Duas vezes por semana, o meu pai saía de casa durante algumas horas e regressava cheio de energia e com um ótimo estado de espírito.

Quando eu tinha 10 anos e o meu irmão, João, tinha 12, ele passava a maior parte do tempo a brincar na rua, enquanto mal trocávamos palavras. Eu ajudava a minha mãe, Dona Rosalina, nas tarefas domésticas e o meu pai, Sr. Álvaro, trabalhava numa fábrica e chegava a casa tarde, quando já só as luzes da cozinha estavam acesas. Sentávamo-nos à volta da mesa da sala, depois o meu pai calçava os seus sapatos de couro bem engraxados, ficava algum tempo diante do espelho do corredor e saía, sem proferir uma palavra. A minha mãe olhava para a porta, imóvel, e eu ficava a tentar adivinhar o porquê daquela expressão ou para onde se dirigia o meu pai.

Uma noite, num vapor de curiosidade e sono, decidi segui-lo. Fui atrás dele pelas ruas sinuosas de Lisboa até ao Teatro Nacional Dona Maria II, com as fachadas a ondular como se estivessem a flutuar. Hesitei diante da porta dourada, mas acabei por entrar. Lá dentro, uma mulher com cabelos como fios de prata, que reconheci como a famosa soprano Constança, sorriu-me e fez sinal para me juntar a ela. E assim, como se flutuássemos, entrámos numa sala cheia de sombras e luzes.

No palco, o meu pai surgia vestido com um fato cintilante, cantando uma ária antiga que ecoava como se fossem as ondas do Tejo. O público aplaudia com mãos de ramos de oliveira, pétalas voavam pelo ar e eu, embalada por uma alegria estranha e lágrimas transparentes, percebi que o seu talento era um tesouro escondido. Ele não sabia que eu estava ali, ou talvez soubesse e fingisse que o cenário era apenas um sonho.

Depois do concerto, vagueámos pelo Jardim da Estrela, com o chão coberto de pétalas, enquanto os bancos pareciam navegar ao nosso lado. Rimo-nos, sentimos que éramos apenas duas almas suspensas num sonho de luar.

Quando chegámos a casa, murmurei ao ouvido da minha mãe que o pai não tinha nenhuma amiga especial, só ele, ela e aquela música. Ela respondeu com um sorriso maior que o Atlântico, dizendo simplesmente: Sim, já sabia. E só então compreendi que ela sabia de tudo: o segredo, a paixão, as noites cheias de melodia.

Desde essa noite, acordei sempre com orgulho do dom secreto do meu pai, como se tivéssemos um pequeno universo só nosso onde a felicidade dançava, invisível e brilhante, entre paredes de azulejo azul e canções sem fim.

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