Era uma vez uma idosa chamada Dona Matilde, que decidiu fazer uma boa ação. Reuniu todas as coisas que já não lhe faziam falta e que apenas ocupavam espaço em casa, deixando-a inquieta. Entre essas coisas estavam blusas bonitas, vestidos, chapéus, saias tudo o que apenas enchia os armários. Dona Matilde pensou: vou levar isto tudo para a igreja, caso alguém precise. Talvez pessoas sem abrigo ou refugiados possam aproveitar.
Colocou tudo cuidadosamente num saco e deixou-o num canto da sala, pensando que o levaria no dia seguinte. Depois foi deitar-se.
E então, acreditem ou não, teve um sonho muito estranho.
Sentiu como se a sua alma deixasse o corpo e começasse a ver tudo lá de cima. Tudo parecia iluminado, embora ela continuasse no seu apartamento. E a alma dela estava tão feliz.
Via-se no meio da sala com o saco nas mãos, o mesmo que tinha preparado e planejava levar à igreja. À sua frente apareceu uma menina pequenina.
O que é que tem aí no saco, senhora?
Dona Matilde sorriu e respondeu:
Juntei algumas coisas de que já não preciso. Só ocupam espaço cá em casa. Quero dá-las a quem realmente necessita. Amanhã levo-as à igreja.
É muito generosa. Mas olhe que o saco está sujo. Lave-o antes de o entregar, pode ser?
Está bem, está bem.
Só não se esqueça disse a menina, sorrindo, antes de desaparecer.
Dona Matilde acordou de repente. Saltou da cama, recordando o sonho. Teria sido um anjo ou algo assim?
Olhou para o saco e começou a tirar tudo. Ora, se tem de o lavar, então lava.
Pode parecer ridículo. Talvez a idosa se tenha iludido por acreditar naquele sonho. Alguns diriam que era apenas superstição, mas eu discordo. Eu própria pensava assim até ao que se passou em seguida.
Numa família do mesmo prédio nasceu um menino, o segundo filho do casal. Os pais decidiram convidar amigos e familiares para partilharem a sua felicidade.
Veio muita gente. Deram parabéns, admiraram o bebé e ofereceram presentes. Contudo, ninguém o elogiou ou disse que era lindo. Os pais, supersticiosos, proibiram que se falasse da beleza do filho. Diziam que dava azar. Os convidados obedeceram e começaram a falar mal do bebé.
Que feio que ele é. Deus nos livre. Nem apetece olhar para ele.
Cada um repetia o mesmo. Depois seguiram todos para outra sala.
O irmão mais velho escutou tudo. Assistiu à forma como desprezavam o bebé. E decidiu: se o bebé era assim tão indesejado, para quê tê-lo?
Sem pensar muito, pegou no irmãozinho e correu para a varanda. Olhou à volta e atirou o bebé pela janela, tal como antes fazia às suas bonecas velhas.
Fiquei sem fôlego ao ouvir isto. Tudo teria acabado em tragédia não fosse Deus proteger os seus filhos.
Aconteceu que Dona Matilde, a senhora do sonho, vivia precisamente no piso abaixo.
Tinha acabado de lavar o saco e pendurou-o na corda da roupa fora da janela para secar.
Naquele instante, o bebé caiu do andar de cima e foi cair mesmo dentro do saco.
Quando os pais deram pelo silêncio estranho na outra divisão, já era tarde. Foram procurar e encontraram o filho mais velho na varanda. O bebé não estava lá. Perguntaram o que se passara. E o rapaz disse:
Era feio e ninguém o queria. Por isso, deitei-o fora.
O coração da mãe quase parou. O pai correu para a rua procurar o bebé. Graças a Deus, com o menino ficou tudo bem.
Que alívio! choraram os pais, abraçando o filho pequenino.
E a quem agradeceram? A Dona Matilde, claro. Ninguém falou de Deus. Só a idosa soube reconhecer que tal milagre não ocorre por acaso. Nem pensava em lavar o saco, não fosse o anjo do seu sonho.
Por que será que as pessoas acham que foi apenas sorte? E nunca agradecem a Deus?
Pensei muito sobre isso. Cada um terá a sua explicação. Eu só posso dizer uma coisa: não acredito em coincidências. Agradeço sempre a Deus porque nenhum milagre acontece sem a Sua mão.
No fundo, a vida ensina-nos que pequenos gestos de bondade, feitos de coração aberto, podem transformar-se em milagres inesperados. Nunca subestimes o poder de fazer o bem, pois às vezes é aí que a mão de Deus age silenciosamente.





