmo um cão. Não era filhoteum bicho adulto, de pelo dourado e manchas brancas. Imóvel, só os olhos ágeis seguiam quem passava. Olhos mais inteligentes do que muitos alunos. E tão tristes.

Alguém que o mande dali para fora! confirmou Dona Cláudia. Aquilo deve estar doente!

Miguel aproximou-se. O cão não se mexeu, só abanéu o rabo, devagar. Na pata de trás, via-se um rasgão feio, sangue seco em volta.

O que estás aí a fazer? resmungou o senhor Vítor. Agarra aí num pau, enxota o bicho!

Foi aí que algo estalou dentro do Miguel.

Se alguém se atreve a tocar nele respondeu rápido, pondo-se à frente do cão. Ele não fez mal a ninguém!

Olha a novidade! admirou-se o senhor Vítor. Agora és defensor dos animais?

E vou continuar a ser! Miguel agachou-se ao pé do cão, estendeu-lhe a mão. Ele cheirou os dedos do rapaz e lambeu-lhe a palma, com um ar meigo.

Miguel sentiu um calor no peito. Havia muito que ninguém o tratava bem.

Vamos lá, sussurrou ao cão. Vem comigo.

Chegando a casa, improvisou uma cama para o bicho com casacos velhos, arrumados num canto do quarto. A mãe trabalhava até tarde ninguém para ralhar ou mandar o «bicho» embora.

A ferida da pata não tinha bom aspeto. Miguel mergulhou na internet, descobriu umas dicas de primeiros socorros para cães. Ia lendo e franzindo o nariz a termos médicos, mas só descansou quando sabia exatamente o que fazer.

Isto precisa de água oxigenada, murmurava ele, mexendo no armário dos medicamentos. Depois um pouco de Betadine nas bordas. Devagarinho, sem doer!

O cão, sem reclamar, deixava que ele tratasse da pata. Olhava o Miguel com gratidãocomo já ninguém o fazia há tempos.

Como será que te chamas? Miguel ia enrolando a ligadura. És ruivo Chamo-te Ruivo, pode ser?

O cão latiu baixinho, como quem aprova.

Ao fim da noite, a mãe chegou. Miguel preparou-se para o sermão, mas ela ficou só a espreitar o Ruivo, palpar a ligadura da pata.

Foste tu que trataste disso? perguntou em voz baixa.

Fui. Vi na net como se faz.

E vais dar-lhe de comer?

Hei de arranjar.

Ela olhou Miguel por um momento. Depois olhou o cão, que já lhe lambia os dedos como a alguém de confiança.

Amanhã vamos ao veterinário, decidiu. Ver se se safam com a pata. E já tens nome para ele?

Ruivo, respondeu Miguel, iluminando-se de orgulho.

Pela primeira vez em muitos meses já não havia aquela barreira entre eles.

No dia seguinte, Miguel levantou-se mais cedo que o galo. Ruivo quis levantar-se, mas soltava uns ganidos de dor.

Fica aí quietinho, acalmou-o o rapaz. Vou buscar água e comida.

Em casa não havia ração. Teve de sacrificar o último bife do jantar, esfarelar pão no leite. Ruivo comeu tudo, sem pressas, mas com vontade, limpando cada migalha do chão.

Na escola, pela primeira vez em meses, Miguel não respondeu torto aos professores. Só pensava no cão: estaria bem? Teria dor? E se estivesse com medo sozinho?

Hoje estás diferente, disse a diretora de turma.

Miguel só encolheu os ombros. Contar? Para quê? Iam gozar.

Correu para casa depois das aulas, ignorando os olhares desconfiados dos vizinhos. Ruivo recebeu-o a ganir alegre, já andando sobre três patas.

Queres ir à rua, companheiro? arranjou uma trela de corda. Vamos devagar, que ainda dói essa pata!

No pátio, quase houve um filme de terror. Dona Cláudia ao vê-los, engasgou-se com as sementes de girassol:

Ele levou o cão para casa! Miguel, estás maluco?!

O que é que tem? respondeu Miguel, sem se incomodar. Estou a tratar dele. Logo fica bom.

Tratas? aproximou-se a vizinha. E dinheiro para medicamentos? Também roubas à tua mãe, não?

Miguel apertou os punhos, mas calou-se. Ruivo encostou-se à sua perna, a sentir a tensão no ar.

Não roubo nada. Uso os meus trocos. Guardei do lanche, murmurou.

O senhor Vítor abanou a cabeça:

Rapaz, percebes que isto é uma responsabilidade? Não é um peluche. Tens de alimentar, cuidar, passear.

