Uau, olha só, pai, que recepção! E pra quê esse spa, se em casa tens tudo incluído? Quando o Diogo entregou as chaves do seu apartamento à Eva, ela percebeu: missão cumprida. Nem o DiCaprio esperou tanto pelo Óscar como Eva aguardou por seu Diogo, e ainda por cima com ninho próprio. Aos trinta e cinco, já meio desesperançada, Eva deitava cada vez mais olhares solidários aos gatos da rua e às montras de “Tudo para Artesanato”. Então aparece ele — solteiro, que gastou a juventude a construir carreira, a comer comida saudável, a ir ao ginásio e outras mariquices tipo “encontrar-se” neste mundo, e sem filhos. Eva pediu este presente desde os vinte anos e, pelos vistos, lá em cima finalmente perceberam que ela não estava a brincar. — É a última viagem de trabalho do ano e ficarei só contigo — disse Diogo, entregando as chaves. — Só não te assustes com o meu antro. Normalmente só volto para dormir — disse, antes de voar para outro fuso durante o fim‑de‑semana. Eva pegou na escova de dentes, no creme e foi ver que antro seria aquele. O problema apareceu logo à porta. Diogo tinha avisado que a fechadura às vezes encrava, mas Eva não esperava tanto. Ela tentou abrir durante quarenta minutos: empurrou, puxou, meteu as chaves até ao fim, tentou gentilmente, mas a porta claramente não queria dar as boas-vindas à nova inquilina. Eva começou a pressionar psicologicamente, como aprendera com colegas atrás da escola. Ao barulho, abriu-se a porta da vizinha. — Porque está a tentar entrar numa casa alheia? — perguntou uma voz feminina preocupada. — Eu não estou a tentar entrar à força, tenho as chaves — respondeu Eva, já irritada. — E quem é você? Nunca a vi por aqui — insistiu a curiosa. — Sou a namorada dele! — retorquiu Eva, desafiadora, com as mãos na cintura, mas só via uma fresta de porta para o diálogo. — Você? — estranhou a vizinha. — Sim, eu. Há algum problema? — Nem por isso. Só que ele nunca trouxe ninguém aqui (nesta altura Eva ficou ainda mais encantada por Diogo), agora aparece logo uma assim… — Uma assim como? — Eva não percebeu. — Bem, não é da minha conta. Com licença — encerrou a vizinha a conversa, fechando a porta. Eva meteu a chave e deu tanta força, de tanto querer entrar naquela toca, que quase girou o aro inteiro. A porta abriu. O mundo interior de Diogo ficou todo evidente, e Eva congelou por dentro. Claro que alguém jovem e solteiro cultiva algum ascetismo, mas aquilo era uma verdadeira cela. — Coitado, o teu coração já se esqueceu — ou talvez nunca soube — o que é aconchego… — murmurou Eva, percorrendo o humilde lar onde agora frequentaria. Por outro lado, estava feliz. A vizinha não mentiu: nunca uma mão feminina tocou nessas paredes, nesse chão, nessa cozinha nem nessas janelas sem cor. Eva era a primeira. Sem conseguir aguentar, calçou-se e correu à loja comprar uma cortina bonita e tapete para a casa de banho, e ainda pegou nuns panos e pega‑panela para a cozinha. Na loja, não se aguentou… Ao tapete e cortina juntaram-se ambientadores, sabonetes artesanais e caixas organizadoras para cosmética. «Dar uns toques femininos numa casa alheia não é abusar», dizia Eva, enquanto punha o segundo carrinho no supermercado. A fechadura passou a já não resistir a Eva. Na verdade, já nem funcionava — parecia guarda-redes de hóquei sem máscara. Percebendo o estrago, Eva, com facas de cozinha, desmontou a velha fechadura até à meia-noite e de manhã foi buscar uma nova. As facas, claro, também precisavam de trocas. E já agora talheres, toalha de mesa, tábuas, bases de quentes… E as cortinas, fica logo ali ao lado. No domingo ao almoço, Diogo ligou a dizer que ia ficar mais uns dias em trabalho. — Fico feliz se trouxeres aconchego e calor à minha casa — sorriu ele ao telefone, quando Eva confessou ter mudado um pouco o visual do lar. Aliás, aconchego ela já estava a entregar às carradas, tudo planeado com documento técnico e