A minha nora avisou que não queria duas patroas na mesma cozinha, e eu ajudei-a a fazer as malas

Este trambolho vamos pôr fora. Ou, se tanto lhe faz falta, leve para o quintal mas duvido que haja espaço para isto. Num ambiente moderno, Dona Filomena, não há lugar para monstros de ferro fundido.

O som do metal chocando fez Filomena estremecer. Ela estava à porta da sua própria cozinha e não acreditava no que via. Junto ao caixote do lixo, de costas direitas, estava Mafalda esposa do seu filho Rui. Nas mãos segurava a velha frigideira de ferro fundido em que Filomena fazia, há trinta anos, as melhores panquecas do bairro.

Não era um objeto qualquer. Era memória. A frigideira fora prenda da mãe, quando Filomena, jovem e cheia de sonhos, entrou neste apartamento. Com ela se fritava batatas nos anos difíceis de noventa, nela se aqueciam almôndegas para o pequeno Ruí quando chegava da escola.

Mafalda, põe isso no lugar, pediu Filomena, calma mas decidida. Isso é meu.

A nora voltou-se, com aquele ar de superioridade típico de quem vê idosos ou crianças como incapazes.

Filomena, nós combinámos, explicou, como se fosse óbvio. Eu e Rui comprámos um conjunto novo, com revestimento cerâmico e antiaderente. Qualidade alemã! Para que guardar este traste? Só ocupa espaço na gaveta de baixo, onde queria pôr o meu liquidificador.

Nunca autorizei mexer nas minhas coisas, a voz de Filomena endureceu. Vivem aqui há três meses. Combinaram poupar para a entrada do apartamento; eu ajudei ao permitir que ficassem sem pagar renda. Mas não significa que podem deitar fora o que é meu.

Com um estrondo, Mafalda largou a frigideira sobre a mesa, quase partindo a superfície.

Exato! Vivemos aqui. E queremos conforto. E vou ser sincera: duas donas numa cozinha não funciona, toda a gente sabe. Como esposa e cozinheira do meu marido, faz sentido ser eu a mandar na cozinha. Pode ceder, não custa nada, já fez a sua parte.

Filomena sentiu o nó na garganta. Olhou para o relógio. Eram sete da tarde. Rui ia chegar.

Está bem, Mafalda. Vamos falar quando Rui chegar.

Ele concorda comigo, bufou Mafalda, fazendo questão de trocar o tacho de sopa para a prateleira mais baixa e difícil, liberando espaço para os seus iogurtes. Ele acha que a casa precisa de modernização.

Filomena retirou-se sem dizer mais nada. Foi ao quarto, tomou um pouco de calmante e tentou refletir. A situação fugia ao controlo como leite a ferver.

Três meses antes, Rui trouxe Mafalda, e hesitante pediu: Mãe, podemos ficar um ano? As rendas são impossíveis, nunca conseguimos juntar para a entrada assim. Filomena disse sim imediatamente. Conhecia Rui, queria a felicidade dele. Tinha um apartamento grande uma T3 num prédio dos anos 50, conquistada com muito esforço e trocas no tempo antigo. Espaço não faltava.

O primeiro mês foi tranquilo. Mafalda era discreta, tratava Filomena com respeito, pedia autorização até para usar cabides. Mas mal assinou o casamento, mudou. Primeiro, partiu sem querer o vaso preferido de Filomena. Depois, inventou alergia à gerânia e as flores foram distribuídas pelos vizinhos. Agora atacava o coração da casa a cozinha.

À noite, enquanto Rui jantava (sopa de Filomena, pois Mafalda não teve tempo para a salada saudável), a mãe iniciou o assunto.

Rui, precisamos conversar, sentando-se à frente dele.

Mafalda logo apareceu atrás do marido, mãos nas costas dele, como uma ave a proteger o ninho.

Sobre o quê, mãe? Rui parecia exausto. Era programador, passava o dia no computador e conflitos domésticos eram um tormento.

Mafalda tentou deitar fora minha frigideira hoje. E disse que só pode haver uma dona na cozinha. Quero saber o que isso significa.

Rui parou de mastigar, olhou para a mãe, depois para a mulher. Mafalda fez beicinho.

Eu avisei! Ela ia reclamar! Amor, só quero tornar a casa mais aconchegante. Para ti! Está tudo velho, desorganizado…

Minha louça está limpa, ripostou Filomena.

Mãe, para quê esse drama? Rui torceu o nariz. Mafalda só quer organizar, fazer melhor. Deixe trocar os potinhos, qual o problema? Ela quer criar um lar.

