Olha, deixa-me contar o que se passou com a Cristina.
Esta manhã, a Cristina estava sentada à frente do espelho, a retocar os lábios com aquele batom que o Ricardo um dia disse que lhe ficava mesmo bem Doce de cereja. Às vezes na vida, quando achamos que já não vão acontecer milagres, lá aparece um. Imagina tu, ela conheceu o Ricardo na paragem do autocarro. Ele cedeu-lhe o lugar no banco livre, ela agradeceu, puxaram conversa e começaram a trocar mensagens
Já lá vão três meses, mas parece uma vida.
Tobias, o que achas? perguntou ela ao gato, encostado à janela a bisbilhotar os pardais. Estou bonita?
O Tobias miou, assim com aquele ar importante, como quem dá a bênção. O Tobias já estava com ela há cinco anos, desde o dia em que ficou sozinha. Quando o António morreu, foi buscar o Tobias à associação do bairro e prometeu àquele gatinho minúsculo: Vais ser a minha companhia. E não é que acabou por ser?
Tobias é esperto, sente tudo. Se ela está em baixo, ele vai ter com ela e ronrona até ela sorrir. Se Cristina está feliz, ele corre pela casa feito maluco. E quando chega a manhã, lá está o Tobias, a bater-lhe com a patinha na cara até ela se levantar.
De repente toca o telefone.
Cristinita, já estou a caminho! disse Ricardo, com aquele tom alegre e seguro. Hoje fica tudo resolvido.
Ela riu-se.
Espero por ti.
Era hoje que o Ricardo lhe ia trazer as chaves do apartamento dele. Sim, decidiram ir viver juntos! No T2 dele, perto do mar, há mais luz, espaço e aquele ar puro da linha.
Cristina já se via a tomar o pequeno-almoço na varanda, a olhar para o Tejo, o Ricardo a ler o jornal, o Tobias a contemplar o mundo lá fora.
Tobias, vamos mudar de casa! Vais adorar o novo sítio, as janelas são grandes, vais ver muitos passarinhos.
Ele espreguiçou-se, saltou da janela, veio roçar-se nas pernas dela com aquele ar maroto.
Claro que vens comigo, minha bola de pêlo. Nem penses que te deixo!
Tocam à campainha. Ricardo aparece com um ramo de flores e um sorriso do tamanho do mundo. Sempre impecável, fato alinhado, cheiro a perfume caro afinal, é empresário de sucesso, não é qualquer um.
Minha rainha! abraçou-a com ternura. Preparada para a nova fase?
Preparadíssima! Anda, senta-te, faço já um chá.
Estavam os dois sentados na cozinha quando Ricardo, de repente, tira o molho de chaves e pousa com cerimónia em cima da mesa.
Aqui estão, as chaves do nosso ninho.
O Tobias, muito curioso, espreitou à porta da cozinha. Aproximou-se de Ricardo, cheirou-o de alto a baixo. O Ricardo fez uma careta.
Sempre esse gato Cristina, precisamos de falar.
Ela ficou séria, algo não estava bem.
O que se passa?
Olha, a casa é nova, o chão ainda cheira a verniz. E eu sinceramente, tenho alergia a gatos. Eles deixam pêlo por todo o lado, deixam cheiro. Eu não consigo
Cristina ficou ali, de chá na mão, a olhar para ele, sem saber o que dizer.
Ou seja?
Ou seja, com o gato não dá. Tens de decidir o que fazes com ele.
As palavras caíram-lhe como um balde de água fria.
Tobias encostou-se às pernas dela, olhou-a com os olhos redondos e amarelos, a tentar perceber. Depois pousou o olhar demorado no Ricardo. Parecia perceber mais do que muitos humanos.
Quando o Ricardo se foi embora, deixando as chaves na mesa, Cristina ficou ali especada, chá esquecido, olhos nas malditas chaves. Tobias saltou-lhe para o colo e ficou ali, a fazer-lhe companhia, no silêncio do lar.
E agora, Tobias, que faço eu? sussurrou, passando-lhe a mão pelo pelo fofo. Que faço eu?
Só lhe vinha à cabeça o decide tu do Ricardo. Mas como é que se decide? Durante cinco anos, o Tobias foi-lhe tudo a companhia, o aconchego, o sentido. Quando o António morreu, o Tobias salvou-a. Recorda-se como o trouxe a tremer para casa, como lhe deu leite com seringa, como o tirou de uma constipação feia. E de como ele, um dia, adormeceu a ronronar nos braços dela.
