Devolve a chave do nosso apartamento — Eu e o teu pai já decidimos, — disse Olga, pousando a mão sobre a do filho. — Vendemos a casa de campo. Dois milhões para o sinal da vossa casa, chega de andarem por quartos alugados. André ficou estático com a chávena a meio caminho da boca. Natália, sua esposa, também parou de mastigar e ficou com o pedaço de bolo suspenso no garfo. — Mãe, mas como assim? — André pôs a chávena devagar na mesa. — Que casa de campo? Vocês lá vão todos os verões… — A gente sobrevive. Misha, diz-lhes tu. O pai, que até então mexia concentrado na compota, olhou-os. — A mãe tem razão. Aquela casa já tem quarenta anos, o telhado já pinga, a cerca apodrece. Só dá trabalho. E vocês não têm onde viver. — Pai, nós juntamos dinheiro, — André abanou a cabeça. — Mais dois anos, três no máximo… — Três anos! — Olga levantou as mãos. — Três anos aos trambolhões, com um filho a caminho? Natália, diz tu alguma coisa! Natália olhou, hesitante, ora para o marido ora para a sogra. — Olga, isso é muito dinheiro. Não vos podemos pedir… — Podem, — cortou Olga. — Não se fala mais nisso. Já falei ao agente imobiliário, sábado é a visita. André ia protestar, mas Olga antecipou-se. — Meu filho, nós já não somos novos. O teu pai vai para três anos de pressão alta, eu faço sessenta para o ano. Para quê aquela casa? Para plantar tomates? Compro-os no mercado! Os nossos netos devem crescer numa casa decentemente sua. Entendes? Fez-se silêncio. Natália apertou a mão do marido debaixo da mesa. André esfregou o nariz — como sempre quando não sabia o que responder. — Mãe… Nós vamos devolver tudo. Aos poucos, mas devolvemos cada cêntimo. — Deixa-te disso, — riu Misha. — O importante é os netos terem onde aprender a gatinhar. Um mês e meio depois, venderam a casa. Olga tratou dos papéis, contou o dinheiro, transferiu os dois milhões para o filho. Mais três meses — e André e Natália mudaram-se para um T2 na Avenida das Tílias, edifício novo, nono andar, vista para o parque. Na festa de inauguração, eram quinze à mesa. Os pais de Natália trouxeram louça, as amigas deram toalhas, os colegas de André juntaram-se para uma máquina de café. Olga foi de sala em sala, tocou nas paredes, abriu armários, anuiu — aprovava ou avaliava? Nunca se sabia. Quando os hóspedes, já ao fim da tarde, ocupavam todos os cantos, Olga puxou o filho para o corredor. — André, preciso falar contigo. Levou-o até à porta, longe de ouvidos alheios. — Dá-me a chave. André não percebeu logo. — Que chave? — Da casa. A reserva. Nunca se sabe, — sussurrou Olga. — Nós ajudámos-vos, percebes. Se acontecer alguma coisa, não podemos ficar sem acesso. E, sinceramente… gente normal dá uma chave aos pais. André passou de um pé para o outro. Notava-se no rosto: queria contrariar, mas as palavras não saíam. Ou não ousava. — Mãe, isso… A Natália… — O quê, a Natália está contra? — Olga semicerrrou os olhos. — Comprámos-vos a casa e ela recusa dar uma chave? — Não é isso… — Então dá. Pareces um miúdo! André buscou as chaves no bolso dos jeans, tirou uma cópia novinha. — Pronto. Olga recebeu, analisou o chaveiro, encaixou a chave junto à de casa e da garagem. O metal tilintou. — Boa decisão, — ela deu um tapinha na cara do filho. — Anda comer bolo, antes que acabem com ele. A noite foi um sucesso. (…) Olga apalpou o tecido, virou a almofada, verificou as costuras. O veludo escorria suave pelos dedos, o mostarda era quente, aconchegante — perfeito para o sofá cinzento da Natália. Levou duas, uma terracota. Já visualizava tudo: almofadas, manta de malha, como vira na semana passada. No elétrico, Olga levava o saco junto ao peito. Lá fora, pátios, parques infantis, carros estacionados, até à Avenida das Tílias — a sua paragem. O prédio cheirava a tinta fresca — obras recentes. Subiu ao nono andar, procurou a chave, abriu a porta. Silêncio. Nada. Descalçou-se, foi à sala. Claro, o sofá pelado; sem graça. Arrumou as almofadas, recuou para admirar. Ficou óptimo. Parecia outra sala. Só o pó na prateleira incomodava. E uma chávena suja no parapeito. Olga abanou a cabeça, mas não tocou mais nada — não era da sua conta. Por enquanto. De noite, pelas nove, o telefone tocou. — Mãe, foste lá hoje? A voz de André soava tensa. — Fui sim. Viste as almofadas? Lindas, não foram? — Mãe… — uma pausa. — Podias avisar. A Natália chegou e encontrou as coisas mudadas, almofadas estranhas… — Estranhas? — Olga bufou. — Custaram mil e quinhentos cada. Diz à tua Natália que está precisando de uma limpeza. Pó por tudo, chávenas sujas. E o frigorífico