Quem Vai Te Querer com Bônus? — O drama de uma jovem portuguesa, a reprovação dos pais, o casamento aos 19, as mudanças, a chegada do filho e a dor da traição — até reencontrar força na família e reconstruir a vida ao lado do filho

Tens a certeza, filha?

Beatriz pousou a mão sobre a da mãe e sorriu com doçura.

Mãe, eu amo-o. E ele ama-me a mim. Vamos casar e tudo vai correr bem, vais ver. Vamos ser família, percebes?

O pai afastou o prato com caldo-verde meio intocado e ficou a mirar o terraço chuvoso do outro lado da janela. O silêncio arrastou-se, longo e oblíquo; para Beatriz, foi como viver dentro de um relógio parado.

Tens só dezanove anos lá comentou ele, com voz pesada. Devias pensar nos teus estudos, na tua carreira. Não em casamentos.
Pai, eu vou conseguir. Beatriz mantinha-se calma por fora, mas por dentro, ardia de tanta vontade de provar, de convencê-los a verem o que só ela via. O Tomás trabalha, eu estudo. Não estamos a pedir que nos sustentem. Só queremos estar juntos. Ser família.

O pai abanou a cabeça, calando-se.

Desaprovaram. Notou-o pela linha endurecida nos lábios do pai, pelo nervosismo da mãe a endireitar uma toalha já perfeitamente alinhada. Mas não se impuseram. Talvez porque recordavam os próprios sonhos interrompidos. Ou porque sabiam que proibir só servia para atiçar o desejo contrário.

Casaram em maio, cerimónia pequena, cheia de calor humano, suficiente para Beatriz se lembrar até hoje desse dia como se fosse uma manta aconchegante. Nada de salão cheio, carros de luxo ou pombas brancas; só promessas sussurradas e abraços apertados.

A lua-de-mel foi na Figueira da Foz. Uma semana apenas, pois Tomás não conseguiu mais dias no trabalho, e dinheiro também não abundava. Mas aquela semana parecia flutuar numa bolha fora do mundo. Acordavam tarde, tomavam pequeno-almoço numa varandinha sobre o Atlântico, caminhavam de mãos dadas pelo paredão até anoitecer, comiam bolas de Berlim à beira-mar e trocavam beijos intensos, como se o fim do mundo estivesse ao cair.

E depois, a vida a real, despida de véus. Arrendaram um T1 húmido, onde o vento sibilava nas janelas e o vizinho de cima parecia dançar fado todas as noites. Tomás saía por volta das sete, Beatriz corria para a universidade; ao fim do dia, reencontravam-se de rastos, aqueciam uma sopa, adormeciam antes de sentirem o corpo na cama.

E havia, nessa rotina, algo de certo. Algo de inteiramente seu.

Passados uns meses, os pais ligaram. Venham cá passar o domingo. Beatriz ficou cheia de palpites absurdos, mas acabaram por sentá-los à mesa, chá a fumegar, abrindo espaço para um envelope misterioso.

É para vocês disse o pai, fitando o armário. Para comprarem casa. Chega para um T1, mas pelo menos é vosso. Não faz sentido continuarem a atirar dinheiro ao vento com a renda.

Beatriz ficou a olhar o envelope, incapaz de o pegar. Sentiu a garganta apertada, os olhos a arder como sal.

Pai… tentou, mas ele fez-lhe sinal.
Aceita, filha. Não faças histórias. Considera um presente de casamento. Embora tardio.

Conseguiram a casa num mês. Vinte e oito metros quadrados, terceiro andar de prédio antigo, cozinha minúscula, casa-de-banho exígua. Para qualquer um, seria nada. Para Beatriz, era um infinito: colocou papel de parede, arranjou canalizador, escolheu cortinas, espalhou cravos e manjericos em vasos.

Mais ou menos um ano depois, no início do terceiro ano da licenciatura, Beatriz sentiu-se estranha, como se levitasse entre gripada e sonâmbula. Achou que era do cansaço, do stress. Comprou um teste só para descanso de consciência.