mapa. Anos de espera acumulados e agora que a deixaram agir, Eva não sabia parar. Quando Diogo regressou, só restava uma aranha ao lado da ventilação da velha casa. Eva ainda pensou expulsá-la, mas, ao ver os olhinhos assustados a tantos imprevistos, decidiu deixá-la como símbolo de respeito ao alheio. A casa de Diogo parecia, agora, que ele já fora feliz em casamento por oito anos, depois ficou desiludido, e entretanto feliz outra vez — agora de outro jeito. Eva não só reiventou o apartamento mas garantiu também que todo o prédio soubesse que havia nova dona e qualquer questão podia ser tratada com ela. Ainda não tinha aliança no dedo, mas isso era só detalhe técnico. Os vizinhos torceram o nariz mas acabaram resignados: «Pronto, como quiser, não é da nossa conta». No dia da chegada de Diogo, Eva preparou jantar caseiro, embalou o seu traseiro ainda firme numa roupa vistosa e provocadora, espalhou incenso e, com as luzes novas baixas, começou a esperar. Diogo atrasou-se. Quando Eva sentiu que o conjunto já magoava o sítio por onde tanto fez agachamentos no ginásio, alguém meteu a chave na fechadura. — A fechadura é nova, empurra, está destrancada! — respondeu Eva meio insegura, mas sensual. Não tinha medo do julgamento. Trabalhou tão bem na casa que perdoavam tudo. Na hora que a porta se abriu, Eva recebeu uma SMS de Diogo: «Onde estás? Estou em casa. A casa está exatamente igual. Os amigos disseram que ias encher tudo de cremes». Eva só leu muito depois. Por agora, entravam cinco estranhos: dois rapazes, dois miúdos e um avô que, vendo Eva, logo endireitou as costas e penteou os cabelos grisalhos com a mão. — Uau, pai, que festa de boas-vindas! E para quê esse spa se tens tudo incluído em casa? — disse o jovem, levando logo cotovelada da esposa por estar a olhar. Eva parou, em choque, de copos em punho. Queria gritar mas ficou paralisada. A aranha riu num canto. — Desculpe, quem é? — piou Eva. — O dono aqui do ninho. E você, é da clínica? Veio fazer curativos? Acho que disse que já dou conta sozinho — comentou o avô, de olho na roupa de enfermeira de Eva. — Bem, senhor António, aqui está mesmo bem acolhedor — olhou por trás a esposa do rapaz. — Agora sim, não que isto parecia um túmulo. E você, miúda, como se chama? O nosso António não é demasiado experiente para si? Mas olha, é senhor respeitado, tem casa própria… — É-é-Eva… — Bem, fez bom negócio, senhor António! O avô, pelos olhos brilhantes, também achou tudo um feliz acaso. — E o Diogo? — murmurou Eva. Nervosa, bebeu os dois copos de uma vez. Saber mais — Eu sou o Diogo! — ergueu o braço um miúdo de oito anos. — Olha, ainda não podes ser Diogo — e a mãe arrastou filhos e marido para o carro. — Desculpe, enganei-me no apartamento — Eva recuperou os sentidos, lembrando-se do drama com a fechadura. — Isto é Rua das Magnólias, dezoito, porta vinte e seis? — Não, isto é Rua das Beiras, dezoito — esfregou as mãos o avô, pronto a abrir o presente inesperado. — Pois… — suspirou Eva, — enganei-me. Força, fiquem à vontade, vou só ali ligar alguém. Pegou no telemóvel e correu à casa de banho, barricou-se com a toalha. Foi aí que leu a SMS de Diogo. «Diogo, estou quase, fiquei presa no supermercado», escreveu Eva. «Ok, espero-te. Se puderes, traz uma garrafa de tinto», veio a resposta. Tinto, Eva ia trazer mas já consigo mesma. Com o tapete, tirou a cortina e esperou os estranhos irem à cozinha para fugir da casa de banho. Rapidamente, meteu tudo num saco e saiu da casa. — Depois explico — avisou Eva, ao ver Diogo abrir-lhe a porta. Indo em modo automático, cruzou-se com ele sem olhar. Primeiro foi à casa de banho trocar cortina e estender o tapete, depois caiu no sofá da sala e apagou até ao dia seguinte, até todo o stress e vinho evaporar. Ao acordar, frente a ela estava um jovem à espera de explicações. — Pode dizer-me que morada é esta, por favor?.. — Rua do Futuro, dezoito.

