A Traição dos Filhos
Dalila mais uma vez fitava, fascinada, o irmão e a irmã. Que lindos eles eram! Altos, morenos, de olhos azul-clarinho. Mais uma vez iam ser premiados. Ganharam mais um torneio. Dalila apressou-se para chegar primeiro. Mancando da perna direita, lá foi ela, levar os coelhinhos de lã que tricotara para os irmãos: um de saia e outro de calças axadrezadas. Mal podia esperar para lhes oferecer o presente.
Desajeitada, muito rechonchuda, os cabelos finos e presos com um gancho, um sorriso simples e sincero preso nos lábios.
Catarina e Martim fingiram não ver a irmã a forçar passagem entre a multidão.
Com licença, por favor. São o meu irmão e a minha irmã! Deixem-me passar, por favor! dizia Dalila, sorridente.
Cat, tem ali uma gorda a berrar que é tua irmã. É mesmo? perguntou a loira Lisa, amiga de Catarina.
Catarina olhou de lado e viu Dalila.
Que tola, que vergonha! Foi a mãe que lhe deve ter dito para vir. Que triste espetáculo! pensou, mordaz.
E em voz alta disse:
Claro que não. Só tenho um irmão. O Martim.
Bem me parecia. Quer armar-se aos cucos, coitada. Ainda por cima traz uns bichos de lã manhosos riu-se Lisa.
Deve ser alguma fã cá da terra. Lisa, pega lá nos bonecos. Nós vamos andando. Catarina lançou um beijo ao ar, agarrou Martim pela mão e foram abrindo caminho.
Lisa pegou nos coelhos e disse a Dalila que entregaria.
Ótimo! Vou esperar por vocês em casa! Vou fazer bolas de Berlim! e Dalila, desajeitada, foi embora, mancando.
Olha, já entreguei. Disse que vai ficar à espera. Que vai fazer bolas de Berlim. Ela própria parece uma. Cat, é mesmo estranha, essa miúda! Ela anda sempre atrás de vocês! interrogava Lisa.
Não! Não a conheço de lado nenhum! Há sempre gente a tentar chegar-se perto de quem tem fama. Bora lá! Depois, atirou os coelhos para o caixote do lixo, e os três lá foram receber o prémio.
A verdade é que Catarina mentiu à amiga. Dalila era mesmo irmã dela. De criação, mas irmã. Dona Inês, mãe da Catarina e do Martim, acolhera Dalila em casa quando uma prima afastada morreu num acidente de carro nas férias. A menina ficou sozinha. Pequena, já então manca.
Na verdade, Dona Inês era família bem distante, prima da prima do primo terceiro, e nem o apelido tinham igual. Os parentes mais próximos nem quiseram saber. Mas Dona Inês ficou com Dalila, apesar dos protestos do marido e dos filhos. Quando estes souberam que teriam uma irmãzinha, fizeram horrível escândalo.
Mãe, não a tragas cá para casa! Ela é gorda, manca, tonta. Dá vergonha só de andar ao lado dela!
Ó filhos, coitadinha da menina. Está sozinha no mundo. Há quem adote cães e gatos, e esta é uma menina, gente de verdade. Não nos faz mal, temos casa grande! argumentava Dona Inês.
A custo lá aceitaram. Afinal, era ela quem chefiava o supermercado da família e era quem sustentava a casa. O pai dos miúdos era subchefe dela e pouco ou nada fazia. O típico bonitão de novela, galanteador. Se Dona Inês sabia das escapadelas, calava-se. O orgulho eram os filhos bonitos.
Dalila cresceu. Pequenina, engraçada, de cabelo dourado. Os olhos tal como Catarina e Martim, naquele azul transparente, quase cor de água.
Olha, parece que tem leite azulado nos olhos. E é redonda que nem uma bola! gozava Catarina.
Dalila tinha ar de pãozinho doce. Risonha e meiga. Muito gentil.
Mas nunca a deixavam brincar com eles. O Martim partiu um vaso caro a correr; culparam Dalila. Catarina estragou um casaquinho novo da mãe ao provar às escondidas culpa da Dalila outra vez.
Dalila nem se defendia. Só pedia desculpa, baixando a cabeça. Sabia quem era o culpado, mas não queria que os irmãos levassem nas orelhas. Eram tão lindos!
E Dona Inês nunca ralhava. Já o pai, bufava.
