Querido diário,
Hoje aconteceu algo que mexeu comigo. Disse ao meu pai: Olha, papá, não venhas cá mais vezes. Sempre que partes, a mãe fica a chorar. Chora até de manhã, acredita! Dormem-me os olhos, adormeço, acordo… e ela continua, entre lágrimas e suspiros. Pergunto-lhe: Mãe, estás triste por causa do papá? E ela diz que não, que só está constipada. Mas eu já sou crescidasei que não há constipação que faça a voz tremer de lágrimas.
O meu pai, o António, estava comigo num café perto do Jardim da Estrela. Ele mexia o café frio numa chávena minúscula, enquanto eu nem tocava no meu gelado. E olha que era mesmo bonito: bolas de cores vivas, uma folha de hortelã e uma cereja por cima, cobertos de chocolate. Qualquer menina de seis anos teria atacado logo. Mas eu não. Já na sexta passada decidi falar com o papá a sério.
Ele ficou calado, muito tempo, antes de me dizer: Então o que é que fazemos? Não te vejo mais? Como é que aguento?
Fiz biquinho, puxei à mãe o nariz batatinhae respondi: Não, papá, eu também preciso de ti. Fazemos assim: telefona à mãe e diz-lhe que todas as sextas me vais buscar à escola. Passeamos, e se quiseres café ou gelado, sentamo-nos onde quiseres. Vou-te contar tudo de como vivemos cá em casa com a mãe.
Pensei mais um pouco e sugeri: Se quiseres ver a mãe, eu tiro-lhe uma foto no telemóvel todas as semanas e mostro-te. Queres? O papá sorriu, descansado, e acenou com a cabeça: Combinado, filha.
Suspirei de alívio e lancei-me ao geladomas ainda não tinha falado o mais importante. Com bigodes de chocolate, lambi-os e fiquei séria, quase adulta. Quase mulher. Que tem de cuidar do seu homem, nem que seja já com 28 anos, como o papá, que fez anos na semana passada. Eu pintei-lhe uma grande 28 no cartão que fiz na escola.
Endireitei a cara, franzi as sobrancelhas: Acho que devias casar-te… disse, e acrescentei, generosa, Ainda não és muito velho… O papá riu e comentou: Não muito velho, diz ela… E eu com entusiasmo: Nada disso! Olha o senhor Eduardo, que veio cá a casa à mãe duas vezes já… até é meio careca! E mostrei-lhe onde, alisando os meus caracóis. Vi que o papá ficou sério, com um olhar atentoacho que traí o segredo da mãe.
Tapei a boca com as mãos, abri os olhos de espanto. O senhor Eduardo? Qual Eduardo? perguntou o papá quase alto, quase para o café todo ouvir. Não sei, se calhar é chefe da mãe… traz-me rebuçados, e bolo lá para casa. E à mãe, flores. Hesitei em partilhar tanto com ele, mas acabei por contar.
O papá entrelaçou os dedos sobre a mesa, ficou muito tempo a olhar para as mãos. Disse logo ali que estava a decidir algo muito importante. Esperei sem apressar, como já percebi que às vezes os homens demoram nas decisões, e há que dar-lhes um empurrãozinho. E quem melhor que uma filha?
Por fim, ele suspirou fundo, ergueu a cabeça e perguntou-me com uma voz pesada, como o Otelo a interrogar Desdémonaembora eu ainda não conheça essas histórias. Estou só a aprender, a observar como os adultos às vezes se alegram e sofrem com coisas pequenas.
Disse: Vamos, filha. Está a ficar tarde. Levo-te a casa, e vou falar com a mãe. Não perguntei o que ia dizer à mãe, mas percebi que era mesmo importante, por isso acabei depressa o gelado. Senti que o que o papá decidira era mais importante ainda que o gelado, e então despejei a colher para cima da mesa, escorreguei da cadeira e limpei a boca. Funguei e olhei-o nos olhos: Estou pronta. Vamos.
Até casa quase corremoso papá mais que eu, mas ia sempre a segurar a minha mão, como se eu fosse uma bandeira ao vento. Subimos o prédio, as portas do elevador fecharam antes de nós, alguém já subia. O papá olhou-me, indeciso. Fitei-o: Então? O que esperamos? Somos só no sétimo!
O papá pegou-me ao colo e correu pelas escadas. Já em frente à nossa porta, após muitos toques nervosos, a mãe abriu. Ele não esperou e disse logo: Não podes fazer-me isto! Quem é esse Eduardo? Eu amo-te, temos a Leonor E abraçou-me forte, sem me largar, depois abraçou também a mãe. Eu abracei o pescoço de ambos e fechei os olhos. Porque, pronto… os adultos estavam a beijar-se.
No fim, é uma menina pequena que consola dois adultos desajeitados, os dois amando-me, e a si, e mantendo os seus orgulhos e mágoas de molho…
Tenho mesmo sorte de os ter aos dois.
Se estão a ler, digam lá o que acham disto. Dêem gosto, comentemE amanhã, quando acordar, prometo desenhar um céu azul com três mãos dadas na folha brancatalvez nem precise de lápis, só um sorriso e vontade de sermos juntos. E se algum dia chovesse tanto cá dentro que as lágrimas voltassem, bem… deixo um recado na porta: Aqui mora quem aprende a ser feliz, mesmo com saudades e rebuçados à espera de quem volta.
Porque, de verdade, felicidade é quando todos cabem no mesmo abraço.