Duas linhas, limpas e definitivas.

Sentou-se na borda da banheira fria, olhando o fragmento de plástico, que rodopiou tudo dentro dela. Terceiro ano na universidade, diploma a dois passos. Agora isto? Porquê agora?

Tomás chegou a casa e bastou olhar-lhe para perceber. Ela passou-lhe o teste, calada. Nem palavras, nem lágrimas. Só silêncio.

Ele demorou-se nas duas linhas; finalmente olhou-a, olhos húmidos mas resolutos.

Vamos ter o bebé sussurrou, seguro.
Tomás, estou a meio da faculdade. Não sei se…
Vamos ter o nosso filho repetiu ele, segurando-lhe as mãos. Tiras um ano de pausa. Eu trabalho. Vai dar. É o nosso filho, Beatriz.

Chorou no ombro dele, medo, incerteza, talvez hormonas. E felicidade também, quebrando em pequenas fendas a dureza daqueles dias.

Organizou a suspensão dos estudos sem problemas.

O Martim nasceu em março, com o rio a correr cinzento e a cheirar já a primavera. Três quilos e duzentos, cinquenta e um centímetros. Beatriz olhou para aquele embrulhinho minúsculo e não conseguia acreditar. Era o seu filho, dela e de Tomás.

A felicidade era tão funda que doía o peito.

Depois, as mudanças vieram como o nevoeiro matinal: de mansinho, sem aviso. Tomás começou a chegar mais tarde a casa: meia hora, uma até os dias se esfumarem em ausências. Deixou de olhar para o berço. Antes, tirava Martim nos braços, fazia-lhe cócegas e imitava monstros. Agora, passava apressado, ignorando tudo.

Podias ao menos cumprimentar o teu filho arriscou Beatriz, num fim de tarde.

Tomás olhou com desdém, como quem ouve disparate.

Ele está a dormir. Não o vou acordar.

Mas Martim não dormia. Olhava o pai com uns olhos enormes, iguaizinhos aos de Tomás. Não quis, ou não pôde, ver.

Começaram as críticas. Primeiro subtis, depois ácidas.

Vais sair assim vestida? atirou certo dia, olhos de cima a baixo.

Olhou-se: jeans velhos, camisola grossa.

O que tem?
Nada, esquece franzindo o lábio de desprezo.

A agressividade crescia, dia após dia.

Já viste como estás? uma noite, Beatriz de pijama, sonolenta. Estás gorda, toda largada. Já nem pareces do teu lado dos vinte.

Foi como um murro seco no coração. Sabia bem que ainda não tinha recuperado da gravidez, mas como podia ele dizer isto?

Tomás, tive o Martim há pouco… saiu-lhe num fio de voz.
Há um ano! Outras mulheres voltam ao normal em três meses. Tu

Deu meia volta, saiu do quarto. Martim despertou, chorou.

Cala esse miúdo! gritou Tomás da cozinha. Assim não se dorme!

Abraçou o filho contra o peito, escondeu as lágrimas entre o cheiro de leite e pele de bebé. Ficou assim, longamente, embalada num escuro sem janelas.

A quem contar, afinal? Aos pais? Não conseguia. Sempre que pensava em telefonar, via o rosto severo do pai: Tens só dezanove anos. Devias pensar nos estudos Tinham avisado. Ela que fugiu aos conselhos.

Agora, voltar a casa? Falhar-lhes? Admitir tudo? E ver a mãe a chorar, o pai a pesar Adiou, sempre. Era sua culpa, sua luta.

Naquele dia, saiu com Martim para a habitual volta pelo bairro. Bancos de jardim debaixo dos plátanos, folhas murchas a boiar. Só reparou que se esquecera do lanche do filho ao vasculhar a mala.

Voltou.

Abriu a porta. Na entrada, uns sapatos de senhora, salto alto, verniz vermelho. Beatriz sentiu o tempo parar, ventou pelo corredor mesmo contra o sentido. O quarto estava entreaberto.

