Fechou a porta na cara
Mãe, eu sei que tu não gostas de mim…
Rita ficou parada com a toalha nas mãos. Virou-se devagar para o filho. O Tiago estava à porta da cozinha, cara fechada, mãos nos bolsos do fato de treino.
O quê? Rita pousou a toalha. Porque dizes isso?
A avó disse.
Pois, a avó.
E o que mais disse a avó?
Tiago entrou na cozinha, queixo erguido, teimosia nos olhos igualzinho ao pai.
Que tu deixaste o pai porque não querias que eu tivesse uma família normal. Uma família completa. Que eu fosse um miúdo feliz. Fizeste de propósito para me castigar.
Rita olhou para o filho. Quase dez anos. Há dois anos que vivem só os dois. Dois anos desde que o Hélder desapareceu da vida do Tiago, sem uma chamada, sem uma mensagem sequer nos aniversários. Mas a Dona Margarida, ex-sogra de Rita, continua a receber o neto todos os fins de semana e a envenenar-lhe os pensamentos.
Tiago Rita esforçou-se por manter a calma , não deves ligar tanto ao que a avó diz. Ela não sabe tudo do que fala.
Sabe, sim! Tiago disparou. Ela sabe tudo! És tu que mentes! Se gostasses de mim, tinhas feito tudo para manter a família! Não tinhas pedido o divórcio! Não tinhas deitado tudo a perder!
Cada palavra cravava-se no coração dela. Rita via os lábios do filho a tremer, os olhos a brilhar. Ele acreditava. Santo Deus, ele acreditava mesmo naquilo.
Tiago…
O pai vivia connosco! Estávamos juntos!
O teu pai não te ligou uma única vez em dois anos escapou-lhe. Nem uma, percebes?
Porque tu não deixas! A avó diz que tu proibiste!
Tiago virou-se e saiu a correr da cozinha. Um segundo depois, da entrada ouviu-se o estrondo a porta do quarto fechou-se com força.
Rita ficou junto à mesa. Toalhas por dobrar. O tique-taque do relógio. E o silêncio, pesado, opressivo.
Sentou-se no banco, tapou o rosto com as mãos. As lágrimas caíram sozinhas quentes, amargas. O Hélder traiu-a, andou meses envolvido com outra rapariga do escritório, e quando Rita descobriu mal pediu desculpa. Encolheu os ombros, acontece, Rita. Como havia de perdoá-lo? E agora o Tiago achava que fora ela, só ela, que deitara tudo a perder.
E a Dona Margarida, santa mulher, continua a tecer a sua teia. O filhinho dela é um anjo, claro, a mulher é que não prestava, não soube aguentar, devia ter fechado os olhos e sacrificado-se pelo filho.
Rita limpou as bochechas, espreitou a rua pela janela. O filho quase com dez anos. Não entende. Talvez não vá entender tão cedo.
Três dias passaram-se em câmara lenta. Tiago estava perto tomava o pequeno-almoço, ia para a escola, voltava, fazia os trabalhos. Mas estava distante. Rita perguntava pela escola ele resmungava, olhos colados ao telemóvel. Chamava para jantar ele vinha, comia em silêncio, fitando o prato. Tentava abraçá-lo à noite desviava-se, dizia só boa noite seco e fechava a porta do quarto.
Na sexta-feira, Rita decidiu: basta. Saiu do trabalho, foi ao supermercado, encheu o cesto: bolo de chocolate do bom, batatas fritas que o Tiago adorava, uma pizza grande de fiambre e cogumelos. Talvez vissem um filme juntos. Talvez conversassem, como antes.
Abriu a porta do apartamento, arrastou os sacos para a cozinha.
Tiago! Vem cá ver o que eu trouxe!
Silêncio.
Tiago?
Rita foi pelo corredor, abriu a porta do quarto. Vazio. A cama por fazer, manuais em cima da secretária, a mochila… a mochila não estava. O casaco também tinha desaparecido do cabide.
Pegou no telemóvel, marcou o número do filho. Chamou várias vezes, depois chamada recusada. Mandou mensagem: Onde estás? Liga-me. As marcas de leitura apareceram leu.
Nada de resposta.
Rita voltou a ligar. De novo, chamada desligada. À quinta vez rejeição.
O que é isto…
Os dedos tremiam, quase deixava cair o telemóvel. Mais chamadas. Mais. Toques, toques, toques.
Finalmente, um clique.
Estou?
Tiago! Rita encostou o telemóvel à orelha. Onde estás? O que aconteceu? Estás bem?
Estou bem.
A voz serena. Demasiado serena.
Diz-me onde estás? Porque saíste?
Fui ter com o pai. Vou morar com ele agora.
Rita ficou paralisada no corredor.
O quê?!
A avó disse que o pai queria ficar comigo. No tribunal tentou. Mas tu disseste que não, por isso é que fiquei contigo. Eu não quero viver contigo. Vou ser mais feliz com o pai.
Tiago, espera…
Fim da chamada.
Rita tentou ligar rejeitada. Mais uma vez telemóvel desligado.
Atirou-se à casa, vestiu o casaco num ápice, a mala caiu ao chão, chamou um táxi com mãos trémulas. O endereço do Hélder nunca lhe saiu da cabeça.
Vinte minutos de trânsito, vinte minutos a roer as unhas, a pensar no pior.
O táxi entrou no bairro. Rita saiu antes de receber o troco, correu para a entrada do prédio e parou.
No banco à porta, Tiago estava sentado. Casaco aberto, mochila ao lado. O rosto molhado e vermelho, ombros a tremer.
Chorava.
Rita correu até ao banco, ajoelhou-se no chão molhado, agarrou Tiago pelos ombros. O frio entrou-lhe logo pelas calças, mas não quis saber.
