Um armário caótico, montes de roupa por passar, sopa azeda esquecida no frigorífico tudo isto faz parte da nossa casa. Foi num sonho estranho que tentei abordar a minha esposa com perguntas suaves, mas, de repente, vieram também acusações, como pássaros a sair de uma arca impossível.
Apaixonei-me por Beatriz logo no primeiro olhar, assim que a vi na estação de Santa Apolónia, rodeada de pombos e jornais velhos. Foi impossível resistir ao seu encanto e beleza, o cabelo negro como as noites em Alfama, o sorriso a iluminar o dia mais cinzento do Bairro Alto. Achei-me o homem mais sortudo de Lisboa por ter ao lado uma mulher tão inteligente, tão cativante e, imaginei, também tão cuidadosa. Por isso, pedi-a em casamento nas ruas labirínticas do Chiado, sem hesitar, no meio de um fado que tocava ao longe.
Decidimos juntar os trapinhos e Beatriz logo me avisou: detestava tarefas domésticas. Preferia concentrar-se na carreira e partilhar, sempre de forma rigorosamente igual, todas as lides da casa. Não vi nisso qualquer problema; até achei justo e moderno, próprio dos novos tempos. Mas não podia adivinhar o que este sonho haveria de me reservar.
Repartimos as tarefas: um dia ela, outro dia eu, outro dia ambos, outro dia ninguém, porque às vezes o tempo passava ao contrário. Beatriz garantiu-me que era capaz de dar conta de tudo trabalho e casa. Acreditei nela, como se acredita num barco no Tejo numa manhã de nevoeiro.
Meio ano depois, já sentia que aquele arranjo não deslizava como deveria. A carreira de Beatriz, afinal, não era bem aquela gaivota livre que ela sonhara. Trabalhava em part-time numa empresa impossível de lembrar, num escritório onde os relógios andavam para trás, ganhando euros que pareciam desaparecer em sonhos, e gastando-os logo em vontades tão efémeras como bolinhos de pastelaria. Eu, por mim, trabalhava de manhã à noite, um dia a vender sardinhas, outro a ser guarda-livros, outro a carregar sacos de batatas. Mesmo assim, Beatriz nunca se esquecia do tal acordo de igualdade, mas às vezes fazia de conta que as suas tarefas eram invisíveis, como gatos de rua escondidos na alvorada.
De início cumpria tudo direitinho: varria, lavava, ajeitava mas o entusiasmo foi-se esfumando. A casa transformou-se num labirinto de roupa amarrotada, pilhas de pratos e lenços esquecidos. Um dia, para meu espanto, Beatriz culpou-me: Devíamos dividir melhor, ajudavas-me mais. Senti-me como um elétrico a descarrilar na Avenida Liberdade. Era quase impossível dar conta do emprego e ainda cuidar da casa onde os dias crescem para baixo e a noite nunca chega a ser noite. E eu apenas queria o combinado: dividir, não ficar com tudo aos ombros.
Acreditei que, depois de termos o nosso bebé uma menina de nome Mónica, de olhos tão curiosos como as ondas da Foz do Douro , as coisas ficariam mais calmas. Imaginei que, durante a licença de maternidade, Beatriz cuidaria de tudo com mais ternura. Enganei-me. O caos cresceu: a sopa verde tornou-se azul, a roupa ganhou vida própria. Fui-me afastando, uma sombra de mim, pensando às vezes como seria sem Beatriz. E as discussões, essas, tornaram-se tão frequentes como gaivotas a rondar Alfama ao pôr do sol.
Procuro compreender Beatriz, calçar-lhe os sapatos, ouvir o fado da sua alma, mas a verdade é que me sinto esquecido. Trabalho cá e lá, trago o pão ou pelo menos a bica e o pastel de nata para casa, limpo, cozinho, e só queria descansar um pouco. Pergunto-me, como num sonho de mármore na Sé: afinal, o que faz Beatriz em casa durante o dia? Porque não há tempo para arrumar o quarto ou fazer um arroz de marisco simples? A pequena Mónica só tem dois meses e dorme maior parte do tempo, num berço que parece um barco ancorado num rio parado. Acho que, se estivesse em casa, dava conta do recado. Não consigo evitar pensar: e se vier outro filho? Serei sempre só eu a remar este barco?
Defendo a igualdade e o apoio mútuo, mas vejo que para Beatriz isso é talvez uma ponte demasiado longa como a do 25 de Abril: bonita de longe, difícil de atravessar. Não quero destruir a nossa família amo profundamente a minha filha, com um amor inexplicável, quase surrealista. Mas sinto-me no limite, como um elétrico sem rota, perdido nas ruas de uma Lisboa inventada por um poeta adormecido. E fico, no fim deste sonho estranho, sem saber para onde seguir. De que lado ficas tu nesta história do lado da Beatriz, ou do meu?






