Destinos de Mulheres. Benedita
Oh, Benedita, pelo amor de Deus, leva o meu Fredérico contigo implorava Maria da Graça. Sinto no peito que alguma desgraça vai acontecer. Prefiro ver-vos afastados do que perder o meu menino para sempre.
Virei-me e olhei para Fredérico, miúdo franzino sentado no banco junto ao fogão de lenha, balançando as perninhas finas com aquele jeito inocente das crianças.
Em tempos, as irmãs viveram juntas, mas com o passar dos anos, a mais velha, Maria da Graça, casou-se com o Tomás e foi viver para uma aldeia distante. Eu, Benedita, a mais nova, fiquei em casa com nossa mãe, doente há meses, até que partiu. O pai falecera bem antes, de tuberculose, quando ainda éramos pequenas. A nossa mãe criou-nos com mão firme e coração generoso. Boas, trabalhadoras, nunca indiferentes à desgraça de ninguém. Mas, apesar de Graça ser a mais velha, era eu, Benedita, quem impunha ordem cá em casa. A minha irmã era maleável e tranquila, deixava-se levar como ouro nas mãos. O Tomás gostou disso e não se arrependeu: tinham bom casamento, viviam felizes.
Já eu, diferente da irmã, nunca fui de deixar abusos: não metesse alguém o dedo na boca, que logo ficava sem a mão! Arrogante, exigente verdade seja dita, era de uma beleza que todos na aldeia notavam. Os melhores rapazes das redondezas tentaram a sorte, mas a todos dava a mesma resposta: um rotundo não.
Enquanto a mãe viveu, sempre murmurava:
Filha minha, herdaste o feitio da bisavó; cuidado para não herdáres também a solidão dela. Vais acabar solteirona… Quem precisará de ti na velhice?
Sorria-lhe apenas. Não contradizia, respeitava a idade, mas guardava as minhas ideias.
A minha bisavó não era mulher comum. Viveu uma vida inteira sem homem, criou filha sozinha, mas dizia-se feliz. Fazia de curandeira mexia com ervas, rezas contra doenças e males de amor. Não andava com bruxarias más, nem se oferecia para o que não pedissem. Tinha mau feitio e por isso a temiam, mas também a respeitavam. E foi esse jeito que herdei. Sabia das ervas, alinhava rezas, e se alguém vinha pedir ajuda, não dizia que não. Os miúdos principalmente curava-lhes sempre qualquer maleita. Temiam-me tanto quanto me estimavam.
Não te entendo, Graça disse-lhe naquele dia, olhando para Fredérico , para quê esse desespero? O rapaz está bem de saúde já o estás a dar como morto.
Ai, irmã, não tens ouvido o que se passa em São Lourenço? respondeu.
Não, que se passa?
Os miúdos andam a morrer feito moscas. Ficam doentes, morrem ao fim de dias. Nunca vi nada assim. cruzando-se, Maria da Graça suspirou fundo.
Mas sabes de que morrem? E porque não vieram ter comigo?
Ninguém sabe, Benedita. O miúdo corre, brinca, e de repente murcha. Fica na cama, perde as forças, depois morre. E também temos uma curandeira lá na aldeia, mas não tem dado conta do recado.
Desde quando?
Já lá estava quando fui viver com o Tomás.
E nunca falaste dela?
Para quê? Uma velha qualquer, faz por bem, ajuda até os animais, mas aos miúdos não acerta. Nem rezas, nem chás resultam mas não vim cá para falar dela. Vim pedir-te. Levas o Fredérico, deixa-o passar uns tempos contigo?
Claro que sim respondi, sorrindo para o meu sobrinho, despenteando-lhe o cabelo de palha.
Maria da Graça despediu-se do filho com um beijo e um sinal da cruz, e lá foi à vida.
Anda, rapaz disse eu , vamos ao pomar, mostrar-te o ninho do rabirruivo no monte de lenha.
Fredérico abriu aquele sorriso desdentado e deu-me a mão.
***
Venho buscar o meu menino! disse alto a Graça, entrando em casa.
Mamã!! gritou Fredérico, correndo a abraçá-la.
Já tinham passado seis meses desde que a irmã me deixara o miúdo. O céu escuro, típico do outono tardio, cobria a aldeia. Quase todos os meses vinha vê-lo, cada encontro enchia-se de lágrimas e abraços.
Estava cheia de saudades, meu amor choramingou, beijando Fredérico. E o teu pai só pergunta de ti, quer ver-te em casa. Entrei na sala, limpei as mãos ao avental e abracei a irmã.
Então, como vão as coisas? perguntou, olhando para o filho.
Vai tudo bem, mãe. A tia Benedita deu-me um gatinho! Quer ver?
E antes que alguém respondesse, lá foi ele para o jardim buscar o animal.
