Olha, deixa-me contar-te uma história que me tocou mesmo.
Era uma manhã, aquele rapazinho, o Tiaguinho, acordou com o gemido da mãe, Ana, do outro lado do quarto.
Chegou perto da cama, ainda meio sonado:
Mamã, estás com dores?
Tiaguinho, traz-me um bocadinho de água, por favor!
Já vou, mãe!
saiu disparado para a cozinha.
Voltou logo com um copo cheio:
Toma, mamã, bebe!
Nesse instante, ouviram uma pancada na porta.
Tiago, abre!
Deve ser a avó Catarina.
Era a vizinha Catarina, que entrou com um sorriso e uma caneca grande na mão.
Como te sentes, Ana?
tocou-lhe na testa Olha, estás a arder!
Trouxe leite quente com um pouco de manteiga, é bom para a garganta.
Já tomei o remédio…
Precisavas de ir ao hospital para tratar-te bem.
Também tens de comer melhor, mas olha o teu frigorífico, está vazio!
Dona Catarina, já gastei todo o dinheiro nos medicamentos Ana mal conteve as lágrimas.
Nada resulta…
Vai ao hospital.
E o Tiaguinho, quem fica com ele?
Ana, se tu morreres, quem cuida do Tiago?
Nem trinta tens, sem marido, sem dinheiro acariciou-lhe o cabelo Pronto, não chores!
Dona Catarina, o que posso fazer?
Vou chamar o médico disse ela, pegando no telemóvel.
Falou com os serviços, confirmou tudo.
Disseram que vêm hoje, logo.
Quando chegarem, eu chamo-te, Tiago.
Foi para a entrada e Tiago foi atrás dela.
Avó Catarina, a minha mãe não vai morrer, pois não?
Não sei, meu querido…
Temos de pedir a Deus, mas a tua mãe não acredita nele.
E Deus, o avô, ajuda?
Vai à igreja, acende uma vela e pede.
Ele ouve.
Vou andando.
***
O Tiago regressou à mãe, pensativo.
Tiaguinho, deves estar com fome, não temos nada.
Traz dois copos.
Quando os trouxe, a mãe dividiu o leite:
Bebe!
Ele bebeu, mas ficou ainda com mais fome.
A Ana percebeu logo, levantou-se com dificuldade, pegou na carteira:
Aqui tens cinco euros.
Vai comprar dois bolos e come, eu vou tentar fazer qualquer coisa.
Vai!
Despediu-se do filho e, agarrada à parede, foi até à cozinha.
O frigorífico só tinha uma lata de atum barata, um pouco de margarina; na janela, duas batatas e uma cebola.
Tenho que fazer uma sopa…
O mundo começou a girar e ela sentou-se cansada no banco, a pensar:
Que me está a acontecer?
Nem forças tenho.
O dinheiro acabou, metade das férias já passou.
Se não voltar ao trabalho, como é que arranjo material para o Tiago?
Ele vai para o primeiro ano daqui a um mês.
Não tenho família, ninguém para ajudar…
Esse maldito vírus!
Devia ter ido logo ao centro de saúde.
E se agora tiver de ser internada, Tiago fica sozinho?
Levantou-se com esforço e começou a descascar as batatas.
***
A fome era muita, mas a cabeça do Tiago ficou só com uma ideia:
A mãe ontem nem da cama saiu…
E se morre mesmo?
A Dona Catarina disse para pedir ao avô Deus… e foi, decidido, à igreja.
***
No mesmo dia, estava ali o Manuel, um homem que voltou da guerra há meio ano.
Sobreviveu por um milagre, conseguia andar com uma bengala, mas os ferimentos já nem o incomodavam.
As cicatrizes no rosto?
Achava que nunca ia casar pensava ele, caminhando para a igreja.
Hoje faz um ano que os meus dois amigos morreram, e eu aqui fiquei…
Foi ao exército há vinte anos, agora era civil.
Tinha uma boa pensão, dinheiro para viver bem, até mais guardado, mas de que serve se está sozinho?
Na entrada da igreja, estavam alguns pedintes.
O Manuel tirou uns euros e deu-lhes:
Rezem pelos meus amigos Miguel e Luís, que morreram há um ano!
Entrou, comprou velas, acendeu-as e recitou a oração que o padre lhe ensinara:
Recorda, Senhor Deus nosso…
Fazia o sinal da cruz, e via os amigos, como se ainda lá estivessem.
Quando acabou a oração, ficou só a recordar a vida complicada.
E o Tiago, pequenino e magro, apareceu com uma vela barata na mão, sem saber o que fazer.
Uma senhora mais velha aproximou-se:
Deixa, eu ajudo!
Acendeu a vela dele e mostrou como se fazia o sinal da cruz.
E agora fala com Deus, diz-lhe porque vieste.
O Tiago ficou a olhar para o santo, e depois pediu:
Ajuda, avô Deus!
A minha mãe está doente.
Só tenho a ela.
Faz com que fique boa.
Não temos dinheiro para o remédio, e vou para a escola, mas nem mochila tenho…
O Manuel ficou parado, a observar aquele menino.
De repente, todos os seus próprios problemas ficaram pequeninos.
Quis gritar ao mundo:
Será que ninguém pode ajudar este miúdo, comprar-lhe uma mochila e os remédios à mãe?
O Tiago esperava um milagre.
Amigo, vem comigo!
disse o Manuel, decidido.
Para onde?
Tiago assustado, tão pequeno ao lado daquele homem forte com a bengala.
Vamos saber que remédios precisa a tua mãe e à farmácia.
A sério?
O avô Deus ouviu o teu pedido.
Mesmo?
os olhos brilharam.
Vá, anda!
Como te chamas?
Tiago.
Chama-me tio Manuel.
