Oh mãe, tu já não tens juízo nenhum? Que viagens, que Termas de Monchique? Temos voos marcados para o Algarve daqui a uma semana, e tu agora lembras-te de ir passear? Sabes quanto é que isso nos vai custar?
O tom da Beatriz já roçava o histérico enquanto rodopiava pela cozinha da mãe, como um polvo aflito num aquário pequeno, a bater com a anca nos móveis sem dar por isso. Leonor, sentada no seu querido banco de madeira, enlaçava as mãos até ficarem brancas de tanto apertar. Olhava para a filha e não reconhecia naquela mulher de manicure perfeita a sua pequena Bia, a quem fazia tranças para a escola.
Bia, não grites, por favor, que já me salta a tensão, pediu Leonor num fio de voz. Já vos tinha dito em fevereiro que este verão queria cuidar de mim. As minhas artroses nos joelhos não dão tréguas e o médico fartou-se de insistir no spa termal. Juntei cada euro da reforma para isto. Porque é que tenho de cancelar tudo?
Porque somos família! rugiu Beatriz, agora plantada à frente da mãe, mãos à cinta e unhas a reluzir. As avós servem para isso mesmo, para ajudar com os netos! Tu achas que foi para andar em banhos e massagens, enquanto eu e o Rui ficamos a trabalhar o verão inteiro? Há um ano que não temos direito a férias, mãe! Achas barato levar os miúdos? E sabes bem que queremos descansar, não andar feitos polvos atrás deles na praia. Tens de levá-los para o monte, pronto. E nem se discute!
Leonor suspirou pesadamente. Esse “nem se discute” ela já o ouvia há dez anos. Primeiro: “Mãe, ficas com o Tiago enquanto volto ao trabalho, que temos de pagar a casa.” Depois: “Agora nasceu o Afonso e ficas com os dois, tu dás conta de tudo!” E lá ia ela. Sempre a ceder, sempre pronta, largava tudo ao primeiro telefonema, era ama, motorista, enfermeira e animadora. Mas agora os rapazes já não eram bebés. Tiago tem doze anos, Afonso nove. Dois furacões que, em três dias no monte dela, deixavam aquilo em ossos. Cozinhar, lavar a roupa, improvisar brincadeiras Só de pensar já se sentia cansada só queria chegar à horta de tomates e sentar-se ao sol.
Beatriz, não consigo mesmo, respondeu firme, olhando a filha e tentando lembrar-se da sua miúda de antigamente. Eles precisam de correr, pedalar, ir ao rio Eu não consigo andar atrás deles. Se acontecer alguma coisa? Nunca me perdoava. E os bilhetes já foram pagos, a estadia também. Vou dia três de junho, gostes ou não.
Beatriz calou-se, olhando a mãe com um gelo nos olhos tão sinistro que Leonor sentiu calafrios. O silêncio dominou a cozinha, só interrompido pelo zumbido do frigorífico Velhotes.
Então é isso? O teu spa e a tua saúde valem mais do que os netos? disparou Beatriz, agora em modo dramático. Gostas mais de ti do que da família?
Gosto de mim, Bia. Pela primeira vez em sessenta e cinco anos decidi pôr-me em primeiro lugar. É crime?
Muito bem, Beatriz mudou subitamente para um tom calmo, assustadoramente polido, sentou-se de pernas cruzadas e ajeitou a saia. Vamos falar a sério. Vives num T3 no centro e estás sozinha. Eu, o Rui e os miúdos entalados num T2 na Amadora, a pagar tudo e mais alguma coisa. Sabes o que é viver sempre a contar os cêntimos? E tu aqui, feita rainha, a dizer que não nos podes ajudar.
Este apartamento ficou-me dos meus pais, trabalhei uma vida por isto, Leonor lembrou, serena. E até vos ajudei no arranque, ou esqueces-te do dinheiro do carro do pai?
Isso era troco, mãe, desdenhou Beatriz. Presta atenção: se tu vais para a tua vidinha sem pensar em nós, então vou tirar ilações. Claramente és idosa, doente, incapaz de cuidar até dos netos… Não sei se não é perigoso viveres aqui sozinha. Deixas o gás aberto, esquece-te da água…
Estás a ameaçar-me? Leonor sentiu o coração a tropeçar.
