— Tenho vergonha de te levar ao banquete — disse o Denis, sem desviar os olhos do telemóvel. — Lá va…

Tenho vergonha de te levar ao jantar de empresa disse Tiago sem tirar os olhos do telemóvel. Vão estar lá pessoas. Pessoas a sério, percebes?

Teresa estava encostada ao frigorífico com um pacote de leite nas mãos. Doze anos de casamento, dois filhos. E agora, de repente, era motivo de vergonha.

Eu visto o vestido preto aquele que tu próprio compraste comigo.

Não é do vestido que estou a falar finalmente olhou para ela. És tu. Deixaste-te ir. O cabelo, a cara nem sei explicar. Vai estar lá o Vasco com a mulher. Ela é cabeleireira de moda E tu já entendes.

Então não vou respondeu Teresa, baixinho.

Isso mesmo, boa ideia. Digo que tens febre. Ninguém vai dizer nada.

Foi tomar banho e ela ficou parada na cozinha, sem se mexer. No quarto ao lado, os filhos dormiam. O Miguel tem dez anos, a Joana oito. A prestação da casa, as contas, as reuniões da escola. Teresa sentia-se dissolvida naquela rotina, naquela casa e o marido agora tinha vergonha dela.

Mas ele está doido, ou quê? desabafou Filipa, a amiga que tem um salão de cabeleireiro, olhando para Teresa como se lhe tivesse contado um drama mundial.

Vergonha de levar a mulher ao jantar? Quem pensa ele que é?

Responsável de armazém. Deram-lhe uma promoção.

E agora a esposa já não serve? Filipa deitou água a ferver no bule, zangada. Ouve bem: lembras-te do que fazias antes dos miúdos?

Era professora respondeu Teresa, quase num sussurro.

Não falo disso. Fazias bijuteria. Aqueles colares de contas! Ainda tenho ali aquele com a pedra azul. Toda a gente me pergunta onde comprei.

Teresa sorriu. Lembrou-se do aventurina, das noites a experimentar fazer brincos e colares, quando Tiago ainda a olhava com admiração e paixão.

Isso foi há muito tempo.

Se já fizeste, podes fazer outra vez Filipa aproximou-se dela, decidida. Quando é o jantar?

Sábado.

Perfeito. Amanhã vens ao salão. Faço-te um penteado e uma maquilhagem como deve ser. Assunto resolvido. Ligamos à Marta, que tem vestidos giros. E tu levas as tuas próprias joias.

Mas, Filipa, o Tiago disse

Olha, deixa lá o que ele diz. Vais ao jantar, vais estar no teu melhor. E ele que fique a ver navios.

No dia seguinte, Marta apareceu com um vestido cor de ameixa, comprido, de ombros descobertos. Andaram uma hora a experimentar, a ajustar e prender com alfinetes.

Um vestido assim pede uma peça especial de bijuteria disse Marta, girando à volta de Teresa. Prata não combina. Ouro também não.

Teresa abriu uma caixa antiga e, no fundo, embrulhado em tecido macio, estava o conjunto colar e brincos de aventurina azul, feitos por ela há oito anos, para uma ocasião que nunca chegou a acontecer.

Isto é mesmo lindo exclamou Marta, parada. Foste tu?

Fui.

Filipa penteou-lhe o cabelo em ondas suaves, sem exagero. A maquilhagem, discreta mas marcante. Teresa vestiu o vestido e prendeu o colar. As pedras pousaram frescas sobre a pele.

Vai-te ver ao espelho sugeriu Marta, empurrando-a com um sorriso.

Teresa aproximou-se e não viu a mulher cansada que passara doze anos a limpar o chão ou a fazer sopas. Viu-se, dela própria a mulher que um dia fora.

Na noite do jantar, no restaurante junto ao Tejo, a sala estava cheia, música, risos, vestidos elegantes. Teresa entrou tarde, como tinha combinado. As conversas abrandaram durante segundos.

Tiago estava encostado ao balcão, a rir com os colegas. Ao vê-la, ficou paralisado. Teresa passou sem olhar e sentou-se num canto discreto. De postura direita, mãos calmas no colo.

Desculpe, este lugar está livre?

Um homem de cerca de quarenta e cinco anos, fato cinzento, olhos amáveis.

Está. Sente-se à vontade.

Sou o Luís, sou sócio do Vasco numa padaria. E a senhora?

Teresa. Esposa do responsável de armazém.

Luís olhou com interesse para o colar.

Aventurina, certo? É feito à mão, dá para ver. A minha mãe colecionava pedras. Isto é raro.

Fui eu que fiz.

A sério? Luís inclinou-se, olhando a peça mais de perto. Isto é trabalho de artista. Vende?

Não Sou dona de casa.

Que estranho. Normalmente mãos destas não ficam paradas em casa.