E bastou espreitar. Bastou para a terra tremer. Uma mulher na sua cama, em lençóis que lavara tantas vezes. Tomás nem se incomodou em disfarçar.

Olhou-a, fatigado, como quem espanta uma gaivota da mesa.

E querias o quê? disse. Olha para ti. Achas que tenho de te aturar? Sou novo, preciso de companhia. E tu quem te vai querer, com um filho atrás?

Beatriz encostou-se à ombreira, para não cair. A outra mulher ajeitou o lençol, apática.

Sai. O tom de Beatriz já não era seu. Sai já da minha casa.

A mulher apanhou roupas, saiu quase a correr. Tomás revirou os olhos.

Não faças disto um escândalo. Acontece a toda a gente. Vês, até a tua mãe foi enganada pelo pai. Quem é que não é? E as mulheres aceitam, porque têm filhos. Vais fazer drama para quê? Quem te quer, Beatriz? Assim, com um encargo?

Não se recorda de sair de casa, vestir Martim, chamar um táxi ou dizer o endereço dos pais. Olhou o mundo desfocado, como quem flutua nos intervalos entre a chuva e a noite, enquanto embalava Martim num gesto automático.

A mãe abriu a porta. Viu-lhe a cara e não perguntou nada. Só a abraçou, forte, embrulhando-a como antes dos medos da adultez.

Mãe, eu engasgou-se Beatriz, mas recebeu apenas o silêncio.
Fala depois. Agora entra.

O pai veio da cozinha, rosto impenetrável.

O que aconteceu?

Ela contou, uma torrente desajeitada: as lágrimas, o desdém, os sapatos vermelhos, o quem te quer assim?. Ele escutou sem mexer um músculo, depois pegou no casaco.

Vamos.
Aonde? Beatriz ficou perdida.
Falar com ele.
Pai, não vou eu, por favor.
Deixa o Martim com a mãe e vamos.

Tomás abriu a porta. O pai de Beatriz entrou, olhou em volta, a voz baixa como prece, mas dura como granito.

Vais-te embora. Arruma as tuas coisas e desaparece. Esta casa é da minha filha. Fomos nós que a comprámos. Não tens direito a nada aqui.

Tomás quis argumentar sobre bens adquiridos, direitos, devia ter aprendido a calar-se mas o pai de Beatriz ergueu a mão.

Direitos? Sabes do que devíamos falar? Do que fizeste à minha filha. Das palavras, das traições, de teres destruído tudo. Têm meia hora. Se não saíres, chamo a polícia. E acredita, posso pagar advogados para te amargurar a vida. Agora, sai.

Tomás pegou na mochila, saiu, não olhou para trás. Beatriz encostou-se a uma parede, olhos cravados na porta que fechava devagar.

Porque não vieste logo para casa? perguntou o pai depois.
Achei vocês avisaram-me, pai. Pensei que me iam culpar.

O pai virou-se, e nos olhos dele nasceu uma coisa rara: calor.

Tu és minha filha. És a nossa menina, percebes? Aqui tens sempre abrigo. Sempre.

Beatriz enterrou-se no peito de pai, como noutras infâncias, e chorou, chorou, lavando a mágoa dos meses passados.

Dois anos depois, Beatriz sentava-se no chão da mesma casa, vendo Martim construir torres de blocos coloridos. O diploma de licenciatura obtido à distância, com distinção repousava ao lado. No telemóvel, notificações da transferência de pensão de alimentos.

Martim ergueu a cabeça e sorriu, sorriso igual ao do pai. Mas já não doía.

Mãe, olha!
Estou a ver, filho. Torre linda.

O sol poente coloria as paredes de laranja. Beatriz contemplou o filho e sorriu. Conseguiu. Não da forma com que sonhou, mas conseguiu.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

18 − 3 =

Quem Vai Te Querer com Bônus? — O drama de uma jovem portuguesa, a reprovação dos pais, o casamento aos 19, as mudanças, a chegada do filho e a dor da traição — até reencontrar força na família e reconstruir a vida ao lado do filho
Sou uma mãe solteira exausta que trabalha como empregada doméstica.