Uau, pai, olha a recepção que te fazem! E para quê precisavas daquele spa, se em casa tens verdadeiro “tudo incluído”?

Quando o Diogo entregou-lhe as chaves do seu apartamento, Mafalda percebeu: missão cumprida. Nem Leonardo DiCaprio esperou tanto pelo Óscar, como Mafalda aguardou o seu Diogo, ainda por cima com ninho próprio.

Desiludida, aos trinta e cinco anos, olhava cada vez mais com ternura para os gatos vadios e para as montras de Tudo Para Artesanato.

E eis que aparece ele sozinho, um homem que gastou a juventude a construir carreira, alimentar-se de forma saudável, ginásios e outras tontices como encontrar-se no mundo, além de não ter filhos.

Mafalda desejava este presente desde os vinte anos e, algures lá em cima, devem finalmente ter percebido que ela não estava a brincar.

Tenho a última viagem do ano e depois sou todo teu, disse Diogo ao dar-lhe as tão esperadas chaves. Só não te assustes com a minha toca. Venho a casa só mesmo dormir, explicou antes de voar para outro fuso horário durante o fim de semana.

Mafalda preparou a escova de dentes, o creme e foi ver o que lhe esperava na toca. O primeiro problema surgiu logo à entrada. Diogo avisara que a fechadura às vezes emperrava, mas Mafalda subestimou.

Atacou a porta por quarenta minutos: empurrou, puxou, tentou com jeitinho, mas a porta teimava em não se deixar conquistar pela nova habitante.

Mafalda resolveu apelar à pressão psicológica, como nos tempos da escola em Lisboa atrás dos prédios. Ao ruído, abriu-se a porta da vizinha.

O que está a fazer a tentar abrir uma casa que não é sua? perguntou uma voz de senhora preocupada.

Não estou a assaltar, tenho as chaves, respondeu a furiosa Mafalda, limpando o suor da testa.

E você, quem é? Nunca a vi por aqui, insistiu a vizinha.

Sou a namorada dele! declarou Mafalda, braços na cintura, encarando apenas a fresta da porta.

É mesmo? admirou-se a mulher.

Sim, algum problema?

Não, nenhum. Só que ele nunca trouxe cá ninguém. (Mafalda passou a gostar ainda mais do Diogo). Você é a primeira.

Que quer dizer com “tal”? Mafalda não percebeu.

Olhe, deixa lá, não é da minha conta. A vizinha fechou a porta.

Percebendo que só uma podia vencer, Mafalda enfiou o chave e pressionou com toda a força, quase girando a moldura da porta. Por fim, ela abriu-se.

O mundo íntimo de Diogo revelou-se diante dela e seu coração gelou. A austeridade de um jovem solitário transformara o espaço numa verdadeira cela.

Coitado, teu coração já esqueceu, ou talvez nunca soube, o que é conforto, escapou dos lábios de Mafalda, ao olhar o apartamento acanhado onde teria de passar muito tempo.

Por outro lado, contentou-se. A vizinha não mentiu: o toque feminino nunca passou por aquelas paredes, chão, cozinha ou janelas. Mafalda seria a primeira.

Sem conseguir esperar, calçou-se e correu à loja mais próxima comprar um cortinado bonito e tapete para o WC, além de luvas e toalhas para a cozinha.

No supermercado, perdeu-se naquela onda. Ao cortinado e tapete juntaram-se ambientadores, sabonetes artesanais e práticos armazenadores para cosméticos.

“Encher um apartamento alheio destas pequenas coisas não é invasão,” consolou-se Mafalda, empurrando mais um carrinho de compras.

A fechadura não mais resistiu a Mafalda. Na verdade, já nem desempenhava sua função, tal como um guarda-redes sem máscara antes do jogo.

Sabendo o que fizera, até meia-noite tentava, com facas de cozinha, destrancar o velho canhão, e de manhã correu à loja comprar um novo. As facas também seriam substituídas, assim como garfos, colheres, toalhas de mesa, tábuas de corte e descansos para panelas. Logo seguiram-se cortinas e afins.

No domingo, Diogo ligou avisando que iria atrasar-se mais dois dias.

Fico feliz se trouxeres um pouco de aconchego à minha casa, disse sorrindo ao telefone, quando Mafalda revelou ter melhorado a decoração.

Na verdade, o calor já era despejado a camiões e organizado conforme plano técnico e inventário próprio. Anos a acumular dentro de uma mulher solitária agora saíam sem freio.

Antes do regresso de Diogo, só sobrava uma aranha perto da ventilação. Mafalda pensou em expulsá-la, mas ao ver os olhos assustados do bicho diante de tanta mudança, preferiu deixá-la ali como lembrete de respeito pelo que é dos outros.

O lar de Diogo parecia recobrar vida: como se ele já fosse casado há oito anos, depois se desiludisse e, enfim, voltasse a ser feliz, agora à sua maneira.

Mafalda não só tomou conta do apartamento, como deixou claro a todo o prédio que era a nova senhora do pedaço, e qualquer coisa, era só falar com ela. Aliança no dedo ainda não tinha, mas isso era só questão técnica.