Agora cada manhã começava com o passeio do Ruivo. Ele recuperou rápido, já corria, mesmo que mancando um pouco. Miguel ensinava-lhe comandos à paciência de santo.

Senta! Bravo! Dá a pata! Assim mesmo!

Os vizinhos olhavam de longe. Uns abanavam a cabeça, outros sorriam. Mas nada disso importava ao Miguel, só via os olhos leais do Ruivo.

Miguel mudou. Não de repente, mas aos poucos. Deixou de ser agressivo, arrumava a casa, até as notas melhoraram. Tinha finalmente um objetivo. Era só o começo.

Três semanas depois, aconteceu o que Miguel mais temia.

Voltava com o Ruivo de um passeio à noite, quando por trás das garagens surgiu uma matilha de cães. Cinco ou seis, magros, de olhos a brilhar no escuro. O líder, um monstro preto, rosnava na frente.

Ruivo instintivamente encostou-se atrás das pernas do Miguel. A pata ainda doía, não podia fugir. Os outros cães sentiram o cheiro de fraqueza.

Para trás! gritou Miguel, a agitar a trela. Vão-se daqui!

A matilha não recuou. Cercou os dois, o chefe rosnava cada vez mais, pronto para saltar.

Miguel! veio um grito feminino de uma janela. Corre! Deixa o cão e foge!

Era Dona Cláudia, debruçada na janela, com outros vizinhos atrás.

Rapaz, não sejas tolo! gritava o senhor Vítor. Ele é coxo, nunca escapa!

Miguel olhou para o Ruivo. Tremia, mas não fugia: colado ao dono, preparado para tudo.

O líder atacou primeiro. Miguel ergueu os braços, mas o cão acertou-lhe no ombro. Dentes atravessaram a manga, rasgaram-lhe a pele.

Ruivo, mesmo a coxear e a tremer, lançou-se para salvar Miguel. Mordeu a pata do chefe e ficou pendurado ali.

Foi uma verdadeira guerra. Miguel tentava proteger Ruivo, levava dentadas e arranhões mas não largou.

Ó valha-me Deus, que desgraça! gritava Dona Cláudia. Vítor, faz qualquer coisa!

O senhor Vítor descia as escadas, agarrava um pau, a primeira coisa que encontrava.

Aguenta, rapaz! berrava. Estou a ir!

Miguel estava a cair ao chão, esmagado pela matilha, quando ouviu a voz que conhecia bem:

Vão para os diabos!

Era a mãe. Saiu do prédio com um balde de água e despejou sobre os cães. A matilha recuou, furiosa.

Vítor, ajuda! ordenou ela.

O senhor Vítor aproximou-se com o pau, outros vizinhos entraram em cena. Os cães acabaram por bater em retirada.

Miguel ficou deitado no alcatrão, abraçado ao Ruivo. Ambos ensanguentados, a tremer. Mas vivos.

Meu filho, a mãe ajoelhou-se, inspecionando os ferimentos. Deixaste-me à beira de um ataque.

Não consegui deixá-lo, mãe, murmurou Miguel. Não consegui.

Eu percebo, respondeu ela em surdina.

Dona Cláudia desceu ao pátio, aproximou-se devagar. Olhava para Miguel como se o visse pela primeira vez.

Rapaz, disse ela, balbuciando. Podias ter morrido. Por causa de um cão qualquer.

Não é «por um cão», disse o senhor Vítor, para surpresa de todos. É por um amigo. Entende, Cláudia?

A vizinha acenou. Escorriam-lhe lágrimas pelas bochechas.

Vamos para casa, disse a mãe. Tratar dessas feridas. E do Ruivo também.

Miguel levantou-se com dificuldade, pegou no cão ao colo. Ruivo gania baixinho, mas abanava o rabo contente por estar junto ao dono.

Esperem, chamou o senhor Vítor. Amanhã vão ao veterinário?

Sim.

Eu levo-vos. Com o meu carro. E pago o tratamento o cão levou uma tareia digna de herói.

Miguel olhou para o vizinho, surpreso.

Obrigado, senhor Vítor. Mas eu pago.

Deixa-te disso. Podes pagar depois, quando trabalhares. Agora bateu amigável no ombro de Miguel. Agora estamos todos orgulhosos de ti. Não é verdade?

Os vizinhos anuiram, mudos.

Passou um mês. Era uma comum noite de outono; Miguel regressava da clínica veterinária, onde ajudava como voluntário aos fins de semana. Ruivo corria ao lado a pata sarou, só um leve mancar restava.