Não, estou a ser direta. Há lares muito bons hoje em dia. Privados, do Estado. Tens assistência, médicos, comida, nada de responsabilidades, zero netos. Vendemos o apartamento, pagamos a nossa casa, ou então mudamo-nos para cá. De que serve tanto espaço para ti sozinha? De qualquer forma, vai acabar por ser nosso… Para quê esperar?
Leonor ficou zonza. Faltava-lhe o ar. A filha, aquela miúda a quem dava o seu último pão nos anos 80, estava agora a chantageá-la com um lar.
Estás-me a despachar para o lar? Com a filha viva?
Não é um lar, é um residencial sénior, corrigiu Beatriz, gélida. A recusar os teus deveres de avó, só pode ser porque tens problemas. Posso entregar um atestado ao Centro de Saúde, conheço um médico que confirma depressa o teu… começo de demência. Idade tens para isso.
Rua, murmurou Leonor.
O quê?
Rua! gritou, levantando-se. Nem sabia de onde veio a força. Sai já! E não tragas aqui os miúdos! Estou bem da cabeça e sou a legítima proprietária!
Beatriz levantou-se, olhando tudo com ar de nojo.
Grita à vontade. Se te sentires mal, chama-se o INEM, e ficamos logo com registo do teu estado. Tens até amanhã para decidir, mãe. Ou ficas com os miúdos todo o verão, ou avanço com isto. Eu sou teimosa, sabes bem saí a ti!
A porta bateu com estrondo. Sozinha, Leonor caiu novamente no banco, trémula. Nem para tirar um copo de água serviam as mãos. As lágrimas queimavam-lhe as faces. Como aconteceu isto? Quando perdeu a filha para esse bicho que era agora?
Passou o serão sentada no escuro, pensamentos a voar como andorinhas doidas. Imaginou-se no lar: paredes frias, cheiro a iodo e lixívia, pessoas estranhas, grades nas janelas. Apavorou-se. A Bia era mesmo capaz. E o Rui, coitadinho, sempre de acordo, desde que não lhe deem trabalho.
Quase não dormiu. De manhã, com os primeiros raios a furarem as cortinas, rebentou-lhe a indignação. Pela primeira vez, fria e lúcida. A vida inteira servira alguém: marido, filha, empregadores. Sempre pronta a sacrificar-se. E agora? Até a paciência lhe tomaram por fraqueza.
Engoliu uma pastilha para a tensão, vestiu o fato de ir aos casamentos, apanhou a pasta dos documentos e saiu a passo firme. Não foi nem à mercearia nem ao centro de saúde: foi ao advogado.
O jovem advogado ouviu o relato dela com a paciência de alguém que já escutou muitas telenovelas, depois sossegou-a:
Dona Leonor, é impossível forçá-la a ir para um lar sem decisão judicial. Tem de ser declarada incapaz por um Tribunal, e isso são peritagens, processos que nunca mais acabam. Se está orientada e se é proprietária, está segura. O melhor é pedir já uma certidão médica a atestar que está de boa saúde mental. E, se puder, reveja o testamento pelo menos até acalmar as águas.
Leonor saiu do escritório leve como quem largou um saco de batatas. No centro de saúde conseguiu a declaração do psicólogo, com carimbo e tudo. No banco, passou boa parte do dinheiro para uma conta que a filha não conhecia.
Almoçou em casa, ignorando os trinta telefonemas da Bia. Pegou no velho Samsonite dos tempos de lua-de-mel nos Açores, e foi tirando da gaveta vestidos leves, pareo, o bikini (por que não?), livros.
À noite tocaram à campainha. Insistente. Leonor espreitou: Beatriz, sozinha.
Abriu só à corrente.
Mãe, não atendes o telemóvel? Estamos preocupadíssimos, disse Beatriz com um tom irritado, mas sem fúria, mais aquela lamúria de quem quer queixinhas. Abre, precisamos falar. Já trouxe o saco dos miúdos, amanhã de manhã passo aqui com eles.
Não tragas os miúdos, Bia. Vou viajar.
Vais para onde?! Nem penses em brincadeiras, lembras-te do lar?
