Marido agride Olívia e atira-a para fora do carro em plena estrada gelada ao saber que o apartamento não seria dividido no divórcio

A neve já caía desde manhã cedo, grandes flocos pesados que nem sequer derretiam, só se colavam ao alcatrão, transformando a estrada numa pista de patinagem para quem estivesse distraído. Olívia olhava pela janela lateral do seu SUV preto, sem ver o nevão, nem as luzes a passar depressa. Toda a atenção dela estava ocupada por aquele nó gélido no peito e a voz pausada do advogado, abafada na ponta do telemóvel, apertado entre os dedos suados.

Os bens adquiridos durante o casamento dividem-se a meias, Dona Olívia. Sim, mas o apartamento que o seu marido comprou antes de casar mesmo que já vivem lá há sete anos, mesmo que esteja registada na morada não entra para as contas. Fica para ele.

Lentamente, colocou o telemóvel nos joelhos. Sete anos. Sete anos a transformar aquela caixa de cimento no subúrbio num lar: a escolher papel de parede, a passar tardes inteiras nos OLX portuguesas à cata do candeeiro perfeito para o canto do sofá. Sete anos a lavar roupa, a cozinhar, a suportar os amigos dele a fazer barulho até às tantas, a tolerar o ciúme doentio. Tudo isso num castelo alheio. O castelo dele. Agora, quando finalmente o castelo de cartas do seu casamento tinha desabado, quando ele não voltou uma noite e de manhã ela encontrou um baton e uma mensagem com um coraçãozito na jaqueta dele, percebeu que apenas ela iria para rua. Só ela, com o salário minguado de professora e uma mala de roupa.

Então? O que te disse esse sanguessuga do teu advogado? atirou Rui do volante, mudando subitamente de faixa. O rosto largo dele, tão viril no início, estava agora distorcido pelo sorriso habitual. Ele já sabia. O resultado, o gostinho antecipado da vitória.

Olívia virou-se para ele devagar. Os olhos secos e enormes no rosto pálido.

O apartamento é teu, Rui. Compraste antes de casarmos. Eu fico sem nada.

Ele nem respondeu, só apertou ainda mais o volante. A veia na face pulsou.

Pois claro. Achavas o quê, Olívia? Que eu sou parvo e te punha no nome meio apartamento? Pensavas que não precavi?

Dentro dela, qualquer coisa quebrou. Nem foi só dor isso já era passado. Era uma outra coisa. Fria, límpida. Ele não só não gostava dela. Ele odiava-a. Anos a vê-la como uma inquilina passageira em vez de esposa. Calculista. Como um contabilista.

Planeaste tudo, murmurou, sem reconhecer o tom próprio.

A vida é para ser pensada, miúda. Não sejas ingênua. Daqui a pouco todas como tu querem meter os tipos em tribunal e sacar pensão, quando mudarem a lei. Ainda te safei disso! Viveste à borla, já está bom.

A tremura incontrolável deu lugar a uma serenidade estranha, quase absoluta. O gelo crescia, enchendo tudo.

Leva-me para casa, Rui. Vou buscar as coisas e saio hoje.

Casa? riu ele. Isto é a minha casa. Mas arranjei-te um novo cantinho. Olha ali fora, vês?

Virou bruscamente para o separador. Já estavam à saída de Lisboa, os candeeiros a rarear, os camiões a passar lançados na A1. Neve colava-se aos vidros. Escuridão, campos e vento cortante.

Salta. Vai-te refrescar um bocado. Pensa na vida.

Estás parvo? Estão menos de dez graus! Estou de chinelos! Olívia agarrou-se ao banco, instintivamente.

Eu disse para saltares! o grito ecoou. Ele desbloqueou o carro. Agarrou-lhe o braço com força. Cheirava a perfume caro e vinho tinto da noitada anterior.

Ela lutou, tentou segurar-se, mas ele, corpulento e furioso, venceu. O punho dele, pesado e adornado com aquele anel de ouro, acertou-lhe nas têmporas. Luzes brancas e quentes explodiram nos olhos. Mais um murro, agora no ombro. Arrastou-a para fora, largou-a no gelo da berma, batendo com o joelho na proteção de cimento. A porta bateu com estrondo. O SUV arrancou, atirando-lhe neve suja à cara, e desapareceu na brancura.

Nos primeiros segundos ficou caída, imóvel. O corpo ardia de dor, bochecha e cabeça dormentes. A neve caía-lhe na cara, a derreter entre lágrimas que agora rebentaram. Tentou levantar-se, cambaleando. Nos pés, chinelos de feltro o que calçara à pressa ao sair da chamada do advogado. Ao ombro, só um casaco leve, uma miséria para aquele frio.

Retirou o telemóvel. Descarregado. O carregador ficou na casa dele. Na liberdade dele. Em volta, nem um sinal de vida. Só o barulho longínquo dos carros. Ninguém ia parar. Ninguém a ia ver, uma miúda a tropeçar sozinha no escuro.