O lar constrói-se numa casa própria, filho, Filomena murmurou. Em casa alheia há normas.

Lá vem outra vez, revirou os olhos Mafalda. Sempre com provérbios! Rui, fala tu! Somos família! Por que tenho que me sentir hóspede?

Porque ainda é hóspede, Filomena quase disse, mas conteve-se. Não queria separar o filho do casamento. Só peço uma coisa: não mexam nas minhas coisas sem consultar. Esta é minha casa.

Nossa, mãe, nossa, Rui tentou conciliar. Estou registado aqui, sabia?

Pairou uma tensão pesada. Filomena olhou para Rui, e viu apenas incompreensão masculina e desejo de paz. E por detrás dele, Mafalda sorria vitoriosa.

As duas semanas seguintes foram guerra fria. Mafalda não tirava coisas publicamente, mas começou a minar Filomena psicologicamente.

Filomena chegava à cozinha e via a toalha de mãos jogada no chão, substituída por uma nova de Mafalda. Sal e açúcar misturados, a caneca preferida escondida no fundo do escorredor, cercada por pratos.

O pior veio num sábado. Filomena ia passar o fim de semana na casa de campo. Adorava fugir para o campo, mesmo no outono. Era um tempo de sossego.

Vai embora, Dona Filomena? Mafalda perguntou, saindo do banho com uma toalha na cabeça. Que bom! Vamos ter amigos, queríamos jogar Monopólio, pedir pizza. Pensámos que podíamos incomodar.

Só volto amanhã ao almoço, respondeu Filomena, a vestir o casaco.

Porque não fica até segunda? sorriu Mafalda, pestanejando. Lá o ar é melhor… Aqui ficávamos com o espaço, sabe como é, jovens precisam de privacidade.

Filomena olhou para Rui, que fingia estar absorto no telemóvel.

Está bem, disse secamente. Volto na segunda.

Partiu, mas sentia-se mal, como se fosse sendo arrancada pedacinho a pedacinho da própria vida.

Ao regressar na segunda de noite, não reconheceu o apartamento. O tapete do hall tinha sido trocado por uma base de borracha moderna. As cortinas estavam diferentes. E na cozinha…

A mesa de madeira maciça desaparecera. No lugar, estava um balcão alto com dois bancos.

Filomena pousou o saco das maçãs no chão.

Onde está a mesa? entrou, procurando por ela.

Mafalda estava sentada ao balcão, com café da nova máquina que também não existia antes.

Já voltou? nem se virou. Levámos a mesa para a varanda. Ocupava meia cozinha. O balcão é moderno, jovem, Rui adorou.

Na varanda? Filomena sentiu o olho tremer. Na varanda aberta, em novembro, à chuva?

Não tem problema. É madeira, não se estraga, afastou Mafalda. Sente-se. Temos de conversar.

A nora desceu do banco, cruzou os braços junto à janela.

Eu e Rui achamos… Aliás, foi ideia minha, ele concordou. Está apertado. Duas famílias não cabem. Isso prejudica o casamento.

Sugere ir para arrendamento? Acho sensato.

Mafalda riu, com uma risada ácida.

Arrendar? Para quê pagar quando há alternativas? Tem uma excelente casa de campo. Com lareira, eletricidade. Disse que gosta do campo. Podia ir viver lá, uns anos, até conseguirmos nosso apartamento. Nós vamos nos fins de semana, levamos mantimentos. Assim tem sossego, ninguém incomoda, ar puro. E nós, ficamos a cuidar do apartamento.

Filomena ficou em silêncio. Olhou para aquela mulher jovem, bela e convicta. Percebeu: era o fim. A linha fora cruzada. Era mais do que falta de respeito: era invasão.

Rui sabe desta proposta? perguntou baixinho.

Claro. Discutimos ontem. Ele disse: Se a mãe não se importar, porque não?

O se a mãe não se importar cortou-lhe o coração. O filho tinha desistido dela. Para não enfrentar conflitos, para agradar à mulher, estava disposto a exilar a mãe na casa de campo, com wc externo e água do poço.

Filomena levantou-se. Um gelo frio instaurou-se dentro dela o mesmo que usava nas negociações firmes, quando era chefe de contabilidade numa fábrica nacional.

Percebi, Mafalda. Onde está Rui?

Ainda está a trabalhar. Chega daqui a uma hora.

Ótimo. Temos esse tempo.