Miguel! gritou Dona Cláudia. Espera!

Miguel parou, preparado para mais uma reclamação. Mas ela entregou-lhe um saco de ração.

É para o Ruivo, disse, meio sem jeito. Da boa, é cara. Cuidas tão bem dele.

Obrigado, Dona Cláudia, respondeu Miguel com sinceridade. Mas já temos ração. Trabalho agora na clínica, a doutora Ana paga-me.

Leva na mesma. Para o futuro nunca se sabe.

Em casa, a mãe estava a preparar o jantar. Mal viu o filho, sorriu:

Como foi na clínica? A doutora Ana está contente contigo?

Diz que tenho jeito. E sou paciente. Miguel fez uma festa na cabeça do Ruivo. Estou mesmo a pensar: talvez veterinário. A sério.

E a escola?

Vai-se andando. Até o senhor Pinto de Física elogiou. Diz que estou mais atento.

A mãe acenou, satisfeita. O filho mudara tanto em um mês: mais educado, prestável, até cumprimentava vizinhos. E, acima de tudo, tinha um objetivo. Um sonho.

Sabes disse ela, amanhã o senhor Vítor vem cá. Quer convidar-te para mais uma tarefa. O amigo dele tem um canil, precisa de ajudante.

Miguel iluminou-se:

Mesmo? E posso levar o Ruivo?

Claro. Ele já é quase um cão de trabalho.

Ao fim da noite, Miguel sentou-se com Ruivo no pátio. Treinavam o novo comando «guarda». Ruivo executava com empenho, olhando para Miguel com os olhos mais fiéis do mundo.

O senhor Vítor aproximou-se e sentou-se ao lado.

Amanhã vais mesmo ao canil?

Vou. Com o Ruivo.

Então vai dormir cedo. O dia vai ser puxado.

Quando o senhor Vítor saiu, Miguel ficou mais um bocado no pátio. Ruivo pousou o focinho nos joelhos do dono, suspirando de felicidade.

Encontraram-se um ao outro. Nunca mais iriam estar sozinhos.