meio vazio. Estão com fome? Não dei dinheiro para viverem como estudantes. — Mãe, só avisa da próxima vez, está bem? Liga pelo menos… — Oh, André — Olga revirou os olhos, embora ele não pudesse ver. — Enfim, tenho de ir, o teu pai chama. Desligou antes de ouvir resposta. Na semana seguinte, Olga levou lençóis de cetim. Natália estava em casa, mas no banho — Olga ouviu a água. Largou o saco na cama, foi-se embora, nem escreveu bilhete. Para quê? Eles percebiam. Mais três dias: um conjunto de panelas. Os jovens tinham umas chinesices medonhas, o revestimento descascava-se, dava dó. Ao sábado, André e Natália foram jantar. Sentaram-se, comeram raviolis, falaram do tempo e das obras dos vizinhos. Tudo calmo, cordial, sem emoção. Natália pousou o garfo. — Dona Olga… — Sim? — Pode avisar quando vem cá? Só para sabermos. Olga limpou os lábios com o guardanapo. — Natália, nós demos-vos dois milhões. Dois. Milhões. Tenho direito de vir quando quero. A casa é nossa também. — Mãe, — André tentou intervir. — O quê, não estou certa? Silêncio. Misha mexia impávido nos raviolis, a dar-se por alheio. — Obrigada pelo jantar, — Natália levantou-se. — André, temos de ir. Saíram apressados, despedidas forçadas. Olga trancou a porta, voltou à cozinha para limpar. Sentiu-se compelida a espreitar pela janela — justo quando os jovens saíam do prédio. A janela estava entreaberta. Ouviu nitidamente a voz de Natália, seca: — …se não pagarmos esta dívida, divorcio-me. Não aguento mais. Olga ficou parada com o prato na mão. Que dívida? De que fala ela? Lá em baixo, André respondeu algo, mas não se distinguia. Fechou-se a porta do carro, motor a roncar. Olga colocou o prato na pia, devagar. Não. Ela não gostou nada daquilo. (…) Olga rodou a chave na fechadura, empurrou a porta — e quase deu de caras com André. Ele aguardava no corredor. Natália apareceu da cozinha a secar as mãos. — Oh, estão cá, — Olga hesitou só um segundo, depois recompôs-se. — Vim trazer-vos… — Mãe, espera. Algo na voz do filho calou-a. André tirou um envelope do bolso da jaqueta. Branco, grosso, nitidamente cheio. — Quero devolver-te isto. Olga recebeu, olhou lá dentro — e as pernas vacilaram. Dinheiro. Muito. — Mas… o quê? — Dois milhões, — Natália aproximou-se do marido. — Contratámos um empréstimo. — Vocês… — Olga ergueu os olhos. — Estão loucos? Para quê um crédito? — Porque não queremos ficar em dívida, — Natália manteve o olhar firme. — Dona Olga, estamos cansados. Das visitas, das inspeções, de ver entradas a qualquer hora e remexer nas nossas coisas. — Eu não remexo! Só levei almofadas. Lençóis. Panelas! — Mãe, — André colocou a mão no ombro de Natália. — Vamos mudar a fechadura. Amanhã o serralheiro vem. Olga piscou. Uma, duas vezes. Só aos poucos entendeu. — Vão mudar…? — Sim. Já não tens chave. O silêncio pesou, abafado. Olga olhava do filho para a nora, prendeu a respiração. — Vocês… vocês… — engoliu em seco. — São mesquinhos. Mesquinhos e ingratos. Vendemos a nossa casa de campo! Por vocês! E agora trancam-me fora como se fosse ladra! — Não é isso, — Natália manteve a postura. — Só queremos que saia. Olga apertou o chaveiro no bolso. Os dedos dormentes. — André, filho, vais mesmo deixar que ela me trate assim? André baixou a cabeça. Depois fitou a mãe nos olhos. — Mãe. Foi decisão dos dois. Olga virou-se abruptamente e saiu, sem se despedir. (…) Todo o caminho até casa, Olga ensaiou o que diria quando André ligasse a pedir desculpa. Amanhã, no máximo depois de amanhã. Ia arrepender-se, compreender que exagerou. Passou uma semana. O telefone ficou mudo. Olga várias vezes quis ligar ela, mas guardou sempre o aparelho. Não. Que venham eles primeiro. Que peçam desculpa. Ela é mãe, afinal. Não queria mal nenhum. Um mês depois, Misha perguntou distraído ao jantar se já se tinham reconciliado. Olga encolheu os ombros e mudou de assunto. Dois meses depois, já não sobressaltava com cada telefonema. Três meses depois, entendeu tudo. O filho não vai ligar. Nem amanhã, nem para a semana, nem para o ano. Olga estava sentada na cozinha, fitando o chaveiro. Chave de casa, de garagem. Entre elas, a que um dia abriu a porta daquele apartamento na Avenida das Tílias. Ela só queria ajudar. Queria mesmo. As almofadas, as panelas, os lençóis — isso é cuidado, não é? Não é isso que se faz? Pais ajudam filhos, filhos agradecem, todos felizes. Mas em algum momento, algo se partiu. E por mais que Olga revivesse conversas e visitas na cabeça, não conseguia perceber — nem queria. E consertar aquilo… já era tarde demais.

