Escolha
Afinal, o Afonso é mesmo casado até à raiz dos cabelos suspirei eu, sentada num banco do jardim, apertando no bolso o papel da consulta para o hospital.
As colegas do meu quarto na residência até me invejavam quando me viam acompanhada daquele moreno de olhos azul-claros, sempre impecavelmente barbeado, achando que tinha tido sorte num cavalheiro tão atencioso. No fim de contas, não havia nada digno de inveja.
Arrepiei-me ao recordar o nosso único encontro com a esposa do Afonso, que me esperou à porta da fábrica só para deixar tudo bem explicado.
Então és tu? Leonor, certo? começou ela.
Desculpe, quem é? vacilei, sentindo-me desconfortável perante aquela mulher alta e elegante de cabelo pintado em tom de cinza.
Sou a Teresa. Teresa Amaral, mulher do Afonso Amaral.
Como?
O que ouviste bem!
Mais uma ingênua, disse ela, calma. Quantas como tu andam por aí, a tentar viver do que não é delas, a sonhar com a felicidade alheia?
Olhe, não lhe admito
Escuta, a loira agarrou-me suavemente pelo braço, mas tu pensas o quê? Eu sou a esposa, vi-te com ele e ainda tens coragem de me enfrentar, em vez de pede desculpa e mergulhares no chão de vergonha. Isso seria o mínimo, se tivesses princípios.
Mais do mesmo, avaliou-me dos pés à cabeça, já perdi a conta às tuas antecessoras.
Tu para ele és só diversão, um capricho. Não passa disso. Mantém-te afastada.
Já agora, temos duas filhas. Queres ver? Teresa tirou uma fotografia da carteira e passou-ma para a mão, enquanto eu olhava, de pedra. Vê. Somos nós em Tavira, há dois meses.
Ficou algum comentário entalado na garganta.
O que é que pretende de mim? Fale é com o seu marido.
E vou tratar disso. Ele foi recentemente trabalhar para esta fábrica, ordenado decente, e aparece-me este problema.
Olha, vai à tua vida. Não te iludas. O Afonso não vai divorciar-se, não percas o teu tempo. Quantos anos tens? Trinta?
Vinte e cinco respondi, magoada.
Ainda bem. Tempo não te vai faltar para casar e ter os teus filhos. Deixa o Afonso em paz.
Não aguentei ouvir mais. Afastei-me, pernas bambas, com o mundo a desabar numa só tarde, todos os sonhos feitos pó.
Traidor murmurei, um nó na garganta, contendo as lágrimas para não me expor ali, à vista de todos. Não queria ser alvo de comentários no trabalho.
À noite, como se nada fosse, apareceu Afonso com flores. Com os olhos inchados, corri com ele dali, mesmo entre juras de amor eterno e promessas vãs de separar-se, dizendo que ele e a esposa eram só estranhos debaixo do mesmo teto.
Duas semanas no limbo. Ele deixou de aparecer. Fazia de conta que não me via quando nos cruzávamos.
Mas nunca se está preparada para tudo Os enjoos matinais e as tonturas atribuí inicialmente à ansiedade. Logo percebi: daquele amor ingénuo e fervoroso nasceu uma consequência inadiável.
Seis semanas, soava como uma sentença.
Estava apavorada com a ideia de ser mãe solteira, sentindo que todos me condenavam, por confiar nas palavras de quem mal conhecia.
A verdade é que Afonso me enganou: nunca demonstrou ser casado. Que podia eu fazer, pedir cartão de cidadão ao conhecê-lo? Nem aliança usava nem todos os casados usam.
Agora compreendo que devia ter desconfiado quando insistia que mantivéssemos segredo no trabalho.
Mas de nada vale perceber isso agora. Até as colegas cochichavam, recontando o episódio da visita de Teresa.
No intervalo do almoço, tomei coragem e abordei Afonso.
Estou grávida.
Dou-te dinheiro, trata do assunto disse, frio.
No dia seguinte despediu-se, desaparecendo para sempre.
Sabia que não podia adiar. Contra as advertências da médica, peguei no papel da operação.
Ali fiquei, sentada no banco, apertando o documento, como se tivesse medo de o largar, sem querer acreditar no que a vida me apresentava.
Vai com pressa? ouvi uma voz ao lado. Rapaz de fato, com um ramo enorme de crisântemos bordô, sentou-se de rompante.
Desculpe? olhei para ele, olhos vazios.