Mas porque foste buscar esta bicho cá para casa? Dá vergonha! Nem andar direito consegue. Parece um elefantezinho! Temos filhos lindos e, para contraste, meteste cá esta? Mais valia teres tido juízo. Quem é que vai querer esta coitada quando crescer? berrava Leonel.
Dalila ouvia atrás da porta. Depois ia ao espelho. Não gostava do que via. Queria ser bonita como o Martim e a Catarina. Mas…
Mandaram-na para outra escola, à parte dos gémeos. Eles ameaçaram a mãe com más notas ou faltas se tivessem de ir com ela. Dona Inês sentia-se a perder o pouco elo que tentava criar entre os filhos e a filha de criação.
O tempo passou. Martim e Catarina foram para a faculdade. Dalila pediu para ficar em casa.
Oh filha, podes ir para onde quiseres, eu pago tudo! Queres ser designer? Tradutora? O que quiseres, Dalila? dizia Dona Inês, apertando-a num abraço.
Dalila, aninhando-se como um gatinho, abraçou-lhe a cara. Só ela dava carinho assim. Os outros só davam um beijinho forçado e pouco mais.
Sempre que Dona Inês chegava do trabalho, mesmo tarde, Dalila estava à espera nem que fosse ao frio, ou sentada no banco da entrada. O marido e os filhos nem saíam dos seus quartos. Dona Inês uma vez comentou:
Podiam pelo menos vir cumprimentar a mãe ao chegar!
Catarina ripostou:
Mãe, estamos ocupados! E essa totó está sempre à tua espera porque não tem mais nada que fazer. Nem sonhar sabe!
Dalila levantou para a mãe aqueles olhos transparentes.
Mãe, posso tratar de animais? Cães, gatos… Vou ser veterinária! Aqui até há curso para isso.
O pedido fazia todo sentido. Dalila estava sempre a recolher cães e gatos da rua, a tratar e a encontrar-lhes donos. Um dos cães ficou. Catarina queria era um labrador de raça, mas Dona Inês ficou do lado da Dalila.
E assim se passavam os dias. Até que Dona Inês teve de ficar em casa por causa da saúde. O marido, percebendo que as finanças estavam a acabar, fugiu com uma amiga da esposa, dona de um salão.
Os filhos só apareciam por causa do dinheiro da mãe. Felizmente havia algum. E quem ficou a cuidar dela foi Dalila mancando, ia para a cozinha fazer bolos e comida, fazia-lhe massagens, tratava dos chazinhos. À noite, sentavam-se à sombra da macieira a conversar e beber chá. Dalila era a mais feliz.
Catarina e Martim formaram família. A mãe ajudou-os a comprar casa. Depois veio o drama: o filho apareceu às quatro da manhã, quase a chorar, atolado em dívidas. Precisava de muito dinheiro.
Ó meu Deus! Como vais tu arranjar assim tanto? O teu pai? Nem pensar… Filho, mesmo que eu dê tudo, não chega! Que vais fazer?
Se não resolveres isto, deixas de ter filho disparou Martim.
O quê? Filhinho, não digas isso! a mãe abraçou-o.
Martim deu a solução: vender a vivenda. Só vendendo tudo é que dava para pagar.
Mas, filho… E eu? E a Dalila? Ficamos aonde?
A gorda que se desenrasque. Já chega de uma vida a carregá-la. Tu vens para minha casa! A Lara vai adorar!
Lara era a esposa, e Dona Inês duvidava muito de tanta alegria. Mas como contrariar o filho? Só aceitou com uma condição: Dalila viria com ela.
Martim concordou à força. Mas depois Dalila aproximou-se da mãe:
Mãe… Vai tu. Eu vou mudar-me para casa de uma pessoa. Andamos juntos, já me convidou várias vezes. Não te preocupes, mãe!
Mas filha, quem é ele? Nunca me contaste nada, Dalila! sorriu a mãe, desconfiada.
Depois apresento. Não te preocupes, está tudo bem! abraçou-a Dalila.
Martim ficou satisfeito. Assim nem precisava pedir a Catarina para se livrar da pachorruda não lhe apetecia nada tê-la em casa.
Só que Dalila mentiu. Não havia namorado nenhum. Apenas sentiu que seria um estorvo; sentiu no ar que não seria bem-vinda. E não queria que a mãe sofresse mais.
Arranjou um quarto em casa de um senhor idoso, o senhor Fulgêncio. Também ele sozinho só galinhas, cabras e porcos para lhe fazer companhia.