Os vizinhos primeiro olhavam de lado, mas logo resignaram-se: “Faça como quiser, não nos incomoda”.

No dia da chegada do Diogo, Mafalda preparou uma verdadeira ceia portuguesa, embalou as suas curvas em roupa chamativa e atrevida, acendeu incensos nos cantos e, escurecendo a nova luz, aguardou.

Diogo atrasou-se. Quando Mafalda começou a sentir o desconforto da roupa, em especial naquela zona que tanto trabalhou nos agachamentos, ouviu alguém a inserir uma chave na porta.

O canhão é novo, empurra com jeito, não está trancado! respondeu Mafalda, envergonhada mas sedutora. Não tinha receio de críticas; o trabalho estava feito. Perdoariam tudo.

E quando a porta abriu, Mafalda recebeu um súbito SMS de Diogo: “Onde estás? Estou em casa. Não mudou nada! Os amigos assustaram-me dizendo que ias encher o espaço de cosméticos.”

Ela só leu muito depois. Por enquanto, cinco desconhecidos entraram no apartamento: dois jovens, dois miúdos e um avô bem idoso, que ao ver Mafalda, logo se aprumou e passou a mão pelos poucos cabelos brancos.

Ora bem, pai, que recepção! Para quê spa, com casa assim tão tudo incluído? brincou o rapaz, levando logo uma repreensão da esposa por estar a comentar.

Mafalda ficou estática, dois copos cheios nas mãos, incapaz de se mover ou gritar.

Num canto, a aranha pareceu rir.

Com licença, quem é você? questionou Mafalda.

Sou o dono da casa. E você veio da clínica fazer penso? Disse que conseguia sozinho, respondeu o avô, olhando para a veste de Mafalda, claramente inspirada em enfermeiras.

Humm sim, senhor António Matos, aqui há sobretudo calor e bem-estar, comentou a jovem esposa, espreitando atrás de Mafalda. Que diferença! Antes vivíamos num sepulcro. E você, qual o nome? Não será velho demais para si o nosso António Matos? Digo, homem prestante, casa própria…

Ma-ma-Mafalda

Veja que sorte, senhor António! Sabe escolher bem quem entra!

O avô, olhos a brilhar, parecia aprovar esta coincidência.

E onde está Diogo? sussurrou Mafalda, secando nervosamente os dois copos.

Eu sou o Diogo! gritou um miúdo de oito anos.

Ainda não é tua vez de ser Diogo, a mãe afastou-o, mandou os filhos e marido ao carro.

D-de-desculpe, creio que me enganei de apartamento, Mafalda começando a entender o que se passou com a fechadura. Isto é na Rua das Flores, número dezoito, apartamento vinte e seis?

Não, aqui é Rua das Acácias, dezoito, esfregava as mãos o avô, pronto para desembalar o inesperado presente.

Pois suspirou Mafalda, enganei-me. Então entrem, acomodem-se, eu faço uma chamada.

Pegou no telefone e correu para a casa de banho, bloqueando a porta e enrolando-se na toalha. Foi aí que leu a mensagem de Diogo.

Diogo, já venho, fiquei retida no supermercado”, respondeu Mafalda.

“Ok, espero por ti. Se puderes traz uma garrafa de tinto,” pediu Diogo por mensagem de voz.

Tinto já tinha a caminho, mas era dela. Pegou no tapete, despregou o cortinado e esperou que os estranhos passassem para a cozinha, antes de sair do WC.

Juntou as coisas à pressa e saiu do apartamento.

Depois explico, disse a Mafalda ao entrar finalmente na casa de Diogo.

Passando por ele quase sem olhar, foi primeiro à casa de banho, pôs o cortinado e estendeu o tapete, depois deitou-se no sofá e dormiu até de manhã, até todo o stress e o tinto se evaporarem.

Ao acordar, viu Diogo sentado à espera de explicação.

Por favor, qual é mesmo a morada?…

Rua dos Pinheiros, dezoito…

*

A vida às vezes leva-nos por caminhos inesperados, onde os erros se tornam oportunidades para rir de nós mesmos e aprender que, no fundo, o sentido de casa não está apenas nas coisas que trazemos, mas nas pessoas e histórias que ali vivemos. E, por vezes, a sorte é sabermos distinguir entre o que é nosso e aquilo que apenas nos serve de lição para nunca mais trocarmos a chave.

