Divórcio por causa da vizinha
Oh pá, explica-me só uma coisa: de todas as mulheres do mundo, foste logo escolher aquela? Sair de casa, de mim e ir ter com ela, consegues explicar?
Olha, a Carina perdia para mim em tudo. E ainda vá lá que o Valter dissesse: Ah, ela é divertida, mais leve, menos rígida, não é tão chata como tu. Mas nem isso disse.
– Como foi possível, Maria? Como é que tu deixaste isto acontecer? Vocês até pareciam tão bem – lamentava-se a minha mãe, a minha irmã, as amigas todas, mal souberam que eu ia me divorciar.
– Estávamos, pois – respondia eu. Mas não vamos estar mais.
– Maria, pensa lá bem, trinta vezes se for preciso, antes de deixares fugir um homem destes. Ele trabalha, adora os miúdos, e nem sequer quer o divórcio
Depois deste tipo de discurso, confesso-te que comecei a enviar essas pessoas diretamente para o bloqueio eterno tanto nas redes sociais como na vida real. Farta mesmo.
Sabes a Carla, a colega do trabalho com quem eu até me dava bem? Agora só lhe aceno com um olá de circunstância no corredor.
E quando tentou falar comigo, fiz questão de lhe dizer tudo: desde os conselhos não pedidos até ao quase empurrãozinho que me deu para voltar para aquele marido traidor.
Sim, traidor! Eu ainda hoje, passados meses, nem acredito nesta história.
Tanta coisa vivida juntos! Vinte anos, imagina Desde a faculdade já nem era um quilo, era uma tonelada de sal a que sobrevivemos juntos, como diz o ditado.
Vivemos de tudo: falta de dinheiro, desemprego, problemas de saúde meus, dele, das crianças.
Tenho dois filhos, um rapaz e uma rapariga, a família certinha como manda o figurino. A casa sempre arrumada, jantar feito, e dores de cabeça nunca tive para me safar.
Cuidava de mim, nunca vi o Valter só como um multibanco com pernas, arranjava sempre tempo para ele, mesmo depois das crianças nascerem.
Então, o que é que ele foi lá buscar, diz-me tu! O que é que leva um homem a decidir ir passear para o lado?
E pior, com quem! Numa miúda nova ainda aceito que me chocasse menos. Mas não: foi-se meter com uma divorciada, mãe de um miúdo, do prédio ali ao lado.
– Mas diz-me lá, que raio viste tu nela?
Olha, no dia em que a traição saltou cá para fora e o Valter teve de admitir tudo, ora dava-me para rir, ora para chorar.
– Oh Valter, explica-me de uma vez: de todas as mulheres, foste logo escolher essa? Trocar-me, logo a mim, por ela?
A Carina sinceramente, não tinha nada de especial. E ainda se o Valter tivesse dito algum disparate como ela diverte-se mais que tu ou é mais maluca, vá que não vá.
Mas nem isso. Nem ele conseguiu explicar. Não foi bebedeira, não foi nada disso. Só lhe saía um aconteceu, nem sei bem porquê, e depois a pedir-me de joelhos para voltar para casa.
E acredita que, para ele, nunca esteve nos planos separar-se de mim e ir viver com a Carina. Ele achava que isto ia ser do género: porta das traseiras, dá uns amassos e depois volta para casa como se nada fosse, deitar-se na minha cama e fingir que não tinha ninguém no lado.
E se calhar até conseguia, não fosse a Carina ter engravidado com a brincadeira, e decidir que, para este filho (e já agora para o outro também), era melhor o Valter passar a ser o pai oficial. Queria levá-lo ao registo civil à força toda.
Foi ter lá a casa com um escândalo daqueles. Juro-te: eu nem acreditei! Afinal, são vinte anos e conheço o homem de olhos fechados. Ou, pensava eu.
Mas a Carina também conhecia. Sabia onde tinha as marcas de nascença, que cicatriz tinha nas costas Só quem o viu despido é que podia saber. Pronto, não havia volta a dar.
Nisto, até os conhecidos do Valter começaram, do nada, a tomar o partido dele colegas de trabalho, conhecidas, aqueles primos afastados tudo a dizer que eu devia era perdoar, ficar com ele, fingir que não se passou nada.
Isto eu não conseguia engolir.
A sogra entendia-se queria salvar a família, proteger o filho, ajudar-lhe a limpar o disparate. Ao ponto de fazer chantagem emocional aos netos: digam à vossa mãe para não se divorciar do vosso pai.
Feio e manipulação, mas pronto, percebe-se o porquê.
Agora, os outros, porquê? Era aquele velho balde de caranguejos se eles estavam a ferver na lama, queriam que eu ficasse na mesma.
Mas comigo não pegava. Felizmente, o meu falecido pai ensinou-me uma lição cedo na vida. Dizia-me muitas vezes:
– Ó filha, se alguém te chama egoísta porque não queres levar a cruz deles, partilhar o que é teu, ou perdoar só porque a tradição ou qualquer santo diz Não acredites. Só querem usar-te para resolver problemas deles.
Si fizessem chantagem desse género, eu já sabia ao que vinham. E manipulações comigo, não.
Mesmo os miúdos, quando lhes foi pedida aquela coisa absurda de desbloquearem a avó no WhatsApp, já sabiam responder. O Victor, meu filho, estava na casa da namorada nessa noite. Então foi a miúda, a Constança, quem me explicou à mesa:
– Oh mãe, só fala em juntar a família, em como devias ficar com o pai uma e outra vez, sem parar. Já lhe disse duas vezes que isso é entre vocês, mas ela não percebe. Então bloqueei, até mudar a música de avó.
– Obrigada, filha. Eu sei que isto não te deve estar a saber nada bem E agradeço que não alinhes nesse jogo, nem cedas à pressão da tua avó.
– Eu não sou burra mãe, – suspirou a Kika (como lhe chamamos em casa). Eu vi bem o que o pai fez. Se se tivessem zangado por causa de férias ou cortinas, vá que não vá. Agora traição, mãe? Pessoas normais não perdoam traição. E o pai sabia disso.
E o que é que ele esperava? E a avó, agora, o que é que espera de mim?
Nem eu sabia responder. E a verdade é que até há um mês, achava que conseguia responder a tudo o que a Constança me perguntasse.
Agora nem eu sei de onde veio tudo isto. Como é que se aceita que alguém, durante vinte anos, é um exemplo de marido e pai, e de repente, parece que perdeu a cabeça? Sério, será que é aquela história do diabo no corpo quando chegam aos cinquenta?
Olha, o Valter afinal tinha muito bicho dentro dele, ou no corpo, ou na cabeça, ou sabe-se lá onde.
E sabes o que ele fez uns cinco anos depois do divórcio? Apareceu outra
Mas essa, conto-te depois.






