Destinos Femininos. Mariana
Morreu a avó Laurinda, e a tristeza apoderou-se ainda mais de Mariana. Nunca foi bem aceite naquela casa, pelo olhar da sogra, D. Adelaide. Era demasiado magra, parecia franzina, e trabalhava menos do que ela achava devido. Ainda por cima, ninguém sabia se dali sairia algum neto robusto ou apenas fraqueza e solidão.
Mariana aguentava tudo. Quando a alma já não aguentava mais, corria à casinha da velhota. Para Mariana, Laurinda era a pessoa mais querida deste mundo. Substituiu-lhe o pai, desaparecido no mar, e depois a mãe, que partira há dez anos, consumida pela doença.
Quando Diogo, o seu marido, a olhou pela primeira vez, só Deus soube o que viu. Um homem bonito, de braços fortes, dono de uma quinta rica e próspera, foi apaixonar-se assim, por uma rapariga sem eira nem beira, órfã de todo o mundo. Era assim que Adelaide, mãe de Diogo, se referia a ela, sempre a desdenhar.
Quis Mariana agradar-lhe sempre. Dava voltas à casa, não deixava trabalho por fazer de sol a sol. Mas prazer à sogra não dava, de modo nenhum.
Contanto, com Diogo em casa, tudo amenizava. Mas, assim que ele saía para negócios ou para a aldeia vizinha, apetecia-lhe fugir dali.
Aguenta, Marianinha, dizia a avó, quando lá ia desabafar, vais ver que tudo se compõe.
Agora nem avó tinha. Ano após ano, o coração da sogra parecia endurecer cada vez mais.
A vida não correu como dona Adelaide quisera: o filho casara com uma órfã pobre. Para Diogo, a mãe já escolhera há muito uma candidata uma Teresa elegante, de família abastada, com terras e gado. Unidos, não faltaria de comer a ninguém até à quinta geração.
Mas não havia aquele feitio teso que o filho herdara do pai: Diogo não admitia que lhe virassem o peixe ao contrário. Mandava e pronto!
O sogro falecera cedo, mas Diogo logo pegou no negócio familiar e multiplicou-o. Era respeitado até pelos mais teimosos da aldeia. Respeitava a mãe mas nunca foi filhinho de mamã.
A Mariana, ele amava a perder o juízo. Mal a viu, tão frágil como um fio de erva, pele muito branca, olhos tão azuis e grandes, nariz arrebitado ficou logo perdido. Tudo lhe quis dar, riquezas e mimo, mas só precisou dizer-lhe palavras sinceras Mariana apaixonou-se também sem pensar duas vezes.
Bem sabia dos boatos, do feitio difícil da sogra, da ganância, mas o carácter de Diogo era forte e aceitou a proposta de casamento.
Mudou-se Mariana para casa do marido, sofreu todas as críticas da sogra. Quando as lágrimas já quase lhe sufocavam o peito, corria à campa de Laurinda, pedia-lhe força sussurrando entre as flores.
Sentava-se com a cabeça ao colo da avó, como pequenina, e chorava baixinho. As mãos velhas passavam-lhe o cabelo, e a oração da avó para Nossa Senhora parecia aliviá-la sempre.
Sozinha, a tristeza não passava nunca. A avó partiu sem fazer ruído deitou-se, adormeceu e ninguém mais a acordou.
Chorou Mariana como se o mar desaguasse nela: sentiu-se sozinha no mundo.
Acreditar que o tempo cura é mentira. Às vezes parece que se esqueceu, mas uma lembrança faz tudo doer outra vez.
Os anos passavam, e a sogra crescia na sua má-vontade. Davam três anos que Mariana morava ali Três anos a comer de graça, nem um neto para o nome!, resmungava Adelaide.
Ouvira Mariana, em segredo, a sogra envenenar os ouvidos do filho: A mulher não presta, está estragada, nunca te dará filhos.
Diogo desdenhava dos boatos, mas quem consegue calar as más línguas do povo? Todos diziam que Diogo morreria sem sucessor.
Diogo carregava as preocupações, mas tornava a esquecer tudo sempre que via o sorriso de Mariana. Queria levá-la ao colo, protegê-la do mundo.
Talvez Deus tenha ouvido as preces de Mariana, ou talvez fosse puro milagre do amor autêntico finalmente, engravidou.
Adelaide torceu-se num fel ainda mais venenoso. Já mal se podia andar, Mariana, mas sogra era vassoura atrás dela.
Sentada, rapariga?! Achas que agora que estás cheia é para não fazer nada?! e punha as mãos nas ancas.
Foi só um minuto, minha senhora estive sempre a labutar esta manhã.
Disparate. Aqui não há criados vai buscar água! Quando teu marido vier, nada feito. Se não tens força, então vai de vela, rapariga fraca não quero para o meu filho!
