TIA

Tia Páscoa foi trazida da aldeia. A senhora já não conseguia cuidar sozinha das tarefas, então a sobrinha Rita levou-a para Lisboa, para morar com ela.

O marido, António, não se opôs. Era calmo, magro, usava óculos, sempre obedecendo sem questionar à Rita, que era exuberante e cheia de energia.
Não é um estranho, é família! É minha tia. Ela nunca teve filhos. E agora fiquei sem mãe… A minha mãe era trinta anos mais nova que a tia Páscoa, nasceu da outra família do meu pai, sabes? E olha que irónico, foi-se cedo demais, mãe. Coitadinha da tia! Vamos trazer, está decidido! decretou Rita.

Os filhos dela, Martim e Filipa, nunca tinham visto a tia.
Na verdade, a própria Rita só a tinha encontrado duas vezes. Nunca falavam ao telefone, só por cartas. Tia Páscoa, aliás, não tinha nada de tecnologia moderna.

Agora está ali, com eles. Pequena, parece um duende (Martim, com treze anos, já é mais alto). Os cabelos fofos como um algodão, uma boina redonda e uns olhos de um azul intenso, ainda joviais.

Nas mãos, um saco de pano e uma rede, daquelas antigas. Dois velhos baús.
No colo, um gato laranja, peludo. Olhou preguiçosamente aos novos donos da casa, saltou para o chão e pôs-se a explorar.

Este é o Mandarim. Trouxe comigo. Uma alma viva, perdoem-me disse a tia Páscoa.
E acrescentou:
Que lindos estão! Os meus!

Logo houve um jantar especial. Tia Páscoa trouxe conservas e compotas de casa. Rita espantou-se ao ver os filhos, normalmente esquisitos com comida, devorar o doce, pepinos, pimentos e tudo o resto.

Rita! Vocês têm quintal ou horta? Vou plantar tudo, mesmo com a saúde a piorar. É preciso cultivar! Sem o que é nosso não se vive! exclamou tia Páscoa.

Rita respondeu que não tinham. Para quê? Compro tudo no mercado. Não temos tempo! Trabalho em dois empregos, António também. Só vemos os filhos por momentos. E ainda temos de pagar a hipoteca do apartamento durante anos.

Horta é essencial. Não olhes para mim assim, Rita. O ser humano não vive sem terra. Vamos procurar um terreno, e tia Páscoa foi para o seu quarto.

Procurar terreno. Pois sim… Mal nos desenrascamos, sempre a apertar o cinto. Acho que ela pensa que somos milionários resmungou Rita, lavando a loiça.

No dia seguinte, era sábado. António descansava na cama a ler o jornal. Rita gritou para os filhos aquecerem comida pré-feita e voltou a dormir.

Martim e Filipa, de oito anos, agarraram-se aos telemóveis como sempre.

O gato Mandarim sentou-se ao lado deles, balançando a cabeça. Tia Páscoa entrou.

O que é que fazem aí? perguntou.
Os dois explicaram e mostraram os telemóveis. Tia Páscoa abanou a cabeça. Depois disse:
Lá na aldeia também há desses, não tão modernos. Nunca tive, nem precisei. Sempre escrevi cartas à vossa mãe, muito mais cómodo para mim. Mas é uma coisa útil, admito. Dá para encontrar uma pessoa em qualquer lugar. Agora, deixem os aparelhos e venham comigo!

Para quê? Estamos a jogar! protestou Martim.

Onde jogam? Só estão agarrados ao telemóvel, nem telefonam a ninguém surpreendeu-se tia Páscoa.

Jogamos dentro do telemóvel! respondeu Filipa.

Tia Páscoa começou a contar como brincavam na aldeia. Depois levou os filhos para a cozinha.

Quando Rita apareceu, ficou sem palavras. Havia um prato de crepes em cima da mesa. Martim bebia chá, sorrindo. Filipa estava ao lado de tia Páscoa a fazer raviolis.

Olha, mamã! Este é o que vai trazer sorte, pode ser que te calhe! disse Filipa, a sorrir.