Entrega o chave da nossa casa

Eu e o teu pai já decidimos tudo disse Mariana, pousando a mão em cima da de Rui. Vamos vender a casa da praia. Damos-te quarenta mil euros para a entrada do apartamento, e já chega de vocês andarem a alugar quartos por Lisboa.

Rui ficou com a chávena a meio do caminho dos lábios. Sofia, a mulher dele, também parou de mastigar, e o pedaço de bolo ficou parado na ponta do garfo.

Mãe, estás a falar a sério? Que casa da praia? Vocês passam lá o verão todo…
Sobrevive-se. Ó António, diz tu qualquer coisa.

O pai, que até ali estava entretido a lutar com a compota, levantou os olhos.

A mãe tem razão. Aquela casa já tem para aí uns quarenta anos, o telhado já pinga, a vedação apodreceu… só dá trabalheira. E vocês precisam mesmo de um canto só para vocês.
Pai, nós aguentamos mais uns tempos, Rui abanou a cabeça. Daqui a uns dois, três anos…
Três anos!? Mariana atirou os braços ao ar. Três anos às voltas por casas alheias, ainda por cima com bebé a caminho? Sofia, diz alguma coisa!

Sofia olhou primeiro para o marido, depois para a sogra, como quem procura saída.

Dona Mariana, é muito dinheiro… Não podemos aceitar assim, sem mais nem menos…
Podem sim, cortou Mariana, já com aquela voz de mãe portuguesa indiscutível. Não há conversa. Já falei com a agência imobiliária, sábado vêm ver a casa.

Rui já ia comentar, mas a mãe não deu tempo.

Meu filho, nós já não temos idade para isto. O teu pai anda com a tensão alta há anos, eu faço sessenta no ano que vem. Para quê aquela casa, para plantar tomates? Compro-os no mercado! Quero é ver os meus netos a crescer numa casa decente. Numa casa deles, percebes?