Filomena foi ao quarto. Retirou a pasta dos documentos. Certidão azul de propriedade, contrato de compra, papel de registo. Revê todos, embora saiba de cor: único proprietário Filomena Soares. Rui só está registado, abriu mão da parte há dez anos para conseguir crédito para um carro.

Voltou à cozinha.

Mafalda, levanta-te.

Como? a nora ergueu a sobrancelha.

Vai buscar as malas ao quarto.

Porquê, vamos de férias?

Tu vais. Vais para tua terra, para o quarto da mãe, para arrendamento, não me importa.

Mafalda ficou lívida, depois ruborizou.

Está a expulsar-me? Sou mulher do seu filho! Tenho direito aqui!

Não, menina. Não tem, Filomena pousou os papéis no balcão. Segundo a lei portuguesa, só familiares do proprietário têm direito de uso. Neste caso sou eu. Posso retirar esse direito a ex-familiares ou quem não respeite as regras de convivência. Nem é preciso tribunal: tu não estás registada. És hóspede começaste a mexer no mobiliário.

Rui nunca lhe perdoará! gritou Mafalda. Vai embora comigo!

É escolha dele, Filomena calma. Se quiser ir com quem tenta expulsar a mãe para o campo em novembro, sem aquecimento decente felicidade então. Criei um homem, não um ingênuo. Vamos ver quem ele é.

Nesse momento, a porta abriu. Rui entrou, sentiu imediatamente a tensão, viu a casa transformada, a mulher lívida, a mãe calma.

O que aconteceu? tirou os sapatos.

A sua mãe está a mandar-me embora! berrou Mafalda, correndo para ele e fingindo chorar. Diz para juntar as minhas coisas! Rui, faz algo! Ela é louca!

Rui olhou confuso para Filomena.

Mãe? É verdade?

É, filho, Filomena olhou-lhe nos olhos. Mafalda hoje sugeriu que eu fosse viver no campo para libertar o apartamento. Concordas em mandar a mãe de sessenta anos carregar água no inverno só para tua mulher ter um balcão novo?

Rui ficou tão vermelho que os ouvidos pareciam vinho tinto. Baixou os olhos.

Mãe… nós só pensámos… No verão é agradável…

Agora é novembro, Rui.

Rui calou-se, a vergonha finalmente o atingiu. Entendeu o alcance do que tinha assentado, distraído pelo telemóvel.

Mafalda disse: Duas donas não cabem na mesma cozinha. Concordo. Só eu sou dona aqui. Ganhei esta casa, fiz o lar, criei-te aqui. Não permito que digam onde deve estar minha frigideira nem onde devo viver. Por isso, Mafalda vai arrumar a mala. Agora.

Rui! Mafalda bateu o pé. És homem ou não? Defende-me! Somos casal!

Rui olhou para ela. Pela primeira vez, viu não a mulher querida, mas uma pessoa mimada, capaz de expulsar a mãe do próprio lar. Lembrou-se da mesa de carvalho que o pai carregou ao quinto andar. Agora estava fora, à chuva.

Mafalda, a voz de Rui vacilou mas foi firme. Vai arrumar as tuas coisas.

O quê? Vais trair-nos?

Passaste dos limites, suspirou. A mãe está certa. Esta é a casa dela. Nós ultrapassámos. Vou ajudar-te a juntar as coisas.

Não vou! Chamo a polícia!

Chama, Filomena tirou o telemóvel. Mostro o registo da casa e teu cartão sem morada aqui. Eles ajudam a sair mais rápido.

Passou-se uma hora de caos. Mafalda gritou, lançou objetos, chamou Rui de dependente da mãe, Filomena de bruxa. Mas as malas foram enchendo. Filomena trouxe até sacos grandes para roupa dela que Mafalda nem teve tempo de dobrar.

Posso ajudar, Filomena, calmamente, segurou o casaco de Mafalda.

Não toque! gritou Mafalda. Faço eu!

Quando enfim a porta bateu (Mafalda saiu no táxi, a ameaçar pedir divórcio e metade do património mas não havia nada para dividir), instalou-se um silêncio cristalino.

Rui sentou-se no banco do balcão, cabeça entre as mãos.

Desculpa, mãe, murmurou. Senti-me num nevoeiro. Achava que tudo ia resolver-se.

Não se resolve se não tomar iniciativa, Filomena abraçou Rui. Amor é importante, mas respeito mais ainda. Não se constrói felicidade passando por cima de outros sobretudo pais.

Também me vai mandar embora?