Em silêncio, Mariana pegava nas bilhas e ia ao poço. Com dificuldade, mas calada. As vizinhas, de todo, balançavam a cabeça atrás das sebe: A Adelaide é mesmo má já quase a parir e não abrandou nada, coitada!
Chegou finalmente a altura do parto, mas o menino nasceu muito fraco. Sem cor, sem forças. Mal respirava, como morto.
Era o que faltava, mãe doente, filho doente! praguejava Adelaide, olhando o bebé quase com nojo.
Ele é vosso sangue, minha senhora, é o neto que tanto pediam, dizia Mariana a chorar.
Só resta ver se vive até ao fim do mês! rosnava a sogra. Já se vê o caixão.
Mariana só chorava ainda mais. Dentro da cabeça da sogra, as ideias eram negras: se o menino morresse, Diogo há-de largar esta miserável e escolher uma mulher robusta!
Diogo, ao chegar do trabalho, achava Mariana quase desmaiada. Pegava no menino, minúsculo na palma da mão. O bebé parecia sentir-se protegido ali, abria a boca num beicinho, tentando mamar.
Ainda vamos mostrar a todos, filho, pensava Diogo.
Chegou o dia do baptizado, deram-lhe o nome de Benedito. Mas o menino só piorava, cada vez mais pálido e fraco.
Um dia, teve Diogo de ir trabalhar para bem longe, pelo rio até à cidade.
Volto assim que puder, minha flor. Cresce o nosso Benedito e não ligues a ninguém disse, beijando-lhe a cabeça.
Sem Diogo, Adelaide tornou-se um vendaval. Mariana não podia sequer sentar-se; era água, lenha, cuidar dos animais. E as noites mal dormidas, que o menino não sossegava nunca.
Viviam ambas à beira do esgotamento: Mariana e o pequeno Benedito, cada vez pior.
O Outono trouxe chuva e frio, e Diogo sempre ausente.
Se calhar faz bem, deixou cair Adelaide, quem é doente, não traz felicidade. Pode ser que lá longe encontre uma mulher mais forte.
Ouvindo isto, Mariana afundou-se na dúvida.
Adelaide, sentindo-se vitoriosa, derramava veneno todos os dias:
Não achas, Mariana? O menino não dura, tu definhas e só vais deixar o meu filho ainda mais triste. Liberta-o, deixa o Diogo seguir a vida dele
Vou para onde, com esta criança doente? O frio está a chegar, ele nem resiste.
Se morrer, não será grande perda respondeu Adelaide, gélida. Já está a sofrer. Danilo merece uma família verdadeira e filhos com saúde.
Nisto, Benedito chorou convulsivamente, ficou arroxeado, perdeu os sentidos.
Pensa bem, Mariana. Quem vive do sofrimento alheio, nunca é feliz disse a sogra, deixando a nora sozinha.
Passaram mais duas semanas, começou a nevar. Mariana emagreceu, perdeu a cor, mas de vez em quando já retrucava à sogra. De nada servia não estava em casa própria, nem com o seu marido. As palavras cruéis de Adelaide consumiam-na. E Diogo não escrevia sequer.
Por incrível que pareça, nunca ocorreu à pobre pensar que algo tivesse acontecido a Diogo. Estava de tal forma dominada pela sogra, que só em si punha a culpa.
Num dia sem lágrimas, Mariana fez a trouxa, embrulhou Benedito em lenços quentes e saiuem silêncio. Adelaide ficou quieta: sabia que, se Mariana partisse, tudo se resolvia como queria. Já lhe dissera há um mês que Diogo estava vivo, mas magoado por causa dos ladrões, internado no hospital da cidade. Mariana que pensasse o que lhe apetecesse. Quando Diogo voltasse, mentiria-lhe dizendo que Benedito tinha morrido e Mariana enlouquecera, fugindo com ele. Assim ninguém desconfiava.
Logo na manhã seguinte, Adelaide espalhou à aldeia que Mariana, perdida de dor pela morte do filho, sumira na noite. “Chorei, tentei segui-la, sem sucesso. Perdeu a razão,” dizia ela.
Aos poucos, caiu o silêncio e o esquecimento nos casebres do povoado. O inverno foi rigoroso: pouca gente saía de casa
***
Caminhou Mariana pelos campos e matas, com medo de ladrões ou bestas. Por si, não temia mas o filho, frágil como estava, pequenino isso ocupava-lhe a cabeça.
Andou toda a noite. Pela manhã, avistou casas.
Nem esperava encontrar abrigo; apenas que alguém, por bondade, lhe desse pão e deixasse aquecer o filho ao lume por um rato.
Senteu-se num banco junto ao poço, exausta.