Ficou tudo em silêncio. Sofia apertou a mão de Rui por baixo da mesa. Rui massajou a testa, como sempre fazia quando não sabia o que dizer.

Mãe… Nós vamos pagar tudo de volta. Aos poucos, mas devolvemos cada euro.
Não te preocupes, António acenou com a mão. Pagas, não pagas… O importante é que os miúdos tenham onde aprender a gatinhar.

Um mês e meio depois, lá venderam a casa da praia. Mariana tratou dos papéis, contou os euros, transferiu os quarenta mil para o filho. Mais três meses, e Rui e Sofia mudaram-se para um T2 ao pé do Jardim das Amendoeiras prédio novo, nono andar, vista para o parque.

No chá de casa nova, estavam quinze pessoas. Os pais da Sofia trouxeram louça, as amigas trouxeram toalhas, os colegas do Rui juntaram-se e ofereceram uma máquina de café. Mariana, especialista em fiscalizar casas, circulava a tocar nas paredes, espreitar armários e abanar a cabeça ora satisfeita, ora talvez a pensar que faria diferente.

No fim da tarde, já com os convidados espalhados, Mariana interceptou Rui no corredor.

Rui, preciso de te pedir uma coisinha.

Leva-o até à porta de entrada, longe dos ouvidos alheios.

Dá-me uma chave.

Rui ficou confuso.

Que chave?
Da casa. A extra. Nunca se sabe, Mariana baixou o tom. Nós ajudámos-vos, percebes? Imagina que acontece alguma coisa, e nós sem acesso! Aliás… toda a gente de bem dá uma chave ao pais.

Rui hesitou, claramente a querer recusar pela cara, mas sem coragem.

Mãe, isso a Sofia
A Sofia o quê? Ela não quer? Mariana semicerrou os olhos. Nós demos-vos a casa, e ela não quer dar a chave?
Não é isso que eu queria dizer
Então dá cá. Se queres hesitar, para quê?

Rui retirou o molho do bolso das calças de ganga. Tirou a chave novinha, ainda a brilhar.

Pronto.

Mariana apanhou-a, rodou-a entre os dedos, encaixou-a no seu molho de chaves, entre a de casa e a da garagem. Um tilintar da autoridade materna.

És cá um rapaz esperto, disse, dando-lhe uma palmadinha na bochecha. Vá, vamos comer bolo antes que desapareça.

E o serão foi animado.

…Mariana estava numa loja, a escolher capas de almofadas. Apalpou o tecido, virou a almofada, conferiu as costuras. O veludo era macio, o tom mostarda quentinho, ia combinar com o sofá cinzento da Sofia. Leva outra igual, mas em terracota. Já imaginava tudo decorado: almofadas nos cantos, uma manta de lã entre elas, daquelas que tinha visto na semana passada.

No elétrico, Mariana agarrava o saco ao peito. Passava por praças, parques infantis e carrinhos estacionados. Jardim das Amendoeiras, era a sua paragem.
No prédio, cheirava a tinta fresca renovaram há pouco tempo. Mariana subiu ao nono andar, tirou o molho das chaves, encaixou a correta. O trinco deu a volta suavemente, a porta abriu-se num silêncio suspeito.

Quietude. Ninguém.

Mariana descalçou-se e foi direita à sala. O sofá, claro, estava despido, uma tristeza. Arrumou as almofadas, uma a cada canto, deu uns passos atrás para ver melhor. Ficou perfeito. Parecia outra sala.

Só que a poeira na prateleira saltava à vista. E a caneca por lavar no parapeito. Mariana abanou a cabeça, mas não mexeu. Não era para ela. Ainda não.

À noite, o telefone tocou por volta das nove.

Mãe, vieste cá hoje?

A voz do Rui estava estranha, meio tensa.

Claro. Levei-vos umas almofadas, viste? Giríssimas, não são?
Mãe pausa. Era só avisar antes A Sofia chegou a casa, estava tudo mexido, almofadas novas
Almofadas novas? Mariana bufou. Custaram setecentos e cinquenta euros cada. E diz à tua Sofia que a casa está imunda. Poeira, canecas sujas. Até o frigorífico espreitei meio vazio. Vocês anda a fazer dieta? Não vos dei dinheiro para viverem como universitários em república.
Mãe, só avisa da próxima vez, está bem? Liga pelo menos…
Ó Rui Mariana revirou os olhos, ainda que o filho não pudesse ver. Olha, tenho de ir, o teu pai chama-me.