O seu relógio está adiantado sorriu, apontando para o mostrador dourado no meu pulso.
Os meus relógios vão sempre dez minutos à frente Tento acertá-los sempre, mas volta tudo ao mesmo disse, resignada, desviando-me dele.
Que tempo lindo, não acha? Verdadeiro verão de São Martinho! A minha mãe adora esta época. Diz que foi num dia assim que tomou a melhor decisão da vida dela. Nunca se arrependeu.
E sabe uma coisa? continuava ele, sem qualquer cerimónia Tenho o maior orgulho na minha mãe! e ergueu o polegar. Devo-lhe tudo.
E o seu pai? escapou-me.
Nunca falou dele, e eu também nunca insisti. Não lhe é agradável recordar
Venho de uma entrevista! Imagine, fui escolhido entre dez para um cargo de prestígio numa empresa, eu, sem experiência! Mal consigo acreditar
Tudo porque a minha mãe sempre me incentivou
Já sei para onde vai o meu primeiro ordenado: uma viagem ao mar para ela. Nunca foi ao mar.
E a menina, já foi?
Não olhei-o com mais atenção, reparando no laço bordô, a condizer com as flores.
Um miúdo tão simpático, tão cheio de vida.
Prenda da minha mãe disse, tocando no laço, com um brilho no olhar, ao perceber para onde eu olhava.
Desculpe lá a conversa, deve estar farta de me ouvir, mas senti que precisava de partilhar esta felicidade consigo. Tem um ar tão triste
Fui chato?
Abanei a cabeça. Ele, ao contrário do que seria de esperar, não me irritava. Conseguiu estancar aquele fluxo de tristeza que me invadia. E a devoção à mãe comoveu-me.
Que amor incondicional… Que sorte tem a mãe dele pensei, quase sorrindo Oxalá um dia tenha um filho assim
Pronto, vou andando. Ela está à minha espera em casa Mas não se apresse!
Outro quê?
Estava a dizer aos seus relógios e esboçou um sorriso largo.
Ahhhh. devolvi o sorriso.
Desapareceu ao virar a esquina. Peguei, então, na indicação para o hospital, que agora já não me parecia tão imponente, e desfiz o papel em mil pedacinhos.
Fiquei ali, a inspirar o ar limpo do outono, sentindo-me finalmente aquecida e leve, estranhamente amparada por aquele estranho tão próximo.
Não estou sozinha, pensei. Aquela mulher criou um filho maravilhoso sem ninguém ao seu lado. Só lamentei não lhe ter pedido o nome. Mas isso, naquele momento, de nada importava.
A escolha estava feita.
***
Vinte e três anos depois…
Mãe, já estou atrasado Stélio ajustava a gravata bordô ao espelho, enquanto eu lha ajeitava com todo o cuidado, recém-comprada para aquela entrevista importante.
Deixa lá isso
Dá-me confiança. Vais ver que vai correr bem, eles vão gostar de mim!
Perfeito terminei, afastando-me para admirar o meu menino crescido.
Que nervos e se não
É teu, aquele lugar. Tu responde sem medo, sorri e sê tu próprio, não há ninguém melhor.
Obrigado, mãe disse, dando-me um beijo antes de sair disparado para entrevista.
Fiquei à janela a vê-lo, cheio de esperança, seguir rua abaixo.
De repente, um arrepio atravessou-me
Já tinha visto aquilo antes.
Aquele rapaz no jardim, mais de vinte anos atrás
O Stélio, hoje, era igualzinho.
Como era possível?
A vida mostrou-me, naquele dia, o filho de quem eu quase abdiquei, deu-me a hipótese de escolher, encaminhando-me para o certo.
Porquê não lhe pedi o nome? Tínhamos quase a mesma idade O destino, por vezes, é mesmo misterioso.
Afinal, tudo correu bem.
Ao almoço, Stélio chegou a casa com um ramo gigante de crisântemos bordô, a condizer com a gravata, e contou-me que tinha ficado com o emprego.
Prometeu-me que, finalmente, iríamos juntos ao mar, porque eu nunca lá tinha ido.
Agora seria ele a cuidar de mim: moveria montanhas e viraria o Tejo ao contrário, se fosse preciso.
Por maiores que fossem as dificuldades, bastava enterrar o rosto no cabelo dele que tudo passava.
Aguentámos tudo, juntos, e nunca perdi a esperança.
Nunca lamentei a decisão que tomei.
Foi, sem dúvida, a escolha certa.
Assim tinha de ser.






