Pai, não leves a Lira! soluçou a Mariana, a filha mais nova, com o narizinho vermelho de tanto chorar. Não podes dar a Lira, ela é nossa!
A tua Lira, resmungou o pai, Francisco Esteves, virando bruscamente o volante, faz asneiras por todo o lado. No corredor, ao pé do fogão, até ontem deixou lá um presente dentro dos meus sapatos! Nem sequer quer ir à liteira, sempre a fazer fora do sítio. O que queres que faça com ela?
Mas, pai
Chega, cala-te! cortou ele de mau humor.
Assim foi. O Francisco ligou o velho Fiat Uno branco, já meio ferrugento nos guarda-lamas, e arrancou. No banco de trás, numa caixa de cartão apertada, miava corajosamente a Lira.
Pai, por favor! implorou ainda a pequena Mariana, de sete anos, segurando com força as grades do portão, de olhos inchados e brilhantes de choro. Não a deixes, ela é parte da família!
O pai nem olhou para trás. São só asneiras. Não aguento mais!
O carro foi abalando pelos buracos da estrada da aldeia de S. Lourenço, desaparecendo por fim atrás da curva. Mariana ficou ali, imóvel, agarrada ao portão, a ver o viejo Fiat a sumir-se no nevoeiro húmido do outono.
O céu, nesse dia, parecia pesar em cima da aldeia. Uma brisa fria levantava as tranças da Mariana e fazia dançar a barra do vestido de chita.
Mariana, entra! Vem para dentro, senão ficas doente! chamou a mãe, Rosa Esteves, da janela da cozinha. Porque é que estás aí parada?
A menina não respondeu as lágrimas continuavam a correr-lhe pela cara, salgadas e ardentes.
Lira… a gata da família. Ruiva, com patas brancas e um peito fofo. À noite, enroscava-se no colo da Mariana, ronronava baixinho junto ao fogão. E agora…
Dentro de casa cheirava a couve estufada e a massa lêveda a mãe andava a fazer empadas. Os irmãos Miguel (treze anos), Beatriz (onze) e João (nove) fingiam que faziam os trabalhos de casa à mesa. Na verdade, ninguém se conseguia concentrar.
Miguel rabiscava o caderno, de sobrolho franzido, mas sem olhar para o que escrevia. A Beatriz estava meio escondida atrás do livro de estudo, os olhos vermelhos de quem também tinha chorado; o João, normalmente o mais barulhento de todos, estava calado, mastigando a ponta do lápis.
É sempre a mesma coisa! explodiu de repente o Miguel, largando a caneta com força. O pai decide tudo e pronto! Ninguém tem direito a dar opinião!
Mais baixo, atalhou a mãe, sem parar de amassar a massa. O pai faz o que é melhor. Três gatos já é muito. A Mimi e o Tico já aprendem onde ir, mas aquela… a vossa Lira…
Ela era capaz de aprender! protestou a Beatriz, fungando. Podíamos ensinar-lhe!
Ensinar? E quem é que a ensinava? Eu? Olha que já tenho o dia carregado com as vacas, o porco, a horta, vocês todos… agora ainda arranjavam um gato que pensa que é rainha.
Nós fazíamos isso! insistiu a Mariana. Ficava connosco!
Agora é tarde, suspirou a Rosa.
Assim, a Mariana entrou devagarinho em casa e sentou-se ao pé da janela, a olhar a chuva fina cair. A aldeia parecia desolada casas de pedra cinzentas, campos com as folhas todas pisadas e pretas pelo inverno.
Mãe… achas que ela ainda volta? sussurrou, baixinho.
A mãe olhou-a e não conseguiu esconder um suspiro triste:
Não sei, filha. Não sei
Meia hora depois, Francisco regressou. Tirou o casaco molhado, pendurou-o atrás da porta e meteu-se na cozinha sem trocar um olhar com os filhos.
E então? perguntou-lhe a mulher.
Levei-a. Fui deixá-la em Santa Margarida, na casa dos Alves. Disseram que ficavam de olho nela.
É longe aquela aldeia? quis saber o João.
Uns cinco quilómetros, se não for mais, resmungou o pai.
Nunca mais a vemos murmurou a Beatriz.
Não faz mal, respondeu o Francisco, frio. Acabou o assunto. Serve-me lá um chá, estou gelado.
