A Casa de Campo, Ela Conserta Tudo: Uma História de Família, Renovação e Reconciliação no Interior de Portugal

Estás doida, Mariana? Eu disse à Filomena que ias lá! Combinei tudo, para ela te guardar o melhor pedaço!

Mariana travou o passo à entrada da cozinha, sacos nas mãos. A sogra, Beatriz, esperava-a ali, braços cruzados, com aquele olhar de quem apanha alguém a roubar ouro, não carne de talho.

Dona Beatriz, eu só não consegui ir ao mercado a tempo Mariana tentou manter a calma. Saí tarde do trabalho, ainda tive de passar na lavandaria para levantar o seu vestido, depois na farmácia…
E não podias ligar?! Avisar?! A Filomena ficou lá à tua espera até fechar! Depois passou-me o tempo a lamentar-se ao telefone, feita carapinha…

Mariana pousou os sacos na mesa, sentindo-se ainda pior por dentro.

Esta carne está mesmo fresca tirou o pacote, mostrando à sogra. Olhe, vitela Nacional, está fantástica.

A sogra nem olhou. Aproximou-se, afastou o pacote como se fosse veneno.

É carne de supermercado, cheia de porcarias. O João não come dessas coisas, tem o estômago delicado.
Mas o João comprou desta carne só na semana passada saiu-se Mariana, antes de se conter.

Maldita a hora. A sogra ficou vermelha.

Pois! O homem a tratar das compras, enquanto a mulher anda sabe-se lá a fazer o quê! Três anos nesta família, Mariana, e ainda nada de jeito. Não sabes cozinhar, não ajudas em casa, nem te despachas com filhos…
Dona Beatriz, não é justo…
Justo? bufou. Eu beijava os pés da minha sogra, nem ousava levantar voz. Tu? Passas por cima, não queres saber do que digo, fazes tudo a teu gosto…

Beatriz foi até ao corredor, agarrou a mala pendurada no cabide. Cada movimento era um murro nos nervos.

Já disse ao João: Divorcia-te, antes que seja tarde. Arranja uma moça como deve ser, que saiba tratar do marido, não como esta…

Nem acabou a frase. Enfiou-se nos sapatos, sem se dar ao trabalho de ajeitar o calcanhar.

Mariana continuou à porta da cozinha, dedos cravados no batente.

Adeus, Dona Beatriz.

A sogra não respondeu. Ouviu-se a porta bater, e ficou tudo em silêncio na casa. Mariana sentou-se no chão frio da cozinha, costas encostadas à parede. A vitela ali, abandonada, convidava-a ainda menos do que as fotos de casamento penduradas pela casa, onde Beatriz sorria como se estivesse sentada numa cama de pregos.

Três anos. Três anos a tentar. Aprendeu receitas que o João adorava, aguentou os almoços de domingo com Beatriz, sempre a corrigir: O João gosta das batatas aos cubos, não cortadas às tirinhas. Só faltava pedir desculpa por respirar.

Mas nunca foi suficiente. Era sempre a má da fita. Era melhor se divorciasse…

Mariana ficou a olhar o teto, que precisava de uma pintura. Tinha de dizer ao João.

Ou talvez já nem valha a pena.

Durante duas semanas, Mariana fez de conta que era uma guerrilheira em território inimigo. O João atendia a sogra, os domingos foram cancelados com desculpas, e um acaso no supermercado acabou num olá apressado e fuga.

Até que ligou o notário.

O avô de Mariana, que mal vira cinco vezes na vida, tinha falecido. E pelos vistos, deixara-lhe uma casa de campo a quarenta quilómetros de Lisboa. Um terreno pequeno, num condomínio chamado Aurora.

Devíamos ir lá ver, quem sabe João virou as chaves entre os dedos, o porta-chaves com o morango gasto. Vamos sábado?

Mariana concordou. Sábado, pronto.

Só não contava com uma coisa.

Oh João, eu vou convosco! Beatriz apareceu à porta às sete e meia, já de galochas, com um cesto na mão. Aquilo deve ser uma terra de cogumelos, a Filomena disse!

Sem protestar, Mariana foi preparar o termo de chá, já antevendo um dia maravilha, claro que ironicamente.

E a casa de campo era exatamente como Mariana imaginava.

Uma casa de madeira inclinada, terreno cheio de mato, vedação quase a cair, presa por dois pregos ferrugentos. Lá dentro, cheiro a humidade e jornais velhos.

João sussurrou Mariana, vendemos isto, não? O que íamos fazer aqui? Vir todos os fins de semana, capinar… isto não é para nós.

João abriu a boca, mas não teve tempo de responder.

Vender?! Beatriz apareceu atrás, como se brotasse do chão. Estão malucos?! É terra nossa! Eu por isto dava tudo…

Segurou as mãos ao peito, os olhos a brilhar.