Em seguida entrou António, com um ar satisfeito, cheirando o que vinha da cozinha.

Agora, fim-de-semana vamos todos fazer raviolis e crepes! Tudo o que é nosso sabe melhor! declarou tia Páscoa.

Mas qual o sentido? Hoje em dia compra-se tudo pronto… contra-argumentou Rita, que sempre detestara cozinhar.

Sempre optou por congelados ou comidas pré-preparadas e a família nunca reclamou. Pelo menos até hoje.

Não, mãe. Vamos fazer nós próprios. Nunca comi raviolis assim! respondeu Martim.

Depois, tia Páscoa pegou num novelo de elástico e amarrou-o às cadeiras. Mostrou à Filipa como jogavam ao “elástico” na aldeia.

E vocês? Não saltam assim? perguntou ela.

Como? Eles vão à rua, mas continuam agarrados ao telemóvel! É desta geração! suspirou António.

Não pode ser! É preciso conviver em pessoa! O telemóvel é útil, claro. Mas serve para chamar alguém, enviar o que se precisa. E só! decretou tia Páscoa.

À noite, ela tricotava, enquanto o Mandarim dormia relaxado no cadeirão.

Mamã, vem cá! chamou Filipa.

Rita foi até ao corredor, espreitou para a casa de banho.

Tia Páscoa acariciava a máquina de lavar, dizendo:

Parabéns, minha querida máquina! Que vivas muitos anos, obrigada por tudo!

Tia Páscoa, está tudo bem? sussurrou Rita, acreditando que a tia estava a perder a razão.

Tudo. Hoje é dia 8 de março. A máquina de lavar é menina, então resolvi felicitar! riu-se tia Páscoa.

Mas é só uma máquina, tia… Que disparate! bufou Rita.

Toda a máquina entende, não digas isso. Lembro-me de um trator lá da aldeia que só funcionou porque foi acarinhado. E o Kiko nunca parte sem falar com o carro, chama-lhe Dona Teresa. Vocês não imaginam como são sortudos! Antes lavávamos roupa à mão, no rio. Agora, vê, tanta coisa útil e continuam carrancudos! Telemóveis para usar com propósito. Sempre se sabe onde estão os filhos. A máquina faz tudo. O micro-ondas aquece num instante, dizia tia Páscoa, encantada enquanto olhava ao redor.

Ela começou a ir buscar as crianças à escola.

Um dia, Martim teve problemas na turma. Não contou aos pais. Chorava no canto quando tia Páscoa entrou decisivamente. Contou-lhe tudo, sem saber como. No dia seguinte, não foi às primeiras aulas. A casa estava estranhamente silenciosa, até tia Páscoa não estava.

Deve ter ido dar uma volta, pensou Martim.
Preparou-se e, ao chegar à escola, ouviu uma voz familiar. Olhou pela porta entreaberta. A professora sentada, em silêncio. Ao quadro tia Páscoa, a relatar histórias.

Ai! Para quê que veio! Vão gozar comigo! Martim encostou-se à porta.

Mas ninguém riu. A lição acabou. Os colegas rodearam tia Páscoa. Entrou discreto. Pedro, o maior provocador, vinha ao encontro.

Olá, demoraste! Sabes, a tua avó é fantástica! Contou tanta coisa. Pena não ter a minha. Tenho tantas saudades dela. Amanhã a tua avó prometeu ir ao parque connosco. Sabe tanto sobre plantas e animais! Adora contar histórias! A professora deixou-a falar sorria Pedro.

Sim… Ela é mesmo assim! Martim sorriu, correndo para abraçar tia Páscoa.

De noite, Rita desabou. Com o cansaço, chorou. De novo, tia entrou ao seu lado.

Não chores, querida. O que tens? Tudo está bem. Porque choras?

Cansada! Trabalho muito, não vejo vida. O António é um molengão. Outros homens são tão diferentes! Eu sinto-me… normal, sem graça. Hoje em dia ninguém aprecia assim chorava Rita no ombro da tia.