Lembro, sim senhora. Daí hoje ter ido ao advogado e ao psicólogo. Olha lá.
Enfiou a declaração pela fresta.
Sem indícios de demência ou problemas cognitivos leu Beatriz, empalidecendo. Andaste a recolher papéis? Isto é a sério?
Muito sério. E mais: informei-me sobre ofensas e tentativa ilegal de internamento. Até abordei uma eventual doação do apartamento a uma instituição de apoio sénior gostavam de receber algo assim no centro de Lisboa em troca de renda vitalícia e proteção judicial.
Beatriz ficou lívida. Conhecia a teimosia da mãe; uma vez decidido algo
És capaz de fazer isso? Tirar-me a casa?
A filha quer meter a mãe no lar para ir ao Algarve à grande? ripostou Leonor. Amanhã parto para as Termas de Monchique. Três semanas. A chave fica com a vizinha, a D. Lurdes, conheces bem. Ela rega as plantas. Vocês não têm chave, mudei a fechadura hoje.
Mudaste? Isto já é paranoia, mãe!
Precaução. Não quero chegar e ver os miúdos a saltar no meu sofá, e as minhas coisas no lixo. Gosto imenso dos meus netos, mas não sou criada de ninguém, nem tua propriedade. Se querem férias, arranjem ama, ponham-nos num campo de férias ou peçam crédito, já estão bem treinados nisso. Vocês são os pais, não eu. Eu já cumpri o meu papel.
Foi fechar a porta, mas Beatriz travou com o pé.
Espera, mãe! Olha, desculpa pelo que disse ontem. Foram os nervos, o trabalho, a pressão das férias… Não dá para cancelar isto sem perder balúrdios! Vá lá, os miúdos portam-se bem, dou-lhes os tablets, nem dás por eles!
É não, Bia. A decisão está tomada. Tira o pé, preciso dormir que amanhã a viagem é grande.
Desta vez, Beatriz retirou-se em silêncio, olhos brilhantes de raiva e respeito? Não, era medo medo de perder a herança.
Vai lá enfiar-te nas tuas termas, atirou, e depois não peças ajuda quando te acontecer alguma coisa! Não contes connosco!
Não conto. Agora conto comigo e com uns bons advogados. Adeus, filha. Boas férias e bom mergulho.
Leonor fechou as trancas todas, de cima a baixo. O coração aos saltos, mas a alma leve. Finalmente tinha-se erguido por si mesma.
O dia seguinte começou com uma ida à praça de táxis. Leonor, elegante de chapéu novo, arrastou o trolley até à rua. Viu à distância o carro do genro, Rui, de cigarro ao canto da boca, a olhar-lhe de esguelha. Nada disse, provavelmente em modo não te metas nas guerras da esposa.
No comboio para sul, Leonor via as oliveiras e campos dourados a fugirem pela janela. Bebia chá no copo de plástico, escutava o rodar dos carris e sentia-se cada vez mais leve. À frente, sentou-se uma senhora simpática, Lúcia, a caminho das mesmas termas. Conversaram:
Logo disse aos meus filhos: netos só se não estou constipada, e só ao fim de semana, contava Lúcia, barrando torradas com manteiga. Eles habituaram-se, até agradecem. Nada de se matarem a trabalhar para tomar conta de toda a prole! A nossa vida é uma e já passou metade.
Íamos nos dar bem, sorriu Leonor. Também precisei de ser radical, senão nunca mais via as termas!
As três semanas passaram num instante. Banhos, massagens, caminhadas pelos passadiços, ar puro e muito riso. Leonor chegou até a ir ao teatro com um coronel reformado com ar janota, hóspede habitual. A espinha endireitou, os joelhos deixaram de rangir, voltou a sentir-se mulher.
Quase não ligava o telemóvel. As primeiras mensagens da Beatriz eram de fúria: Acabaste com as nossas férias! Tivemos de gastar uma fortuna com os miúdos, depois queixas: O Tiago está doente, e temos de trabalhar. Por fim, o registo seco: Quando voltas?
Leonor respondia lacónica: As melhoras, Volto dia 25.
Ao voltar, sentia-se um pouco ansiosa. E agora? Barricadas? Porta arrombada? Teve o cuidado de ter consigo os papéis todos.