Dêem-me as chaves. Eu trato disto, planto flores, arranjo a casa. Daqui a um ano vão agradecer!

Mariana olhou-a, meio desconfiada. Mas ali estava ela, na folhagem até aos joelhos, radiante.

Dona Beatriz, isto dá trabalho que nunca mais acaba…
Mariana João apertou-lhe suavemente o braço Deixa a mãe. Ela fica feliz, não te custa nada…

Verdade. Custar, não custava, mas era estranho. E Mariana preferia não discutir.

Entrega-lhe as chaves, morango arranhado incluído.

…Dois meses depois, tudo parecia coisa de filme. A Beatriz só ligava para pedir informação, não aparecia à porta de surpresa, e incrível nunca mais se falou em carne de mercado, nem de netos, nem sequer de batatas cortadas erradas. O tom ao telefone era animado: João, filho, estou ótima! Tenho tanto para fazer! Falamos outra vez!

Mariana achava aquilo estranho. Armadilha? Ou será que a sogra estava doente e escondia?

João perguntou uma noite A tua mãe está bem mesmo?
Está ótima, só tem a casa de campo na cabeça. Diz que há tanto para fazer que nem dorme direito.

Na sexta-feira, Beatriz ligou ela mesma.

Amanhã venham cá à casa de campo! Faço grelhados, mostro o quintal, está tudo diferente. Venham ver!

João, não me apetece Mariana revirou os olhos quando recebeu o convite. Depois de dois meses, agora isto…
A mãe esforçou-se, Mariana. Vai ficar magoada se não formos.
Ela fica sempre!
Por favor João olhou para ela com olhos de cão pequeno, e Mariana riu-se.

Sábado então.

Chegaram e Mariana mal reconheceu Beatriz.

A sogra estava à portinha, de vestido de linho, braços escurecidos pelo sol, bochechas coradas. E, pela primeira vez, um sorriso genuíno, sem aquela tensão de antigamente. Parecia que dez anos se tinham evaporado.

Vieram! Finalmente! e abriu os braços, Mariana avançou vai-não-vai, deixou-se abraçar. Cheirava a terra, salsa, e mel.

O terreno era outro. Canteiros direitinhos alinhados, a vedação firme, arbustos novos de groselhas, folhas verdes brilhantes, e margaridas coloridas debaixo da janela.

Venham cá ver tudo! Beatriz guiava-os animada. Aqui vai morango, uma maravilha que a vizinha me deu. Em junho começam. Aqui tomate e pepino. No outono faço compotas, dou-vos tudo, eu só quero uns frascos para mim.

Mariana olhou para João, ambos perplexos.

Mãe, fizeste isto tudo sozinha? João perguntou.
Quem havia de ser? Beatriz riu, toda leve, rejuvenescida. Trabalho não falta. E as vizinhas ajudam, gente boa. Aqui a vida é diferente, mais calorosa.

Entraram na casa, fresca, com cortinas novas, janelas limpas, toalha bordada na mesa. Cheirava a bolo, e ervas.

Toma pôs na mesa um garrafão de leite e um embrulho de papel vegetal. Da D. Palmira, ali ao lado. Leite de cabra puro. E carne é dela também, que tem vitelos. Levem para casa, ainda há requeijão e natas frescas.

Mariana ficou a olhar o embrulho. Carne caseira. Nenhuma reclamação sobre o mercado, nem carne da Filomena.

Dona Beatriz gostou mesmo disto?

Beatriz sentou-se, e nos olhos apareceu algo novo, suave.

Mariana foi a primeira vez que usou o nome assim era o meu sonho. Ter terra, mexer na terra, pensar no que me apetece Na cidade sufocava, sem saber porquê. Aqui

Apontou pela janela.

Aqui é onde me sinto viva.

No regresso, o João conduzia em silêncio, frascos de leite e queijo a tilintar atrás.

Olha quebrou ele finalmente se calhar agora já dá para ter filhos. Nunca se sabe, temos para onde ir no verão.

Mariana soltou um riso.

E eu que queria vender isto no primeiro dia. Pensava, que tralha

Lembro-me.

E afinal, esta casa de campo Mariana hesitou, a escolher palavras. Reparou tudo. Em dois meses fez aquilo que eu tentei quatro vezes em três anos com a tua mãe.

No semáforo, João virou-se para ela.

A mãe era infeliz, era só isso. Agora não.

Mariana concordou. Lá fora, acendem-se as luzes da cidade, e pela primeira vez em três anos, voltar a casa não custa nada.

Temos de ir lá mais vezes murmurou.

E, para surpresa dela, sentiu que dizia aquilo de coração. Mesmo de coração.

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A Casa de Campo, Ela Conserta Tudo: Uma História de Família, Renovação e Reconciliação no Interior de Portugal
– Ти си сирак, кой ще те защити? – усмихна се мъжът, когато ме изгони от дома.