O medo era tão denso que quase se mastigava. Ele queria que congelasse ali. Para refrescar a cabeça. Para aprender o seu lugar. Talvez até quisesse pior. Mas homicida não era. Só a deitou fora como brinquedo velho. E o que acontecesse, azar.

Era preciso mexer-se. E andar. Para algum lado. Olívia virou-se contra o vento e mancou para Lisboa, a cada passo sentindo a dor do joelho inchado. O frio infiltrava-se, agudo. Cinco minutos e já não sentia os dedos. Dez minutos, e o rosto ficou anestesiado. O ar magoava os pulmões, condensando nas pestanas.

Só uma ideia lhe martelava no crânio: Ele foi celebrar. Com os amigos. Brindar à vitória.

E foi mesmo. Rui enfiou-se num spa de luxo nos subúrbios, onde o esperavam o Vitinho e o César, amigos de sempre, todos musculados, convencidos, contentes de sobra.

Ó Rui, tão bem disposto! O apartamento ficou para ti? riu-se o Vitinho, estendendo um shot.

Ela saltou do meu poiso, foi apanhar ar. Refrescou-se na ranhura da madrugada, troçou Rui, atirando abaixo meia garrafa. O calor do álcool elevava ainda mais a auto-estima. Contou tudo. Do advogado, do rosto dela, da estrada. Riu-se, exagerando detalhes.

Os amigos soltaram gargalhadas, É isso mesmo! A mulherada pensa que é dona de tudo! Qualquer dia querem metade até da relva à porta! Estavam na sauna de carvalho, a beber conhaque de copos finos, a pedir picanha, a rir de piadas estúpidas. Rui sentia-se no topo. Tinha tudo planeado. Vitória nas mãos. Vida feita.

Só que, lá no fundo, bem embrulhadinho entre camadas de álcool e fanfarronice, mexia-se qualquer coisa incómoda. O olhar dela, mesmo antes do murro. Não era medo. Era vazio. Como se ela já tivesse partido antes dele lhe abrir a porta. Expulsou a imagem, encheu o copo. Aquela noite era dele.

Saíram de lá pelas três. Rui, cambaleante, apanhou um táxi até casa. Agora era só dele. Para sempre, dizia a si próprio. Demorou a acertar a chave na fechadura, escancarou a porta e acendeu a luz.

Quase ficou sem voz.

O apartamento estava limpo, impecável. Mas era um arrumo fúnebre, de museu. Tudo que era dela, sumiu. Fotografias, almofadas bordadas, os livros, as violetas dela no parapeito tudo feito vapor. Mas o pior nem era isso.

Ela só levou o que era seu. Exatamente só o dela. Como se nunca lá tivesse sequer dormido.

Na sala, sumiram as cortinas as tais que ela levou seis meses a vasculhar lojas (cor de rosa murcho). Das paredes apagaram-se quadros e posters, só restando marcas de pregos e retângulos límpidos por baixo. Na cozinha, as prateleiras estavam vazias: nada dos frascos de especiarias, nenhum daqueles talheres cerâmicos da feira, nem sequer o suporte dos rolos de cozinha só um parafuso nu a espreitar do azulejo.

Trôpego, percorreu as divisões. O quarto, só metade. A mesinha de cabeceira nua, os espaços nos cabides. Até as almofadas dele as que ela escolheu tinham ido. A casa de banho? Deserta. Nada dos champôs dela, nem elásticos presos às torneiras, nem o roupão pendurado. Até o tapete levou.

Sentou-se no chão gelado da sala, olhando a parede vazia. O apartamento estava silencioso, absolutamente vazio. Móveis tinha; mas calor, ternura, aconchego, tudo arrancado pela raiz. Ela anulou sete anos de vida. Transformou o castelo dele num bunker frio.

Lembrou-se daquele último olhar dela. Nem dor, nem súplica. Gelo. Igual ao dele. Ela não ficou congelada na berma. Deu-lhe o espetáculo que ele queria, de vítima indefesa. Só que, enquanto ele afogava mágoas no conhaque, ela apanhou o mesmo táxi e voltou. Ao quartel dele. Com precisão cirúrgica, sem chorar, limpou tudo o que era dela.

Uma pancada de raiva apoderou-se dele, saltou e bateu com o punho na parede. Raios! berrou, mas a casa engoliu o som. Pegou no telemóvel, pronto para lhe ligar e ameaçar, mas lembrou-se: o número dela já estava bloqueado e não sabia o novo. E se ligasse, ia pedir o quê? Devolve-me as cortinas?

Foi até à janela. Lá em baixo, Lisboa estendia-se, indiferente. Ela estaria nalguma parte dali agora: talvez no sofá duma amiga, talvez já a alugar um quarto, paga com o salário de professora. E, provavelmente, lá tinha de novo as cortinas parvas e as violetas dela. Ali, só restava o frio. Não o da rua. O outro esse que se agarrava aos ossos por dentro.

Julgar ser esperto, julgava controlar tudo. Mas não previu que ela saísse como vencedora, levando consigo os troféus e deixando-lhe só solo queimado. Ficou com o apartamento; inteiro, até ao último centímetro. E agora cada centímetro esmagava-o com um vazio polar.

