Nunca falámos de pensão de alimentos, apenas combinámos que eu daria dinheiro ao meu ex-marido para sustentar o nosso filho, mas ele há anos vive à custa do que eu lhe envio.

Pois recordo-me bem daqueles tempos distantes Fui eu quem deixou a família por outro homem, e por minha causa o casamento desfez-se. O Ricardo, o meu marido na altura, achou que eu lhe devia alguma compensação pelo desgosto que lhe causei. Não me deixou ficar com o nosso filho, e o Simão também quis ficar a viver com o pai, em vez de vir comigo. Por mais que me custasse, não consegui convencê-lo a mudar de ideias, nem teria forças para arrastá-lo à força. Tratámos de tudo rapidamente deixaram-me ir, e em troca enviei dinheiro uma ou duas vezes por mês.

Nessa altura, o Ricardo trabalhava e ganhava o suficiente, mas depois de perceber que eu tinha algum dinheiro e que o meu novo companheiro, o Manuel, também ajudava para que o Simão não lhe faltasse nada, deixou o emprego e passou a viver às nossas custas.

Enquanto o rapaz crescia, o pai ia mimando-o cada vez mais refeições nos restaurantes da Baixa, faltas à escola sempre que lhe apetecia, férias no Algarve, e eletrodomésticos caros lá para casa. Aos poucos, o Simão começou a olhar para mim com cada vez mais indiferença e já quase não queria dar-me atenção. Tudo o que lhe comprava ou fazia, o papá conseguia logo fazer melhor, mesmo sendo com o dinheiro que eu mandava. O miúdo, com onze anos de idade, nem sequer pensava em como o pai se tornara assim tão abastado estando sempre em casa.

Um dia, o Manuel sugeriu-me que talvez tal generosidade não fosse boa ideia. Começámos a falar no futuro do Simão nas propinas, nos estudos, no que era preciso guardar e chegámos à conclusão de que era preferível poupar para a sua educação, do que continuar a alimentar os caprichos do meu ex-marido. Fui falar com o Ricardo pessoalmente, expliquei-lhe que já os tinha sustentado tempo suficiente, que agora era altura de ele assumir as despesas, enquanto eu começaria a poupar para garantir o futuro do nosso filho. Ofendido, disse-me tudo o que lhe veio à cabeça criticou-me como mãe, recriminou-me como esposa e ameaçou levar-me a tribunal e exigir pensão de alimentos, insinuando que eu nunca tinha feito nada por eles.

Consultei advogados, que logo me tranquilizaram não valia a pena dar ouvidos a ameaças, pois ele nada conseguiria; toda a gente sabia que o Ricardo já não trabalhava há anos e vivia apenas do dinheiro que eu mandava. Mesmo assim, sinto que sou eu quem perde nesta história. O Simão agora odeia-me ainda mais, convencido de que não quero ajudar o pai deleDeixei a casa do Ricardo de peito apertado, mas determinada. No caminho para o carro, oiço ao longe o eco de uma gargalhada infantil alguém, num banco do jardim, abana as pernas sem cuidado nenhum do mundo. Pensei no Simão pequeno, de olhos sonhadores, sorrindo para mim só porque eu estava por perto. Engoli em seco. A cada passo sentia o peso de tudo o que não tinha conseguido controlar as escolhas certas feitas nas horas erradas.

Mas a vida vai costurando o que rasgámos em nós. Dias depois, o Simão mandou-me uma mensagem curta, quase fria, a pedir algum dinheiro para um novo telemóvel. Sentei-me a olhar para o ecrã, hesitando. Em vez de transferir mais uma quantia, escrevi-lhe: Filho, ligas-me logo à noite? Quero saber de ti, mesmo. Ficou-se pelo visto, mas dessa vez não insisti nem implorei. Talvez o Simão, aos poucos, percebesse que há coisas cuidado, presença, verdade que não se compram.

Com o passar dos meses, sempre que lhe ligava, tentava perguntar mais pelo que ele sentia. Às vezes calava-se, outras vezes ficava irritado. Mas estava lá, e eu também. Mais devagar do que esperava, começou a dividir comigo pequenas coisas: um teste em que não tirou nota tão boa, um colega chato que se tornou amigo. Por entre silêncios constrangidos, começámos a construir de novo.

O dinheiro foi ficando na conta, à espera do futuro dele. Mas aquela mãe que eu era que tanto dera, que tanto perdera já não dependia de presentes ou mesadas para existir, nem se media pela aprovação de nenhum adulto. Era só eu, imperfeita mas inteira, à espera que o Simão quisesse, um dia, voltar a casa, com ou sem telemóvel novo.

Aprendi que amar, às vezes, é saber deixar crescer e cair longe, e esperar, paciente, a hora certa em que um filho regressa não pelo que ganhamos, mas apenas porque, apesar de tudo, nunca deixámos de estar aqui.

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