Desligou sem esperar resposta.

Na semana seguinte, Mariana levou-lhes um conjunto de lençóis de algodão bom. Sofia estava em casa, mas a tomar banho Mariana ouvia a água. Deixou o saco na cama e foi à sua vida, sem bilhetinho. Para quê? Eles percebem.

Três dias depois, um conjunto de tachos. Os dos jovens eram de uma loja asiática qualquer, já sem camada, só de olhar apetecia chorar.

No sábado seguinte, Rui e Sofia foram jantar em casa dos pais. À mesa comiam pastéis de bacalhau e discutiam o clima e as obras do prédio do lado. Tudo civilizado, muito porreiro.

A certa altura, Sofia pousou o garfo.

Dona Mariana…
Sim?
Podia pedir-lhe Sofia hesitou, olhou para Rui Quando vier cá podia avisar antes? Só para sabermos

Mariana secou os lábios vagarosamente com o guardanapo.

Oh, Sofinha. Eu e o António demos-vos quarenta mil euros. Quarenta. Mil. Tenho direito de entrar quando me apetece. Se queres saber, essa casa é nossa também.
Mãe, Rui tentou intervir.
O quê, mãe? Não tenho razão?

Silêncio. António entretido no pastel, a mostrar que não se mete.

Obrigada pelo jantar, Sofia levantou-se. Rui, está na hora.

Saíram a correr, sorrisos falsos a fingir felicidade. Mariana fechou a porta atrás deles e voltou à cozinha para limpar. Deu-lhe um jeito ir até à janela coincidiu com os jovens a sair do prédio.

A janela estava entreaberta. A voz de Sofia chegou lá em cima, bem clara:

…ou pagamos esta dívida ou divorciamo-nos. Já não aguento mais.

Mariana ficou congelada, a segurar num prato.

Que dívida? Estavam a falar do quê?

Em baixo Rui ainda respondeu qualquer coisa, mas já não se ouviu. O carro arrancou com barulho.

Mariana pousou o prato, devagar.

Não. Aquilo não lhe estava a agradar nada.

…Dias depois, Mariana abriu a porta e quase deu de caras com o Rui. Ele estava ali, parado no corredor, como quem espera. Sofia espreitava da cozinha, mãos ainda húmidas da loiça.

Ah, estão em casa, Mariana titubeou, mas recompôs-se Vim só trazer
Mãe, espera aí.

O tom do Rui fez Mariana calar-se. Ele foi ao bolso interior do casaco, tirou um envelope branco. Pesado.

Quero devolver-te isto.

Mariana aceitou automaticamente. Abriu um olho ao envelope e o chão fugiu-lhe debaixo dos pés.
Dinheiro. Muito.

Isto?
Quarenta mil euros, aproximou-se Sofia. Pedimos empréstimo.
Vocês Mariana arregalou os olhos. Vocês estão loucos? Um empréstimo? Para quê?
Para não ficarmos dependentes, Sofia encarou-a sem medo. Dona Mariana, estamos exaustos. Das visitas, das inspeções, de mexer nas nossas coisas como lhe apetece.
Eu só vos trouxe almofadas! Lençóis! Tachos!
Mãe, Rui pôs a mão no ombro da Sofia. Amanhã mudamos a fechadura. Vem cá o senhor.

Mariana piscou. Uma vez. Duas. Demorou a processar.

Fechadura?
Sim. Já não vais ter chave.

O silêncio ficou espesso, a faltar ar. Mariana olhava do filho para a nora. O nó na garganta apertou, as faces arderam.

Vocês… vocês… engoliu em seco. São uns mesquinhos. Mesquinhos e ingratos. Vendemos a casa da praia por vossa causa! E agora tratam-me como ladra e mandam-me embora!
Não mandamos, Sofia manteve-se firme. Só pedimos que se vá embora.