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— Eu não podia abandoná-lo, mãe — sussurrou Miguel. — Compreende? Não podia. Miguel tinha catorze anos e sentia que o mundo inteiro estava contra ele. Ou melhor, ninguém o queria compreender. — Lá vem o traquina outra vez! — murmurava Dona Clara do terceiro andar, atravessando apressada para o outro lado do pátio. — Cresceu só com a mãe. Eis o resultado! Miguel passava, mãos nos bolsos das calças de ganga rasgadas, fingindo não ouvir. Mas ouvia. A mãe trabalhava até tarde. Na mesa da cozinha, um bilhete: «Os panados estão no frigorífico, aquece.» E silêncio. Sempre silêncio. Naquele dia voltava da escola, onde os professores tinham voltado a “ter uma conversa” sobre o seu comportamento. Como se ele não percebesse que era visto como um problema para todos. Percebia. Mas o que mudava? — Ó rapaz! — chamou o senhor Vítor, o vizinho do rés-do-chão. — Viste aí um cão manco? Alguém tem de o enxotar. Miguel parou e olhou. Junto aos caixotes do lixo estava mesmo um cão. Adulto, pelagem ruiva com manchas brancas. Estava deitado e só os olhos seguiam as pessoas. Olhos inteligentes e tristes. — Já alguém que o ponha na rua! — concordou Dona Clara. — Isso está doente! Miguel aproximou-se. O cão não se mexeu, abanou apenas a cauda com fraqueza. Tinha uma ferida feia na pata de trás, sangue seco. — Então, ficas aí parado? — atirou o senhor Vítor. — Pega num pau e afasta-o! Foi então que algo dentro de Miguel se revoltou. — Ninguém toca nele! — disse de repente, protegendo o cão. — Ele não faz mal a ninguém! — Olha, olha! — admirou-se o senhor Vítor. — O defensor apareceu. — E vou continuar a defender! — Miguel agachou-se ao lado do cão, estendeu a mão com cuidado. O animal cheirou os dedos e lambeu-lhe a palma. Miguel sentiu calor no peito. Pela primeira vez em muito tempo, alguém lhe mostrava carinho. — Vamos embora — sussurrou para o cão. — Vem comigo. Em casa, Miguel improvisou uma cama para o cão com casacos velhos num canto do quarto. A mãe trabalhava até ao final do dia — ninguém ia ralhar ou enxotar “a peste”. A ferida parecia grave. Miguel recorreu à internet, pesquisando primeiros socorros para animais, enfrentando os termos médicos com esforço mas decorando tudo com determinação. — Tenho de limpar com água oxigenada — murmurava, vasculhando na farmácia de casa. — E passar iodo à volta. Com cuidado, para não doer. O cão estava calmo, confiava. Olhava para Miguel com gratidão — de uma forma que ninguém olhava há muito tempo. — Como te chamas? — Miguel enrolava a ligadura. — És ruivo… Chamo-te Ruivo, está decidido. O cão latiu baixo — parecia concordar. À noite, a mãe chegou. Miguel preparou-se para discutir, mas ela inspeccionou o curativo no Ruivo sem dizer nada. — Foste tu? — perguntou baixinho. — Fui. Vi na internet como fazer. — E vai comer o quê? — Arranjo qualquer coisa. A mãe demorou-se a olhar para o filho. Depois, para o cão, que lambia-lhe a mão com confiança. — Amanhã levamos ao veterinário — decidiu ela. — A ver como está a pata. Já tem nome? — Ruivo — respondeu Miguel, radiante. Pela primeira vez em muitos meses não havia uma parede entre eles. Na manhã seguinte, Miguel acordou mais cedo. Ruivo tentou pôr-se de pé, choramingando. — Calma, fica quieto — tranquilizou-o Miguel. — Já trago água, e comida. Em casa não havia ração. Deu-lhe a última panado, desfez pão no leite. Ruivo comeu com vontade, mas delicadamente. Na escola, Miguel não se irritou com os professores pela primeira vez em muito tempo. Pensava só no Ruivo — será que estava bem? Sofria? Sentia-se sozinho? — Hoje estás diferente — estranhou a directora de turma. Miguel encolheu os ombros. Não tinha vontade de contar — iam gozar. Saiu disparado para casa, ignorando os olhares dos vizinhos. Ruivo saltou de alegria ao vê-lo — já conseguia apoiar-se em três patas. — Pronto, parceiro, queres ir lá fora? — improvisou uma trela com corda. — Mas devagar, protege a pata. No pátio, algo mudou. Dona Clara quase se engasgava ao vê-los juntos: — Levou-o para casa! Miguel, estás maluco?! — Porquê? — respondeu calmo. — Estou a tratar dele. Vai recuperar. — Tratas? — aproximou-se a vizinha. — E dinheiro para os remédios, onde vais buscar? Roubar à tua mãe? Miguel apertou os punhos, mas conteve-se. Ruivo encostou-se à perna dele — parecia sentir o ambiente. — Não roubo. Uso o que tenho guardado dos lanches — respondeu baixo. O senhor Vítor abanou a cabeça: — Filho, sabes que isso é uma vida? Não é brinquedo. Precisa comer, tratar, passear. Agora cada dia começava com uma volta no pátio. Ruivo recuperava rápido, quase corria — mesmo coxeando. Miguel ensinava-lhe comandos, com paciência. — Senta! Boa! Dá a pata! Assim! Os vizinhos viam de longe. Uns desaprovavam, outros sorriam. Miguel só via os olhos fiéis do Ruivo. Ele mudou. Aos poucos. Deixou de ser brusco, ajudava em casa, até melhorou