O Que Cortares, Não Recuperas: Uma História de Amor, Liberdade e Consequências nas Vidas de Tânia, Olegário e Sua Filha Masha Entre Lisboa e Porto

O QUE SE ENCOLHE NÃO SE ALONGA

Sempre que Margarida mostrava as fotos do seu casamento, lançava logo uma piada:
Valha-me Deus, como eu sofri com este vestido! Bonito, é verdade, mas parecia que eu estava a carregar uma armadura! Da próxima vez que casar, juro que só visto um trapinho leve e fresco, à moda de verão.

Todos achavam que a Margarida estava a brincar, e não conseguiam evitar rir-se com ela. Também, ela não era de levar tudo a sério. Os amigos sabiam perfeitamente que Margarida casou por amor. Aquilo foi um típico romance de verão numas férias no Algarve. Margarida tinha 21 anos e Luís já ia nos 28.

Agosto, mar salgado, vinho verde espumante, céu estrelado, muita maria-da-festa toda a envolvência que acaba invariavelmente num requerimento para o Registo Civil. Antes disso, claro, o Luís teve de pôr fim ao seu segundo casamento, e a Margarida mudou-se para a terra dele, Lisboa.

LisboaPortoLisboa. Este itinerário ficou tão enraizado para Margarida, durante dez anos, que ela reconhecia cada pedra da calçada e cada cheiro de pastel de nata ao sair do comboio.

Mas isso foi mais tarde. Primeiro, jovem casal que eram, tiveram de alugar um apartamento. Luís, num gesto de novela portuguesa, deixou o seu T2 na Graça para a ex-mulher, que ameaçava tomar comprimidos, atirar ácido sulfúrico à “nova” e até atirar-se pela janela caso ele não lhe desse ouvidos!

Com o tempo, a ex segunda mulher foi sossegando. Talvez o Luís lhe tenha prometido regressar um dia nunca se sabe. Da primeira senhora ninguém falava. Casamento relâmpago que durou ano e meio. Não colou! Mais tarde, Luís despachou a primeira esposa para os braços de um amigo comum, e todos ficaram aparentemente satisfeitos.

Com a segunda esposa sobreviveu uns três anos, até perceber que viver com alguém que chama criaturas humanas às crianças não era para ele. Literalmente, a senhora recusava-se a ter filhos com ele.

Estas novelas nunca assustaram Margarida. Ela era dona do seu nariz e tinha tudo para ser feliz. Linda de morrer, sempre achou que o mundo girava à sua volta. Luís fazia-lhe as vontades todas; jurava que vivia no paraíso. Quando lhe dava flores era de braços cheios, comprava-lhe três casacos para um inverno ameno de Lisboa, e o armário dela parecia uma sapataria de centro comercial havia de tudo, de sandália a bota.

Luís levou a mulher a Londres, a Paris, a Barcelona… Para alargar horizontes e, parece, preparar terreno para o primeiro rebento. Foi um sucesso: nasceu a pequena Beatriz. Enquanto Margarida se dedicava às fraldas e biberões, Luís comprou uma casita e encheu-a de mimos para as suas “meninas queridas”.

Inauguraram a casa nova em grande. Inscreveram Beatriz no infantário. Margarida lançou-se ferozmente nos estudos, mas sempre preferiu frequentar cursos na sua cidade, Porto. Lá tinha amigas, a mãe, e até os desconhecidos pareciam ter alma de família. E nada como deitar-se à sombra dos plátanos do jardim da casa materna.

Por vezes, deixava a Beatriz à sogra, apaixonada pela neta. Em época de exames, Margarida passava-se para o Porto. Luís ficava cismado com tanta ausência da mulher, inventava esquemas dignos de filme de espionagem: encontros acidentais no Rossio, surpresas em estações tudo por ciúmes. A verdade é que Margarida não dava razões para tanta desconfiança. Ou parecia que não dava…

Margarida só queria fugir ao trabalho doméstico. Era capaz de fazer três cursos só para não passar o dia atrás do fogão. Sentia que a vida passava a correr e ela merecia mais do que esfregar chão e aturar marmanjos. Afinal, uma mulher tão esperta e bonita não nasceu para a rotina.

Ao fim de uns anos, tinha três diplomas guardados na mala de mão, todos bem vermelhinhos. Psicologia era a sua base. Procurava emprego energicamente. Luís não achava piada:
Dinheiro não te falta, mulher! Para quê esse disparate de ires trabalhar? Antes mais vale termos outro filho! Menina ou menino, para mim é igual! Só quero é ter-te por perto.

Margarida não se via, nem daqui a dez anos, mãe de dois. A missão estava mais do que cumprida: dera à luz a Beatriz, dera uma filha ao seu querido Luís, pronto. Que mais queriam?

A sogra, com aquele jeito português de resolver tudo entre um café e uma broa, sugeriu que Margarida deixasse a neta a cargo dela, pelo menos enquanto a mãe andava a pairar pelos céus do saber. Amor e chamego não lhe iriam faltar. Margarida nem pensou duas vezes: aceitou logo e, sem avisar o Luís, apanhou o primeiro comboio para o Porto logo ligo para Lisboa, pensou.

Qual não foi o espanto quando, ao chegar ao Porto, Luís já a esperava de braços cruzados.
Margarida, e a Beatriz? O que fazes aqui sozinha? Tens algum admirador secreto? acusou com voz de telenovela.
Ó Luís, não inventes! Não há admiradores nenhuns. Só que… cansei-me desta vida contigo. Quero liberdade! respondeu ela, serena.