Mariana apertou o molho de chaves no bolso. Os dedos, dormentes.

Rui, filho. Vais permitir que ela me fale assim?

Rui baixou os olhos e demorou. Depois olhou para a mãe.

Mãe. Decidimos juntos.

Mariana virou-se de repente e saiu sem dizer adeus.

No caminho para casa, já ia ensaiando mentalmente aquele discurso para quando Rui telefonasse, arrependido. Amanhã, no máximo depois de amanhã. Ia perceber que exagerou.

Passou uma semana. O telefone calou-se.

Mariana pensou ligar, mas recuou sempre. Não. Que venham eles primeiro. Que peçam desculpa. Afinal, é mãe. Não queria mal.

Um mês depois, António abordou o tema ao jantar, a perguntar se já tinham feito as pazes. Mariana encolheu os ombros e mudou de assunto.

Dois meses depois, já não sobressaltava ao telefonar.

Ao fim de três, percebeu.

O filho não ia ligar. Nem amanhã, nem daqui a uma semana, nem nunca.

Mariana ficou a olhar para o seu molho de chaves. A da casa, a da garagem. Entre elas, a que antes abria a porta do apartamento no Jardim das Amendoeiras.

Ela só queria ajudar. Juro que queria. As almofadas, os tachos, os lençóis, era cuidado, não era? Não é assim que se faz? Pais ajudam filhos, filhos agradecem, fica tudo feliz.

Mas algures no caminho, alguma coisa quebrou-se. E por mais que Mariana interrogasse as lembranças, não conseguia perceber onde. Talvez nem quisesse perceber.

Reparar aquilo já era tarde demais.