Rosa pousou-lhe um copo de chá bem quente à frente, ao lado de um prato de massa com molho de carne. O homem comeu em silêncio, sugando os esparguetes com impaciência. Os filhos ficaram sentados, a olhar para os pratos sem apetite.
Mais tarde, já a casa estava em sossego e todos se deitaram, a Mariana não conseguia dormir. Partilhava a cama larga com a Beatriz, ouvia a chuva bater na janela, as paredes ronceiras, os cães lá fora a ladrar.
Beatriz, estás acordada? sussurrou.
Estou.
A Lira volta, tenho a certeza. Ela vai chegar a casa.
Não digas disparates. Como é que ela descobriria o caminho? O pai levou-a tão longe! Cinco quilómetros é quase outro país para uma gata tão pequena.
Mas ela é esperta! Vai conseguir encontrar-nos!
Sem resposta, a Beatriz virou-se contra a parede. Já a Mariana ficou ali, olhos abertos no escuro, a repetir baixinho como ensinava a avó: «Meu Deus, protege a Lira. Ajuda-a a voltar para casa. Por favor»
Entretanto, a Lira estava debaixo do fogão da família Alves, numa casa estranha na aldeia vizinha. Os velhotes eram simpáticos: deram-lhe leite, uma côdea de pão, até um afago. Mas a gata não ronronava, não se aproximava. Encolhida, parecia só tristeza e saudade.
Onde estava a casa dela? Onde andavam a Mariana, a Beatriz, o João, o Miguel? E a Rosa, sempre a dar-lhe um pedacinho de chouriço às escondidas? Os cheiros do lar o calor do fogão, o feno no curral, leite fresco…
Ali, tudo era diferente. Vozes desconhecidas. E ainda havia um gato velho e grande, que bufou quando a Lira tentou ir à tigela.
Ela esperou. Assim que a dona abriu a porta para ir ver as galinhas, a Lira escapou num ápice.
Ai, mas onde vais, bicho?! gritou a senhora Alves, mas a gata já atravessava o quintal, uma seta em fuga pela estrada fora.
Correu, correu, até ficar fora das casas, só o campo húmido à volta.
A chuva não dava tréguas desde manhã sem parar. Os pelos colados ao corpo, as patas enterradas na lama, as garras gastas. Não sabia o rumo, só uma certeza, uma chama teimosa cá dentro: «É para ali… não pares»
Passou-se o dia. A Lira enfiou-se num monte de feno caído, tremendo de frio, o estômago a dar voltas de fome. Tentou caçar um rato o desgraçado sumiu-se logo. Bebeu água de uma poça, amarga e fria.
No segundo dia, chegou a uma estrada. Alcatrão rachado, buracos, raros carros a lançar lama ao passar. A Lira andou pelo caminho, tropeçava, cai, mas levantava-se. À noite, enfiou-se num palheiro abandonado. Por um buraco apanhou um rato: comeu-o inteiro, e por uns minutos sentiu-se melhor.
No terceiro dia caiu neve. Primeira daquele inverno. Grossa, molhava logo o pelo. As patas da Lira deixavam marcas escuras na terra branca. Doíam-lhe as almofadas, meio em sangue, mas não desistiu.
Porque ao longe, sabia, estava a casa dela. Onde as crianças esperavam, a lareira quente, e a Rosa, que resmungava mas fazia festas quando ninguém via.
Ao quarto dia apareceu o bosque de bétulas que ela conhecia tão bem. O coração da Lira acelerou. Correu mais, mais… Era o tal bosque onde no verão as crianças apanhavam cogumelos e a Mariana fazia coroas de flores.
No quinto dia, encontrou o rio. Estreito mas gelado. Passou, cambaleando, saindo aos pulos até atingir a outra margem.
No sexto dia, ficou constipada. Nariz a escorrer, respiração rouca. Mas não parou.
E então, ao sétimo dia, de madrugada, a Lira, toda suja e magrita, chegou ao portão que conhecia de olhos fechados. Sentou-se, miou baixinho, rouca, ninguém ouviu. Miou outra vez, com mais força.
A porta abriu-se de repente. A Mariana veio a correr, descalça e em camisa de dormir.
Liiiiira! gritou ela, abriu o portão de par em par e agarrou a gata, apertando-a ao peito. Mãe! Pai, venham cá! Ela voltou, voltou mesmo!