Claro que não. Vive aqui. Mas com uma condição.

Qual?

Traga a mesa de volta da varanda. E resgate a minha frigideira, se não foi para o lixo. Amanhã faço panquecas.

Rui sorriu timidamente.

Está na chuteira, mãe. A frigideira.

Não faz mal. Compramos outra. De ferro fundido. E trazemos a mesa de volta.

Rui ficou. O divórcio foi rápido dois meses. Descobriu-se que o amor de Mafalda dependia mais do metro quadrado e do registo na Amadora, sem isso Rui deixou de ser homem ideal.

Seis meses depois Filomena estava de novo na sua cozinha. A velha mesa de carvalho retomou o lugar, coberta por toalha engomada. No fogão, uma nova frigideira de ferro fundido Rui encontrara uma igual no mercado, limpou e deu de presente.

Rui começou a namorar uma nova rapariga, Leonor. Discreta, calma. Ontem apresentou-a a Filomena. Ao entrar na cozinha, Leonor exclamou:

Que cozinha tão acolhedora, Dona Filomena! Que cheiro… Panquecas? Posso ajudar? Não sou perfeita, mas sou esforçada.

Claro, querida, sorriu Filomena, entregando o avental. Fica ao meu lado. A cozinha é para todos, desde que sejam boas pessoas.

E Filomena pensou que, afinal, se pode conviver duas donas numa cozinha. Quando uma é sábia e a outra agradecida. O balcão foi vendido no OLX. Nunca se encaixou numa casa onde se valorizam tradição e calor humano.

Se esta história lhe tocou, agradeço seguir o canal. Deixe um gosto e conte nos comentários se já precisou de defender os seus limites perante familiares.

