Não aguento mais esperar pelo casamento
Duarte, achas que demoras muito a chegar?
Está quase, Carolina. Estou no final da ponte!
Então despacha-te! Temos de conversar.
Aconteceu alguma coisa? assustou-se Duarte.
Epá… ainda não aconteceu nada, mas precisamos mesmo de falar a voz de Carolina estava estranha, como quem segura um barco numa noite de vento, mas não parecia ainda haver tempestade à vista.
Em menos de quinze minutos, o chefe da família já pousava a chave na cómoda da entrada do modesto T2 em Benfica, Lisboa.
Então, que raio se passa afinal? inquiriu ele, a medo, espreitando por entre o postigo da porta.
Vai lavar as mãos e troca de roupa, não é preciso saíres em missão de emergência intergaláctica disse Carolina, beijando o marido na bochecha e empurrando-o suavemente para a casa-de-banho.
A água morna nas mãos, o cheiro a sabonete, os pensamentos a rodopiar como peixes num aquário sonâmbulo. Quando voltou, já de t-shirt do Benfica e calças antigas, Carolina encaminhou-o para o quarto da filha.
Lá estava Mafalda, sentada na ponta da cama, a chorar baixinho, olhos encarnados de tanto esfregar.
Então, afinal o que foi? Duarte tentou manter a calma, as palavras a flutuar como bolhas de sabão.
Pergunta à tua filha! bufou Carolina, cruzando os braços. Conta lá ao teu pai o disparate em que andas a pensar!
Mafalda virou-se para a janela, cabeça afundada entre os ombros, teimosa como uma maré enchente.
Ou contam já, ou resolvem como entenderem que eu vou para o sofá ver o resumo do Sporting! ameaçou Duarte, batendo com a mão na mesinha de cabeceira.
Olha que bem, querem casar-se! anunciou Carolina num sarcasmo azedo. Hoje, se possível. Sem demoras!
Assim de repente? engasgou-se Duarte. Mas… com quem, se não for indiscrição?
Mafalda persistia no silêncio, olhos a fugir do pai como pardais assustados. Coube à mãe continuar:
O Tiago Macedo! resmungou Carolina Aquele rapaz magricela, de óculos e cheio de borbulhas, que anda sempre aqui colado ao portão.
O Macedo, claro… suspirou Duarte, interrogando Mafalda com o olhar.
Nada.
Olha, minha querida já um pouco mais sério , acaba lá o teatro, não estou aqui para dançar o vira até saber a verdade!
Eu e o Tiago gostamos mesmo um do outro! explodiu, por fim, Mafalda. E vamos casar-nos!
Pronto, isso já é qualquer coisa Duarte puxou todo o fôlego de que dispunha. Andam juntos desde quando?
Somos do mesmo curso, no primeiro ano da Faculdade de Letras. respondeu ela, já mais lançada.
Vocês não são nenhuns miúdos, pois não? suspirou Duarte.
Já fizemos 18 anos! atirou Mafalda, zangada.
Sendo assim, tem de ser conversa de adultos. Que estão a pensar fazer da vida? Onde vão viver, o que vão comer? Já pensaram nisso?
Isso não interessa nada! O amor resolve tudo! delirou Mafalda, quase recitando Camões.
Mafalda, tens noção do que dizes? O amor é lindo até à primeira subida da conta da EDP! o pai estava perdido num nevoeiro de lógica e surrealismo.
Só queres desvalorizar o nosso sentimento! Vocês é que não percebem nada! Só sabem dizer que temos de esperar, arranjar trabalho, juntar dinheiro e outras chatices…
Não, filha, ninguém quer matar sentimentos nenhuns Duarte esfregou o rosto, cansado. Só queremos conversar com cabeça fria. Diz-me: querem mesmo casar-se? Os dois?
Sim. Não é só minha decisão.
Muito bonito então. A propósito, onde tencionam viver e, desculpa lá, com que dinheiro?
Isso logo se vê, pai! O importante é olharmos um para o outro todos os dias, nada mais importa.
E tens alguma ideia do que fazem no jantar, por exemplo?
O amor alimenta! respondeu Mafalda, etérea, a voz a dissipar-se pelo tecto.
Duarte começou a desesperar com a lógica retorcida do sonho.
E diz-me lá, o Tiago vai para a tropa? É essa a pressa?
Não, não há tropa, nem nada disso respondeu Carolina num murmúrio. Mas a pressa existe mesmo assim.
Ai sim? Então porquê?
Mafalda olhou para os pés como quem procura a linha entre o chão e o abismo e murmurou:
Porque vamos ter um bebé…
O tempo pareceu dobrar-se, a janela ondulou como um rio de mercúrio. Duarte olhou para Mafalda, depois para Carolina, depois para o espelho imaginário do corredor.
Então, digam-me lá o que querem fazer?
Casar! Ter a criança! Não me venham falar em… em opções. O nosso filho vai nascer!
Está bem, ninguém aqui quer pressionar ou convencer-te disso ou daquilo Duarte assentiu, barroco na postura, voz grave. Mas os pais do Tiago já sabem?
Combinámos que ele ia falar hoje.
E já soubeste o resultado?
N-não…
Quando souberes avisa. Agora, por favor, deixa-me jantar. Só falta morrer à fome com estas emoções.
Foram ambos, ele e Carolina, para a cozinha sonâmbula, onde o arroz de tomate fumegava e a sopa parecia exalar vapor azul. Carolina pôs um prato à frente do marido. A mesa parecia uma jangada ao largo de Sesimbra, rodeada por um nevoeiro de incertezas.
E agora, o que fazemos? murmurou Carolina no intervalo de um pão com queijo.