Veio uma mulher, corpulenta, bochechas rosadas do frio, olhou-a de alto a baixo.
E tu, de quem és? Por cá ao vento, meio azulinha de frio?
Ninguém, respondeu Mariana baixinho. Só de passagem. Vou para a aldeia ao lado, mentiu.
Então, e lá vais ter com quem?
O meu pai mora lá
Num tempo destes, até a um cão dão abrigo, mas a ti mandaram-te de viagem? E com uma criança ao colo?
Com isto, Mariana desatou a chorar, escondendo o rosto nas mãos.
Anda daí, levanta-te ordenou a mulher, e levou-a consigo.
Dentro de casa, calor, cheiro a pão, a ervas. Mariana desabou no banco perto do lume.
A mulher ajudou-a a despir-se, pegou-lhe no bebé com cuidado.
Chamo-me Celina, disse. E tu, menina, como te chamas? Olhou para o menino, desembrulhou-o.
Santo Deus, tão pequenino! Já é baptizado?
Já, Senhora. Chamou-se Benedito respondeu Mariana e desmaiou.
Não se lembrava de quanto tempo passou desacordada. Ao acordar, viu-se numa cama. Procurou o filho e não o encontrou. Começou a correr de um lado para o outro, até Celina chegar, trazendo vento gelado da rua.
Acordaste? Onde pensavas tu ir, assim?
O meu filho Onde está?
Sossega, tolinha. Está bem. Andas três dias às portas da morte, a delirar, nem deste por nada. Conta-me como vieste cá parar, e não te preocupes por já, o pequeno está bem.
Sentaram-se, Celina trouxe-lhe um chá.
Mariana contou tudo do amor por Diogo, da sogra cruel, do filho nascido doente e de toda a amargura do coração.
Celina escutava, sem interromper.
Os caminhos de Deus são estranhos, mas foi destino vires aqui, rapariga. O teu filho vai recuperar, e a sorte há-de mudar contigo aqui. Continua a ser boa, não deixes o coração envenenar-se.
Só queria ver o meu filho murmurou Mariana.
Levo-te a vê-lo, mas não podes trazê-lo contigo ainda.
Mariana gelou de terror, imaginando o pior.
Veste-te e vem daí, logo entendes.
Entraram pelo bosque dentro, a Celina guiá-la por trilhos. Mariana sentia o coração disparar.
De repente, abrem-se as árvores: uma barraca de madeira.
Recebeu-as uma velhinha pequena e magra, de olhos brilhantes.
Entra, querida. Vê o teu menino, está a dormir.
No berço, Benedito dormia, corado, nem parecia a mesma criança.
Melhorou, melhorou riu a velha, adivinhando-lhe os pensamentos.
Chamo-me avó Augustinha. Todos acham que sou bruxa e é por isso que vivo no mato. Não temas, menina. Antes de acreditares em alguém, observa tu mesma. A tua sogra, por sinal, é mais bruxa do que eu, e sempre perfumada de igreja.
Mariana ria e chorava ao mesmo tempo, ouvindo a senhora adivinhar-lhe a vida.
Sabes porque sofre tanto o teu menino? Não é só doença explicou Augustinha. Com a idade que tinhas, nunca devias ir a cemitérios estando grávida! Tu quase todos os dias visitavas a campa da tua avó Pegaste a tristeza, e ela colou-se ao pequeno quando nasceu. Esteve a sugar-lhe a vida!
Mariana ficou pálida.
Não te preocupes. Agora ele aqui recupera. Fica cá uns dias, hás-de vê-lo a crescer e a engordar.
Augustinha pousou-lhe as mãos na cabeça, como quem reza. Mariana sentiu um alívio, como quando era menina com Laurinda.
Uns dias depois, Benedito estava corado. Mariana voltou a viver, ajudando Celina em tudo o que podia.
Diz, tia Celina, então porque vive a Augustinha afastada? Boa gente para ajudar toda a aldeia
Antigamente, era a que mais ajudava. Nunca quis nada em troca. Mas um ano, morreram alguns bebés na aldeia. Culparam-na logo bruxa, mulher má, invejosa dos filhos das outras. Levaram archotes à casa. Por sorte, o marido conteve-os; depois descobriram que era tudo falso. Mas ela nunca mais perdoou. Só trata crianças; adultos se querem curar, que se desenrasquem. Criança doente, deixam à porta e esperam. Três dias depois, se a encontrares na rua, ora, sobreviveu. Se não sair, não há salvação.
Mariana não perguntou mais. O importante era que ali, sentia-se em paz.