nas notas. Ganhou uma razão de viver. E isso era só o começo. Três semanas depois, aconteceu o que Miguel mais temia. Voltava da última volta com Ruivo quando de trás das garagens surgiu uma matilha. Cinco ou seis cães — magros, ferozes, olhos a brilhar. O líder, um cão preto, rosnava, avançando. Ruivo recuou atrás de Miguel. Caminhar ainda lhe doía, não corria bem. Os outros perceberam a fraqueza. — Para trás! — gritou Miguel, agitando a trela. — Saiam! Mas a matilha não fugiu. Cercou-os. O cão preto rosnava mais fundo, pronto para atacar. — Miguel! — vêm de cima um grito de mulher. — Corre! Larga o cão e foge! Era Dona Clara, à janela, com outros rostos atrás. — Rapaz, não sejas tolo! — gritava o senhor Vítor. — Ele é coxo, nunca vai escapar! Miguel olhou para Ruivo. Tremia, mas não fugia. Colava-se à perna do dono, disposto a tudo. O cão preto saltou primeiro. Miguel protegeu-se, mas o impacto acertou-no ombro. Dentes afiados rasgaram a manga, chegaram à pele. Ruivo, apesar da pata ferida, do medo, atacou para salvar Miguel. Cravou os dentes na perna do líder, aguentou firme. Começou a briga. Miguel defendia-se a pontapés, empurrava Ruivo longe dos dentes alheios. Levava mordidas, arranhões, mas não desistia. — Meu Deus, que é isto! — chorava Dona Clara lá em cima. — Vítor, faz qualquer coisa! O senhor Vítor descia as escadas, agarrava o que podia — pau, ferro. — Aguenta, rapaz! — gritava. — Já vou ajudar! Miguel caía no chão sob a matilha, quando ouviu a voz familiar: — Saiam daqui! Era a mãe. Saíra do prédio com um balde de água e atirou-lhes em cima. Os cães fugiram, furiosos. — Vítor, ajuda! — gritou ela. O senhor Vítor correu com o pau, outros vizinhos também desceram. Ao perceberem a força da resistência, os cães fugiram. Miguel jazia no alcatrão, abraçando Ruivo. Ambos ensanguentados, ambos a tremer. Mas vivos. Inteiros. — Filho — a mãe ajoelhou-se, conferindo-lhe os ferimentos. — Quase me mataste de susto. — Eu não podia abandoná-lo, mãe — sussurrou Miguel. — Compreende? Não podia. — Compreendo — respondeu baixo. Dona Clara desceu ao pátio, aproximou-se, olhou para Miguel como se fosse desconhecido. — Rapaz — murmurou, confusa. — Podias ter morrido… Por causa de um cão. — Não por causa de um cão — intrometeu-se o senhor Vítor. — Por um amigo. Percebe a diferença, Clara? A vizinha acenou em silêncio. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. — Vamos para dentro — disse a mãe. — Temos de tratar as feridas. Do Ruivo também. Miguel levantou-se com esforço, pegou no cão ao colo. Ruivo chorava baixinho, mas abanava vagamente a cauda — feliz por estar com o dono. — Esperem — deteve-os o senhor Vítor. — Amanhã vão ao veterinário? — Vamos. — Eu levo-vos, de carro. E pago o tratamento — o cão mostrou-se heróico, merece. Miguel olhou, admirado. — Obrigado, senhor Vítor. Mas eu faço questão. — Nem discutas. Pagas-me depois, quando puderes. Agora… — bateu-lhe no ombro. — Agora orgulhamo-nos de ti. Certo? Os vizinhos acenaram todos. Passou um mês. Era uma noite comum de outubro, e Miguel regressava da clínica veterinária, onde agora ajudava aos fins de semana como voluntário. Ruivo corria ao lado — a pata sarou, e quase não coxeava. — Miguel! — chamou Dona Clara. — Espera aí! O rapaz preparou-se para outra crítica, mas a vizinha estendeu-lhe uma bolsa de ração. — É para o Ruivo — disse, envergonhada. — É boa, cara. Cuida tão bem dele. — Obrigado, tia Clara — respondeu Miguel, sinceramente. — Mas cá por casa não falta. Agora trabalho na clínica, a doutora Ana paga-me. — Na mesma, aceita. Há-de ser útil. Em casa, a mãe preparava o jantar. Ao vê-lo, sorriu: — Como corre na clínica? A doutora Ana está satisfeita contigo? — Diz que tenho jeito para isto, e paciência. — Miguel acariciou o Ruivo. — Talvez seja veterinário. Estou a pensar a sério nisso. — E a escola? — Está tudo bem. Até o professor Pedro elogiou em Física. Diz que fiquei mais atento. A mãe acenou. No último mês, Miguel mudara como nunca. Era educado, ajudava em casa, cumprimentava os vizinhos. E mais importante — tinha um objetivo. Um sonho. — Amanhã o senhor Vítor vem aí. Quer propor-te trabalho extra. O amigo dele tem um canil, precisa de ajuda. Miguel iluminou-se: — A sério? E posso levar o Ruivo? — Penso que sim. Agora já é quase um cão de serviço. À noite, Miguel sentou-se no pátio com Ruivo. Ensaiavam novo comando — “vigia”. O cão obedecia, sempre atento ao dono. O senhor Vítor aproximou-se, sentou-se no banco ao lado. — Amanhã vais mesmo ao canil? — Vou. Com o Ruivo. — Então deita-te cedo. Vai ser puxado. Depois de ele sair, Miguel ficou mais um pouco. Ruivo deitou o focinho nas pernas dele, suspirou contente. Tinham-se encontrado. E nunca mais estariam sozinhos.
Той лъжеше, а тя му прощаваше: Историята на Марияна, която избра себе си пред изневерите на мъжа си Ивайло, семейния бизнес и илюзиите за щастлив брак