Não sei, Carolina. Esperemos pelo que dizem os pais dele. Isto parece um sonho esquisito, daqueles com peixes de bicicleta.
Antes do jantar terminar, chegou o telefonema tonto do Tiago: os pais estavam completamente contra, houve discussão feia, foi tempo perdido.
Quinze minutos depois, Mafalda reapareceu na sala, olhos encharcados, telefone na mão:
A mãe do Tiago quer falar convosco… sussurrou, bloqueando o microfone.
Carolina cruzou os braços em X, afastando-se.
Duarte, fala tu, eu não consigo.
Duarte ergueu o olhar, resmungou um só me faltava esta e atendeu, dedo nos lábios:
Boa noite… Fala Duarte Fernandes, pai da Mafalda.
Dulce Macedo. Mãe do Tiago. O nosso filho resolveu anunciar que anda com a vossa filha e, pelo estado dela, já não devem ser só idas ao cinema. E agora querem ideias com balões. Estão a par disto?
Estamos, Dulce.
Pois repare: somos frontalmente contra essa brincadeira deles. O Tiago tem de estudar, tirar o curso, arranjar emprego. Filho a caminho e casamento agora nem pensar! Não vai alinhar no tradicional esquema já que engravidou, agora casa-se. Percebo que a vossa filha queira resolver a vida, o meu rapaz não é nenhum calaceiro, tem futuro, família de bem, mas como mãe vou proteger o meu filho. O mesmo pensa o pai dele. Já falámos com o Tiago e ele concorda: que a vossa filha não o volte a chatear! Queremos que ela trate disso faça o que bem entender, para nós não existe!
A chamada caiu no vazio, como um despertador num quarto sem janelas.
Duarte pousou devagarinho o telefone, olhou para a esposa e filha:
Ouviram tudo? Ninguém aqui fala em abortos. Tirar uma vida não é solução, pode até fazer-te mal. Vais interromper os estudos uns tempos, depois voltas, nós ajudamos. Dinheiro não vos há de faltar. Não precisamos desses Macedo para nada. Um monte de ingratos, desculpa o desabafo. Agora tranquilizem-se. Pronto, podem chorar um bocado, mas amanhã já é outro dia.
Depois chamou Carolina à cozinha, voz tropeçando entre tachos.
Dorme hoje no quarto da Mafalda, por via das dúvidas, para ela não fazer nenhum disparate. Conversa com ela. Eu fico na sala dela a dormir.
O relógio da casa mal tinha acabado de tilintar as onze quando alguém tocou à porta. Duarte levantou-se, de robe, passos pesados de sonho, e foi abrir.
Logo voltou, acompanhado de um rapaz franzino, óculos grossos, com acne à flor da pele.
Tiago! Mafalda gritou e lançou-se-lhe ao pescoço Vieste buscar-me?
Vim por ti. Duarte, Carolina, vim buscar a Mafalda.
Para onde, se não for abuso?
Não sei ainda. Talvez alugemos um apartamento. Somos adultos, por isso agradecia que não nos impedissem!
Vais comigo? olhou Tiago para Mafalda.
Claro! Para onde tu quiseres.
Calma! cortou Duarte, braço levantado no ar de maestro surreal. Algumas perguntinhas para a imprensa. Segundo a tua mãe, tu próprio também és contra isto.
Não é bem assim respondeu Tiago, limpando o suor das mãos nas calças. Foi a minha mãe a decidir. O meu pai limita-se a concordar. Eu só disse que aceitava para ganhar tempo… Vim direto, peguei no cartão, no passaporte, no multibanco e cá estou.
Diz-me lá, Tiago: vais manter a Mafalda, pagas a casa e comida com quê?
Tenho algum dinheiro de trabalhos em part-time, faço uns vídeos na net, tenho canal de YouTube. Deve dar para uns meses. Depois logo desenrasco mais.
Duarte sorriu de canto, quase aliviado.
E então, Carolina? Deixamos ou não deixamos ir? O miúdo não é tão tolinho, afinal.
Não sei, Duarte. Para onde, a estas horas?
Pois é. Não é agora que saem. Ficam cá esta noite. Amanhã vemos. Mas vão mesmo casar?
Ambos responderam em coro: Sim!
E vão ter a criança?
Outro sim.
Nós ajudamos-vos, mas tem condições. Primeiro, tentas ao máximo fazer as pazes com os teus pais, Tiago. Mafalda, apoias o Tiago. Dormes cá hoje, nada de andanças. Na sala há sofá. Depois, prepara os teus para a verdade, mas sem escândalos. E nada de desistir dos estudos! A Mafalda que depois tire licença, recupera, não és a primeira mãe estudante que Lisboa já viu. Vamos ajudar-vos, mas não vos vamos sustentar. Casamento, para já, faz-se no registo e à socapa. Quando as finanças aguentarem, fazem boda. Concordam?
Concordamos! respondeu o Tiago.
Eu só queria um casamento a sério, com véu, limusina, convidados… suspirou Mafalda, tão sonhadora como areia à deriva em Belém.
Agora não pode ser! respondeu Tiago, firme. Agora é discreto. Depois logo se vê a festa.
Estão esclarecidos? Então bora dormir, que amanhã todos têm vida!
Carolina ainda apanhou Duarte a beber água na cozinha antes de apagarem a luz:
Ó homem, tu mudaste de ideias num instante!
Olha, depois de levar com a mãe do miúdo, embirrenta e altiva, eu até tremi. Mas logo entra-me aqui o Tiago, e afinal até tem fibra. Não é nenhum banana, é homem. Para esse, até a minha filha deixo casar.
Tens razão, querido! Carolina beijou-o, e foi arrumar travesseiros, dispersando sonhos e medos pela casa adormecida de Lisboa.







