Uma visita entre amigas em Lisboa: quando a amizade verdadeira é posta à prova pelo sarcasmo do novo…

Hoje estou a precisar de escrever sobre o que aconteceu ontem, talvez para tentar perceber melhor os meus sentimentos ou simplesmente para não os esquecer. Fui a casa da minha amiga Leonor. Ela casou-se pela segunda vez, depois de um primeiro casamento que foi um verdadeiro pesadelo. O ex-marido dela bebia demais, era insuportável, acabou por ir-se embora com outra mulher. Foi uma fase muito triste. Eu estive sempre ao lado da Leonor, apoiei, tentei animá-la como pude Afinal, é para isso que serve a amizade, não é?

Passaram-se já dez anos desde tudo isso. Entretanto, a Leonor encontrou outro homem, o Ricardo. Um senhor instruído, com um bom cargo, completamente diferente do primeiro marido. Fiquei mesmo feliz por ela. Fui finalmente conhecer a nova casa deles, que compraram aqui em Lisboa. Levei um bolo de laranja que fiz e comprei umas pequenas lembranças. A decoração estava impecável, muito bonita mesmo! Sentámo-nos depois à mesa, a beber chá e a comer o bolo. O Ricardo revelou-se imediatamente muito espirituoso. Sabe imenso de tudo, lê, gosta de conversar. Fez várias piadas, principalmente sobre mim, sobre o meu alegado pouco mundo. Até comentou que tenho a cabeça cheia de tralha. Disse que nunca li Saramago nem conhecia José Rodrigues dos Santos, e que era uma pena eu acreditar em coisas sem sentido, quando a ciência já desmente isso tudo.

Pelo caminho, brincou com o meu penteado, com a roupa que escolhi, com o meu corpo. Pareces saída dos anos 90!, riu-se. E a Leonor ria-se também, parecia fascinada com tanta graça do marido. Eu fiquei sem palavras, sem saber sequer o que responder a alguém tão letrado. Tentei mudar de assunto e contei que tinha resgatado uma gatinha da rua. Mal acabei de contar, ele disse que os gatos são transmissores de doenças e que só pessoas mentalmente instáveis é que recolhem animais abandonados, tudo por causa de narcisismo reprimido.

A Leonor riu-se de novo, especialmente quando ele começou a contar histórias sobre mulheres solteiras e as suas dezenas de gatos. Nesse momento, não consegui conter-me e as lágrimas começaram a cair-me pelo rosto. Que vergonha, parecia uma miúda descontrolada! Pedi desculpa, disse que estava com uma dor de cabeça horrível, despedi-me e saí. A dor de cabeça era real, parecia que alguém me martelava o crânio. Senti-me ainda mais envergonhada por ter chorado daquela maneira. Que fraqueza!

Caminhei para casa, as lágrimas já tinham acabado, mas tremia de frio, apesar de ser verão. Sentia-me pequena, sem jeito, incapaz de responder a conversas inteligentes, envergonhada por não ter lido certos livros, e por ter dito aquele disparate sobre um sonho premonitório

Mas, de facto, a vergonha devia ser dos que convidam amigos a casa e deixam que eles sejam humilhados. Ou daqueles que expõem as pessoas de quem gostam para depois permitirem que outros as ridicularizem. Ou quando partilhamos no Facebook um texto de um autor que admiramos, e deixamos que os outros despejem ali o seu veneno. Tudo isto é do mesmo tipo: uma traição silenciosa.

No fundo, trair é expor quem é nosso a ser gozado ou destruído. Isso é traição.

Eu não conseguiria pôr isto em palavras quando fui para casa ontem, não sou assim tão lida, não sou intelectual. Só queria chegar ao meu apartamento, onde a minha gata Aurora me esperava. A Aurora não lê livros. Não faz piadas brilhantes. Só salta para o sofá e enrosca-se a meu lado, ronronando baixinho

Nunca mais voltei a casa da Leonor. Na verdade, pouco tempo depois já não fazia sentido ir lá: ela e o Ricardo começaram a discutir a divisão da casa, acabaram em tribunal. Aquele grande intelectual mostrou-se talvez demasiado esperto e determinado.

Mas acontece sempre assim. Quem é o motivo de uma traição, acaba por trair também é uma cadeia simples. O que teria custado à Leonor, afinal? Apenas travar um pouco aquele humor às custas dos outros. Não permitir que gozassem com uma amiga lá em casa. Talvez o Ricardo acabasse por a respeitar mais. Ou talvez não tivesse sequer tido coragem de agir dessa maneira.

Ao traidor, ninguém respeita. E é fácil ser traído também…

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