Liberdade? De mim? Da nossa filha? E o nosso amor? Já foi? Vê lá se não é crise de meia-idade, mulher! Juntos damos conta do recado… suplicava Luís.

Já não vai acontecer, atirou Margarida, em fim de capítulo definitivo.

Luís acorreu à sogra à procura de apoio.
Ó genro, agora desenrasca-te. Não tens hipnose capaz de mudar o feitio da Margarida. Aquilo é montanha inamovível!

Luís voltou sozinho para Lisboa. Não sabia o que havia de fazer, como reganhar a família e pôr a vida nos eixos. Por fazer o bem, acabo mal…, filosofava.

Sem resposta nem esperança, o tempo foi passando. Margarida respondia friamente aos telefonemas: está tudo bem. E semanas tornaram-se meses.

Já à beira do desespero, Luís decidiu vender a casa, meter a filha debaixo do braço e mudar-se para o Porto. Tudo pelo bem da família.

Margarida fez-se de difícil. Tentou dissuadir o ex-marido com desculpas: A Beatriz vai perder os amigos, mudar de escola… A minha mãe não vai gostar.

Eram tudo desculpas. Margarida nadava em liberdade, sem interesse em ser presa doméstica de novo. Viver como um passarinho no céu era o lema dela. Montou um ateliê de costura, alugava um T1, tinha fãs mulheres e homens e a agenda cheia. De repente, as prisões da antiga vida voltavam a ameaçar. Queria apagar o passado da memória, como se tivesse sido outra mulher a vivê-lo.

Mas Luís não quis saber de desculpas. Mudou-se para o Porto com Beatriz, sustentado pela esperança do regresso à normalidade familiar. Passou a ir buscar Margarida ao trabalho, levava-lhe a filha (igualzinha à mãe). Nada resultava. Margarida era fria como uma pedra. Até que, um dia, foi clara:
Luís, deixa-me em paz! Já está na hora do divórcio. A Beatriz pode ficar comigo, se quiser.

Beatriz já tinha onze anos, não precisava de abrigo. Tinha o pai, a avó, que rezava por ela todos os dias, e recordações da mãe. Amava-a, mas nunca entendeu como alguém podia desistir da própria filha de livre vontade.

Mas o tempo, esse velocista, não para por ninguém.

A vida seguiu o seu rumo e cada um colheu o que semeou.

Luís parou de pescar no deserto. Já sabia que não havia maneira de tocar o coração da Margarida. E, para espanto geral, encontrou um novo amor. Uma mulher simples, pés bem assentes na terra, zero voos celestiais. Foram viver juntos numa aldeia perto de Viseu. Ela viera de outro casamento, com dois filhos rapazes.

Descobriu afinal que não precisava de Londers nem Paris, nem sapatos a rodos. O que ela queria mesmo era um par de botas de borracha para o inverno, uma samarra para andar à vaca e ver os filhos feitos gente. O sonho não era uma vida de novela, mas uma vida descansada.

Luís encontrou a paz. Por fim. E nasceu mais uma menina. Com a quarta tentativa, experimentou o que é felicidade e amor verdadeiro. Das primeiras três mulheres nem falava, nem queria saber…

Enquanto isso, Margarida ficou com a mãe no Porto. Um parceiro de negócios prometeu-lhe o ouro e o moro e deixou-a sem um tostão. O ateliê fechou; os pretendentes evaporaram-se.

Resumindo: quem muito promete, pouco cumpre. Margarida acabou psicóloga numa escola, afinal serviu para algo tanto diploma. Não se arrepende de nada. Ou será que…

A alma humana é um poço sem fundo. Talvez ainda nasça uma faísca de arrependimento naquela ave do paraíso. Quem sabe?

A Beatriz, entretanto, cresceu e casou pois os anos passam. Vive com o marido e a avó que a criou, em Lisboa. No dia do casamento, vestiu um vestido branco, leve e vaporoso, oferecido pela mãe MargaridaNum jantar de Natal, já sem o rebuliço das famílias novas e antigas, Margarida encontrou-se sentada à pequena mesa de cozinha com a mãe e Beatriz. Filha adulta, agora mulher feita, olhava para Margarida com olhos doces e distantes. Entre risos delicados e o tique-taque do relógio, Margarida percebeu qualquer coisa pela primeira vez, demorou-se a apreciar a serenidade do momento, sem pressa, nem vaidade.

Beatriz mostrou-lhe o retrato antigo do casamento dos pais, emoldurado, desbotado do tempo.
Guarda, mãe. Faz parte de mim. Da nossa história disse, entregando-lhe o quadro com ternura.

E Margarida, surpreendida, sentiu uma leveza que nunca conhecera. Um calor familiar, caseiro, preenchendo aquele poço sem fundo da alma. O que se encolhe afinal, pode até não se alongar mas cabe, um dia, no peito, do jeito certo.

Lá fora, ouviu-se um foguete longe. Lisboa, Porto, Viseu e todas as estações da vida ficaram para trás. Em casa, tudo era possível outra vez.

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O Que Cortares, Não Recuperas: Uma História de Amor, Liberdade e Consequências nas Vidas de Tânia, Olegário e Sua Filha Masha Entre Lisboa e Porto
Kocúra „Marcela“ trikrát vracali ako nebezpečného. Vzal som si ho domov — a skoro som oňho prišiel hneď prvý deň, keď sa rozhodol utiecť.