Quando soube que Dalila era veterinária, Fulgêncio ficou radiante, recusava-se a cobrar renda. Ela insistia. Ele devolvia-lhe sempre o dinheiro escondido na bolsa.
A vida corria bem! Casa arranjada, trabalho, estima das pessoas. E os animais adoravam-na! Nenhum fugia das suas mãos, aceitavam-nas de coração aberto. Dalila falava com eles, oferecia um biscoito de cão na despedida, comprados sempre do seu bolso.
Tome lá, Bolinha, não tenha medo, querido. Olhe que as gotinhas já estão feitas… qualquer coisa, chame-me à vontade, dizia Dalila, sorridente, despedindo-se.
Ó menina, nem na clínica me tratam tão bem como tu tratas o meu Tobias! És uma querida! elogiava Dona Ana, dona de um gato majestoso.
Dalila florescia. Só o coração a doía por não saber da mãe. Ligava com frequência, mas de há uns tempos, Martim é que atendia e despachava-a A mãe está a descansar.
Não sei, tenho saudades. Meio ano sem vê-la suspirou uma noite, ao lanchar com o senhor Fulgêncio.
Ora, e por que não vais tu lá? Olha, levo-te! Tenho cá o meu Renault Quatro, velhinho mas ainda anda, propôs o Fulgêncio.
Dalila animou-se. Sabia a morada do Martim e foram. Bateram à porta muitas vezes. Apareceu uma loira altíssima, de robe curto, a bocejar.
Quem são vocês? Não compramos nada!
Você é Lara? Mulher do Martim? arriscou Dalila.
Sim… E então?
Eu sou Dalila, a irmã dele.
Hmmm. E o que quer? Estou de saída para o salão de beleza, não tenho tempo!
Só queria ver a minha mãe. Este é o senhor Fulgêncio, veio comigo. Quero só dar-lhe um beijinho e já vou embora, não vos incomodo.
Ah, a tua mãe não está cá. O Martim levou-a… para um lar. Ela ficou doente, precisa de cuidados. Nem sei qual! Vou perguntar. Olha, Martim, está cá aquela Dalila com um velho. Quer o endereço. Ok. Pronto, escrevo num papel. E não venham cá mais! Falava a despachar, com perfume caro a invadir o hall.
Dalila mal ouviu as palavras, agarrou o papelinho e lá foram eles.
Mas isto… como pode ser? Porque não me disseram? Também não tenho casa, mas tinha arranjado alguma coisa… murmurava, angustiada.
Ó menina, mas podias ter trazido logo a tua mãe para minha casa! Isto é de bradar aos céus! indignava-se Fulgêncio.
Chegaram ao lar. E será que aquela senhora magra, de olhos encovados, era a mãe de Dalila? Dona Inês, outrora farta, alegre, senhora de tudo, agora jazia, pequena, sem forças. Só olhava para o teto.
Mãe! Sou eu, Dalila! Perdoa não ter vindo. Mãe, não tenho perdão! Vou buscar-te! Vais para casa do senhor Fulgêncio, conhece galinhas e tudo! Vais ver que te cuido e ficas boa! Oh mãe, responde!
Dalila chorava, agarrando a mão frágil da mãe.
Conseguiram levá-la para casa, pois Dalila era filha. O senhor Fulgêncio, que se gabava de ter combatido na guerra, ameaçou chamar um general amigo se não libertassem Dona Inês. O Martim tinha planeado deixá-la lá de vez, mas não teve voz.
Dona Inês levantou-se ao décimo dia. Olhou pela janela a porca Matilde circulava, o galo cantava, cheirava a leite de cabra e a bolas de Berlim. Dalila tinha entrado, sempre mancando, e viu a mãe de pé, a chorar.
Dalila, desajeitada, correu para ela e abraçou-a, pedindo perdão por não ter vindo antes, desculpando-se por terem de viver juntas. Não com os filhos bonitos e ricos, mas ela redonda, meiga, verdadeira.
Dona Inês abraçou-a em silêncio, como quem vê outra vez a filha pequenina, única, meio tola, mas generosa, aquela que ficou.
Não faz mal, Dalila. Agora vai correr tudo bem. Vai, minha filha, que agora estamos no sítio certo sussurrava Dona Inês.
Meninas! Vamos beber um chá? entrou o senhor Fulgêncio, animado.
E, às gargalhadas, de mãos dadas, os três seguiram juntos. E começou uma nova vida.