Ficou ali mais um bocado à janela, olhando as janelas pretas refletidas no escuro do vidro. Depois foi à cozinha procurar um copo. Nem isso. Só restava um velho, com Melhor Pai escrito a caneta, roubado do escritório. Bebeu o conhaque da garrafa, sentado no frio, sem cortinas, sem alma, com a certeza que aquela casa era dele. Só dele. Para sempre dele.

E do outro lado da vidraça, lentamente e sem dó, a neve continuava a cair, silenciada sobre Lisboa.

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Marido agride Olívia e atira-a para fora do carro em plena estrada gelada ao saber que o apartamento não seria dividido no divórcio
Скъпи, ще ме закараш ли до вкъщи? – След тежък работен ден Жени се надяваше да избегне четиридесет минутното пътуване с автобус. Мили, можеш ли да ме вземеш от работа? – Лайма се обади на мъжа си с надеждата, че след изтощителния ден няма да се налага да се бута четиридесет минути в градския транспорт. – Зает съм – отвърна накратко Тома, а отзад се чуваше шумът на включения телевизор, значи си беше вкъщи. Жената се разстрои до сълзи. Бракът им беше на ръба, а още преди половин година Тома беше готов на всичко за нея. Какво се беше променило? Лайма не разбираше. Полагаше толкова грижи за външния си вид, прекарваше часове във фитнеса. Готвеше прекрасно – неслучайно работеше в един от най-посещаваните ресторанти в София. Никога не искаше пари, не вдигаше скандали и се стараеше да изпълнява всички желания на съпруга си… – Ще му омръзнеш бързо – поклащаше глава майка ѝ, слушайки оплакванията на Лайма. – Не можеш все да му угаждаш. – Просто го обичам – усмихваше се тъжно тя. – И той ме обича… ***** – В края на краищата явно вече съм му омръзнала – Лайма прехапа устни, докато разглеждаше историята в браузъра. Оказа се, че Томас прекарва цялото си свободно време в сайтове за запознанства и общува с няколко жени едновременно. – Не можеше ли просто да поговори с мен? Щях да разбера, да го пусна. Защо да се измъчваме, живеейки без любов и тормозейки се взаимно? Развод, значи. Нищо, ще го преживее, тя е силна. Но няма да го остави без малко отмъщение… Същата вечер Лайма се регистрира в същия сайт като Томас, намери го и му написа. Снимката взе от интернет, малко я промени и беше сигурна, че той ще се хване. И беше права. Започна бурна кореспонденция. В съобщенията си той твърдеше, че не е женен, готов е за сериозна връзка и деца, хвалеше се с идеалния си характер, което развеселяваше Лайма до сълзи, защото отлично знаеше колко капризен е всъщност. – Да се видим – предложи Лайма и затаи дъх. – С удоволствие – отвърна след секунди Томас. – Но сестра ми живее у нас временно, готви се за изпитите след 12 клас, затова да се срещнем на неутрална територия, после можем да отидем в хотел. – Наистина ли? – подхилкваше се Лайма. – Как си толкова сигурен, че всяко момиче ще се нави веднага за хотел? Но това работи в моя полза. – Ами искаш ли да дойдеш в къщата ми извън града? Живея сама, никой няма да ни безпокои… – Чудеше се дали ще приеме офертата. – Страхотна идея! – Томас наистина се зарадва. Най-вероятно защото нямаше да вади пари за хотел. – Дай ми адреса и часа, ще дойда на крилете на любовта. – Улица *** №25, десет вечерта. Става ли? – Разбира се! Очаквай ме. В девет вечерта Томас се престори, че го викат в спешен ред на работа. Не можейки да открие ключовете от колата, неохотно попита жена си дали не ги е виждала. – Бяха на шкафа в хола – отговори Лайма съвсем невинно, стискайки ключовете в джоба си. – Може би котката ги е взела? Но Лайма нямаше никакво намерение да го чака. За какво? Прекара времето в събиране на багажа си. За щастие разполагаше със собствен апартамент, наследство от баба ѝ. Единственото, което остави за Томас, беше молбата за развод – на най-видното място. Томас се прибра чак сутринта, бесен от яд. Към това, че пътят до там отне над час, се добави и разочарованието, че красавицата от снимките изобщо не живееше на този адрес. Адресът си беше истински, къщата също. Но вратата му отвори жена поне три пъти по-голяма от него, по тялото ѝ едва се държеше полупрозрачен халат и Томас би дал всичките си пари, само и само да забрави видяното. С мъка успя да се измъкне! Отново повика такси, чака колата цяла вечност и дори успя да измръзне навън в сакото си. Освен това шофьорът се оказа странен тип и в началото го закара кой знае къде… Истински кошмар! Едва когато влезе вкъщи и видя на масата документите за развод, разбра кой стои зад цялото това приключение. А до тях, с червило върху салфетка, беше изписано: Този сладък отмъщение…