Lembrou-se dos pequenos-almoços juntos, das noites de chuva com o Tobias aperaltado nas pernas dela a ver televisão. Quando esteve doente, ele ficou sempre ali, encostado à cama. Quando esteve triste, Tobias trazia o ratinho de peluche, empurrava-o para o colo dela, como se dissesse brinca, vá, anima-te.
Levantou-se, ainda sem saber o que fazer. Pegou no telefone, quase a ligar à amiga Ana. Mas acabou por pousá-lo. Vai-se a ver, a Ana vai dizer que por um homem vale a pena tudo até deixar o Tobias.
Mas será mesmo assim?
Com o inverno a chegar era dezembro, os telhados já estavam cobertos pelo primeiro frio Cristina decidiu: Vou ao veterinário, ver se encontro alguém que queira um bom gato. Apesar disso, lá no fundo, algo incomodava. Custava demais.
No dia seguinte, foi ao andar de cima perguntar à D. Rosa, a vizinha que está sempre a dar pão e restos aos gatos do bairro.
D. Rosa, não conhece ninguém que queira adotar um gatinho sossegado e bom?
O Tobias?! Então porquê?
Vou mudar de casa, e lá não pode haver animais.
A D. Rosa olhou-a de lado:
Ai Cristina, nem penses! O Tobias é da casa, acompanhou-te em tudo Lembro-me bem! Nem sequer quero saber. Isso é daquelas traições que deixam ferida!
Traição a palavra ficou-lhe a latejar na cabeça.
Voltou para casa a arrastar os pés. Tobias esperava por ela junto à porta, como sempre. Ronronou, enrolou-se-lhe à volta das pernas. E ela percebeu que ele sentia tudo.
Desculpa-me, pequenino. Desculpa.
À noite, Ricardo voltou a ligar:
Então, Cristina? Resolveu-se o problema do gato?
Ainda não. Estou a tentar.
Cristina, não compliques. Ou queres estar comigo ou não? Eu sou um homem adulto, quero alguém à minha altura. Não uma miúda que põe um gato à frente do futuro.
Dá-me só mais um tempo.
Não temos muito tempo. Quero-te aqui antes do fim do ano, percebes?
Desligou. Cristina ficou com o Tobias ao colo, ambos em silêncio. Ela insistiu, para si mesma: Ele tem razão, é só um animal. E o Ricardo é pessoa séria, um homem feito. Mas soava-lhe falso.
Ao terceiro dia, a Ana liga-lhe:
Cristina, pareces-me triste! O que se passa?
Cristina contou-lhe tudo o ultimato, a procura de um novo lar, as dúvidas.
Espera, ele disse-te isso mesmo? Ou ele ou o gato?
Mais ou menos
E depois vai ser: já não quero que uses isto, já não quero que vejas aquela amiga, já não gosto que faças aquilo Sabes bem como são. Queres mesmo abrir mão de quem nunca te desiludiu?
E se fico sozinha, Ana? E se ele era o meu último comboio?
E o Tobias, não conta? Estás mesmo sozinha agora?
Cristina calou-se. Depois daquela conversa, sentou-se na sala, Tobias veio logo enroscar-se.
E se te desse? Sentias saudades?
O Tobias ronronou baixinho.
E eu? Ia ser feliz, sabendo que te abandonei?
O gato levantou a cabeça, olhou-a com um ar de ternura tão grande Cristina percebeu o absurdo: como é que alguém pede para escolher entre o amor e a companhia, sem condições, e um futuro incerto?
Logo, nova chamada do Ricardo:
Amanhã é sábado. Venho buscar-te. Já está tudo tratado, certo?
Olhou para o Tobias. Ele dormia tranquilo, como só dorme quem não impõe condições.
Ricardo, preciso de pensar mais um pouco.
Pensar o quê? Vais deitar a tua vida fora por causa de um gato?! Estás a ouvir-te?
Não podias, tu, tentar adaptar-te? O Tobias é limpo.
Já disse que sou alérgico! E, sinceramente, assim não vai dar para ti. Tens até amanhã. Última oportunidade.
Silêncio. Cristina pousou o telefone. Só se ouvia o murmurinho do Tobias.
Última oportunidade bonito serviço.
Nesse momento, percebeu que o medo não era da solidão. Era de como aceitou quase trair o único amigo leal, só por medo de estar só.
No sábado, acordou cedo, depois de uma noite mal dormida e um sonho estranho: via-se num corredor comprido, no fim estavam o Ricardo e o Tobias e tinha de escolher um deles. Acordou a suar.