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Uau, olha só, pai, que recepção! E pra quê esse spa, se em casa tens tudo incluído? Quando o Diogo entregou as chaves do seu apartamento à Eva, ela percebeu: missão cumprida. Nem o DiCaprio esperou tanto pelo Óscar como Eva aguardou por seu Diogo, e ainda por cima com ninho próprio. Aos trinta e cinco, já meio desesperançada, Eva deitava cada vez mais olhares solidários aos gatos da rua e às montras de “Tudo para Artesanato”. Então aparece ele — solteiro, que gastou a juventude a construir carreira, a comer comida saudável, a ir ao ginásio e outras mariquices tipo “encontrar-se” neste mundo, e sem filhos. Eva pediu este presente desde os vinte anos e, pelos vistos, lá em cima finalmente perceberam que ela não estava a brincar. — É a última viagem de trabalho do ano e ficarei só contigo — disse Diogo, entregando as chaves. — Só não te assustes com o meu antro. Normalmente só volto para dormir — disse, antes de voar para outro fuso durante o fim‑de‑semana. Eva pegou na escova de dentes, no creme e foi ver que antro seria aquele. O problema apareceu logo à porta. Diogo tinha avisado que a fechadura às vezes encrava, mas Eva não esperava tanto. Ela tentou abrir durante quarenta minutos: empurrou, puxou, meteu as chaves até ao fim, tentou gentilmente, mas a porta claramente não queria dar as boas-vindas à nova inquilina. Eva começou a pressionar psicologicamente, como aprendera com colegas atrás da escola. Ao barulho, abriu-se a porta da vizinha. — Porque está a tentar entrar numa casa alheia? — perguntou uma voz feminina preocupada. — Eu não estou a tentar entrar à força, tenho as chaves — respondeu Eva, já irritada. — E quem é você? Nunca a vi por aqui — insistiu a curiosa. — Sou a namorada dele! — retorquiu Eva, desafiadora, com as mãos na cintura, mas só via uma fresta de porta para o diálogo. — Você? — estranhou a vizinha. — Sim, eu. Há algum problema? — Nem por isso. Só que ele nunca trouxe ninguém aqui (nesta altura Eva ficou ainda mais encantada por Diogo), agora aparece logo uma assim… — Uma assim como? — Eva não percebeu. — Bem, não é da minha conta. Com licença — encerrou a vizinha a conversa, fechando a porta. Eva meteu a chave e deu tanta força, de tanto querer entrar naquela toca, que quase girou o aro inteiro. A porta abriu. O mundo interior de Diogo ficou todo evidente, e Eva congelou por dentro. Claro que alguém jovem e solteiro cultiva algum ascetismo, mas aquilo era uma verdadeira cela. — Coitado, o teu coração já se esqueceu — ou talvez nunca soube — o que é aconchego… — murmurou Eva, percorrendo o humilde lar onde agora frequentaria. Por outro lado, estava feliz. A vizinha não mentiu: nunca uma mão feminina tocou nessas paredes, nesse chão, nessa cozinha nem nessas janelas sem cor. Eva era a primeira. Sem conseguir aguentar, calçou-se e correu à loja comprar uma cortina bonita e tapete para a casa de banho, e ainda pegou nuns panos e pega‑panela para a cozinha. Na loja, não se aguentou… Ao tapete e cortina juntaram-se ambientadores, sabonetes artesanais e caixas organizadoras para cosmética. «Dar uns toques femininos numa casa alheia não é abusar», dizia Eva, enquanto punha o segundo carrinho no supermercado. A fechadura passou a já não resistir a Eva. Na verdade, já nem funcionava — parecia guarda-redes de hóquei sem máscara. Percebendo o estrago, Eva, com facas de cozinha, desmontou a velha fechadura até à meia-noite e de manhã foi buscar uma nova. As facas, claro, também precisavam de trocas. E já agora talheres, toalha de mesa, tábuas, bases de quentes… E as cortinas, fica logo ali ao lado. No domingo ao almoço, Diogo ligou a dizer que ia ficar mais uns dias em trabalho. — Fico feliz se trouxeres aconchego e calor à minha casa — sorriu ele ao telefone, quando Eva confessou ter mudado um pouco o visual do lar. Aliás, aconchego ela já estava a entregar às carradas, tudo planeado com documento técnico e mapa. Anos de espera acumulados e agora que a deixaram agir, Eva não sabia parar. Quando Diogo regressou, só restava uma aranha ao lado da ventilação da velha casa. Eva ainda pensou expulsá-la, mas, ao ver os olhinhos assustados a tantos imprevistos, decidiu