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Devolve a chave do nosso apartamento — Eu e o teu pai já decidimos, — disse Olga, pousando a mão sobre a do filho. — Vendemos a casa de campo. Dois milhões para o sinal da vossa casa, chega de andarem por quartos alugados. André ficou estático com a chávena a meio caminho da boca. Natália, sua esposa, também parou de mastigar e ficou com o pedaço de bolo suspenso no garfo. — Mãe, mas como assim? — André pôs a chávena devagar na mesa. — Que casa de campo? Vocês lá vão todos os verões… — A gente sobrevive. Misha, diz-lhes tu. O pai, que até então mexia concentrado na compota, olhou-os. — A mãe tem razão. Aquela casa já tem quarenta anos, o telhado já pinga, a cerca apodrece. Só dá trabalho. E vocês não têm onde viver. — Pai, nós juntamos dinheiro, — André abanou a cabeça. — Mais dois anos, três no máximo… — Três anos! — Olga levantou as mãos. — Três anos aos trambolhões, com um filho a caminho? Natália, diz tu alguma coisa! Natália olhou, hesitante, ora para o marido ora para a sogra. — Olga, isso é muito dinheiro. Não vos podemos pedir… — Podem, — cortou Olga. — Não se fala mais nisso. Já falei ao agente imobiliário, sábado é a visita. André ia protestar, mas Olga antecipou-se. — Meu filho, nós já não somos novos. O teu pai vai para três anos de pressão alta, eu faço sessenta para o ano. Para quê aquela casa? Para plantar tomates? Compro-os no mercado! Os nossos netos devem crescer numa casa decentemente sua. Entendes? Fez-se silêncio. Natália apertou a mão do marido debaixo da mesa. André esfregou o nariz — como sempre quando não sabia o que responder. — Mãe… Nós vamos devolver tudo. Aos poucos, mas devolvemos cada cêntimo. — Deixa-te disso, — riu Misha. — O importante é os netos terem onde aprender a gatinhar. Um mês e meio depois, venderam a casa. Olga tratou dos papéis, contou o dinheiro, transferiu os dois milhões para o filho. Mais três meses — e André e Natália mudaram-se para um T2 na Avenida das Tílias, edifício novo, nono andar, vista para o parque. Na festa de inauguração, eram quinze à mesa. Os pais de Natália trouxeram louça, as amigas deram toalhas, os colegas de André juntaram-se para uma máquina de café. Olga foi de sala em sala, tocou nas paredes, abriu armários, anuiu — aprovava ou avaliava? Nunca se sabia. Quando os hóspedes, já ao fim da tarde, ocupavam todos os cantos, Olga puxou o filho para o corredor. — André, preciso falar contigo. Levou-o até à porta, longe de ouvidos alheios. — Dá-me a chave. André não percebeu logo. — Que chave? — Da casa. A reserva. Nunca se sabe, — sussurrou Olga. — Nós ajudámos-vos, percebes. Se acontecer alguma coisa, não podemos ficar sem acesso. E, sinceramente… gente normal dá uma chave aos pais. André passou de um pé para o outro. Notava-se no rosto: queria contrariar, mas as palavras não saíam. Ou não ousava. — Mãe, isso… A Natália… — O quê, a Natália está contra? — Olga semicerrrou os olhos. — Comprámos-vos a casa e ela recusa dar uma chave? — Não é isso… — Então dá. Pareces um miúdo! André buscou as chaves no bolso dos jeans, tirou uma cópia novinha. — Pronto. Olga recebeu, analisou o chaveiro, encaixou a chave junto à de casa e da garagem. O metal tilintou. — Boa decisão, — ela deu um tapinha na cara do filho. — Anda comer bolo, antes que acabem com ele. A noite foi um sucesso. (…) Olga apalpou o tecido, virou a almofada, verificou as costuras. O veludo escorria suave pelos dedos, o mostarda era quente, aconchegante — perfeito para o sofá cinzento da Natália. Levou duas, uma terracota. Já visualizava tudo: almofadas, manta de malha, como vira na semana passada. No elétrico, Olga levava o saco junto ao peito. Lá fora, pátios, parques infantis, carros estacionados, até à Avenida das Tílias — a sua paragem. O prédio cheirava a tinta fresca — obras recentes. Subiu ao nono andar, procurou a chave, abriu a porta. Silêncio. Nada. Descalçou-se, foi à sala. Claro, o sofá pelado; sem graça. Arrumou as almofadas, recuou para admirar. Ficou óptimo. Parecia outra sala. Só o pó na prateleira incomodava. E uma chávena suja no parapeito. Olga abanou a cabeça, mas não tocou mais nada — não era da sua conta. Por enquanto. De noite, pelas nove, o telefone tocou. — Mãe, foste lá hoje? A voz de André soava tensa. — Fui sim. Viste as almofadas? Lindas, não foram? — Mãe… — uma pausa. — Podias avisar. A Natália chegou e encontrou as coisas mudadas, almofadas estranhas… — Estranhas? — Olga bufou. — Custaram mil e quinhentos cada. Diz à tua Natália que está precisando de uma limpeza. Pó por tudo, chávenas sujas. E o frigorífico meio vazio. Estão com fome? Não dei dinheiro para viverem como estudantes. — Mãe, só avisa da próxima