Está tudo bem, sim disse-lhe, firme mas calma. Vieste buscar o rapaz?
O tempo passou, já começa a chamar-te mãe, daqui a nada! E o Tomás quer o filho em casa.
Vais levá-lo? E como vai a aldeia?
Olha, não quero agoirar, mas desde que ele está contigo, não morreu mais nenhum miúdo graças a Deus.
E lá voltou Fredérico, agarrado ao gatito.
Mãe, chamei-lhe Pimpão! Somos grandes amigos!
Que bom! respondeu Maria da Graça. Há ratos na corte, não lhe vão faltar tarefas. Vamos levá-lo connosco.
Enquanto Fredérico metia a roupa no saco de pano, falámos dos assuntos da vida. A Graça não largava o tema do costume: quando é que eu arranjava um marido.
Deixa-te disso, Graça ripostei. Nem toda a gente tem de casar. O dia chegará, ou então não chega, paciência. Tenho o Fredérico para brincar, já sou feliz. Ouve bem, rapaz, quando quiseres vir, dizes à mãe que venhas; cá te espero com alegria.
Custou-me ver o miúdo ir embora, mas era preciso. Antes de saírem, avisei:
Olha, trata bem o gato, é presente meu para ele.
Ora, quando é que eu fui má aos bichos? respondeu, ofendida, Maria da Graça. Sempre lhes dou leite quando é preciso!
Era só para lembrar disse-lhe, rindo.
Depois de muito beijo, abraço e sinal da cruz, vi-os partir antes de anoitecer.
Veio o inverno, trajando a aldeia de branco montes de neve, quase não se abria o portão de manhã. A vida arrastava-se, lenta; mas para mim havia sempre trabalho. Ora vinham pedir chá para as dores, ora trazer bebés doentes. E fui vivendo, até que a primavera despontou e a aldeia se fez verde e luminosa.
Estava eu um dia a preparar a terra das hortas, quando ouço: Miau. Virei-me, era o Pimpão.
O que fazes aqui? estranhei. Aconteceu algo ao Fredérico?
O gato roçou-se nas minhas pernas, insistente. Nem hesitei, enfiei a trouxa de remédios no saco e pedi à vizinha velha, dona Custódia, que vigiasse as galinhas. Disse-lhe:
Vou à Maria da Graça, sabe Deus se volto hoje.
Meti-me a caminho. As flores brotavam à beira do caminho, os pássaros chilreavam, mas o meu coração ia escuro. Ainda o sol não se punha e já vi as casas da aldeia. Entrei ofegante na casa da irmã.
Ai Benedita, que desgraça, chorava a Graça e agarrou-se a mim. Vem ver o Fredérico!
No quarto, o rapaz estava deitado, tão pálido que até parecia de vidro, lábios azulados, respiração aflita.
Entre os soluços, a Graça contou que, desde o Natal, Fredérico andava sem forças, e na última semana piorara de todo.
Porque não me chamaste antes? ralhei-lhe, tocando-lhe na testa.
Não sei… Era como se alguma coisa me impedisse. Sempre que tentava sair de casa, alguma coisa acontecia e tinha de voltar! No início achei que era um resfriado. Depois até eu fiquei de cama. Demos-lhe chá de tília, comidas leves… Quando piorou, chamei a curandeira da aldeia, a dona Quitéria. Ela fez rezas, trouxe mezinhas, mas nada resultou. Só hoje, mal a neve deu tréguas, ia sair para te chamar, mas vieste tu. O Pimpão desapareceu, o rapaz só perguntava por ele. Benedita, salva o meu filho! Se ele morrer, morro eu!
Não te aflijas pelo gato, foi ele que me chamou. Cheguei a tempo, graças a ele, mais esperto que tu. respondi, dura. Diz-me, Fredérico comeu algo de estranho? Foi a casa de alguém?
Pois claro, foi ao peditório de Natal com os outros meninos. Em especial, elogiou os bolos da dona Quitéria…
Olhei para ele com ar sério.
Vai chamar a dona Quitéria, sem dizeres que eu estou cá. Quero vê-la de perto.
A Maria da Graça não hesitou. Enquanto isso, tirei do meu saco duas agulhas grandes, escondi-me na cozinha até elas chegarem.
A dona Quitéria entrou, com o seu ar meigo.
Ó Maria da Graça, gostava mesmo de ajudar, mas não consigo. Deve ser castigo do Senhor me tirar a mão para crianças… sarava tudo, menos os miúdos…
Enquanto falava, cruzei as duas agulhas em cruz sobre o portal, depois escondi-me. Quando tentou sair, ficou parada, incapaz de passar. Voltou para o quarto, fez mais umas rezas, tentou de novo. Nada. Suava, nervosa.