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A minha nora avisou que não queria duas patroas na mesma cozinha, e eu ajudei-a a fazer as malas
Foi-se e Ainda Bem — Como assim “o número que ligou está desligado”? Mas há cinco minutos estava ao telefone com alguém! — Natália ficou plantada no meio do hall de entrada, apertando o telemóvel contra o ouvido. Olhou para a cómoda. A caixinha das jóias estava no mesmo sítio. Mas algo não batia certo: a tampa não estava completamente fechada. — Romeu! — chamou para dentro do apartamento. — Estás na casa de banho? Natália aproximou-se devagar da cómoda. Quando tocou na madeira polida, um arrepio percorreu-lhe as costas: lá dentro, não havia nada. Nada de nada. Nem o talão da ourivesaria, que ela usava de marcador de página, restava. As jóias tinham desaparecido… e o dinheiro também. Verdade seja dita, ela própria lho entregara… — Meu Deus… — sussurrou, escorregando até ao chão. — Como é possível? Ontem discutimos sobre o papel de parede… E ele prometeu que íamos ao Algarve em agosto… E tudo começou de forma ridiculamente banal. Em junho do ano passado, o pistão do seu “pópó” encravou-lhe. Na oficina pediram-lhe um balúrdio, por isso, irritada, foi ao grupo “Ajuda Auto Portugal” procurar resposta. “Pessoal, alguém sabe se é possível desbloquear o pistão do travão se ficou preso? — escreveu, com uma foto da roda suja em anexo”. As respostas choveram. Uns diziam “não te metas nisso, rapariga”, outros sugeriam trocar a peça. De repente, apareceu um comentário de um tal Romeo85: “Não ligue, menina. Compre um spray WD-40 e um kit de reparação barato. Tire a roda, empurre o pistão com o pedal, mas atenção, não vá até ao fim. Limpe tudo com líquido de travões e lubrifique. Se o cilindro estiver limpo, o carro vai andar impecável”. Aquilo pareceu-lhe sensato, sem arrogância. “E se o cilindro estiver picado?”, respondeu ela. “Só trocando. Mas pelo aspecto das fotos, o seu carro está bem estimado. Duvido que esteja assim tão mau. Se precisar, mande mensagem privada, ajudo como puder”. E assim ficaram a conversar. Romeu percebia mesmo do assunto. Numa semana explicou-lhe como mudar o óleo, escolher velas e até aconselhou que anticongelante não usar. Natália começou a dar por si à espera das mensagens dele. “Olha, Romeu, vales ouro — escreveu no final de julho. — Se quiseres, um dia destes ofereço-te um café… ou algo mais forte, com o dinheiro que poupei”. A resposta não chegou logo. Demorou três horas até o telefone piscar. “Natália, adorava aceitar. De verdade, mas neste momento estou de serviço, uma missão longa… E estou… fora de Portugal, digamos assim”. “Fora? Onde?” “Mais longe é impossível. Não quero mentir-te. Gosto mesmo de ti, enquanto pessoa. Mas não estou em missão: estou a cumprir pena. EPL-Tires, se isso te diz alguma coisa”. O telemóvel caiu-lhe no sofá. Tudo dentro do peito lhe doeu. Um presidiário? Ela, mulher de bem, contabilista numa empresa importante, há duas semanas a trocar mensagens com um criminoso?! “Porquê?” — conseguiu perguntar, mãos a tremer. “Artigo 217. Burla. Fui parvo, armei-me em esperto, e caí na ratoeira. Falta-me menos de um ano. Se quiseres apagar o chat, compreendo”. Natália não respondeu. Só bloqueou o contacto e andou três dias sem saber de si. Colegas no escritório perguntavam se estava doente. Ela só pensava: “Porquê? Porque é que um homem tão inteligente, tão jeitoso, tem de estar lá dentro?” Passada uma semana, recebeu um email — Romeo tinha guardado o endereço dela. Não o apagou, só fechou o chat. “Natália — escreveu ele. — Não estou chateado. Sabia que ia ser assim. Tu és boa pessoa. Homens como eu não te servem para nada. Quero agradecer-te pelas conversas. Foram as melhores duas semanas dos últimos três anos. Sê feliz. Adeus”. Natália leu aquilo à mesa da cozinha e desabou a chorar convulsivamente. Dava-lhe pena dele, dela própria, e desta vida injusta. — Porque têm sorte todas as outras? Uns são casados, outros uns meninos mimados; e logo o único homem decente, está atrás das grades! — perguntava-se. Mais uma vez, não respondeu… *** Natália tentou ir a encontros, mas não dava certo. Um durante a noite toda só falou dos selos que colecciona, outro apareceu com as unhas pretas e quis dividir a conta do café. Em março, no seu trigésimo quinto aniversário, sentiu-se especialmente sozinha. De manhã, surge uma notificação. “Parabéns, Natália! — escreveu Romeu. — Sei que não devia incomodar, mas não resisti. Que estejas sempre feliz. Mereces tudo. Com pão e fio de cobre fiz um presente… Se pudesse, dava-to pessoalmente. Só quero que saibas que algures no Alentejo há um homem hoje a brindar à tua saúde com um chá horrível”. “Obrigada, Romeu — respondeu ela, cedendo. — Fez-me bem.” “Respondeste! — vinha radiante. — Como estás? E o carrinho? Não te deixou mal nos frios?” E assim recomeçaram a conversar. Agora era todos os dias. Romeu ligava-se sempre que podia. A voz dele era forte, rouca, agradável. Contava-lhe histórias da vida: das traquinices com o irmão, que agora criava os sobrinhos, dos planos que tinha para recomeçar do zero. — Não volto à minha terra, Natália — dizia ele ao telefone, enquanto ela preparava o jantar. — Os velhos amigos só puxam para