Tia Páscoa deixou-a desabafar, ofereceu-lhe chá, e falou. Contou como perdeu três filhos em bebés, como o marido forte e bonito lhe morreu cedo. Lutou anos contra doença, perdeu peso, mas resistiu. Quase sem comer, sofrendo.

O que é essa moda de gente? Cada um é feito à maneira de Deus. Uns são magros, outros são robustos. E há gostos para todos. Antigamente, mulheres cheias eram apreciadas! És tão bonita, Rita! Cabelos encaracolados, olhos do nosso tipo, grandes e azuis. Corpo bonito. Valoriza o que tens. Muitos não têm nada. Tantos solitários! E o António é ouro, tudo pela família. E teus filhos, felicidade! O resto se resolve… Já me esqueci de uma coisa, está na hora de dormir! tia Páscoa saiu, deixando Rita na cozinha.

Ela já nem queria chorar. Afinal, a tia tem razão. Tem tudo, e anda a lamentar-se.

Nesse dia, Rita esperava o marido regressar (estava finalmente de férias). Ele não chegava.

Filhos! Alguém viu o pai? Onde estão? perguntou.

Martim mexia alguma coisa na taça na cozinha. Ela reparou que tinha começado a interessar-se por culinária, até já sabia virar crepes no ar. Filipa montava uma cabana de cadeiras, espalhava brinquedos.

Os telemóveis estavam pousados, quase não os usavam, só para chamadas.

Rita tentava ligar ao marido, sem sucesso O número está temporariamente indisponível.

E de repente assustou-se. Onde está tia Páscoa? Nem o arrastar dos chinelos, nem a voz calma da tia.

Correu ao quarto dela. O Mandarim espreguiçava-se na cama.

Martim! Filipa! Onde está a tia Páscoa? exclamou Rita.

Os filhos vieram rápido.

Viemos da escola com ela. Depois saiu explicou Filipa, quase a chorar.

Há quanto tempo? Filipa, há muito tempo? Rita desesperou. A filha acenou e chorou.

Meu Deus! Ainda lhe demos um telemóvel novo! Nem levou. E se lhe acontece algo? Ela é idosa! Rita sentou-se, sem forças.

Martim correu a vestir-se.

Onde vais? Rita atrás dele.

Procurar! Mãe, não conseguimos viver sem ela! e o filho correu para baixo.

Filipa calçou umas sapatilhas e foi atrás do irmão.

Rita a vestir-se à pressa, também.

Ao chegar ao prédio, estavam felizes.

Então? perguntou Rita.

Apontaram à esquerda.

De lá, de braço dado com António, vinha tia Páscoa, com uma boina decorada de papoilas.

Tia! Assustaste-nos! Não podes sair assim, horas fora! E tu, António, onde estavas? Rita abraçou-se ao marido.

Fomos fechar… como é que se chama… aquela infiltração da água! anunciou tia Páscoa.

Mas Como? foi tudo o que Rita conseguiu dizer.

Era surpresa para ti. Tia Páscoa é incrível. Sem ela não conseguíamos! riu António.

Tia… Como arranjaste dinheiro? Não era preciso começou Rita.

Que problema? Sempre poupei. Tenho uma reforma boa. Tive o meu quintal, quase não gastava nada. Galinhas e leite sempre. Pão feito em casa. Depois vendi a casa. Para quê dinheiro a mais? Não vai para o túmulo. Ia deixá-lo a vocês na mesma. Melhor dar já, faz mais falta, respondeu tia Páscoa, genuinamente.

Rita ficou em silêncio. Agora não precisaria de trabalhar tanto, nem ela nem António. Mais tempo para a família. Que felicidade!

Amanhã vamos ao campo! Vamos ver um terreno. Já escolhemos com o António uma casinha! continuou tia Páscoa.

Casa própria! Viva! E prometeste ensinar-nos a ver pirilampos! E a fazer cestinhos! E os segredos de flores dentro de vidrinhos para enterrar e depois descobrir! Filipa e Martim abraçaram tia Páscoa.

Todos juntos, de braços dados, regressaram para casa.

Por um instante, Rita ficou à porta.

Olhou para as nuvens e murmurou:
Obrigada. Obrigada por me dares a tia Páscoa!

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