Não faço ideia de como consegui criar filhos assim

Olha, faz agora pouco mais de um ano que fiquei sozinha. Depois do funeral do meu marido, fui recuperando pouco a pouco, mas de repente dei por mim e percebi que, além da solidão, tinha outro problema a bater-me à porta: o dinheiro começou a faltar de uma forma assustadora. Vivo mesmo com o máximo de cuidado, sem luxos nem caprichos, mas aparecem sempre aquelas despesas inesperadas sobretudo com medicamentos e idas ao médico.

Criámos os nossos dois filhos com todo o carinho, sempre fizemos por ajudá-los, dávamos tudo o que tínhamos. Grande parte do dinheiro que entrou lá em casa para comprar coisas acabou por seguir diretamente para as famílias deles por nossa iniciativa. Não sei o que é que o destino ainda me reserva, mas à partida, o apartamento onde moro vai ser para o meu filho e para a minha filha, a não ser que algum dia queira mudar o testamento coisa que não tenho intenção de fazer. Eles são pessoas inteligentes, sabem perfeitamente quanto vale uma casa em Lisboa e o que representa herdar um imóvel.

Cheguei a tentar, um par de vezes, dar a entender aos meus filhos que estava com dificuldades para aguentar todas as despesas, que se eles ajudassem pelo menos com as contas da luz, água e gás, eu já não teria que andar a contar os cêntimos até à próxima reforma. A minha filha fez de conta que não percebeu o recado, e a minha nora que é quem manda nos rendimentos lá de casa nem sequer pegou no assunto. Ficou tudo no ar, sem resposta.

Tenho uma ideia dos ordenados deles. Fico contente por estarem bem, por terem os empregos que têm, os carros, as viagens de férias. Os netos andam sempre com dinheiro no bolso para o que precisam e, vendo como eles gastam em minutos o equivalente à minha reforma, não deixo de pensar se não falhámos ali em algum lado, se criámos filhos tão desligados que nem se apercebem que a mãe anda literalmente sem dinheiro, que não mexem uma palha para ajudar. Sempre fomos um exemplo: íamos às compras para os nossos pais, levávamos-lhes sacos de comida, comprávamos os medicamentos, pagávamos as consultas nunca lhes faltava nada.

Uma amiga minha até sugeriu uma coisa que me custa a aceitar: mudar-me para casa de um dos filhos sem lhes pedir autorização e alugar o meu apartamento. Sinceramente, era mesmo a última coisa que eu queria, mas se continuar tudo igual depois da próxima conversa com eles, não sei se me resta outra opção. Não consigo viver só com a reforma e todo o dinheiro que tinha já saiu dos meus bolsos para os deles.

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