Logo apareceram os irmãos e até a mãe, enxugando as mãos ao avental, para ver a gata.
Coitada… ela está só pele e osso… e a escorrer do nariz, apanhou frio murmurou a Rosa.
Mãe, temos de cuidar dela! insistiu a Beatriz.
Cuidar? Olha que nunca vi ninguém ir buscar veterinário por causa dos gatos. Isso é só para as vacas e os porcos. Os gatos desenrascam-se sempre.
Mas, mãe!
Está bem, não chorem. Vai-se aquecer leite para ela. E arranjem um pano, temos de a limpar. Depois logo se vê.
O Francisco surgiu à porta. Viu a Lira nos braços da pequena.
Então, encontrou o caminho… murmurou.
Pai, ela veio sozinha! Percorreu cinco, talvez seis quilómetros! Sabes o que é isso para um gato? exclamou o Miguel.
O pai não comentou, só voltou para dentro.
Levaram a Lira para junto do fogão. A Mariana trouxe-lhe leite quente. A gata bebeu tão depressa que se sujou toda. A Beatriz limpava-a com cuidado, o João trouxe um cobertor gasto para ela se aninhar.
As patas estão feridas até sangrar murmurou a Beatriz. Mãe, olha isto
A Rosa ajoelhou-se, examinou-a.
Pobre bicho bem te custou… João, vai buscar Betadine. Beatriz, traz ataduras. Vamos tratar disto.
E a constipação? perguntou a Mariana.
Vamos fazer-lhe chá de camomila. A dona Amélia sabe dessas coisas, depois eu pergunto. Agora é manter no quentinho e alimentar bem. O resto fica nas mãos de Deus.
E os miúdos tomaram conta da Lira como um bebé. A Mariana nunca a largava, a Beatriz preparava caldinho de galinha, o João fez-lhe um ninho ao pé da lenha. O Miguel, de pestana franzida, pegou numa tábua e pregos.
Que fazes? perguntou a irmã.
Vou fazer-lhe uma liteira. Para ela aprender onde deve ir.
Achas que vai resultar?
Tem de ser.
A gata esteve doente quase uma semana. Espirrava, fungava, os olhos sempre húmidos. Mas as crianças não desistiram: chá de camomila, leite, mantinha. E devagarinho, a Lira foi melhorando. O pêlo voltou a brilhar, os olhos ficaram vivos.
Chegou o momento de a ensinar à caixa de areia. O Miguel arranjou uma caixa velha com areia. Sempre que a Lira procurava um canto, a Mariana levava-a para lá.
Aqui, Lira. Aqui, repetia ela.
A Lira resmungava, tentava fugir, mas os miúdos mantiveram-se firmes. Até que, um belo dia, ela foi sozinha à caixa, escavou a areia e fez tudo certinho.
Conseguiu! gritou a Mariana. Mãe, pai, ela aprendeu!
A Rosa sorriu como não fazia há dias.
Que grande surpresa… afinal dava resultado.
O Francisco, sentado à mesa com o jornal, olhou para a gata, agora toda senhora na caixa dela.
Que teimosia a dela… disse baixinho. Andou quilómetros só para voltar…
Pai, não vais voltar a levá-la, pois não? arriscou a Mariana.
Ele fez uma pausa, pensou, depois disse:
Não. Se voltou, é porque aqui é o lugar dela.
A Mariana lançou-lhe um abraço apertado, com medo que o pai mudasse de ideias.
Obrigada, pai! Obrigada!
Pronto, pronto, resmungou ele, mas um sorriso teimava em não desaparecer.
A Lira viveu ali muitos anos. Nunca mais fez asneira fora do sítio. À noite, enroscava-se junto ao fogão, ronronava baixinho. Caçou ratos como ninguém, e os miúdos tinham orgulho nela.
Às vezes o Francisco olhava para ela e abanava a cabeça.
Esta bicha tem fibra… É de cá. Nem mil quilómetros lhe tiravam o rumo.
E os filhos concordavam sempre. Porque era verdade: a Lira soube regressar. Atravessou chuva, frio, fome, dor só porque ali era o lar, ali esperavam por ela.
E onde esperam por nós… aí é que se vive. Por isso, a vida continuou, com a Lira no seu lugar de sempre.






