A Vovó Cuidadosa: Eliza Matveeva, uma senhora portuguesa enérgica e determinada um pouco depois dos …

A avó cuidadosa

Elvira Martins, senhora vibrante e obstinada ligeiramente acima dos sessenta, disse certo dia à sua neta:

Mafalda! Esperei até onde foi possível, mas já não aguento. Vais finalmente deixar-me morrer em paz?

Mafalda, franzina e de cabelo preto, licenciada em História da Arte, achou o comentário da avó absolutamente surreal.

Quando te vais casar?! Para eu descansar com a alma serena? Já tens quase vinte e sete anos, continuava Elvira, Sabes por que motivo me meti três meses de férias na casa de campo daquela velha tonta da D. Matos, assistindo vinte vezes por dia ao drama das suas hemorróidas? Para que tu organizasses a tua vida. Mas nem sequer conheceste alguém!

Avó, onde e quando é que queres que me envolva com alguém? Entre o trabalho, aulas de espanhol e a tese… No meu museu, só há solteiros do género do Sr. António Pacheco, que tu já viste.

Sim, António Pacheco isso não é peixe, é mais uma camarão moribunda, admitiu Elvira com seriedade.

No dia seguinte, telefonou à velha tonta D. Matos e descobriu que a neta dela conhecera o futuro marido numa discoteca.

Infelizmente, Mafalda não vai a discotecas; logo, Elvira teria de avaliar ela própria o potencial masculino no clube ou procurar outros locais propícios.

Elvira soube que as senhoras entravam grátis no clube das 21h às 24h, e sem perder tempo, nessa noite, foi para lá, informando Mafalda que ia apenas dar uma volta antes do sono.

Após um duelo verbal onírico com o segurança que tentou lembrar-lhe a idade Elvira ocupou um banco alto no balcão, com ajuda do próprio segurança, e examinou o ambiente com severidade. O clima tornou-se estranho, como numa reunião de pais na escola quando surge o diretor e apanha um grupo de alunos a beber cerveja.

Gosta do ambiente? perguntou o barman, arrastando-lhe um copo alto. Um cocktail sem álcool. Oferta da casa.

Não. Absolutamente nada promissor, atirou Elvira. Uma jovem decente aqui não faz pescaria alguma. Aliás, podias arriscar-te a juntar uma gota de brandy ao cocktail. E aquele ruivo, tem problemas nas ancas ou agora dança-se assim?

Antes do Ano Novo, Elvira fez visitas surreais: concerto de rock, espetáculo de fogo, noite de fado, competição de ciclismo radical, torneio de sueca e, já desesperada, um encontro de jovens poetas. Os poetas foram o limite. Nem valia a pena lançar isco imagina se algum mordia.

Sim, Mafaldinha, entendo-te bem. No meu tempo, hesitei entre o teu avô e outros dez, todos à altura. Até aquela velha Matos podia escolher, mas passou a vida de olhos fixos no teu avô. Os jovens de hoje, Mafalda, tornaram-se magros e insípidos, não há um que mereça um olhar demorado.

Já em março, Elvira, após visitar D. Matos, decidiu passar pelo local de trabalho da neta. Ao aproximar-se do museu, escorregou e caiu, felizmente não nas escadas. Um militar correu a ajudá-la a levantar. Elvira, apoiada no bom samaritano, verificou se havia fraturas ou entorses, olhou fixamente para ele e disse:

Senhor major, vejo que é tanqueiro. O meu falecido marido comandou um regimento de tanques. Diga, tem uma hora livre?

O major, convencido de que teria de levar a ex-mãe-comandante a casa e irritado consigo próprio, assentiu com resignação.

Ótimo. Agora diga: já visitou este museu histórico? Não? Que desperdício. Recomendo vivamente. Entre já! E peça uma visita guiada com Mafalda Martins. É uma excelente guia, não vai arrepender-se.

Nem o próprio major percebeu como entrou no museu a avó parecia hipnotizá-lo

***

Há pouco, Elvira murmurou ao bisneto adormecido, Mário:

És tu, meu raio de sol, meu ursinho, que vais para a escola em breve, o teu pai termina a academia militar, a tua mãe finalmente acaba o doutoramento. Posso partir tranquila. Mas vais crescer sozinho, meu pardalinho? Não, precisas de uma irmã! Quando nascer a tua irmã, e ela for à escola, então Bem, depois logo se vêE com um sorriso astuto, Elvira fechou os olhos por um instante, imaginando Mafalda a rebater-lhe argumentos, a contestar tradições, a inventar novos caminhos. O pequeno Mário mexeu-se no sono, agarrando o dedo da bisavó com força, como quem pede: continua por perto, nem que seja só um pouco mais.

No corredor, Mafalda conversava com o major, ambos a rir baixinho, conspiradores de um futuro improvável. Elvira sentiu-se finalmente serena. Percebeu que, embora nunca deixasse de ser cuidadosa, havia chegado o tempo de confiar: à neta, ao futuro, aos próprios sonhos de quem veio depois. E, enquanto lá fora uma brisa suave agitava a cortina do quarto, Elvira prometeu silenciosamente nunca parar de desejar desejando, assim, que vidas se juntassem, que novas histórias surgissem, e que, por mais que o tempo passasse, o amor nunca perdesse o seu sabor.

Num sussurro, deixou escapar:

A alma só descansa quando sabe que as sementes florescem.

E ali, no calor dos seus, Elvira sorriu, sem pressa de partir, porque para um coração cuidadoso, sempre há mais um instante para amar.

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