Há muitos anos, lembro-me de quando Martinho terminou o curso na Universidade de Coimbra e decidiu ser altura de casar-se com o seu primeiro amor do liceu, Leonor. Leonor era uma rapariga simpática, possuía um sorriso doce e uma grande inteligência. Estava então a escrever a tese de mestrado. O jovem casal prometeu um ao outro que se uniriam assim que ela apresentasse o trabalho.
Martinho então foi contar à sua mãe a ideia do casamento, mas a mãe não trouxe notícias agradáveis. Disse-lhe com firmeza que só aceitaria vê-lo casar com Beatriz, a vizinha, ou então com mais ninguém. E pôs-lhe a questão fatal: o que era mais importante, a carreira ou o amor? A mãe sonhava alto, via sempre o filho a conquistar lugares no mundo.
Beatriz vinha de uma família abastada e há muito tempo era apaixonada por Martinho, enquanto este se deixara conquistar pelo coração de Leonor, cuja família era pobre. E a mãe de Leonor, diziam por Lisboa, não era mulher de boa fama O que não diriam as pessoas?
Noras já me chegam, faz o que achares melhor!, ralhou a mãe ao filho.
Martinho tentou durante muito tempo convencer a mãe, mas ela manteve-se irredutível. Chegou a prometer até rogar-lhe uma praga se ousasse casar com Leonor. Martinho sentiu medo. Acabou por continuar o namoro por mais uns seis meses, até que o relacionamento, aos poucos, se foi apagando.
No fim, acabou por casar-se com Beatriz. A rapariga era verdadeiramente apaixonada por ele, mas decidiram não fazer uma festa de casamento Martinho queria evitar que Leonor, por acaso, visse fotografias. Como Beatriz era de família rica, Martinho mudou-se para a enorme casa dos sogros, que também ajudaram a que ele subisse na carreira. Mas a felicidade nunca fez realmente parte daquela casa.
Martinho não desejava ter filhos. Quando Beatriz percebeu que não o conseguia convencer, avançou ela própria com o divórcio. Nessa altura, Martinho já contava quarenta anos e Beatriz trinta e oito. Depois ela voltou a casar, teve um filho e encontrou a felicidade.
Já Martinho sonhou vezes sem conta em reencontrar Leonor, tentou procurá-la, mas sem sucesso era como se tivesse desaparecido do mundo. Só mais tarde soube, por intermédio de um conhecido, que após o fim do romance ela se casara com o primeiro homem que encontrou, mas este revelou-se um canalha e acabou por lhe tirar a vida à pancada.
Depois de saber desta tragédia, Martinho voltou para o velho apartamento dos pais, entregue à solidão e ao vinho, morrendo lentamente. Passava os dias a olhar a fotografia de Leonor, incapaz de perdoar à própria mãeAté que, numa tarde azul de dezembro, enquanto remexia velhas gavetas em busca de qualquer coisa que o distraísse da dor, encontrou um caderno de capa vermelha, desbotada, com o nome de Leonor gravado a caneta. Escrevera-o esquecidamente, era dele mas dentro, não esperava encontrar uma carta dela, nunca antes lida, entre as páginas de Ficção Portuguesa. As mãos tremiam enquanto abria o envelope.
Martinho a vida é feita de escolhas, mas só algumas pedem coragem. Se um dia o futuro te pesar no peito, peço-te que não te esqueças de sorrir ao recordar os dias felizes. Fui muito feliz contigo. Leonor.
Martinho leu e releu aquelas palavras simples, sentindo explodir-lhe um pranto antigo. Nessa noite, demorou-se junto à janela, fitando o luar filtrado sobre Coimbra, finalmente abraçando as memórias que durante anos tentara afogar. E, no silêncio, como quem faz as pazes com a vida, sussurrou baixinho um obrigado à mãe exigente, à Beatriz fiel, à Leonor perdida. Entendeu que, afinal, amar tinha sido o seu lugar no mundo.
Ao longo dos meses, deixou o vinho, começou a passear pelas ruas da universidade, conversando com jovens sonhadores como fora. O tempo, lento mas generoso, devolveu-lhe pequenos prazeres: o cheiro dos livros, os cravos nas janelas, os risos das praças. E, quando partiu, muitos anos depois, deixou em herança um conselho breve, rabiscado numa folha solta: Escolham sempre o vosso amor, mesmo quando o mundo o negar. É aí que mora a verdadeira felicidade.