deixá-la como símbolo de respeito ao alheio. A casa de Diogo parecia, agora, que ele já fora feliz em casamento por oito anos, depois ficou desiludido, e entretanto feliz outra vez — agora de outro jeito. Eva não só reiventou o apartamento mas garantiu também que todo o prédio soubesse que havia nova dona e qualquer questão podia ser tratada com ela. Ainda não tinha aliança no dedo, mas isso era só detalhe técnico. Os vizinhos torceram o nariz mas acabaram resignados: «Pronto, como quiser, não é da nossa conta». No dia da chegada de Diogo, Eva preparou jantar caseiro, embalou o seu traseiro ainda firme numa roupa vistosa e provocadora, espalhou incenso e, com as luzes novas baixas, começou a esperar. Diogo atrasou-se. Quando Eva sentiu que o conjunto já magoava o sítio por onde tanto fez agachamentos no ginásio, alguém meteu a chave na fechadura. — A fechadura é nova, empurra, está destrancada! — respondeu Eva meio insegura, mas sensual. Não tinha medo do julgamento. Trabalhou tão bem na casa que perdoavam tudo. Na hora que a porta se abriu, Eva recebeu uma SMS de Diogo: «Onde estás? Estou em casa. A casa está exatamente igual. Os amigos disseram que ias encher tudo de cremes». Eva só leu muito depois. Por agora, entravam cinco estranhos: dois rapazes, dois miúdos e um avô que, vendo Eva, logo endireitou as costas e penteou os cabelos grisalhos com a mão. — Uau, pai, que festa de boas-vindas! E para quê esse spa se tens tudo incluído em casa? — disse o jovem, levando logo cotovelada da esposa por estar a olhar. Eva parou, em choque, de copos em punho. Queria gritar mas ficou paralisada. A aranha riu num canto. — Desculpe, quem é? — piou Eva. — O dono aqui do ninho. E você, é da clínica? Veio fazer curativos? Acho que disse que já dou conta sozinho — comentou o avô, de olho na roupa de enfermeira de Eva. — Bem, senhor António, aqui está mesmo bem acolhedor — olhou por trás a esposa do rapaz. — Agora sim, não que isto parecia um túmulo. E você, miúda, como se chama? O nosso António não é demasiado experiente para si? Mas olha, é senhor respeitado, tem casa própria… — É-é-Eva… — Bem, fez bom negócio, senhor António! O avô, pelos olhos brilhantes, também achou tudo um feliz acaso. — E o Diogo? — murmurou Eva. Nervosa, bebeu os dois copos de uma vez. Saber mais — Eu sou o Diogo! — ergueu o braço um miúdo de oito anos. — Olha, ainda não podes ser Diogo — e a mãe arrastou filhos e marido para o carro. — Desculpe, enganei-me no apartamento — Eva recuperou os sentidos, lembrando-se do drama com a fechadura. — Isto é Rua das Magnólias, dezoito, porta vinte e seis? — Não, isto é Rua das Beiras, dezoito — esfregou as mãos o avô, pronto a abrir o presente inesperado. — Pois… — suspirou Eva, — enganei-me. Força, fiquem à vontade, vou só ali ligar alguém. Pegou no telemóvel e correu à casa de banho, barricou-se com a toalha. Foi aí que leu a SMS de Diogo. «Diogo, estou quase, fiquei presa no supermercado», escreveu Eva. «Ok, espero-te. Se puderes, traz uma garrafa de tinto», veio a resposta. Tinto, Eva ia trazer mas já consigo mesma. Com o tapete, tirou a cortina e esperou os estranhos irem à cozinha para fugir da casa de banho. Rapidamente, meteu tudo num saco e saiu da casa. — Depois explico — avisou Eva, ao ver Diogo abrir-lhe a porta. Indo em modo automático, cruzou-se com ele sem olhar. Primeiro foi à casa de banho trocar cortina e estender o tapete, depois caiu no sofá da sala e apagou até ao dia seguinte, até todo o stress e vinho evaporar. Ao acordar, frente a ela estava um jovem à espera de explicações. — Pode dizer-me que morada é esta, por favor?.. — Rua do Futuro, dezoito.