Diogo, por seu lado, regressava à aldeia, depois de chefiar negócio e recuperar de uma lesão. Entrou em casa, descalçou-se à pressa, correu ao quarto e não encontrou nada nem ninguém. Adelaide caiu em lágrimas:
Perdoa-me, filho. Não consegui salvar a tua mulher nem o neto. Dias depois de saíres, Benedito adoeceu e morreu. Mariana ficou louca, pegou no corpo e foi-se embora. Eu segui atrás dela, mas nem olhou para trás. Nunca mais voltaram. Procurei por toda a parte nada!
Diogo gelou. Aquela palavra desapareceram ecoava-lhe na mente.
***
Sem esposa nem filho, tornou-se sombra de homem. Deixou passar o inverno como quem não sente o tempo. Começou a primavera, o campo chamou-o aos afazeres. Mas no peito, a ferida não sarava.
A mãe, cansada de ver o filho morto por dentro, bem tentou arranjar-lhe nova pretendente. Mas levou um raspanete que nunca esqueceu. Diogo, com voz de trovão, proibiu: Nem mais uma palavra, mãe! Não tive forças para conservar quem amava, agora não me fales de mais ninguém!
Os dias corriam lentos e sem cor. Só respondia ao trabalho e fechava-se mal escurecia. Um ano passou, e só piorou.
Adelaide, esgotada, acabou também por adoecer. O filho contratou o melhor médico do Porto, mas alma não se cura. Pouco durou, e morreu no final do verão.
Completamente só, Diogo passou a vaguear pela quinta, pensando no fim. Decidiu que, após a missa dos quarenta dias da mãe, ia preparar tudo e abandonar o mundo.
***
Então? ouviu-se a voz de Augustinha. Vieste aqui pedir perdão, já depois de morta?
Uma sombra pairava-lhe à frente, chorosa e inquieta.
Tarde demais para arrependimentos. Cada um vive com o que fez resmungou a velha.
A sombra chorou: Ele nunca saberá
Ele sente, não precisa que lho digas. Bora, mostra-me.
A sombra passou por ela, avó Augustinha revia imagens Diogo nos pântanos, os demónios do desespero à volta.
***
Mariana e Celina apanhavam arandos numa manhã de nevoeiro. Mariana disse, olhando para Benedito empoleirado a brincar:
Amanhã vou mais cedo, tia Celina. Preciso de reservar um pouco para a Augustinha fazer remédios.
Vai sim, vou tomar conta do pequeno. Também nunca tive filhos, foste-me como uma filha.
Mariana sorriu: Nossa Senhora ajudou-me. Se não me tivesses acolhido naquele dia, não sei o que seria de mim. Amei-te como mãe, para sempre te agradeço.
***
Chegou o quadragésimo dia da morte de Adelaide, com missa e missa pastral. Diogo, sozinho, aguardou que todos saíssem. Ficou mais um tempo, levantou-se e seguiu pela vereda do bosque.
Não via nada; os olhos, vidrados em saudade. Via a mulher, via o filho, pais que já não tinha. Já nada me prende, pensava.
Deparou-se com o brejo, a terra mole. A lama engoliu-lhe os pés. Não lutava mais: Que venha o fim.
Ouviu uma canção voz feminina, longínqua, familiar. Um vulto branco apareceu entre os pinheiros. E a voz cada vez mais clara.
Mariana sussurrou, venho ter contigo.
A imagem parou, como assustada.
Diogo? ouviu-se o grito. Mariana saiu dos pinheiros, olhos arregalados, sem acreditar. O marido estava preso até à cintura no lodo.
Diogo sorriu amargamente: Vieste buscar-me depois da morte, meu amor.
Que morte, homem de Deus? Estou viva!
A voz dela fê-lo despertar. Gritou, puxou-se para fora do pântano, esbracejando.
Ela correu, deitaram-se nos braços um do outro, lavados em lágrimas, rindo e chorando.
Quando soube que Mariana e Benedito estavam vivos, Diogo quase delirou de alegria. Entrou em casa da Celina, pegou no filho e chorou de felicidade.
Muito foi dito dores, saudades, amarguras. Mas tudo passava, vivendo agora lado a lado, amor ao peito.
Decidido a nunca mais sofrer, Diogo vendeu o que tinha, e foi viver com Mariana e Benedito à aldeia nova. Fizeram da casa de Celina lar, e a vida ganhou luz de novo.
***
A sepultura da sogra cobriu-se de ervas, a lembrança dela já quase sumida. Ninguém sabe ao certo se encontrou a paz ou se, pela avareza e mágoa, quebrou o próprio destino e espalhou tanto sofrimento.
O que aprendi com tudo isto? É que o amor, a bondade e o perdão valem mais do que qualquer riqueza. E que, por mais que o mundo tente endurecer-nos, só somos verdadeiros quando mantemos o coração aberto mesmo ferido, é ele que nos guia para casa.