vez, está bem? Liga pelo menos… — Oh, André — Olga revirou os olhos, embora ele não pudesse ver. — Enfim, tenho de ir, o teu pai chama. Desligou antes de ouvir resposta. Na semana seguinte, Olga levou lençóis de cetim. Natália estava em casa, mas no banho — Olga ouviu a água. Largou o saco na cama, foi-se embora, nem escreveu bilhete. Para quê? Eles percebiam. Mais três dias: um conjunto de panelas. Os jovens tinham umas chinesices medonhas, o revestimento descascava-se, dava dó. Ao sábado, André e Natália foram jantar. Sentaram-se, comeram raviolis, falaram do tempo e das obras dos vizinhos. Tudo calmo, cordial, sem emoção. Natália pousou o garfo. — Dona Olga… — Sim? — Pode avisar quando vem cá? Só para sabermos. Olga limpou os lábios com o guardanapo. — Natália, nós demos-vos dois milhões. Dois. Milhões. Tenho direito de vir quando quero. A casa é nossa também. — Mãe, — André tentou intervir. — O quê, não estou certa? Silêncio. Misha mexia impávido nos raviolis, a dar-se por alheio. — Obrigada pelo jantar, — Natália levantou-se. — André, temos de ir. Saíram apressados, despedidas forçadas. Olga trancou a porta, voltou à cozinha para limpar. Sentiu-se compelida a espreitar pela janela — justo quando os jovens saíam do prédio. A janela estava entreaberta. Ouviu nitidamente a voz de Natália, seca: — …se não pagarmos esta dívida, divorcio-me. Não aguento mais. Olga ficou parada com o prato na mão. Que dívida? De que fala ela? Lá em baixo, André respondeu algo, mas não se distinguia. Fechou-se a porta do carro, motor a roncar. Olga colocou o prato na pia, devagar. Não. Ela não gostou nada daquilo. (…) Olga rodou a chave na fechadura, empurrou a porta — e quase deu de caras com André. Ele aguardava no corredor. Natália apareceu da cozinha a secar as mãos. — Oh, estão cá, — Olga hesitou só um segundo, depois recompôs-se. — Vim trazer-vos… — Mãe, espera. Algo na voz do filho calou-a. André tirou um envelope do bolso da jaqueta. Branco, grosso, nitidamente cheio. — Quero devolver-te isto. Olga recebeu, olhou lá dentro — e as pernas vacilaram. Dinheiro. Muito. — Mas… o quê? — Dois milhões, — Natália aproximou-se do marido. — Contratámos um empréstimo. — Vocês… — Olga ergueu os olhos. — Estão loucos? Para quê um crédito? — Porque não queremos ficar em dívida, — Natália manteve o olhar firme. — Dona Olga, estamos cansados. Das visitas, das inspeções, de ver entradas a qualquer hora e remexer nas nossas coisas. — Eu não remexo! Só levei almofadas. Lençóis. Panelas! — Mãe, — André colocou a mão no ombro de Natália. — Vamos mudar a fechadura. Amanhã o serralheiro vem. Olga piscou. Uma, duas vezes. Só aos poucos entendeu. — Vão mudar…? — Sim. Já não tens chave. O silêncio pesou, abafado. Olga olhava do filho para a nora, prendeu a respiração. — Vocês… vocês… — engoliu em seco. — São mesquinhos. Mesquinhos e ingratos. Vendemos a nossa casa de campo! Por vocês! E agora trancam-me fora como se fosse ladra! — Não é isso, — Natália manteve a postura. — Só queremos que saia. Olga apertou o chaveiro no bolso. Os dedos dormentes. — André, filho, vais mesmo deixar que ela me trate assim? André baixou a cabeça. Depois fitou a mãe nos olhos. — Mãe. Foi decisão dos dois. Olga virou-se abruptamente e saiu, sem se despedir. (…) Todo o caminho até casa, Olga ensaiou o que diria quando André ligasse a pedir desculpa. Amanhã, no máximo depois de amanhã. Ia arrepender-se, compreender que exagerou. Passou uma semana. O telefone ficou mudo. Olga várias vezes quis ligar ela, mas guardou sempre o aparelho. Não. Que venham eles primeiro. Que peçam desculpa. Ela é mãe, afinal. Não queria mal nenhum. Um mês depois, Misha perguntou distraído ao jantar se já se tinham reconciliado. Olga encolheu os ombros e mudou de assunto. Dois meses depois, já não sobressaltava com cada telefonema. Três meses depois, entendeu tudo. O filho não vai ligar. Nem amanhã, nem para a semana, nem para o ano. Olga estava sentada na cozinha, fitando o chaveiro. Chave de casa, de garagem. Entre elas, a que um dia abriu a porta daquele apartamento na Avenida das Tílias. Ela só queria ajudar. Queria mesmo. As almofadas, as panelas, os lençóis — isso é cuidado, não é? Não é isso que se faz? Pais ajudam filhos, filhos agradecem, todos felizes. Mas em algum momento, algo se partiu. E por mais que Olga revivesse conversas e visitas na cabeça, não conseguia perceber — nem queria. E consertar aquilo… já era tarde demais.
Aos 55 anos comecei a trabalhar como taxista para não pedir dinheiro aos meus filhos. Eles riam dizendo: “A mãe anda a levar bêbados”. Mas numa noite, levei uma jovem no carro e o que ouvi através do telemóvel dela mudou para sempre a forma como vejo a minha própria família…