Estás bem? Comeste alguma coisa? O que aconteceu? Porque estás a chorar?
As mãos dela percorreram-lhe os braços, a cara, a confirmar inteiro, vivo, ali. As bochechas geladas, nariz vermelho do frio, pestanas coladas das lágrimas.
Tiago levantou os olhos para ela. Estavam inchados, vermelhos, com uma tristeza tão funda que Rita sentiu o peito apertar.
O pai pôs-me na rua.
Rita ficou imóvel. As mãos imóveis nos ombros dele.
O quê?
Ele está lá a viver com outra senhora. Têm agora um bebé pequeno Tiago fungou, passou a manga pela cara, espalhando lágrimas e sujidade. Ele nem quis que eu entrasse em casa. Disse que não devia ter vindo. Mandou-me voltar para a mãe. Fechou a porta. Mesmo na minha cara.
A voz dele falhou no fim e virou-se, escondendo o rosto. Os ombros agitavam-se em soluços.
Rita puxou-o para junto de si, abraçou-o bem apertado, encostou o rosto ao cabelo dele a cheirar a vento frio e champô infantil. Tiago não se afastou. Pela primeira vez em três dias não se afastou. Antes, agarrou-se-lhe ao casaco, enterrou o nariz no ombro dela.
Vamos para casa sussurrou ela, quando ele se acalmou um pouco. Vamos resolver isto de uma vez por todas.
O táxi até casa da Dona Margarida demorou mais quinze minutos. Tiago em silêncio, olhando as luzes da rua através do vidro. Rita segurava-lhe a mão, que ficou quieta na dela. A mão pequenina, gelada, perdida nos dedos dela.
A porta abriu-se logo, como se a avó os esperasse. Roupão, cabelo com rolos, chinelos com pompons imagem de avó portuguesa. Mas os olhos estavam duros, desconfiados.
Ai, Rita, o que fazes aqui com o rapaz? Vens virar o filho contra o pai? Contra mim?
Tiago deu um passo à frente, atravessando a entrada. Rita viu-lhe as costas magrinho, tenso, ainda tão pequeno dentro do casaco que já lhe começa a ficar curto.
Avó Tiago ergueu a cabeça, e Rita ouviu-lhe um tom novo, mais adulto , mentiste-me?
Dona Margarida piscou os olhos. Por instantes, a máscara vacilou.
O quê? Tiaguinho, do que falas?
Estive com o pai. Ele pôs-me na rua. Porquê?
Rita observou a cara da ex-sogra transformar-se. A máscara de avó dedicada a desfazer-se, os olhos a fugir, procurando apoio, oscilando entre o neto e Rita.
Tiaguinho, foi tudo culpa da tua mãe, ela…
Disseste-me que foi a mãe que não deixava falar com o pai. Que ela proibia as chamadas. Que ele morria de saudades, que esperava por mim Tiago apertou os punhos com tanta força que as articulações ficaram brancas. Então porque é que ele me fechou a porta na cara? Porque nem quis falar comigo? Porque me olhou como a um estranho?
Não percebes, ele anda com problemas, está ocupado…
Ou talvez a mãe estivesse a dizer a verdade? Tiago elevou a voz e Dona Margarida recuou. Que eu não lhe faço falta? Que nunca fiz falta? Ele tem lá agora outra família, outra mulher, um bebé. São todos tão felizes! Para que é que precisa de mim? Só fosse mais um peso, alguém de quem ele nem quer saber!
Dona Margarida endireitou-se, ergueu o queixo. Nos olhos cintilou qualquer coisa de magoado, um brilho feroz e assustado.
Isso foi a tua mãe que te ensinou! apontou Rita Ela é que destruiu tudo, é ela…
Basta!
O grito de Tiago fez Rita estremecer. A escadaria tremeu com o eco.
Chega de mentiras! Cansei dessas histórias! Dois anos a inventares histórias sobre o pai e ele nem sequer me ligou nos meus anos! Mais não volto a vir cá. E não te quero ouvir mais. Se o pai não me quer, eu também não o quero mais. Nem a ti. Virou-se, agarrou a mão de Rita. Vamos, mãe. Vamos embora.
Dona Margarida ficou à porta, pálida e pasmada. Pela primeira vez, Rita viu-a sem aquele ar severo parecia até perdida, quase frágil.
Boa noite disse Rita, fechando a porta com delicadeza.
Em casa, Tiago comeu dois pedaços de pizza fria e bebeu três canecas de chá quente com doce de framboesa. Ficou no sofá, enrolado num cobertor de quadrados, sereno, nariz ainda vermelho. Lá fora, a noite já tinha caído e o candeeiro lançava sombras suaves no rosto dele.
Mãe.
Sim, filho?
Desculpa.
Rita pousou a caneca sobre a mesinha. Observou o filho: os ombros finos, o cabelo despenteado, aquela ruga teimosa entre as sobrancelhas.
Sempre te esforçaste tanto por mim, sempre fizeste tudo, e eu… E eu só ouvia a avó. Acreditei nela, nunca em ti. Tiago baixou os olhos, mexendo na franja do cobertor. Isso não vai voltar a acontecer. Vou pensar por mim. Vou acreditar no que vejo, não no que me dizem.
Rita sorriu, sentou-se mais perto e passou-lhe a mão pelo cabelo. Pela primeira vez em dias, ele não se afastou. Antes, encostou-se a ela, como fazia em pequenino.
A lição foi dura. Até cruel. Mas Tiago aprendeu finalmente: na vida, não basta ouvir os outros; é no que vemos, sentimos e vivemos que encontramos a verdade.