Tobias veio ter com ela, deitou-se junto ao rosto e ela abraçou-o, sentiu-se reconfortada. Preparou o pequeno-almoço, mudou-lhe a água, tudo como de costume. Só não conseguia controlar o tremor nas mãos.
Quando a Ana voltou a ligar:
Cristina, decidiste?
Não, Ana. O coração diz uma coisa, a cabeça outra.
O que diz o coração?
Cristina olhou para o Tobias ao sol.
Diz-me que não o posso largar.
Pronto, filha! Resposta dada! Homem que nos faz escolher, não quer saber de ti a sério!
No início da tarde, toca a campainha. O Ricardo entra, frio e apressado.
Então, preparada? Onde está o Tobias?
O gato olhou-o de alto, ficou de olhos fixos. Cristina respirou fundo.
Não, Ricardo. Não vou deixar o meu Tobias.
Desculpa? Que história é essa?
É a verdade. Ele é meu amigo, está comigo há cinco anos. Nunca me colocou entre a cruz e a espada.
E eu? Eu não conto? Não significo nada?
Cristina olhou-o bem nos olhos. Viu claramente alguém habituado a mandar. Alguém a quem tudo é fácil menos aceitar o que escapa ao seu controlo.
Gostava de ti. Mas o Tobias nunca me obrigou a nada.
Estás-me a comparar a um gato?!
Não. Só estou a dizer que ele fica, porque me ama incondicionalmente.
Cristina, pára de ser ridícula. Eu podia dar-te tudo, mas tu preferes ficar com um bicho!
Não é um bicho, é o Tobias. O meu Tobias.
Ricardo ficou vermelho de raiva.
Então faz como quiseres. Vais perder a tua oportunidade. Não há mais destes por aí.
Talvez. Mas também não há mais destes apertou o Tobias no colo.
O Ricardo bateu com a porta.
Cristina ficou sozinha, em silêncio. Foi para a cozinha, sentou-se, Tobias subiu-lhe ao colo.
Bem, pequenino, cá estamos de novo, só os dois.
O Tobias olhou-a cheio de ternura e carinho. E, de repente, sentiu um alívio enorme. Tinha feito o que devia. As dores dos últimos dias começaram a evaporar-se.
Março chegou. A chuva miudinha parou, as primeiras flores romperam a terra e os pardais davam espetáculo. Cristina enchia o peitoril de violetas já parecia uma mata em miniatura.
Tobias, olha que linda flor! mostrou ela, animada.
O Tobias cheirou, aprovou.
Três meses tinham passado. O início foi duro, não pela solidão, mas pela dúvida: E se me enganei? E se perdi a última oportunidade? Mas aos poucos, a casa voltou a encher-se de vida. Cristina arranjou dois alunos para dar aulas de piano a Mariana, miúda traquina, e o Tiago, mais reservado. A música voltou à casa, e com ela, as gargalhadas, as histórias, o mimo.
Dona Cristina, quem é este gatinho? quis saber a Mariana.
É o Tobias. O meu amigo.
Posso fazer festas?
Claro.
Tobias esticou-se, deixou-se mimar e até bufou com prazer já tinha ali mais uma fã.
E depois, assim do nada, aconteceu algo bonito. Nos bancos do jardim apareceu o Sr. Manuel, viúvo do 5.º andar e antigo professor. Iniciaram conversa por causa do Tobias.
Que belíssimo gato! disse ele, sorridente.
Gosta de animais?
Muito! Já tive uma pastora alemã, a Dina. Faz-me falta ter companhia
Foram ficando amigos. O Sr. Manuel era bom conversador, calmo, culto e acima de tudo bondoso.
O Tobias aceita visitas? perguntou, em jeito de brincadeira.
O Tobias é criterioso. Se gostar, gosta mesmo.
Ganhou logo simpatia do Tobias e da Cristina também.
Agora, vê-la ao sol a regar as violetas, o Tobias de barriga ao léu a apanhar o calor e a vida a correr normal É vê-la feliz, sem medo, com o coração leve.
Cristina faz chá, senta-se no sofá, Tobias aninha-se nela.
Obrigada sussurra, fazendo-lhe festas. Ensinas-me sempre que amar de verdade não é pôr condições.
O Tobias responde com um ronronar que parece mesmo dizer estou aqui.
Hoje, Cristina já não teme a solidão. Porque, no fim de contas, percebeu: quem nos ama mesmo faz-nos sentir completos, mesmo quando estamos só a partilhar o sofá com um gato que nos compreende melhor que muita gente.