Sinto-me mal… Maria da Graça, traz-me água.
Discretamente, disse à minha irmã para a levar para outro quarto. Ainda a velha se afastava, tirei as agulhas do portal. Bebeu a água, despediu-se à pressa e sumiu da casa quase disparada.
Entrei no quarto.
Aquela velhaca, murmurei para mim andou a matar os pequenos da aldeia Bom, agora não foge!
Comecei a entrançar três velas e pus na cabeceira do Fredérico.
O que fazes, Benedita? perguntou Maria da Graça, assustada.
Vou tirar ao Fredérico o que ela lhe pegou. Essa bruxa alimenta-se da energia das crianças; prolonga a vida à custa da inocência dos nossos filhos.
Meu Deus choramingou a minha irmã, assustada.
Sai do quarto, por favor. Vai cuidar do marido, depois voltas para me ajudar.
Fui-me preparar. Acendi as velas, fiz as rezas certas, estendi-me sobre o Fredérico, deixando o calor do meu corpo passar-lhe vida. Quando abri os olhos, já era noite, e Maria da Graça ajudou-me a deitar-me. Fui vencida pelo sono, mas agora tranquila: tinha salvo o meu sobrinho.
Na manhã seguinte, a casa encheu-se de cheiro a pão, ouvia-se a minha irmã cantar na cozinha. Perguntei como estava o Fredérico. Ela correu a abraçar-me.
Salvaste-o, Benedita! Ele pediu logo o pequeno-almoço!
Fui ao quarto, olhei para o menino: já dormia outra vez, o rosto rosado, finalmente parecia vivo.
Vou ficar cá uns dias. Temos de desmascarar a maldade da Quitéria.
***
Fingia-me aflita, fui até a casa da velha, chorar desamores e pedir ajuda.
Não te posso ajudar nessas coisas negras! respondeu com ar de santa. Só faço bem.
Ajuda-me e pago bem. Só quero acabar com aquela ladra que me roubou o homem. Não digo a ninguém, e levo pão teu à minha aldeia como agradecimento.
Pão? Para quê?
Não precisas de saber. Pensamos antes em como eliminar a tal… talvez “assentar-lhe” um defunto, para a arruinar?
Explicou-me então pão de defunto; cada fatia com um morto chamado por ela. Troca feita: as almas das crianças para anos de vida!
Levei aquele pão à Maria da Graça, pus tudo em cima da mesa.
Este pão está amaldiçoado! É assim que a velha mata as crianças.
Espantada, a irmã não queria acreditar.
Temos de destruí-lo expliquei.
Piquei-o todo, levei-o às galinhas. Na manhã seguinte, surgiram boatos: viram a dona Quitéria pela aldeia, enegrecida, velha como nunca, a praguejar com toda a gente.
Acertaste em cheio, Benedita! exclamou Maria da Graça, fazendo o sinal da cruz.
Voltemos para ela disse-lhe. Convém garantir que não volta a fazer maldade.
Fui à casa da bruxa, com um velho cadeado ferrugento.
Quitéria, estás aí?
Que queres tu? resmungou, pálida, cansada.
Vim avisar: a brincadeira acabou. Já não vais mais sugar a vida das crianças, sua alma podre. Olha para a porta!
Lá estava o fecho, trancado. Bem soube ela o que significava. Com um grito, caiu, derrotada, já sem forças, consciente que ficava presa aos seus pecados.
Se fizeres mais alguma coisa, nem os demónios te querem! atirei-lhe as palavras, antes de sair.
Ali ficou, vazia, invisível à aldeia, esquecido o tempo da sua terrível influência.
***
Dois meses passaram. Fredérico recuperou rápido.
Já a Quitéria morreu pouco depois privado dos pactos de sangue, os malditos vieram levar o saldo. Morreu no sofrimento. Eu fiquei como única curandeira entre várias aldeias. Não lhe peguei nos modos, nem fiz pactos com nada escuro. Só curava gente e bichos, nunca fazia mal. Homem certo nunca achei, mas também nunca me afligi muito: feitio destes nem todos aguentam.
Ai, Benedita, porque é que não domas o teu orgulho? Assim encontravas marido e tinhas filhos. suspirava Maria da Graça.
Sem orgulho, nem o Diabo deixava em paz a aldeia… respondia-lhe, a rir. E filhos, tenho o Fredérico para partilhar amor.
O rapaz recuperou bem, e não havia mês que não passasse cá comigo uns dias, enchendo-me a casa de sorrisos infantis e o coração de ternura.
No final desta história, aprendi que nunca se deve virar as costas à própria natureza: cada um tem o seu destino, e às vezes, o nosso papel é apenas proteger quem amamos mesmo que isso signifique carregar fardos solitários.