Възпитаха скъперник — Божичко… Сто и седемдесет хиляди? За това ли? Полинке, не ми се обиждай, но само със зъбите на Анджелина Джоли няма да станеш друга. По-добре беше на майка ти помогнала, или, ей там, на племенницата за униформата да дадеш… Светла трябваше кредит да вземе, за да подготви Соня за училище. За кауза, поне, а ти, така си храниш само зъболекарите… — махна с ръка баба Зинка. — Ама детето никому нищо не дължи… — примирително започна майката на Светла, по съвместителство и леля на Полина. — Но такива пари… То, като не се усмихваш, дори не се вижда… — Та това май не е и всичко — включи се чичото. — С цялото лечение ще излезе триста хиляди. Наложи се малко още да се добави — и щеше ипотека да теглиш… Не схващам за какво са тези зъби, като няма къде да се живее. Полина усети как кръвта ѝ се качи в лицето. Кой я накара да отговори честно колко са ѝ стрували брекетите? Знаеше, че няма да са доволни. Но ѝ се искаше да вярва, че роднините ще я поздравят за новата усмивка. Или поне да замълчат. — Защо така се нахвърлихте на детето… — намеси се майката на Полина. — Това са нейни пари и нейно здраве. Тя си решава… Полина много искаше да пресметне чужда сметка в отговор. Да упрекне леля си, че само се оплаква, а не работи. Да напомни на чичото колко харчи по кръчмите. Да посъветва братовчедката си по-малко да дава за маникюри и повече — за книги на дъщеря си. Да каже на баба си, че по тази логика и тя няма нужда от лекарства, нали вече е възрастна. Но не го направи. Не искаше семейственият празник да стане цирк. Особено след като една от роднините обърна темата и започна да клюкарства за позната. Но вече настроението беше убито. На път към вкъщи Полина неволно си спомни детството… …Тя нямаше нито една нормална ученическа снимка. На всички беше с напрегнато лице и стегнати устни. Благодарение на съучениците си се научи да се усмихва само с очи – щом се разсееше и отвори уста, започваше: „Кончето“, „заека“, „кълвачът“ — това бяха най-безобидните прякори. Дори Игор, нейният мъж, нежно я наричаше „хамстерче“, несъзнателно докосвайки болезнения ѝ нерв. На 14 Полина съобщи на майка си, че иска за рождения си ден брекети. Мислеше, че са само за деца, но видя на една връстничка и, разбира се, искаше и тя. Майка ѝ вероятно би я завела по-рано, но в тяхното семейство свободни пари нямаше. Повечето се даваха за наем и сметки, останалото — за храна и помощ на вечно нуждаещата се леля. Но родителите, виждайки сълзите ѝ, се съгласиха. Наложи се всички да затегнат коланите. Дори Полина — отказа се от пътуването с класа до Пловдив, доносваше старата си яке, спестяваше от закуски… Всичко за мечтата си. Но тази мечта рухна… — Слънчице… — въздъхна майка ѝ две седмици преди рождения ден. — Имаме лоши новини… Баба Зинка е в болница… Ще трябва да отложим зъбните неща. Трябват ѝ скъпи лекарства… Полина гледаше майка си объркана, не знаеше как да реагира. Няма виновни, но е толкова обидно. — Така се случи… — продължи мама, свеждайки поглед. — Сега баба има повече нужда. Ние можем да изчакаме, а нея трябва да спасим… Полина разбра. Кимна, преглъщайки буцата в гърлото. Парите за нейната мечта и самочувствие отидоха за спасяването на баба Зинка… Бабата оздравя. Дори не разбра каква е цената: родителите не я разстройваха с подробности. Тя бързо забрави болестта и пак се върна към любимото си занятие — да поучава всички наоколо. И ето, почти след петнадесет години, баба Зинка упреква Полина, че най-сетне си е позволила да похарчи парите си за себе си. „Моите зъби — моя работа“, помисли си тя. „И портмонето ми също. Нищо не съм искала от никого, и няма нужда да се оправдавам.“ Всичко можеше да свърши така, ако не беше Нова година… …Декември беше луд. Предновогодишна суматоха, кал, нерви и сметки… Страстите от онзи разговор отдавна бяха отминали, но неприятното усещане остана. Празниците наближаваха. По стара семейна традиция за Нова година всички се събираха у леля Галя. Същата, която предлагаше вместо зъболекарите просто да не се усмихваш. Семейството на Полина беше голямо, подаръците обикновено скромни — кърпи, комплекти душ-гелове, бонбони на промоция. За повече нямаше парите, нито време. Допреди дни Полина беше на корекция на брекетите. Освен че зъбите ѝ се чувстваха, сякаш ще избягат от устата, излезе и скъпо. Но знаеше за какво се бори. Полина прелистваше клипове, за да избяга от мислите си, когато получи съобщение от племенницата. — Лельо Полина, измислих какво искам от Дядо Коледа! — писука Соня в микрофона. Прикачи линк. Като отвори, Полина видя смартфон. Модерен, със сребърен корпус. И цената… Тридесет хиляди лева. За ново устройство днес — не е най-големият разход. Но Полина не беше готова да прави такъв скъп подарък. Обичаше племенницата, но… — Соня, телефонът е много