Entrou em casa, ainda com cheiro a cerrado. As plantas impecáveis a D. Lurdes era de confiança. Na banca, um recado: A Bia cá veio duas vezes exigir chaves, disse que tinha havido inundação. Não lhe dei. Fui eu com o canalizador estava tudo seco. Força, Leonor!
Leonor sorriu: boa vizinha, D. Lurdes.
Ao final da tarde, Beatriz apareceu desta vez só tocou à porta. Leonor abriu.
Chegaste? Beatriz nem disse boa tarde, entrou direta, cansada e de pele escurecida do sol, mas esgotada.
Cheguei. Queres chá?
Na cozinha, sentou-se onde sempre se sentava aquele velho banquinho da infância.
Então, as férias? perguntou Leonor, servindo chá.
Foram férias, pronto. Caríssimo com os meninos. Acabámos num hotel meia-boca. O Rui até ficou azedo, tivemos de pedir mais dinheiro ao banco.
Ao menos eles viram o mar. São memórias.
Beatriz calou-se, rodando a caneca nas mãos.
Mãe Foste mesmo à conservatória entregar o apartamento ao tal fundo?
Fui.
E assinaste?
Ainda não. Mas os papéis estão prontos. Depende do vosso comportamento.
Beatriz levantou os olhos, húmidos.
Mãe eu nem sei Foi um disparate o que disse. Cheguei ao limite. Sabes, nunca pensei que ficasses imune às minhas pressas. Julguei que te assustavas e cédias.
Escolheste mal, filha. Com a família não se chantageia, mata-se a confiança. Agora não me viro de costas nem bebo água tua sem pensar duas vezes.
Oh mãe! Beatriz chorava. Desculpa. Sou estúpida. Estava presa à ideia de que estavas cá sempre, pronta para tudo. Agora, de repente, mudaste e eu perdi o chão.
Leonor abraçou a filha pelos ombros, agora só restava tristeza.
Não mudei, Bia. Limitei-me a lembrar-te que também sou pessoa. A partir de agora, ajudo se puder, mas não porque sou obrigada. Se quiserem trazer os rapazes, perguntem primeiro, vejam se posso, se estou bem. Não posso? Assumam vocês.
Está bem, mãe. Percebi.
E não vos dou mais chave de casa. Quando quiserem vir, toquem à porta.
Beatriz acenou com a cabeça.
E a herança? Não mudaste nada?
Por enquanto, fica tudo igual. A casa é tua, um dia, mas só depois de eu fechar a porta para o outro lado. Não tenham pressa nas termas disseram que tenho o coração de jovem.
Ficaram a beber chá em silêncio. Não era como dantes o calor tinha-se ido, mas também já não era guerra. Paz armada, digamos, cada uma com o seu forte. Beatriz saiu, prometendo trazer os netos só aos sábados e só para lanchar.
Leonor trancou tudo. Foi até à janela, olhou para Lisboa a acender as luzes. Sentia-se comandante de navio, depois da tempestade: a embarcação resistente, a tripulação inquieta, mas o leme seguro nas suas mãos.
No sábado, vieram os netos. Estavam mais crescidos, bronzeados.
Avó, vimos águas-vivas enormes! gritava o Afonso. E o pai ficou tipo camarão!
Comeram panquecas, contaram histórias do Algarve. Beatriz manteve-se calada, sem dar ordens, sem críticas. Duas horas depois, recolheu os rapazes.
Obrigada, mãe. Temos de ir fazer trabalhos das férias.
Vão, vão.
Leonor sentou-se na poltrona favorita, acendeu o candeeiro, retomou o romance começado no comboio. Sentia-se bem. Sozinha? Um pouco. Mas era uma solidão digna, orgulhosa, conquistada. Percebera: não é preciso ser conveniente para ser amada. E para se ser respeitada, às vezes há que mostrar os dentes ainda que sejam apenas um atestado médico e conhecimento da lei.
No outono, inscreveu-se na piscina e no clube Viver Ativo. Descobriu que a vida, afinal, aos sessenta e cinco só está a começar se não deixarmos os outros escreverem o nosso guião.
Obrigada por lerem contem nos comentários: também já tiveram de defender os vossos limites contra a família? Quem nunca…