A noite passou num instante. Falaram sobre pedras, criatividade, como tantas pessoas se perdem nas rotinas. Luís convidou-a para dançar, trouxe-lhe espumante, riu-se com ela. Teresa notava o olhar de Tiago do outro lado da sala, cada vez mais enciumado.

Ao final, Luís fez questão de a acompanhar ao carro.

Teresa, se alguma vez pensar em voltar à bijuteria, ligue-me disse, dando-lhe um cartão. Conheço pessoas que valorizam isto. Mesmo.

Ela aceitou o cartão, com um aceno.

Em casa, Tiago não aguentou nem cinco minutos.

O que foi aquilo? O tempo todo com o Luís! Toda a gente viu! Toda a gente percebeu como a minha mulher estava feita a uma sombra de outro homem!

Não fiz nada de mal. Só conversei.

Conversar! Dançaram três vezes! Três! O Vasco perguntou-me o que estava a acontecer. Que vergonha!

Vergonha sentes sempre, Tiago. Tens vergonha de me levar, vergonha de me veres bem-disposta. Há alguma coisa que não te cause vergonha?

Cala-te. Achas que, só por usares um trapo, és alguém? Não és ninguém. Só gastas o meu dinheiro, fazes-te de princesa agora.

Antes, Teresa teria chorado. Tinha-se encolhido na cama, virada para a parede. Mas algo dentro dela mudou. Ou finalmente se acertou.

Homens fracos têm medo de mulheres fortes disse, voz calma. Tu tens muitos complexos, Tiago. Tens medo que eu veja quem realmente és.

Vai-te embora então.

Vou pedir o divórcio.

Tiago ficou mudo. Olhava para ela, confuso, sem saber o que fazer.

Vais viver de quê? Com duas crianças? Com colares?

Consigo.

Na manhã seguinte, Teresa agarrou no cartão e telefonou ao Luís.

Luís não pressionou. Começaram a encontrar-se em cafés, para conversar sobre o negócio. Ele contou-lhe de uma amiga que tem uma galeria só para peças de autor. Disse-lhe que hoje em dia as pessoas querem originalidade, estão fartas de coisas feitas em série.

Tens mesmo jeito, Teresa. Raro, quando há talento e bom gosto juntos.

Ela voltou a criar à noite. Aventurina, jaspe, cornalina. Colares, pulseiras, brincos. Luís vendia as peças na galeria. Em menos de uma semana, já tinha tudo esgotado. Começaram a chover pedidos.

O Tiago não sabe?

Nem me fala.

E o divórcio?

Já arranjei advogada. Já comecei o processo.

Luís ajudava como podia, sem fazer alarido. Deu contactos, ajudou-a a arranjar casa alugada. Quando Teresa fez as malas, Tiago ficou de braços cruzados na entrada a rir.

Daqui a uma semana voltas para trás. A rastejar.

Ela fechou a mala e saiu, sem olhar para trás.

Meio ano passou. Um T2 arrendado na Amadora, os miúdos, trabalho sempre a aumentar. A galeria propôs uma exposição. Teresa criou uma página online, começou a publicar fotos. Os seguidores não paravam de crescer.

Luís ia visitá-los, trazia livros para as crianças, ligava de vez em quando. Nunca pressionou, nunca forçou a intimidade. Apenas estava lá.

Mãe, gostas dele? perguntou uma vez a Joana.

Gosto.

Nós também gostamos. Ele nunca grita.

Um ano depois, Luís pediu Teresa em casamento. Não houve joelhos nem rosas só um jantar onde disse com sinceridade:

Quero estar convosco. Com os três.

E ela estava pronta.

Dois anos passaram.

Tiago atravessava o Colombo de mãos nos bolsos. Depois de ser despedido o Vasco soube como ele tratava a mulher e despediu-o passados três meses aceitava trabalhos como estivador. Quarto alugado, dívidas, solidão.

Um dia, avistou-os à porta da Ouriversaria Portugal.

Teresa, de sobretudo claro, cabelo bonito, colar de aventurina ao pescoço. Luís de mão dada com ela. Miguel e Joana a rir, a contar histórias.

Tiago ficou parado, a olhar pela montra. Viu-os entrar no carro, Luís a abrir a porta para Teresa, ela a sorrir.

Olhou para o reflexo no vidro: casaco gasto, cara apagada, olhos vazios.

Perdeu a sua rainha. E ela aprendeu a viver sem ele.

O pior castigo: perceber tarde demais o que tinha realmente perdido.

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— Tenho vergonha de te levar ao banquete — disse o Denis, sem desviar os olhos do telemóvel. — Lá va…
Vou casar, mas não com esse galã. Sim, ele é um rapaz maravilhoso em todos os sentidos. Mas não é o meu.