хубав. Но Дядо Коледа има много поръчки. Такъв не може да изпълни, — написа Полина. — С чичо Игор вече ти подготвихме подарък — по-скромен, но от сърце. А за телефона — може би ще дадем малко на родителите ти, ако те решат да ти го вземат. Отговорът дойде веднага. Гласово съобщение със силни детски писъци и фалшиви ридания. — Не искам друг подарък! Искам телефона! — ревеше Соня. — Ти можеш да го купиш! Мама казва, че си богата! Полина дори не отвърна. Изслуша няколко пъти, невярваща, и остави телефона. Гърлото ѝ се стегна. Не става вече дума за парите… Става дума за отношението. Оказа се, че сестра ѝ зад гърба я коментира, а племенницата на 7 години знае как се „доят“ роднини. Последният удар дойде със звънеца от Светла. Само пет минути по-късно. — Защо доведе детето до сълзи?! — започна тя без поздрав. — Соня заради теб плаче затворена в стаята си! — Светле, твоето дете иска телефон за тридесет хиляди за Коледа. А ние имаме негласно правило — не повече от хиляда за човек. Откъде да взема толкова? — О, айде да не се правиш на бедна! Пари за желязото в устата намери, ама за племенницата не ти се дават. За себе си не жалиш, но за Соня скъпиш! — За себе си намерих за лечение — необходимо е. А Соня иска скъпа играчка. Може да си звъни и с по-евтин телефон. Съжалявам, нямам тридесет хиляди излишни за играчки. — Ясно с теб, — изсумтя сестра ѝ. — Дете си нямаш и не разбираш, че за него Нова година е магия. Егоистка! Живееш само за себе си. Да се задавиш с твоите железа… Гудките в слушалката… Полина седеше в кухнята, държейки главата си. Вътре вреше от обида. Страхуваше се какво ще последва. Ще трябва да върви на гости, да седи на шумната маса, да понася колки и погледи… И ще се чувства лоша, която е откраднала чудото за Нова година от едно дете. А детето мисли вече само в пари. Майка ѝ винаги е учила, че за мира в семейството трябва да отстъпваш. Но сега този мир излизаше твърде скъпо. Не издържа и звънна на майка си. Разказа ѝ всичко. — Мамо, както искаш, но на Нова година при леля Галя няма да ходя, — тихо, но твърдо заключи Полина. — Не мога… Не желая да виждам тези лица, да се обяснявам. Ще остана вкъщи… — И ние с баща ти няма да ходим, — неочаквано отвърна майка ѝ. — Мамо… недей. Знам колко означава това за теб. Леля, баба… Ти искаш да сте всички заедно. За теб е традиция… — Да вървят традициите по дяволите, — отсече майка ѝ и Полина едва не изпусна телефона — не беше чувала такива думи от нея. — Те не само на теб натякват. Не исках да казвам, но бабата все ни е укорявала, че лошо си те възпитала, станала си скъперник. Слушах, слушах — и казах: щом сме ви разочаровали, няма да ви набиваме в очите повече. Затишие. Полина знаеше колко майка ѝ обича семейните събирания. Как се готви, помага да се сложи масата, избира подаръци… Най-малко искаше тя да жертва празника си заради нея. — Мамо… — започна тя, но майка ѝ я прекъсна. — Знаеш ли какво? Елате с Игор при нас. Баща ти е купил хайвер, аз ще пека патица с ябълки, ще нарежа салата. Ще поседим четирима. Тихо, но истински. Без роднините. — Мамо… А ти? Все толкова очакваш… — Вече ми стига. Не искам. Един път вече жертвах теб, когато събирахме за брекетите ти. Помниш? Повече не желая така. Колкото повече даваш, толкова повече чуждото смятат. …Новата година за Полина започна с мек сняг, мирис на мандарини и печена патица. Този път нямаше пияни крясъци на чичо Кольо, нито вечно недоволното лице на баба Зинка, нито отровните думи на Светла. Само блещукане на гирляндите, празнични програми по телевизията и най-близките край нея. Не просто роднини. Истински близки. — За нас! — бащата надигна чаша шампанско. — И за новата ти усмивка, дъще! Щастлив съм, че мечтата ти се сбъдна, макар и не веднага. Игор се засмя и прегърна Полина. — И като хамстерче те харесвах, — прошепна й. — Желязо или не — най-красива си ми. В този миг за Полина нямаше значение кой какво мисли — нито Светла, нито Соня, нито цялата рода. Разбра най-важното: да бъдеш с онзи, който те обича такъв, какъвто си. С криви зъби, с брекети, с пари или без… С онези, които не искат заплащане за обичта си, а просто тихо режат салата и са с теб, когато боли. — Честита Нова година! — усмихна се Полина, без да прикрива устата си. 🎄🎄🎄