A minha mãe quer entregar ao filho dela o apartamento e o dinheiro que o meu pai deixou para mim!

Os meus pais viveram juntos durante muito pouco tempo. Quando eu tinha apenas quatro anos, o meu pai saiu de casa e nunca mais voltou. Aconteceu um acidente… Mas deixou-me algumas fotos nossas da infância e uma quantia considerável em euros num banco em meu nome, que ia crescendo ano após ano.
Alguns anos depois, a minha mãe casou-se de novo e tive um irmão mais novo. Por ironia, acabei por ser a criada do meu padrasto e da minha mãe, além de servir de ama para o meu irmão.
Sempre que via a forma como a minha mãe tratava o meu irmão mais novo, sentia vontade de chorar. Era notório que gostava dele, dava-lhe beijinhos de boa-noite, abraçava-o, lia-lhe histórias, comprava-lhe brinquedos e roupa nova.
O meu padrasto também era dedicado ao seu único filho. Quanto a mim, ninguém me dava qualquer carinho… só que depois tudo ficou ainda pior. Começaram as discussões entre eles, ele passou a beber, e as brigas tornaram-se rotina. Como ninguém gostava especialmente de mim, era eu quem acabava mais maltratada. Uns anos mais tarde, afinal, divorciaram-se.
Mais tarde, fui estudar para o Porto e deixei para trás o meu irmão e a minha mãe, que ficaram a viver no apartamento que era do meu falecido pai. Raramente voltava a casa, pois além da universidade, ainda trabalhava em part-time para me sustentar.
Quando finalmente regressei a casa, passado bastante tempo, deparei-me com um cenário estranho: na casa estavam jovens que nunca tinha visto antes. A minha mãe dormia num sofá da cozinha, e aqueles desconhecidos eram amigos do meu irmão. Tentei conversar sobre a situação, mas tornou-se tudo ainda pior. No dia seguinte, acordaram-me e forçaram-me a ir ao banco levantar o dinheiro da conta que o meu pai me tinha deixado, porque o meu irmão tinha perdido uma enorme quantia a jogar às cartas.
Foi como voltar a ser aquela menina pequena que só serve para cumprir ordens dos outros.
O mais irónico é que tinha vindo para casa para partilhar uma boa notícia que estava grávida convencida de que poderíamos voltar a ser uma família unida… Mas a resposta foi outra. Disse-lhes friamente que arrumassem as coisas, porque dali em diante iriam viver com a avó, na aldeia. O apartamento era meu e não ia tolerar mais ninguém lá.
A minha mãe e o meu irmão gozaram comigo e riram-se, o que só confirmou que estava a agir bem. Liguei à polícia e ajudaram os meus familiares a fazerem as malas e a saírem da casa. Eu e o meu noivo mudámos as fechaduras e estamos a considerar vender o apartamento para comprarmos outro para a nossa família, noutra cidade. Troquei também os números das contas bancárias, porque a minha mãe ainda tentou mexer no resto do dinheiro.
Tenho a certeza de que o meu pai aprovaria a minha decisão; afinal, ele sempre quis o melhor para mim.
Hoje sei que precisamos de sermos fortes para defender o que é nosso, mesmo perante quem devia proteger-nos.

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