***
Em casa, ouvia-se a Ana e a vizinha Catarina:
Dona Catarina, a médica receitou-me tanta coisa e é tudo caro.
Só me resta cinco euros.
O Tiago abriu a porta com convicção.
Fizeram silêncio.
A vizinha espreitou e ficou surpresa, ao ver o Manuel.
Ana, que remédios precisas?
O tio Manuel e eu vamos à farmácia buscar.
E quem é o senhor?
perguntou Ana, estranhando.
Vai tudo correr bem, sorriu o Manuel.
Dê-me as receitas!
Mas eu só tenho cinco euros.
Nós vamos arranjar o dinheiro, Manuel pôs a mão no ombro do Tiago.
Mamã, dá as receitas!
Ana deu-as, sentiu no coração que aquele homem, de rosto marcado, era bondoso.
Ana, mas tu nem o conheces alertou Catarina, quando eles saíram.
Dona Catarina, sinto que é boa pessoa.
Pronto, Ana, vou andando.
***
Ana ficou a esperar o filho e o homem.
Esqueceu-se da doença.
Quando a porta se abriu, o Tiago correu, radiante:
Mamã, trouxemos os teus remédios e umas coisas boas para o chá!
O Manuel apareceu também, sorrindo, e já não parecia tão assustador.
Obrigada!
disse Ana, tímida.
Entre, por favor!
O Manuel tentou tirar os sapatos, foi difícil, estava nervoso.
Entrou na cozinha.
Sente-se aqui Ana ajudou a pôr a bengala junto à cadeira.
Desculpe, mas quase não tenho nada para oferecer.
Mamã, já comprei tudo com o tio Manuel o Tiago foi a retirar as compras.
Oh, não era preciso!
Ana murmurou, reparando que boa parte eram doces.
Viu um pacote de chá caro.
Vou já preparar o chá.
Pôs a água a ferver, sentiu-se melhor, talvez por não querer mostrar-se doente ao homem.
Ele percebeu logo:
Ana, não queres descansar um pouco, estás pálida?
Não faz mal…
Vou tomar o remédio agora.
Obrigada!
***
Tomaram chá, comeram doces, e o Tiago falava, animado, sobre tudo.
Os olhares cruzaram-se, sentiam-se bem juntos.
Mas tudo o que é bom, uma hora acaba.
Obrigado!
Manuel levantou-se, pegou da bengala.
Vou indo.
Precisas de cuidar de ti.
Muito obrigada!
Ana levantou-se também.
Nem sei como agradecer.
Manuel foi para a entrada, Ana e Tiago atrás.
Tio Manuel, vai voltar?
Claro!
Quando a tua mãe ficar boa, vamos juntos comprar a tua mochila.
***
Manuel foi embora.
Ana arrumou, lavou tudo.
Tiago, vê televisão, eu vou descansar.
Deitou-se, adormeceu profundamente.
***
Duas semanas depois, a doença já era passado.
Os remédios caros tinham resultado.
Ana até voltou a trabalhar, tinham chamado do trabalho para aquele mês, o que a deixou feliz ia receber extra.
Agosto chegou, precisavam de preparar o Tiago para a escola.
Nessa manhã de sábado, levantaram-se, tomaram pequeno-almoço.
Tiago, arruma-te!
Vamos ao supermercado ver o que precisas para a escola.
Já te pagaram?
Só na próxima semana, mas já adiantei mil euros, depois vamos comprar comida.
Começaram a preparar-se, e o intercomunicador tocou.
Quem é?
perguntou Ana.
Ana, sou o Manuel…
Ela nem esperou, já abriu a porta.
Mamã, quem é?
Tio Manuel!
Ana mal continha a alegria.
Viva!
Manuel entrou, ainda com bengala, mas estava diferente: roupa bonita, cabelo cortado.
Tio Manuel, estava à espera!
Tiago correu para ele.
Eu prometi-te sorriu, olhos brilhantes.
Olá, Ana!
Olá, Manuel!
A troca para o tu deixou-os surpreendidos e felizes.
Já estão a postos?
Vamos!
Para onde?
Ana ainda sem perceber.
O Tiago vai para a escola.
Manuel, mas eu…
Prometi ao Tiago, promessa é promessa.
***
Ana sempre procurava as opções mais baratas, fosse em que loja fosse.
Não tinha dinheiro de sobra, nem família, nem marido.
Só aquele namorado dos tempos de faculdade, que desapareceu.
Mas agora estava ali, ao seu lado, um homem que olhava o filho com carinho, comprava tudo o que era preciso para a escola, nem olhava para os preços, só perguntava opinião à Ana.
Voltaram com sacos cheios, de táxi.
Ana quis ir imediatamente para a cozinha.
Ana interrompeu o Manuel vamos dar uma volta, almoçar fora os três.
Mamã, vamos!
gritou Tiago.
***
Nessa noite Ana não conseguia dormir.
Pensava no dia, via os olhos do Manuel cheios de ternura.
O cérebro e o coração pareciam conversar:
O Manuel é feio e manca, dizia a razão.
Mas é bondoso e olha por mim com amor, respondia o coração.
É muito mais velho.
O que interessa?
Ele é como um pai para o Tiago.
Podes arranjar alguém mais novo, bonito.
Não preciso, já tive um assim.
Quero alguém bom e firme.
Mas não era assim que sonhavas com o teu marido.
Agora sonho!
Com ele.
Mudas depressa de ideia?
Encontrei o homem…
Estou apaixonada!
***
O casamento deles foi naquela igreja, mesmo onde o Tiago e o Manuel se conheceram há três meses.
Manuel e Ana estavam juntos diante do altar; a bengala já não estava lá, e o Tiago olhava para o santo, com quem conversou naquele dia.
Depois disse com toda a alma:
Obrigado, avô Deus!