a má vida. Queria ir para onde ninguém me conhece. Trabalho não me falta. Vou para a construção civil ou oficina. — E para onde ias? — Ia até ti. Arranjava quarto ou T0 baratinho. Era só para saber que respiramos o mesmo ar, que estamos próximos. Só isso… Não faças ideia errada. Em maio, Natália estava apaixonada. Sabia o horário das rotinas dele, quando tinha banho, quando trabalhava no pavilhão. Mandava-lhe caixas com chá, bolachas, meias quentinhas, pequenas peças para inventos. — Romeu, aguenta até ao fim — pedia ela. — Não te metas em chatices. — Por ti, sou um santo, querida — ria-se. — Em abril estou cá fora. — Estou à tua espera. *** Em abril, Natália estava à porta da prisão. Levava para ele um casaco novo, calças de ganga, sapatilhas. O coração batia tanto que parecia querer saltar do peito. Quando ele saiu, não era bem o que ela esperava — baixo, forte, cabelo grisalho já rente. Mas quando sorriu e disse: — Olá, patroa, — lançou-se a correr para o abraçar. — Meu Deus, estás vivo — murmurava ela, aninhada na barba áspera. — Achavas que eu desaparecia? — ele puxou-a com força. — Cheiras a flores, sabias? Foram para casa dela. Na primeira semana, foi como um conto de fadas. Romeu começou logo a arranjar tudo: consertou a torneira, arranjou a fechadura que já emperrava há meses. À noite, ficavam na cozinha, partilhavam vinho verde e ele divertia-a com histórias antigas, sempre tentando evitar os piores episódios. — Ouve, Romeu — insistiu ela ao décimo dia. — Disseste que querias alugar casa. Mas não faças isso. Aqui tens espaço, e é mais divertido estarmos juntos. Assim poupas, compras as tuas ferramentas, começas vida nova. — Natália, não está certo — torceu o nariz, mexendo o açúcar no café. — O homem devia arranjar a casa. Agora vivo à tua custa, estou a incomodar. — Deixa-te disso! — ela colocou-lhe a mão sobre a dele. — Já não somos estranhos. Vais levantar-te, encontrar trabalho, tudo se resolve. — O meu irmão ligou ontem, — disse ele, desviando o olhar. — O miúdo está doente, precisa de uma operação cara. Pediu dinheiro. Eu… como vês, não tenho nada, só vergonha. Vergonha da família. — Quanto é? — perguntou ela, prudente. — Muito… Meio milhão. Eles já conseguiram juntar um pouco. Estava a pensar ir a Lisboa trabalhar em obras. Ganhar rápido. Natália calou-se. Os tais quinhentos mil estavam na caixinha das jóias. Juntou-os durante três anos, poupando em tudo. Era para renovar a casa de banho, trocar o azulejo, pôr aquela cabine moderna de hidromassagem… — Eu tenho esse dinheiro — sussurrou. Romeu levantou a cabeça de rompante. — Nem penses! Esse é o teu pé-de-meia. Não aceito. — Romeu, é família. Tu disseste que é sagrado. Leva, depois devolves. Agora estamos juntos. Ele hesitou e recusou durante dois dias, andou cabisbaixo, até voltou a fumar no varandim, coisa que prometera largar. No fim, Natália pegou nas notas e pô-las em cima da mesa. — Toma. Vai à tua família, entrega. Ou faz a transferência. — Prefiro entregar em mãos — abraçou-a. — Assim aproveito e vejo com ele oportunidades noutros lados. Vou só dois dias, Natália. Vou já e volto já… daqui a pouco. *** Natália estava sentada no chão do corredor há uma hora. As pernas dormentes, sem sentir dor. Recordava a noite anterior. Estiveram a ver uma comédia sem graça, ele riu e abraçou-a nos ombros, e ela sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. — Se calhar depois de amanhã saio bem cedo — disse ele antes de dormir. Mas afinal tinha desaparecido antes. Ela dormia, nem ouviu a roupa. Só de relance sonhou ouvir a porta, mas achou que seria dos vizinhos. Às duas da tarde decidiu ligar ao tal “irmão”. O número que ele escrevera “para uma emergência”. — Estou? — atendeu uma voz áspera. — Quem fala? — Bom dia, sou… sou a namorada do Romeu. Ele foi ter consigo hoje, não foi? Silêncio total. Depois, um suspiro fundo. — Menina, qual Romeu? O meu irmão chama-se diferente e só sai da cadeia em outubro. A cabeça de Natália rodou. — Como… outubro? Mas ele saiu. Em abril. Fui eu que o fui buscar ao EPL-Tires. — Escute — a voz tornou-se agressiva. — O meu irmão, Alexandre, está em Alcoentre. Esse Romeo… É um antigo colega de cela, saiu há dois meses. Roubou-me o telemóvel durante o tempo que estive na limpeza e copiou todos os contactos. Deve ser mais uma das que ele enrolou. Nisso é artista. Tirou o curso no técnico, desenrasca-se em tudo. Natália pousou lentamente o telemóvel no chão. Lembrou-se dele a ensiná-la a trocar as velas do carro. — O essencial é não apertar demais, — dizia ele. — Senão espeta a rosca, e acabou-se. — Pois, estraguei tudo — murmurou Natália. — Meti-me numa bela alhada. Natália de repente percebeu que não sabia rigorosamente nada do “namorado”. Nunca lhe viu o BI, nem o papel de soltura do EPL. E se ele nem sequer se chamava Romeu?! *** Natália, claro, foi à polícia apresentar queixa. Mostrou a foto, e descobriu muita coisa interessante sobre o ex-companheiro. Chamava-se mesmo Romeu — e isso era a única verdade. A pena fora por crime grave, metade da vida passada atrás das grades — conheceu Natália já cumpria o terceiro castigo. Natália benzeu-se, mudou as fechaduras e achou que ainda teve sorte. Porque pelo que se passava com as anteriores…